Componente urbano. Quarteirão fechado. Arquitectura civil residencial do Estado Novo: conjunto de 9 edifícios projectado para um quarteirão das Avenidas Novas segundo um programa camário de construção habitacional de rendas acessíveis para as classes médias. Dentro da arquitectura que reconhecemos como pertença do gosto oficialmente definido pelo Estado Novo, em oposição ao modernismo e em nome de uma arquitectura nacional, estes edifícios resultam de um compromisso arquitectónico, estético e até económico, onde se conjuga uma concepção urbana, e neste sentido moderna, do espaço edificado e habitado com uma decoração inspirada em elementos rústicos e históricos. Atenda-se, por exemplo, ao beiral saliente dos corpos mais altos, ao alpendre sobre o terraço, ao revestimento em tijolo das chaminés, às floreiras sob as janelas, à grelhagem das varandas, ao desenho torneado das gárgulas e biqueiras ou às guardas de ferro.
QUARTEIRÃO - Conjunto de 9 edifícios projectados segundo três modelos diferenciados: um para os prédios de gaveto (2); outro para os edifícios geminados (2+2+2)), cujo eixo marca o centro das respectivas frentes urbanas; e por fim, um desenhado para o edifício de gaveto com a R. Eiffel, distinto devido às limitações criadas pelo traçado oblíquo do terreno a S., e pelas contruções preexistentes na frente E.. Numa apreciação global ao projecto de urbanização, observe-se ser a simetria da sua concepção contrariada por aquele traçado irregular, que flecte de O. para E., traduzido essencialmente no desenho e áreas diferenciados dos logradouros privados e na planta do espaço público interior, aliás idêntica à do quarteirão. Anote-se também a unidade do conjunto, para a qual concorre a uniformização compositiva dos distintos corpos, embora a percepção que daquele se tenha da rua ou do interior do quarteirão seja diferente: nas frentes urbanas (três), desoprimidas, domina a disposição horizontal dos volumes, enquanto na zona posterior se afirmam as massas verticais e compactas. Este efeito decorre da decomposição volumétrica criada pela articulação entre os corpos centrais posteriores, recuados e comuns a dois edifícios, e os mais avançados e baixos, contínuos e relativos a 4 prédios (incluindo aqui os de gaveto). Semelhante solução origina abatimento da cércea na frente urbana e criação de um espaço reentrante em forma de "U", ajardinado e separado da rua por um muro gradeado, enquanto a tardoz afirmam-se as fachadas altas, dominantes, quase ocultando os logradouros formados pelo desencontro dos corpos posteriores e avançados. As entradas lateralizadas, pouco evidenciadas, e abertas mesmo no alçado interior no caso dos prédios geminados, a fenestração simétrica, com módulos de sacadas, e as coberturas acordadas à disposição dos corpos e não ao lote considerado como uma unidade, parecem contrariar a pluralidade intrínseca ao conjunto. Esta no entanto é relevada por alguns pormenores, como sejam: a cor utilizada nas fachadas, alternando entre o rosa e o branco; os separadores das sacadas comuns, de desenho volutado, em cantaria e pouco discretos; o muro divisório da zona ajardinada da frontaria; e o par de esculturas ornamentais (figura de mulher em tamanho natural), apostas na frontaria dos edifícios geminados, lado a lado, ao centro e ao nível do 2º piso. EDIFÍCIOS GEMINADOS - Reagrupamento de dois corpos, um de planta em "L", unido a outro de planta rectangular. O primeiro, mais alto, dispõe de sete pisos, encontra-se recuado, e apresenta cobertura em telhado de duas e três águas; o de planta rectangular, mais baixo, avança até ao alinhamento da rua, estrutura-se em cinco pisos e tem cobertura em terraço, além do alpendre na parte onde se unem os dois corpos. Os pavimentos são desencontrados e o andar térreo do corpo mais alto está a um nível inferior do primeiro piso do corpo avançado. Estes edifícios têm cada um e no total 23 fogos, 4 por piso (com excepção do primeiro e últimos pisos do corpo recuado), 12 de seis divisões e 11 de três divisões, além da casa da porteira e de um estúdio no r/c, e de um outro estúdio no último piso. Quanto à organização interna do espaço, os fogos dividem-se igualmente pelos dois corpos (6+3 assoalhadas em cada um): os de maior área desenvolvem-se ao longo de um corredor longitudinal e abrem-se para as fachadas principal e posterior; nos de menor área as divisões agrupam-se em "L", maioritariamente constituintes dos alçados laterais virados ao logradouro ou à zona ajardinada da frontaria. A escada localiza-se na união dos dois corpos, dispõe de dois acessos, traçados nas fachadas laterais, além da saída para o terraço. A fenestração, apesar de não fugir às linhas rectas, diferencia-se em função do espaço interior: nas fachadas principal e posterior, um par de janelas, distinto na dimensão e molduramento, para os quartos e casas de banho, enquanto a sala comum se abre para uma varanda com grelhagens em cantaria e os panos entre os vãos do escritório recebem uma mísula decorativa em pedra; nos alçados distingue-se em particular a fenestração gradeada a ferro da escada. EDIFÍCIO DE GAVETO (R. Eiffel) - Planta adaptada à forma quadrangular do lote para um edifício adossado, de corpo único, com cinco pisos e dispondo a tardoz de exíguo logradouro. Tem cobertura em telhado. Conta com 10 fogos, 9 de três divisões e um apartamento com duas. As fachadas voltam-se à Av. Visconde Valmor e R. Eiffel, estando a entrada no prédio localizada nesta última. Os vão abertos no alinhamento da porta, descentrada, correspondem às janelas da escada, constituindo o único elemento de diferenciação das duas frentes, em tudo mais iguais: soco de cantaria, fenestração simples (3 vãos) das habitações, limitada a dois terços do pano único da fachada, seguida por parede cega ou pela fenestração da escada.
Materiais
Alvenarias de calcário, hidraúlica e de tijolo furado e maciço (paredes); massame de betão, betão armado e vigamento de pinho (pavimentos); telha, madeira de pinho e betão armado (coberturas); grés vidrado (canalizações); pedra (socos, molduras, capeamentos, grelhagens das sacadas); ferro (grades); madeira (caixilharia e portas); tijolo de revestimento (chaminés).
Observações
* Estes processos não foram consultados por se encontrarem requisitados por outro serviço da Câmara. Aguarda-se que fiquem disponíveis para posterior consulta. ** O processo só contém documentação até 1976.