Edifício residencial multifamiliar e comercial, da década de 1950 para habitação multifamiliar em altura e no regime de arrendamento comercial, sem intervenção estatal. Edifício inserido em frente contínua de rua, com duas empenas adossadas a outros imóveis e fachada posterior sobre logradouro, em quarteirão pré-existente. Comunicações verticais e horizontais centralizadas em escada colectiva e núcleo de ascensores, formando conjunto com corredor de serviço. Fogos em sistema de esquerdo-direito, de configuração assimétrica em planta. Tipologias habitacionais de média dimensão (2 e 3 quartos), complementadas com compartimento de utilização aberta (escritório / quarto de hóspedes / de costura / de dormir) e em que é destinada à sala uma área equivalente à de outros compartimentos (sala não-diferenciada dimensionalmente). Planta densamente compartimentada, com áreas de circulação privativa (vestíbulos e corredores) de grande desenvolvimento. Áreas de serviço em compartimentos concatenados, sendo a circulação para os quartos e instalações sanitárias de serviço efectuada através das cozinhas (quartos de serviço de utilização unívoca). Linguagem arquitectónica característica do Movimento Moderno do segundo pós-guerra, particularmente notória no desenho dos alçados, entendidos enquanto elementos fundamentais do trabalho arquitectónico pelo papel desempenhado na mediação entre as condicionantes e necessidades de interior e exterior, e ilustrativos da preocupação em garantir, acima de tudo, o conforto e a qualidade do ambiente doméstico. Utilização intensiva do motivo estrutural (pilares, vigas, lajes) como mais-valia plástica na composição formal, ultrapassando a sua estrita função estática. Recurso a diferentes materiais, cores e texturas, bem como às diferenças de planos e superfícies (recuos, avanços, paralelismos e perpendicularidades), para o enriquecimento da mesma composição.
Edifício de volumetria complexa, implantado em lote de contorno triangular (27m de frente a NE., 37,5m de fundo confinante com empena do edifício adjacente, hipotenusa voltada a S. e confrontante com três parcelas diversas). Volume com 7 pisos acima do nível da rua e 9 pisos acima do nível do logradouro (na extremidade SO. do triângulo), composto por duas partes, distintas pelo contorno e cobertura: uma parte maior, poliedro com 3 faces paralelas ao plano marginal (fachada sobre a rua, fachada sobre o logradouro e fachada intermédia), 3 faces perpendiculares àquele plano (duas empenas e fachada intermédia) e a sétima face, inscrita na hipotenusa do triângulo, sendo ainda vazado por saguão situado a meio da extensão, em planta, da empena NO.; e uma parte menor, paralelepípedo saliente adossado ao poliedro maior, chanfrado no vértice S. pela hipotenusa do triângulo e prolongado, sobre a fachada posterior daquele poliedro, pelo conjunto de 8 terraços / varandas sobrepostos que constituem, de facto, a fachada sobre o logradouro. A primeira destas partes, ocupada com a porção mais significativa do programa funcional do edifício, tem cobertura de duas águas em fibrocimento (sobre laje de betão), com pendente para uma caleira central disposta em paralelo ao plano marginal (cobertura "em borboleta"), interrompida, aproximadamente ao centro, pelo volume sobrelevado da casa das máquinas do ascensor e do monta-cargas. A segunda parte do volume total, alojando a caixa de escadas do edifício, áreas de serviço dos fogos esquerdos e o já referido conjunto de terraços, pertencentes aos mesmos fogos, tem cobertura em terraço. A fachada anterior, sobre a rua, é composta em função da malha resultante do cruzamento de 6 módulos horizontais idênticos (correspondentes à repetição do vão definido para a estrutura neste plano, de 3,875m, e limitados por pilares forrados a mármore negro) com 7 pisos sobrepostos, dos quais os pisos 0 e 1 são formalmente diferenciados e os superiores a estes (2 a 6) são idênticos, apenas variando a posição dos elementos de preenchimento do plano exterior das varandas. Especificamente, o piso térreo apresenta as 5 montras dos 5 estabelecimentos comerciais existentes, de formalização e constituição material muito diversas e de diferente altura livre (decorrente da inclinação do trainel), bem como o vão contendo os acessos principal e de serviço ao edifício, separados por parede cujo topo é complanar com as portas (caixilharia de alumínio anodizado natural de uma folha no acesso de serviço e de duas folhas, com lateral fixa, no acesso principal, com bandeira fixa em ambos os casos). No primeiro andar, as montras e portas são