Arquitectura residencial, neoclássica. Quinta de recreio, com palácio e jardim, resultante de duas campanhas de obras, respectivamente da segunda metade do séc. 18 e do séc. 19. Com a ocupação posterior, de carácter judicial já no séc. 20, é objecto de uma intervenção profunda para adaptação a estabelecimento tutelar de menores, cuja solução passou pela articulação de estruturas preexistentes, implicando demolição de interiores, com novas construções.
Edifícios construídos na década de 1960, para ampliar e melhorar as instalações do Reformatório Feminino de Lisboa, com integração de estruturas preexistentes dos séculos 18 / 19, como sejam o antigo palácio (fachadas e Salão Nobre), a capela e o jardim. A nova construção, composta por diversos corpos funcionalmente diferenciados mas articulados numa relação de complementaridade, foi determinada pela implantação daquelas estruturas, bem como a reorganização dos espaços no edifício do palácio se ajustou à planta primitiva. O conjunto actual resulta, portanto, das instalações projectadas para o Reformatório, sendo composto por: edifício principal / correspondendo ao volume do antigo Palácio e Capela, localizado no limite N. da propriedade, sensivelmente a meio, e que se desenvolve para O., com a ala S., distendida pela Capela, e no seu enfiamento, por anexos e garagem, a prolongar-se até ao Largo de São Domingos; Pavilhão da Cozinha, articulando o edifício principal com o Pavilhão de Alojamento / Enfermaria, ambos implantados no eixo N. -S. da propriedade e seccionando-a em duas zonas distintas - os terrenos a O., onde se situam o jardim formal, o lago e a cascata, coevos do Palácio, e os antigos terrenos de cultura a E., com áreas sucessivamente reduzidas pela construção da linha-férrea e abertura da Avenida de Ceuta, depois Radial de Benfica; Ginásio-Salão de Festas, em corpo próprio, articulado através de galeria com o Pavilhão de Alojamento e que se desenvolve segundo o eixo N.-S., na zona nascente da propriedade. Dois portões, rasgados nos muros S. e E., possibilitam acesso a esta área. EDIFÍCIO PRINCIPAL - Destinado aos serviços administrativos da instituição, aos espaços comuns a todas as menores para a sua educação escolar e profissional e ao alojamento de duas secções de crianças e adolescentes, o projecto de reconversão deste edifício atendia a diversas valências, distribuídas, no essencial, por alas e pisos. De planta em "U", assimétrico, com número diferenciável de pisos resultante do desnível do terreno e das condicionantes impostas à ampliação pela conservação das fachadas (dois na ala S., três na ala N. e quatro na ala E.), mostra alçados de composições distintas e volumetria horizontal, de disposição longitudinal (ala S.), combinada com massas mais compactas, de tendência verticalizante (ala voltada a E.). As coberturas, diferenciadas, são efectuadas em telhados de 3 e 4 águas, assomando no conjunto o volume de uma pequena cúpula, elevada sobre tambor vazado por lumes rectangulares. O edifício, que tem a fachada principal orientada a O., organiza-se em torno de pátio calcetado com ligeira pendente, apresentando fachadas de idêntica composição: pavimento térreo (2.º piso na planta geral) - cujas áreas são reservadas a salas de aula (ala N.), vestíbulo (ala O.) e serviços administrativos (ala S.) - assinalado por colunata contínua, combinando colunas singulares ou agrupadas em pares, de base quadrangular e com capitel, com os vãos preenchidos por caixilharias de madeira; pisos superiores (3.º e 4.º) - zona das camaratas, quartos e salas de estar - demarcados por frisos salientes e rasgados por janelas rectangulares ao ritmo imposto pela colunata, com o segundo pavimento (3.