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Conjunto dos núcleos de Arte Rupestre do Vale do Côa

Conjunto dos núcleos de Arte Rupestre do Vale do Côa

O ponto de interesse Conjunto dos núcleos de Arte Rupestre do Vale do Côa encontra-se localizado na freguesia de Vila Nova de Foz Côa no municipio de Vila Nova de Foz Côa e no distrito de Guarda.

Sítio pré e proto-histórico. Arte rupestre paleolítica de ar livre. Conjunto de três núcleos de gravuras incisas ou picotadas, abradidas ou não, podendo combinar as várias técnicas, de motivos zoomórficos naturalistas e de alguns raros motivos geométricos e abstractos, escalonando-se entre o Gravettense final - Solutrense inicial e o Magdalenense final, bem como arte rupestre epipaleolítica, com gravuras picotadas de motivos zoomórficos semi-naturalistas, neolítica, de pinturas de motivos zoomórficos semi-naturalistas e antropomórficos semi-esquemnticos e motivos geométricos e abstractos, calcolítica, época em que surge pintura e gravura de motivos antropomórficos esquemáticos, proto-histórica com gravuras picotadas de antropomorfos semi-esquemáticos com convencionalismos da Idade do Bronze e gravuras incisas de antropomorfos e zoomorfos semi-esquemáticos, armas e sinais. Aparece, finalmente, arte rupestre moderna e contemporânea, com gravuras incisas e picotadas de motivos diversificados (religiosos, zoomorfos, inscrições e figuração de cenas). No contexto da arte paleolítica mundial é uma das raras estações com arte paleolítica de ar livre, sendo o único núcleo peninsular conhecido que se afasta da espinha do Douro, não constituindo um mero apêndice desse, mas tendo características próprias que o individualizam; uma das mais notáveis é a sobreposição dos motivos, habitualmente na parte superior dos painéis. Outro traço particular é a animação das figuras com aposição de várias cabeças sendo por vezes reutilizadas figuras de períodos anteriores, às quais desta forma se confere movimento, normalmente o movimento descendente nos cavalos e auroques, através de uma torção do pescoço. Na Ribeira de Piscos gravou-se o único antropomorfo conhecido em Portugal datável do Paleolítico, com características que obedecem aos cânones das representações humanas atribuíveis a este período (designadamente em placas da gruta de La Marche, França), dotado de traços caricaturais e menos naturalistas que as representações zoomórficas. Os antropomorfos atribuíveis à Idade do Ferro são de uma tipologia sem paralelo na arte rupestre peninsular deste período. Os cavalos que acompanham estes guerreiros armados apresentam um estilo muito semelhante ao dos inúmeros cavalos Ibéricos que surgem pintados nas cerâmicas coevas do mediterrâneo peninsular. Destaca-se ainda a associação entre as gravuras e uma inscrição em caracteres ibéricos (BAPTISTA, 1983; BAPTISTA, 1999).