substituídas, no preenchimento dos intervalos dos pilares, por panos de parede forrados a azulejo de padrão geométrico, em aproximadamente 2/3 da largura, e por vãos de sacada de caixilharia variada em alumínio termolacado branco e madeira com folhas de abrir e correr, uniformizados por ombreiras em cantaria. E se os dois primeiros vãos do lado direito da fachada são providos de varandim com guarda em quadro metálico e vidro aramado, os restantes 4 dão acesso a uma varanda em cimento armado que se distingue das restantes do mesmo alçado pela profundidade e forma: neste elemento, a consola é menos pronunciada, o topo da laje respectiva apresenta uma dobra em relação ao plano daquela (cuja face inferior é pintada de rosa escuro), e a guarda é composta por uma lâmina oblíqua opaca (pintada de verde esmeralda) constituindo a frente, desligada da laje e apoiada nesta por prumos, e por dois quadros trapezoidais em barras de cimento e vidro aramado, constituindo as laterais. Os cinco andares superiores são, na fachada sobre a rua, inteiramente ocupados por um conjunto de varandas sobrepostas formando "estante", isto é, por varandas corridas cuja extensão coincide com a largura integral do alçado, ligadas verticalmente por prumos colocados sobre os alinhamentos dos pilares que, por sua vez, têm correspondência directa na compartimentação interior. Tais prumos são, nos extremos laterais, complementados pelos topos das empenas, cujo avanço equivale ao recuo de todo o plano de fachada em relação ao plano marginal da rua, artifício que resulta no aumento da profundidade das varandas sem recurso ao incremento na projecção horizontal da consola. Varandas e prumos, aquelas em betão armado, estes elementos pré-fabricados em cimento armado, formam uma quadrícula rectangular, que era primitivamente preenchida, no seu plano exterior, por guardas de quadros em barras de cimento e vidro aramado, em 2/3 da largura, e dois tipos de elementos ocupando o terço restante, colocados alternadamente: pranchas horizontais em cimento, colocadas ao cutelo formando guarda; e painéis em barras e prumos de cimento e rede metálica, na altura compreendida entre duas floreiras em fibrocimento semi-suspensas da varanda e uma barra coincidente com a verga dos vãos de sacada que pontuam todo o alçado. Estes vãos seguem a métrica e constituição descritas para o primeiro andar, configurando faixas verticais de fenestração apenas interrompida pelas varandas; assim, entre vãos e painéis de rede metálica desenvolve-se um jogo de coincidência e não-coincidência característico desta fachada, muito deturpado, contudo, pelo fechamento, casual e desregrado, das varandas com caixilharias de alumínio e vidro com acabamentos, cores e geometrias diversas. As fachadas posteriores conservam, por seu lado, um perfil mais próximo do primitivo, se exceptuarmos o fechamento, em marquise, dos generosos "terraços" (varandas com quase 2,50m de profundidade) com que o projecto inicial dotou os fogos do lado esquerdo. Com efeito, os 7 planos distintos em que se decompõe a face posterior do edifício são, graças também à manutenção da diferenciação cromática, unificados pelo principal motivo compositivo escolhido para esta face: a marcação vincada da estrutura nas suas linhas verticais e horizontais (pilares e lajes), saliente relativamente aos panos de alvenaria que preenchem a malha estrutural, pintada com cor diferente e enriquecida com o pormenor das linhas de limite superior e inferior das lajes, gravadas no reboco quando cruzadas com os pilares. Este tratamento percorre os 7 planos, interliga-os num conjunto reconhecível e minimiza o efeito prejudicial da abertura de vãos necessária em cada um deles, com diferentes formatos e posições, tanto no sentido horizontal quanto vertical (caso dos vãos da caixa de escadas, que acompanham os patamares e patins daquela), introduzindo deste modo a regra numa composição difícil e potencialmente aleatória. Pormenores importantes são, igualmente, a utilização do tema da distinção cromática e em relevo da estrutura, na marcação das superfícies em que os volumes paralelipipédicos posteriores são intersectados pelo plano da hipotenusa do triângulo do terreno, e o aproveitamento deste mesmo tema para, pelo seu não emprego, distinguir a empena SE. das fachadas posteriores. Numa situação em que, pela sua exposição ao arruamento e à cidade envolvente e pela configuração do imóvel, empena e fachadas se confundem, o tratamento daquela como um plano liso e neutro acentua a identidade destas, compostas segundo regras e artifícios próprios. A