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Sé do Funchal

Sé do Funchal

O ponto de interesse Sé do Funchal encontra-se localizado na freguesia de Funchal (Sé) no municipio de Funchal e no distrito de Ilha da Madeira (Madeira).

Arquitetura religiosa, manuelina, mudéjar, maneirista, barroca, rococó e revivalista. Sé com estrutura filiada no gótico mendicante, visível em outras Sés contemporâneas, como a de Silves e de Lamego, de planta em cruz latina, composta por três naves escalonadas, permitindo a iluminação direta de todas elas, transepto saliente e cabeceira tripla escalonada, de topos poligonais, contrafortada, interiormente iluminada por clerestório, rosáceas no topo do transepto e pequeno óculo sobre o arco triunfal, e com coberturas de madeira nas naves e abobadada na cabeceira. Fachada principal revelando a divisão espacial interior, rasgada por portal, de arquivoltas apontadas rematadas em canopial, e rosácea. Fachadas laterais com porta travessa e frestas, tendo, na lateral esquerda, torre sineira com coruchéu revestido a azulejos executados segundo a técnica hispano-mourisca. No interior, molduras dos vãos de inscrições tipicamente manuelinas com arcos canopiais, cairelados e polilobados. Cobertura das naves e transepto com tetos de alfarge utilizando as técnicas de "par y nudillo" e de "limas moamares", pintados com grutescos inspirados em gravuras e heráldica, e da cabeceira com nervuras e panos das abóbadas pintados, sobre mísulas vegetalistas, zoomórficas e antropomórficas. Os retábulos do transepto são em talha dourada maneirista, de dois andares e três eixos, e os da nave são mais tardios, com estrutura e decoração rococó, igualmente de três eixos, estilo que se repete na estrutura retabular da antiga sacristia, se bem que mais elaborado e de planta côncava. Capela do Santíssimo revestida a talha tardo-barroca, cuja estrutura aponta para uma linguagem rococó. Na capela-mor, cadeiral e retábulo-mor manuelinos, este em políptico, de planta côncava, tês registos e cinco eixos, com painéis pintados essencialmente com cenas historiadas, de temática eucarística no primeiro registo, Mariana no segundo e Cristológica no último, sendo rematado por sobrecéu e platibanda rendilhada coeva.

