Arquitectura civil barroca, pombalina, rococó, neoclássica. Fachadas planas com ornamentação barroca nos frontões de vãos de molduramento de composição pombalina. Escadaria barroca de grande monumentalidade de lanços opostos. Pintura dos tectos setecentista. Silhar de azulejaria em composição neoclássica com motivos discretos, ave de plumagem exótica, como motivo ornamental centralizante, envolto em combinações livres de ramagens e motivos florais variados, enquadrados por fitas, com grande leveza e dinamismo de traço, intimamente ligado à pintura dos panos murários sobre os silhares. Edifício de monumentalidade compacta, bem integrado no conjunto urbano, inserindo-se num dos pólos de organização urbanístico de Setúbal, destaca-se pela sua traça erudita de fachadas de tradição pombalina, com relevo para a ornamentação forte dos vãos de janelas e portas que ressaltam do branco dos panos murários. Interiores de grande qualidade decorativa, com tectos de madeira pintados, com motivos alusivos à instituição que os acolheu, numa decoração de explosão cromática, e paredes pintadas com requinte, onde aos elementos geométricos se contrapõem a temas florais de carácter rectilíneo e gráfico.
Planta longitudinal, composta por dois corpos, regular, volumes articulados por justaposição, com disposição das massa com horizontalidade. Cobertura exterior em telhados de 4 águas . Fachada principal orientada a O., com embasamento revestido com painéis de cantaria, delimitada lateralmente cunhal e friso gigantes, apilastrados; de dois panos divididos por pilastra gigante. Pano principal, com simetria, de 3 registos, diferenciados pela marcação de frisos em ressalto entre os pisos, onde assentam as molduras dos vãos abertos; no primeiro registo rasgam-se um portal (acesso para a Associação Recreativa) aberto no cimo de degraus escalonados e, lateralmente, 2 janelas de molduras ornamentais, com saia; as vergas são em arco abatido com sobreposição de frontões ondulados; no segundo e terceiro pisos abrem-se 3 janelas de sacada com molduramento idêntico às anteriores, com guarda-corpo de ferraria ornamental; o remate é em cornija de coroamento e duplo beiral. Pano da direita (espaço ocupado primitivamente por arrecadações) com quatro registos: no primeiro abrem-se 3 portas; no 2º uma janela de sacada com resguardo de ferraria; no 3º uma janela e um postigo e no último duas janelas todas rectangulares e molduradas; o remate é em cornija de coroamento e beiral. Fachada a N. de dois panos. Pano principal, com embasamento revestido a painéis de cantaria, delimitado por cunhal e friso gigantes, apilastrados e dividido em 3 registos marcados por frisos em ressalto onde assentam os vãos abertos: no 1ºregisto, no cimo de uma escadaria escalonada, um portal (entrada para as instalações da Cruz Vermelha) com moldura ornamentada e frontão ondulado com implante de pedra de armas e uma janela rectangular; no 2ºe 3º2 janelas de sacada com resguardo de ferraria ornamentada, molduradas com frontão ondulado; remate em cornija de coroamento e beiral. O pano à esquerda é cego e como único ornamento tem um painel moderno figurativo com a representação de São Francisco Xavier. Fachada a E. com vários panos decorre do corte da igreja a que pertenciam; nele se marcam 3 registos apontados, no térreo por aberturas modernas de porta e janelas, o 2ºincorpora um postigo antigo e o último uma janela de sacada; destaca-se a meio dos panos uma janela com moldura ornamental, sobrepujada por óculo, ambos pertencendo ao pano murário interior primitivo. Articulação exterior / interior desnivelada pelo que se acede aos interiores por escadaria. SOCIEDADE RECREATIVA: INTERIOR de espaço diferenciado: vestíbulo com escadaria integrada em casa de escada prismática, separado do átrio principal por muro divisório, com arco de comunicação descentrado; dois lanços opostos, com iluminação dada pela abertura de dois óculos circulares, o 1ºlanço de 7 degraus, o 2ºde 6, com um patamar intermédio; 2º patamar antes da porta da entrada no 2ºpiso, de acesso a uma sala de comunicação com o 3ºpiso e com as salas da irmandade, onde se destaca um tecto em madeira pintado, privilegiando o centro com medalhão circular onde se destacam as insígnias da Santa Casa de Misericórdia (símbolos da Protectora, do poder terreno e do celestial) num cromatismo forte; no 2ºpiso, sala de passagem, coberto por tecto de madeira, pintado com os mesmos símbolos da instituição como elemento centralizador de todo uma decoração que preenche o espaço rectangular da cobertura ornamento de traços delicados em grande cromatismo; salão de paredes pintadas com elementos delicados, sobre lambril de azulejaria, com cobertura em tecto rebocado com pintura e estuques decorativos; dois lances de escadas em continuidade, divididos por arco de volta inteira, com marmoreados um, o outro em madeira, continuam em dois lances de escada opostos, com guarda-corpo e corrimão em madeira, estabelecendo a ligação do 2ºpiso para o 3ºonde se abre um vasto salão de festas com palco elevado, coberto por tecto de 3 planos, e outras dependências pequenas de apoio àquele. A iluminação é feita através dos vãos descritos. O pé-direito das divisórias dos diversos pisos são de paredes planas. CRUZ VERMELHA: espaço diferenciado com divisórias feitas que desvirtuaram o espaço antigo, onde se vê vãos meios tapados por paredes elevadas recentemente; destacam-se as modinaturas toscanas de paredes e de cunhais apilastrados, e os molduramentos eruditos de parte de vãos e de portas; coberturas lajeadas e pavimentos primitivos de placas de cantaria; na antiga sacristia vê-se um lavatório em cantaria adossado a pano murário rebocado com decoração de frontão em ressalto e no vão largo de janela aberto na espessura murária dois bancos de conversadeiras, de cantaria.
Materiais
Alvenaria de pedra e tijolo, cantaria de pedra calcária e brecha da Arrábida ferro, madeira, telhas cerâmicas
Observações
*1 - Incluindo Escadaria que da entrada da Misericórdia dá acesso ao respectivo átrio superior. *2 - Em parte do terreno onde for a construída a igreja da Santa Casa da Misericórdia. *3 - A grande explosão urbanística de Setúbal deu-se a partir dos finais da década de sessenta, sem que fosse levado em conta qualquer plano director que o ordenasse. *4 - O Museu da Cidade de Setúbal (Convento de Jesus) guarda a planta e maqueta do interior da igreja; do exterior não se conhecem sequer fotografias (PEREIRA, 1999).