descrição da configuração INTERIOR dos diversos pisos refere-se ao estado da obra acabada de construir, baseando-se na análise do projecto de Telas Finais, por ser impossível o conhecimento e registo de todas as inúmeras alterações interiores, entretanto introduzidas pelos habitantes nos 50 anos de utilização do imóvel. A distribuição do programa pelos pisos não terá, contudo, sofrido alterações, pelo que este será referido em pormenor, e a compartimentação apenas descrita nos seus traços gerais. Os dois pisos abaixo do nível da rua dividem-se em duas faixas: uma totalmente interior, com 18 arrecadações em subcave, pertencentes aos fogos, e 5 armazéns em cave, pertencentes às lojas e a estas ligados por escadas privativas, sem qualquer comunicação com as zonas de habitação; e uma aberta apenas sobre o logradouro, com dois fogos por piso, sendo o direito um T1, com sala comum e cozinha aberta sobre a sala, e o esquerdo um T2 (um dos quartos foi concebido para criada, acessível apenas pela cozinha). Dois fogos idênticos a estes ocupam ainda a faixa posterior do piso térreo, no qual a face sobre a rua é dedicada às 5 lojas e vestíbulos principal e de serviço do imóvel. O conjunto de acessos é constituído por um átrio em duas plataformas, com 3 degraus a separá-las, paredes e pavimento revestidos a pedra e tectos em estafe formando rebaixo; e pelo vestíbulo de serviço, que se diferencia pela qualidade dos acabamentos (pedra corrente em pavimento, paredes estucadas) mas repete os mesmos degraus e plataformas e alberga, numa das paredes, a estrutura de 18 caixas de correio. Os dois espaços comunicam entre si (por vão, inicialmente inexistente e obtido pelo avanço das portas até ao plano das montras) e com o corredor de acesso às escadas de emergência e serviço, localizadas na extremidade posterior do edifício. A porta de acesso a tal corredor, de madeira com 2 folhas de abrir, partilha a parede de fundo do átrio principal com a porta do ascensor, existente apenas entre os pisos 0 e 6; o monta-cargas, por sua vez, colocado imediatamente atrás do ascensor e com este dividindo a caixa, percorre inteiramente o edifício, a partir da subcave. O sistema de comunicações verticais assenta, pois, em 3 elementos distintos - ascensor e respectivo vestíbulo para acesso principal às habitações, monta-cargas e corredor de serviço (separado do primeiro por porta) com ligação às áreas de serviço das casas, e escada - que configuram a coluna vertebral do imóvel, lâmina estreita no centro e alargada nos topos que o divide nas partes esquerda e direita. Assim se separam os fogos esquerdos (2 quartos, escritório, sala, instalação sanitária e lavabo autónomo, cozinha, copa, quarto e instalação sanitária de serviço) dos fogos direitos (3 quartos, escritório, sala, cozinha, quarto e instalação sanitária de serviço), que se repetem em cada um dos 6 pisos superiores. No interior do intrincado contorno da planta-tipo, a compartimentação obedece ao princípio genérico de dispor os quartos e escritórios sobre a fachada de rua, orientados a NE., e as salas e zonas de serviço sobre as fachadas posteriores, sendo as primeiras orientadas a SE. (fogos direitos) e a SO. (fogos esquerdos). Os dois lados de cada andar são, contudo, completamente diversos: no fogo direito, os quartos e instalações sanitárias são servidos por um corredor privativo, acessível desde o vestíbulo de entrada, o qual comunica também com o escritório, a sala e o corredor de serviço, onde se localiza a porta de serviço e o acesso à cozinha e, através desta, ao quarto e sanitário de serviço; o fogo esquerdo, de área superior, centra-se num vestíbulo não-diferenciado funcionalmente, do qual se acede ao escritório, aos quartos, à instalação sanitária, à copa e a um corredor com 2 portas para a sala comum e um lavabo ao fundo. É através da copa, de área significativa, que se acede à cozinha e, por esta, aos aposentos de serviço. A sala comum deste fogo é, como atrás se refere, dotada de um terraço, actualmente encerrado por caixilharia de alumínio e vidro; o quarto maior desta tipologia, por sua vez, é aberto ao exterior não apenas pelo vão de sacada sobre a varanda e rua, mas também por um segundo vão, de peito, sobre o saguão deixado na empena NO..
Materiais
Betão armado, tijolo cerâmico, fibrocimento, pedra, azulejo, madeira, alumínio, ferro, vidro
Observações
*1 - a parcela de terreno primitiva encontra-se incluída na Zona Especial de Proteção da Basílica da Estrela (v. PT031106170006), embora o edifício esteja implantado fora da linha de demarcação da mesma zona.