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Igreja da Cartuxa

Igreja da Cartuxa

O ponto de interesse Igreja da Cartuxa encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Malagueira e Horta das Figueiras no municipio de Évora e no distrito de Évora.

Arquitectura religiosa, renascentista, maneirista, barroca. Planta caracterizada pela compartimentação funcional dos espaços, típica de outros conventos cartuxos da época, e pela regularidade e simetria axial e ortogonal. Contraste entre a riqueza da frontaria e do interior da igreja com o acentuado despojamento das outras dependências claustrais. Retábulo da sacristia maneirista de tipo edícula, de devoção a um único tema, exemplar da nova tipologia surgida nestes anos, provavelmente contemporâneo de um retábulo de semelhantes tendências maneiristas na Cartuxa de Miraflores, perto de Burgos, que data de 1586 ( LAMEIRA, 1999 ). Retábulo da capela-mor barroco de transição do estilo nacional para o joanino e retábulos colaterais barrocos, estilo joanino, mas com pormenores decorativos preanunciando o rococó ( LAMEIRA, 1999 ). O abastecimento de água potável através de dois sistemas independentes é comum a outras casa cartuxas bem como a distribuição da água às celas através de ramais independentes derivados de conduta principal ( que apresenta grandes paralelismos com a rede de adução de água da Cartuxa de Montalegre na Catalunha), e a canalização de esgotos ladeando exteriomente a cerca com latrinas adossadas à mesma ( MASCARENHAS E JORGE, 1999 ). É um dos poucos conventos a nível nacional a manter a função original, o único da ordem Cartuxa masculina existente em Portugal, e o único cujo sistema de abastecimento de água potável recorre a captação num aqueduto, o Aqueduto da Prata (v. PT040705210026), público de abastecimento urbano (MASCARENHAS e JORGE, 1999). Destaque para o desenho erudito da frontaria, ao nível do 1º registo, segundo Miguel Soromenho "único exemplar de motivo triunfal em Portugal, pelo menos na época em questão" (SOROMENHO, 1999). O claustro de grandes dimensões, 100x100m, é o maior da Europa.