Conjunto de 23 sítios com arte rupestre distribuindo-se 10 na margem esquerda e 8 na margem direita nos últimos 17 Km, do rio Côa, e 5 nas ribeiras tributárias à esquerda do rio Douro, junto à embocadura do Côa, constituindo três núcleos diferenciados, separados por espaços vazios: a mancha da Faia, a da Quinta da Barca, a da Penascosa, junto à foz da Ribeira de Piscos, numa área de 20 mil ha.. Dos 23 sítios arqueológicos existentes 14 encontram-se classificados: Faia (Vale Afonsinho, v. PT020904140021), Faia (Cidadelhe, v. PT020910070024), Ribeirinha (v. PT010914010023), Broeira (v. PT010914020024), Fonte Frieira (v. PT010914020025), Meijapão (v. PT010914020026), Penascosa (v. PT010914020027), Vale de Namorados (v. PT010914020028), Quinta da Barca (v. PT010914040029), Quinta do Fariseu (v. PT010914100030), Ribeira dos Piscos (v. PT010914100032), Canada do Inferno e Rego da Vide (v. PT010914170034), Vale Figueira - Teixugo (v. PT010914170035) e Vale de Moinhos (v. PT010914170036); 9 sítios estão em processo de classificação: Vale de Videiro (v. PT010914170040), Vale de José Esteves (v. PT010914170041), Vermelhosa (v. PT010914170038), Vale de Cabrões (v. PT010914170039), Alto da Bulha (v. PT010914170047), Vale de Forno (v. PT010914170045), Moinhos de Cima (v. PT010914170046), Canada da Moreira (v. PT010914020044), Vale da Casa (v. PT010914170037). São constituídos por motivos gravados, incisos ou picotados - abradidos ou não - ou combinando as várias técnicas, raramente pintados, tendo sido utilizadas como painéis, as superfícies verticais dos afloramentos de xisto que constituem o substrato rochoso no troço N. do rio Côa e na margem esquerda do Douro, cujo relevo é frequentemente aproveitado para a constituição das figuras delineadas; algumas das figuras são de grandes dimensões, revelando a necessidade da montagem de andaimes para a sua realização, contrastando com outras de tamanho ínfimo. A arte do núcleo situado mais a montante no Côa, a Faia, ocupa os painéis verticais dos afloramentos que aqui são já graníticos. São dois os grupos artísticos com excepcional relevância, atendendo à cronologia, quantidade e qualidade da arte, existindo motivos gravados e pintados desde o Epipaleolítico à Idade do Bronze. Estão inventariadas 230 rochas com gravuras destes períodos (CNART, 1999). Ao período mais arcaico da arte do Côa correspondem 137 rochas com cerca de mil gravuras e raras pinturas, representando figuras zoomórficas naturalistas essencialmente de quatro tipos: equídeos (cavalos), bovídeos (auroques), capríneos e cervídeos (sobretudo veados e gravados geralmente na última fase deste período, o Magdalenense). Há ainda representações de peixes, de alguns animais indeterminados, bem como um pequeno conjunto de gravuras geométricas e abstractas representando feixes de traços, linhas meândricas, ou os designados cometas, interpretados como sinais (Penascosa, Canada do Inferno). Existe uma única figuração antropomórfica, fálica, atribuível ao período Magdalenense (Ribeira de Piscos). Os motivos aparecem isoladamente associados, ocupando uma área limitada do painel e muitas vezes sobrepondo-se, criando uma rica estratigrafia figurativa. Trata-se em todos os casos de gravuras, registando-se apenas pintura na Faia, onde alguns traços gravados foram sobrepostos por pintura e alguns pormenores pintados, como a figuração das narinas e boca acrescentadas. O conjunto, mal representado, de gravuras de morfologia epipaleolítica e neolítica, integra zoomorfos semi-naturalistas gravados ou pintados, nomeadamente bovídeos e cervídeos (Vale Cabrões e Faia). Um conjunto de motivos antropomórficos semi-esquemáticos e esquemáticos, pintados a vermelho ou preto ou gravados, apresentam os convencionalismos próprios do Neolítico ou Calcolítico (Faia e Vale dos Namorados, este com antropomorfos esquemáticos com capacetes em forma de lira atribuíveis ao Calcolítico). À Idade do Ferro corresponde um grande número de núcleos concentrados junto à foz do Côa, nos vales das pequenas ribeiras tributárias do Douro, com motivos gravados: antropomorfos e zoomorfos semi-esquemáticos - equídeos mas também alguns cães, veados e pássaros acompanhados de armas - falcatas, espadas, lanças e escudos - e sinais. São guerreiros armados, representados em cenas de caça ou de luta. Também estas gravuras foram sobrepostas permitindo uma fina estratigrafia figurativa (BAPTISTA, 1999; CNART, 1999). O último momento significativo da arte do Côa, datando da Idade Moderna e Contemporânea, integra motivos religiosos, figuras antropomórficas e zoomórficas, inscrições e datas e representações mais diversificadas da fase que fecha este momento, sejam barcos, comboios, pontes, aviões e figuração de cenas (CNART, 1999).

Materiais

Xisto; granito; tinta (ocre e preta).

Observações

*1 - O Decreto n.º 6/2013 alargou a classificação a mais 8 núcleos (núcleo da Canada da Moreira, Vermelhosa, Foz do Côa, Vale de Cabrões, Vale de José Esteves, Alto da Bulha, Canada do Amendoal e vale do Forno. *2- os terrenos são pertença de diversos proprietários, encontrando-se o Parque Arqueológico Vale do Côa em processo negocial em ordem à sua aquisição. *2 - Para obstar a esta situação, o PAVC em colaboração com o CNART e recorrendo a instituições e técnicos acreditados, desenvolve um projecto de monitorização e conservação dos painéis gravados.