Planta em cruz latina, composta por três naves com cinco tramos cada, transepto saliente e cabeceira tripartida, escalonada e de topos poligonais, tendo adossada a NE. a antiga sacristia, quadrangular, sobreposta por torre sineira, ao transepto S. a capela de Nossa Senhora dos Anjos, retangular, seguida para E. da antecâmara da Confraria do Santíssimo, quadrangular, e da sala da Confraria, trapezoidal; independentes surgem as dependências da casa do Cabido, retangulares, a que se adossa sacristia, retangular, delimitando dois pequenos pátios interiores, irregulares, em redor da cabeceira. Volumes articulados de tendência horizontal, à exceção da torre que tem tendência vertical, com coberturas diferenciadas em telhados de uma água nas naves laterais, de duas na nave central e transepto, de três e quatro águas nas dependências anexas, rematadas em beirada tripla, em terraços sobre a cabeceira e em coruchéu piramidal revestido a azulejos na torre. Fachadas predominantemente rebocadas e pintadas de branco, com cunhais em cantaria. A fachada principal vira-se a O. e tem três panos escalonados, o central pétreo e saliente, terminado em empena com cornija, coroada por cruz, e com dois registos separados por cornija; no primeiro registo abre-se portal de arco apontado, com seis arquivoltas, a exterior canopial e com decoração vegetalista, assentes em colunelos de capitéis fitomórficos, encimado por brasão real e coroa aberta; no segundo registo abre-se rosácea com grilhagem radiante centrada por cruz. Panos laterais cegos, delimitados por cunhais de cantaria, com lápides epigrafadas alusivas ao Santíssimo Sacramento (esquerda) e a Nossa Senhora da Conceição (direita). Nas fachadas laterais, as naves são rasgadas por porta travessa, em arco de volta perfeita, assente em pilastras toscanas, encimado por friso e cornija reta, e por quatro frestas, em arco de volta perfeita, com capialços profundos; na nave central, rasgam-se quatro frestas semelhantes. Braços do transepto terminados em empena, rasgados por rosácea com decoração radiante, janela em arco de volta perfeita a O. e fresta a E.. Na fachada N., a antiga sacristia, sobreposta pela torre sineira, é rasgada por portal em arco apontado, acedido por lanço de escadas adossadas, sobreposto por frestas e pequenas janelas retangulares; no pano virado a E. abre-se, no primeiro registo, janelão mainelado de arcos apontados, inserido em arco de volta perfeita, encimado por duas janelas em arco de volta perfeita; o registo superior da torre, em cantaria, é rasgado, em cada uma das faces, por vãos simples e geminados, em arco de volta perfeita, e remata em parapeito ameado, tendo ao centro relógio circular de cantaria. Num plano recuado, tem corpo também quadrangular, sobre o qual assenta o coruchéu. Na fachada S. e no alinhamento do transepto, surge o pano da capela de Nossa Senhora dos Anjos, alto, com duas janelas estreitas retangulares e o pano das salas da Confraria do Santíssimo Sacramento, mais baixo, com dois registos, abrindo-se, no primeiro, porta de verga reta, com bandeira, entre duas janelas jacentes e, no segundo, três janelões retangulares, gradeados. Fachada posterior com a cabeceira de cantaria, composta por ábside de topo facetado, com quatro contrafortes escalonados nos ângulos, com gárgulas de canhão, coroados por pináculos piramidais sobre plintos paralelepipédicos; é rasgada por duas frestas em arco apontado com colunelos de capitéis antropomórficos (SE.) e vegetalistas (NE.) e rematada em balaustrada, com pequeno campanário a N.. Absidíolos reforçados por contrafortes escalonados, com gárgulas de canhão, coroados por pináculos torsos; no absidíolo S. abre-se janela em arco adintelado, gradeada, e, no absidíolo N., porta de verga reta; remates em platibanda vazada e trevada. A E., dispõe-se o pano da sala da Confraria, com janela jacente e muro do pátio, com portal em arco e portão de ferro; o corpo das casas do Cabido tem fachada terminada em cornija, de dois pisos, rasgados por sete janelas retangulares sobrepostas, sendo as do primeiro piso de peitoril, com caixilharia de guilhotina e gradeadas, e as do segundo de sacada, com bandeira, encimadas por friso e cornija e com guardas de ferro. No INTERIOR, as naves, escalonadas, são separadas por arcos apontados, de amplo vão, sendo os que flanqueiam o cruzeiro ainda maiores, sobre pilares cruciformes pintados a marmoreados fingidos, com bases estreladas e capitéis baixos com meias-esferas, exceto os do topo E., com folhagem, e os do O., com alcachofras, cabaças, folhas, flores, romãs e hera. Nave central com clerestório, tendo no primeiro tramo o coro-alto, sobre três arcos apontados, providos de guarda-vento em madeira e bandeira envidraçada; lateralmente comunica por dois vãos, gradeados e em arco canopial rematado por esfera armilar com o Batistério, no lado do Evangelho, e com a "casa das escadas", no lado da Epístola, ambos abertos e sobre os quais se prolonga o coro-alto, com guarda em balaustrada de madeira; ao centro e adaptado ao perfil da rosácea, tem órgão de tubos e, no pavimento cinco tampas de sepulturas epigrafadas. Adossado ao último pilar do Evangelho, surge púlpito de cantaria, de bacia circular, guarda plena de cantaria, helicoidal, sobre coluna torsa, com baldaquino facetado em talha, acedido por escada também de cantaria. Na nave lateral do Evangelho, o batistério tem abóbada de cruzaria de ogivas, com bocete vegetalista, apoiada em colunas com capitéis vegetalistas e anéis torsos; alberga pia batismal de taça facetada, de panos côncavos, e pé estrelado. Nas naves laterais rasgam-se seis capelas confrontantes, pouco profundas, em arco apontado, de três arquivoltas assentes em pilastras e colunas, pintado a marmoreados fingidos, com retábulos de talha dourada e policroma; estes são dedicados às Almas, Nossa Senhora do Desterro e aos Milagres, no lado do Evangelho, e a Nossa Senhora de Fátima, São José e São Miguel, no lado da Epístola, protegidas por teia de madeira, em