Planta longitudinal orientada, regular, composta, por portaria, igreja, claustros e demais dependências conventuais inscritas num rectângulo com disposição SO. / NE. e envolvidas por cerca; volumes articulados, massas dispostas na vertical, cobertura diferenciada em telhados de 2 águas para a igreja e dependências conventuais, em terraço nos claustros. Fachada principal de 3 registos: o inferior constituído por exonártex de cinco tramos de arcaria plena, corrido na cimalha por baixa balaustrada sobre friso de triglifos; a rematar cada um dos fortes pilares de alvenaria, de suporte das arcadas, colunas da ordem dórica romana, que no vão central formam par, sendo o espaço entre ambas preenchido por dois nichos soprepostos; as colunas assentam em altos plintos paralelepipédicos; acesso por escadaria central e duas laterais; 2º registo, mais estreito, de 3 panos definidos por colunas jónicas, com disposição idêntica à do registo inferior, e nos vãos janelões de caixilhos; remate em arquitrave bem marcada de molduras profundas; 3º registo mais estreito, de 3 panos e amparado às ilhargas de volutas, com par de duplas colunas geminadas da ordem coríntia; remate em frontão coroado de pináculos e cruz no vértice. Fachadas laterais tendo adossados os dois claustros menores de arcaria plena e registo único. Alçado da cabeceira abrindo para o claustro grande, de arcadas plenas e remate em terraço, para o qual dão as celas dos frades; ao centro da quadra tanque. Outras dependências conventuais distribuem-se a partir do claustro menor à esquerda da igreja. Todo o conjunto é fechado por cerca murada. INTERIOR: nártex coberto por cinco cruzarias de ogiva descarregando em mísulas; pórtico, com entablamento assente em sobreposição de pilastras da ordem jónica. Igreja de nave única, com cobertura em abóbada de berço, dividida em 2 tramos, definidos por parede, rasgada de vão central de moldura recta arquitravada coroada de volutas laterais invertidas, enquadrando nicho central ladeado de pilastras, diferenciado o espaço reservado para os irmãos leigos, no 1º tramo, e para o frades, no 2º tramo: no 1º tramo cadeiral de madeira de castanho e carvalho, com 12 assentos por banda, antecedidos por ambões e munidos de espaldares elevados com entablamento e ático relevado de cartelas ladeadas por putti em relevo; os assentos são delimitados por pilastras decoradas com folhas de acanto e rematadas por fogaréus; altares colaterais em talha dourada, gémeos, de planta plana e pano único delimitado por colunas pseudosalomónicas, com nicho central com imagem do respectivo orago, Santo António e Santa Bárbara; inferiormente banco com 2 mísulas e ático rematado por dossel curvilíneo. No 2º tramo da nave, cadeiral idêntico ao anterior mas de 24 assentos por banda. Os dois tramos da nave são preenchidos superiormente por grandes painéis de madeira com molduras de talha. Arco triunfal de volta perfeita e ombreiras apilastradas. Capela-mor pouco profunda com retábulo-mor de talha dourada e polícroma; é de planta concâva e tramo único definido por 2 pares de colunas pseudosalomónicas e por 1 par de pilastras; assenta em pedestal de mármores coloridos embutidos; tribuna e trono piramidais com imponente sacrário, de planta convexa de dois corpos, ocupando o banco e a banqueta da mesa de altar, o 1º delimitado por 3 pares de colunas; 2 imagens ladeiam a sua parte superior; àtico com duas arquivoltas, com raios, e edícula delimitada por 2 pares de colunas em perspectiva concâva e com a imagem do orago. Na Sacristia retábulo de planta plana e tramo único delimitado por pilastras jónicas escavadas com nichos com imagens de vulto; possui sotobanco, banco, edícula adaptada a sacrário e remate em ático de entablamento dórico; ao centro painel pintado figurando Jerusalém e a imagem escultórica de Cristo na Cruz; na sacristia encontra-se restos do cadeiral proveniente da Sala do Capítulo e aqui adaptado a novas funções.

Materiais

Alvenaria de pedra e alvenaria mista, cantaria de granito, mármore de Estremoz em elementos secundários, colunatas da frontaria e esculturas, xisto, tijoleira, talha, azulejo.

Observações

*1 -alguns autores atribuem a planta da Igreja aos arquitectos Filipe Terzi e a Giovanni Vincenzo Casale; outros, por falta de fontes documentais, pelo facto da fachada ser "nitidamente inspirada na gravura do Libro extraordinário delle porte de Sebastião Sérlio, publicado no ano de 1537", e dada a discrepância entre o projecto aprovado e o efectivamente realizado, preferem deixar em aberto a autoria da planta; as várias referências documentais, entre 1587-1596, a Nicolau de Frias levam Vítor Serrão a crer que "ele deva ter tido um decisivo papel no acabamento da construção cartuxa, seguindo, ou adaptando mesmo às ciscunstâncias no terreno, as plantas de Casale" ( SERRÃO, 1999 ); por seu turno Miguel Soromenho considera mais verosímil o envolvimento de Jerónimo Torres, mestre das obras de pedraria do Arcebispado, enquanto responsável quer pela gestão executiva da obra quer, provavelmente, pelas alterações introduzidas ( SOROMENHO, 1999 ); *2 - o conjunto terá sido obra provável, segundo Vitor Serrão, do pintor Fernão Gomes e dele resta um desenho na Biblioteca Pública de Évora ( SERRÃO, 1999 ); *3 - "a traça quadrangular do chamado Claustro das Capelas, na banda de ocidente, emplanta estruturada com três tramos de arcadas e pilastras intermédias, poderá assacar-se, quiçá, à intervenção de Vaz Pereira" (SERRÃO, 1999); *4 - Miguel Soromenho contesta o "mito" da destruição total do edifício nesta data e chama a atenção para a qualidade da fachada da igreja; *5 - obras comparticipadas pela CE através do programa de apoio à Conservação do Património Arquitectónico Europeu e PIDDAC.