º piso na planta geral) dividido em panos por pilastras. A fachada voltada a S., fronteira ao jardim, integra alçado da ampliação realizada no séc. 19, composto por paramento recuado face aos corpos laterais mais avançados, que na planta primitiva correspondiam a espaços de circulação (pequeno vestíbulo e vão de escada), um contíguo à capela (a O.) e outro integrado no volume do Salão Nobre (a E.). Composição simétrica, de inspiração semelhante à dos alçados voltados ao pátio, mas com diversificação de elementos decorativos: paramento recuado com corpo central dividido em cinco panos - por colunas no piso térreo e pilastras no superior -, tendo a eixo sacada com vão em arco de volta inteira ornamentado por frontão; coroamento superior realizado através de amplo frontão triangular, aduzido de pináculos nos vértices; os panos laterais, muitos mais estreitos, são rasgados por duas portas, precedidas de degraus, e encimadas por janelas. O corpo do Salão Nobre, assinalado do exterior pela presença da cúpula, é constituído por um vão único, provido de iluminação zenital na cobertura, e situa-se na quebra de nível do terreno, assentando por isso sobre o piso inferior da ala E. A sua fachada é de pano único, rasgada por duas ordens de vãos - 2 janelas na parte superior e 2 portas junto ao piso -, apresentando face boleada no topo E. devido à planta octogonal da sala. O ângulo oposto é recto, dado equivaler ao antigo vão de escada (anulado posteriormente), com acesso directo ao jardim. Como elemento unificador da fachada S. do Palácio, registe-se a presença do friso contínuo e da platibanda rendilhada que a percorre, apenas interrompidos pelo frontão. As fachadas E. e N. do edifício principal, respectivamente de 4 e 3 pisos, resultaram das alterações mais profundas das obras do século 20, em particular na ala E. - maioritariamente ocupada pelos refeitórios, oficinas e quartos, e onde foram introduzidos os espaços de circulação, sobretudo verticais -, e que implicou a quase total demolição do interior, bem como acrescento de um piso. A composição da fachada E., que agrega o corpo saliente do Salão Nobre, denota preocupações de simetrismo, bem como de equilíbrio volumétrico, pela relação que mantém com o Pavilhão de Alojamento, construído de raiz. De pano único, tem embasamento de pedra, é rasgado por janelas rectangulares a ritmo regular e apresenta, numa linha de continuidade com o remate do Salão Nobre, friso separador entre o 3.º e 4.º pisos. INTERIOR - Os espaços que orientam a circulação dentro do edifício, assegurando comunicação horizontal, entre as diferentes alas, e vertical, entre todos os pisos, localizam-se na ala E., a de maior área: franqueada a entrada principal (voltada ao pátio e ao nível do 2.º piso), entra-se no amplo vestíbulo a partir do qual se acede às alas N. e S., ao jardim exterior, ao Salão Nobre, aos corredores de ligação às dependências da fachada E. e às duas escadas de acesso aos pisos inferior e superior, intercaladas por saguão. A compartimentação caracteriza-se nos dois primeiros pisos por salas amplas, correspondentes, no projecto que guiou a remodelação do internato, aos 3 refeitórios (1.º piso, ala E.), às 4 dependências para aprendizagem profissional (2.º piso, ala E.), às 3 salas de aula (2.º piso, ala N.) e aos compartimentos, de dimensão menor, reservados à secretaria, contabilidade e direcção (2.º piso, ala S.). Destaque-se ainda o Salão Nobre, de planta octogonal, integrando profusa ornamentação estucada em alternância cromática com a restante superfície murária. Para os pisos superiores remeteu-se o alojamento das menores que, segundo o programa, deveria albergar duas secções, com duas famílias cada, sendo o critério de separação e independência entre elas a orientação fundamental: a presença de duas escadas explica a necessidade de acesso diferenciado às secções das crianças (3.º e 4.º pisos, ala N.) e das adolescentes (3.º piso, alas S. e E., e 4.º piso, ala E.). A independência garantia-se ainda por instalações próprias a cada secção e família, dispondo cada uma delas de espaços de dormir (quartos e camaratas), quarto para a vigilante, salas de estar, instalações sanitárias e rouparia. Assim, na ala N. instalaram-se as camaratas, nas alas S. e E. os quartos, voltados, respectivamente, ao jardim e aos terrenos a nascente, enquanto que para as salas de estar, também na ala E., se reservaram os compartimentos virados ao pátio de entrada. As instalações sanitárias e a rouparia ficaram nas zonas mais interiores ou menos iluminadas: próximas às escadas, beneficiando das aberturas para o saguão; junto à fachada N., com troço de paramento rasgado por pequenas aberturas. PAVILHÃO DA COZINHA - Articula, ao nível do primeiro piso (uma cave parcial), o edifício principal com o Pavilhão de