balaustrada, formando U, contendo no pavimento fragmentos de tampas de sepulturas com inscrições. Entre as capelas, abrem-se irregularmente quatro janelas e, no segundo tramo, porta em arco rebaixado com pia de água benta de taça facetada. Cobertura em tetos de alfarge, com entrelaçados geométricos e pingentes, apoiados em frisos perfilados por cordões, totalmente pintados com grutescos e flores. As naves finalizam em arcos, canopial na central, encimado por óculo, e apontados nas laterais, sobre mísulas de folhas, flores, cabaças e cachos de uva. Transepto com capelas nos topos, a do Evangelho dedicada ao Senhor Bom Jesus *1 e a da Epístola a Santo António, com retábulos de talha dourada, integrando telas e rosácea central. O transepto separa-se do cruzeiro por arcos apontados, formando três secções, cada uma delas com cobertura em tetos de alfarge oitavados, sobre trompas de ângulo e circundados por largos frisos de madeira com cordão, tudo pintado com grutescos, flores e elementos heráldicos. Absidíolos de arcos apontados sobre colunas com capitéis de folhagem, vieiras, taças e jarros, no lado do Evangelho, e zoomórficos, no da Epístola, com anjos relevados nos seguintes, encimados por friso de acantos sobreposto por tabela ovalada com remate em frontão triangular, e com interior pintado, figurando a Nossa Senhora do Manto (Evangelho) e a Última Ceia (Epístola). Os absidíolos têm dois tramos e abóbada de cruzaria de ogivas, com cadeia longitudinal, o primeiro retangular e o segundo poligonal, com bocetes florais e heráldicos; o do Evangelho, dedicado a Nossa Senhora de Lurdes, é rasgado na parede testeira por vão de verga reta para ligação à sacristia dos Cónegos; encima-o plinto com imagem do orago, acedido por dois lances de escadas laterais, com balaustrada de madeira, e com os paramentos de suporte das escadas revestidos a azulejos azuis sobre fundo branco, com composições figurativas, representando a Adoração dos Pastores no lado do Evangelho e a Anunciação no lado oposto. O absidíolo da Epístola, dedicado ao Santíssimo Sacramento, possui retábulo de talha dourada e esculturas de vulto. Arco triunfal de duas arquivoltas apontadas, com intradorso cairelado com pequenas flores, cingidas por arco canopial, sobre colunelos com capitéis zoomórficos. Capela-mor com cobertura em abóbada polinervada de três tramos, o último facetado, com fechos unidos por cadeia longitudinal, decorada com bocetes heráldicos e vegetalistas, apoiada em meias colunas pintadas com motivos vegetalistas dourados, e capitéis vegetalistas e antropomórficos; nos panos da abóbada surge pintura policroma de arabescos, acantos e putti. Nas paredes laterais dispõe-se cadeiral de talha policroma a azul e dourada, de duas ordens de cadeiras, distribuídas em duas fiadas confrontantes, a segunda encimada por espaldar ornado com figuras antropomórficas com os seus atributos, sobrepostos por baldaquinos de decoração vegetalista rendilhada. Superiormente, as paredes integram seis painéis pintados, com molduras recortadas, envolvidas por elementos vegetalistas e com baldaquino, representando cenas da vida da Virgem: Apresentação da Virgem no Templo, Casamento Místico da Virgem e Anunciação (Evangelho), e Fuga para o Egito, Adoração dos Reis Magos e Adoração dos Pastores (Epístola). Retábulo-mor de planta côncava, ocupando a parede testeira da ábside e prolongando-se por parte de um pano das ilhargas, compondo-se de três registos separados por frisos com decoração vegetalista e cornija, e cinco eixos delimitados por pilastras com edículas, algumas mantendo imaginária, que emolduram treze painéis pintados sobre tábua, e, no eixo central, sacrário encimado por nicho. Doze dos painéis têm cenas historiadas; as do primeiro registo figuram, da esquerda para a direita, Abraão e Melquisedeque, Última Ceia, Missa de São Gregório e Apanha do Maná; no segundo, de temática Mariana, figuram a Anunciação, Natividade, Pentecostes e Assunção da Virgem; no último, com cenas da Paixão de Cristo, surgem Cristo no Horto, Cristo a Caminho do Calvário, Descida da Cruz e Ressurreição. No eixo central, surge inferiormente o sacrário em forma de templete rematado com elementos fitomórficos rendilhados formando falsa platibanda, encimado por pequena torre com o mesmo tipo de decoração, enquadrado por dois nichos das colunas com imagens, talvez dos Profetas; ao centro, surge nicho, em talha dourada, albergando a imagem do orago, encimado por volutas de talha; no terceiro registo, tem painel com representação do Senhor da Cana Verde. Encima o retábulo vasto sobrecéu em meia-abóbada nervada, também dividido em cinco registos, coroados por fina platibanda rendilhada, ostentando o central as armas de D. Manuel e, nos dois eixos seguintes, a esfera armilar; entre o remate e o baldaquino, surge tirante de ferro, fixo nos panos laterais da capela, conservando ainda as argolas de suporte das antigas cortinas. A antiga sacristia, tem retábulo, lavabo pétreo de espaldar, em arco de volta perfeita, uma janela mainelada a E., e a NO. saliência correspondente à escada da torre; cobertura em abóbada de cruzaria de ogivas com fecho decorado com cruz da Ordem de Cristo. Capela de Nossa Senhora dos Anjos com teto de estuque, em gamela, decorado com motivos vegetalistas pintados e, ao centro, brasão real; nas paredes tem arcazes e armários de madeira embutidos, com almofadas entalhadas; no topo, retábulo. A antecâmara da sala da Confraria do Santíssimo, a E., tem lavabo de cantaria, terminada em cornija sobreposta por cruz, e a sala de reuniões que se segue silhar de azulejos azuis sobre fundo branco, de moldura recortada, com representação de cenas galantes; cobertura em teto de madeira octogonal sobre trompas, tendo ao centro cartela pintada com o Agnus Dei. A sacristia, com entrada independente, possui arcaz e oratório. Os edifícios do Cabido são intercalados por estreito átrio abobadado com grande lavabo de mármore, terminado em frontão curvo com tímpano concheado.

Materiais

Estrutura de alvenaria de pedra regional rebocada e pintada; cantarias de arenito vermelho do Cabo Girão; betão; lajes de basalto; lavabo, púlpito, pia batismal e inscrição nº. 10 em conglomerado (brecha) da Arrábida; fragmentos epigrafados em basalto; tampas sepulcrais em pedra da Flandres (?); inscrição e símbolos da tampa sepulcral nº. 13 em bronze; madeira (cedro branco da ilha, carvalho, til, exóticas do Brasil, pinho de Riga); pavimento de madeira e tijoleira; retábulos de talha dourada e policroma; painéis pintados; silhares de azulejos azuis e brancos; grades e tirantes de ferro; cobertura de telha.

Observações

*1 - Este retábulo apresentava estrutura diferente, com um forte caráter cénico, comportando dois lanços de escadas com dois braços simétricos e convergentes, protegidos por guarda balaustrada, que permitiam a circulação rápida junto ao altar; as escadas contornavam um trono de sete degraus, no cimo dos quais surgia a imagem da Virgem de ao Pé da Cruz, protegida por baldaquino, e, na base, um grupo escultórico representando a "Última Ceia", estando dois dos Apóstolos sentados no exterior; as ilhargas do espaço encontravam-se decoradas por quatro painéis de talha a representar cenas do Antigo Testamento, entre as quais o "Transporte da Arca da Aliança" e um "Agnus Dei", divididos por quarteirões volutados e rematados inferior e superiormente por friso de ramadas de acantos; o espaço era iluminado por dois tocheiros do tipo balaústre. *2 - As tampas de sepulturas onde estão gravadas as inscrições não apresentam as medidas originais pois a maioria foi deslocada do lugar primitivo e reajustada ao pavimento executado no séc. 18. *3 - Vítor Serrão atribui os painéis do retábulo ao Mestre da Lourinhã, que relaciona com o pintor Álvaro Pires. Manuel Batoréo considera os painéis do retábulo-mor uma obra eclética, de vários pintores do círculo de Lisboa, com o pintor Álvaro Pires encarregue dos painéis com a figuração Mariana e ainda o da Apanha do Maná, um segundo pintor faria as três tábuas de características mais flamengas do segundo registo; Cristo no Horto seria, possivelmente, de outra mão e, um possível colaborador do retábulo de São Tiago de Palmela, terá pintado a Missa de São Gregório e Abraão e Melquisedeque no primeiro registo. *4 - Este órgão, em data posterior, foi transferido para a Igreja de São João Evangelista, no Funchal (v. PT062203080006). *5 - Segundo o autor, parece inviável a execução do retábulo-mor no continente e o seu transporte posterior para o Funchal, onde seria montado por vários oficiais, pois tal obrigaria ao prévio ajuste in loco de todos os componentes. Isso incluiria a montagem e desmontagem de todas as peças antes de serem douradas e policromadas, acrescidas de eventuais retificações ordenadas pelos mestres designados para o receber e avaliar, assim como referem os contratos para a execução do retábulo da Sé de Lamego ou os documentos relativos ao de São Francisco de Évora. *6 - Também existentes na Igreja Matriz de Santa Cruz (v. PT062209050002), no Prédio da Quinta das Cruzes (v. PT062203080020), na Igreja do antigo Mosteiro de Leça do Bailio (v. PT011308040001), na Igreja Paroquial de São Martinho, em Penafiel (v. PT011311240002), e no Castelo de Beja (v. PT040205130003). As características paleográficas das inscrições nº 14 e 16 são semelhantes às das inscrições nº 5 do castelo de Beja (v. PT040205130003) e nº 2 da Igreja de São Martinho, em Penafiel, (v. PT011311240002) que são gravadas no mesmo tipo de material pétreo: calcário negro da região de la Meuse(?).