Alojamento, estendo-se ainda para uma área já localizada neste último Pavilhão. Tem planta rectangular, em um só piso, e cobertura plana. Implantação a aproveitar desnível do terreno, dispondo apenas de fachada voltada a E. e avançada em relação aos edifícios contíguos: pano único, rebocado e pintado, enquadrado por embasamento e platibanda; é rasgado por sucessivos e pequenos vãos quadrangulares, agrupados em coincidência com a compartimentação interna. INTERIOR - Corredor longitudinal a O., permitindo a circulação entre a zona dos refeitórios, situada no edifício principal, e as escadas de acesso às dependências do Pavilhão de Alojamento. Projectada para servir uma população máxima de 100 menores, dispunha de compartimentação e equipamento adaptados às várias fases de conservação, armazenamento, preparação e confecção dos alimentos, incluindo espaço para aprendizagem de culinária, refeitório e lavabos para o pessoal. PAVILHÃO DE ALOJAMENTO / ENFERMARIA - Planta rectangular, em 4 pisos, desenvolvida segundo o eixo N.-S., com coberturas escalonadas, em terraço e em telhado de 4 águas. Fachada principal voltada a O., para o jardim, sendo a que, junto com a lateral N., conta com apenas 3 pisos. Pano único, rebocado e pintado, com embasamento de cantaria, fenestração coincidente com a compartimentação interna (janelas rectangulares, para os quartos e pequenos vãos contínuos envolvidos por moldura única de cantaria, para as instalações sanitárias) e diferenciação funcional entre pisos (alojamento e enfermaria) assinalada por friso saliente e terraço a S. (3.º piso). O troço de paramento cego corresponde ao vão das escadas e parte das salas de estar. O terraço N. cobre estas salas, configurando um volume similar ao corpo saliente do Salão Nobre do antigo Palácio. As preocupações de simetria evidenciam-se, ainda, na utilização de uma platibanda rendilhada, idêntica à do Palácio, para guarda do terraço. A fachada posterior, a E., mantém as mesmas características, com a fenestração a identificar os diferentes espaços: contínua, em faixa estreita, no piso térreo; tripartida, na zona das salas de estar; vão único, a ritmo regular, para os quartos. INTERIOR - Projectado para alojamento da 3.ª secção (jovens), dividida em duas famílias, albergava ainda a enfermaria do internato, remetida pelas condições de isolamento para o 4.º piso, bem como espaços logísticos (1º piso), utilizados também para formação das menores, como é o caso da lavandaria. A organização interna dos espaços nos 3.º e 4.º pisos realiza-se a partir de um corredor longitudinal, a partir de qual se distribuem, para ambos os lados, os quartos das menores, todos com a mesma área (16 a E. e 9 a O.), além de mais dois compartimentos destinados a rouparia e quarto da vigilante; as instalações sanitárias localizam-se sensivelmente ao centro, voltadas a O. e ocupando uma área equivalente a 4 quartos; no topo N. situa-se a escada e a sala de estar. Semelhante distribuição verifica-se também na enfermaria, embora adaptada aos espaços funcionais próprios desta zona de cuidados de saúde, incluindo: enfermaria com várias camas; quartos; gabinete médico; sala para tratamentos; quarto da enfermeira; pequeno refeitório, copa e sala de estar. Este piso tem uma área mais reduzida devido à existência dos terraços. ANEXOS - Tratam-se de duas construções, em dois pisos, intercaladas por uma garagem que, levantadas no enfiamento da ala S. e da Capela, desenham o ângulo NO. da propriedade junto à via pública e já fora do perímetro do pátio protegido pelo portal.
Materiais
Alvenaria mista, reboco pintado, cantaria de calcário, mármore, ferro forjado, estuque pintado, madeira pintada e dourada, betão armado, alvenaria de tijolo, reboco pintado, cantaria de calcário.
Observações
O Decreto de 20 de Julho de 1912, do Ministério da Justiça, nos termos do definido nos decretos de 31 de Dezembro de 1910 e de 6 de Abril de 1911, e considerando o parecer da Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas, determina que seja cedido o edifício de São José, em São Domingos de Benfica, à Escola Central de Reforma, para aí instalar uma secção da mesma escola. A cedência é feita a título precário e não compreende qualquer mobiliário ou recheio do edifício.