Fortificação construída entre a segunda metade do séc. 17 e a primeira metade do séc. 18, com traçado abaluartado e de grande importância estratégica, já que, juntamente com a fortaleza de Viana, Caminha e Monção, constitui uma das quatro grandes fortalezas em que assentava a defesa do noroeste português. De fato, a praça de Valença constitui uma das mais importantes da época no panorama nacional, caracterizando-se, segundo Rafael Moreira, por uma planta sofisticada com impressionante sobreposição de recintos fortificados e obras defensivas ao longo da encosta, de modo a tirar o máximo proveito das condições topográficas. A sua imponência não estará certamente alheia a implantação frente a Espanha, constituindo como que uma "verdadeira vitrina dos recursos bélicos do País". É composta por dois polígonos irregulares e quase tangentes, o corpo da praça, construída de modo a envolver a muralha medieval da vila, integrando no seu perímetro alguns dos seus troços e parte da estrutura de uma das portas, com baluartes estrategicamente, a maioria com falsas bragas, e a obra da coroada, a sul, formada por três baluartes, com duas linhas de defesa, circundados por fosso, com contraescarpa em torrão e caminho coberto, reforçados por dois revelins a sul da coroada e três a cobrir as portas da praça. As estruturas apresentam paramentos em talude, com a escarpa exterior de duas seções e cunhais aparelhados, terminados em cordão e parapeito de canhoneiras, tendo nos ângulos flanqueados guaritas facetadas cobertas por cúpula. As portas são em arco de volta perfeita, normalmente encimadas por frontão com brasão, possuindo transitos cobertos por abóbadas de berço, integrando portas intermédias, ladeados ou flanqueados por casamatas, também abobadadas e com frestas de tiro para a escarpa exterior e transito. Destaca-se a porta da Gaviarra pelo fato de integrar no transito a cisterna medieval, bem como a estrutura da antiga porta, com vão em arco apontado, siglado, e capitéis vegetalistas, e uma das torres que a flanqueava. Ao contrário de todas as outras portas, a Porta do Sol é de grande simplicidade, não possuindo qualquer decoração. Na frente nascente, a cortina da praça integrou também troço de muralha medieval com uma das suas portas, em arco apontado e com brasão nacional no fecho, a qual foi transformada em poterna. Algumas plantas do séc. 18, representam ainda outros troços de muralha antiga, a cujo perfil se adaptou a traça urbana. Em 1713, integrava uma "tenalha à Vauban", hoje inexistente, o que constitui uma das primeiras referência conhecidas a este engenheiro francês, numa conjuntura em que predominava em Portugal a influência da Escola Holandesa de Fortificação (MOREIRA, 1986). A defesa noroeste de Portugal era ainda completada com pequenos fortes, como o Forte de São Vicente, o Forte da Feitoria Velha e outros existentes nas imediações de Valença.
Planta composta por dois polígonos irregulares e quase tangentes: a coroada, constituída, a sul, por três baluartes e, a norte, por dois meios baluartes, desiguais, todos com duas linhas de defesa, e a praça, sensivelmente oval, constituída por sete baluartes poligonais desiguais, dispondo-se um em cada ângulo dos extremos e tendo ainda dois a nascente e um a poente, a maioria com falsas bragas. Ambos os polígonos são envolvidos por fossos e contraescarpa em torrão (areia com seixos do rio), cobertos por vegetação, e com caminhos cobertos, reforçados por cinco revelins, dois a sul da coroada, sendo um deles incompleto, um a poente da praça e dois outros na frente nascente da mesma, bem como por várias tenalhas. As estruturas apresentam paramentos em talude, com a escarpa exterior marcada por duas seções escalonadas, em cantaria irregular, disposta a seco, e cunhais aparelhados, terminados em cordão e parapeito com canhoneiras, igualmente em cantaria irregular ou em tijolo de burro, disposto paralelamente ou formando quadrícula. Virados aos terraplenos interiores, os baluartes e revelins possuem reparos de torrão, cobertos por vegetação. Nos seus ângulos flanqueados são coroados por guaritas facetadas assentes em mísulas molduradas e também facetadas, sendo inferiormente circundadas pelo cordão e superiormente rasgadas por três frestas de tiro; são cobertas por cúpula facetada sobre cornija retangular e coroadas por bola sobre plinto. A sul, fronteira à cortina onde se abre a porta da Coroada, dispõem-se o REVELIM DA COROADA com porta de arco em volta perfeita e aduelas em cunha, enquadrada por pilastras toscanas suportando entablamento centrado pelas armas de D. João Diogo de Ataíde, em cartela volutada e com coronel de nobreza, encimado por cornija e pelas armas de Portugal, entre aletas, com coroa fechada e, lateralmente dois plintos com bola. O trânsito da porta, em aparelho irregular, é rasgado a poente por frestas de tiro, molduradas, e coberto por abóbada de berço; na face interior, tem porta simples de arco em volta perfeita e casamata com acesso por porta de verga reta. A escarpa interior em torrão coberto de vegetação possui duas rampas laterais de acesso com guarda em cantaria, integrando a do lado poente umas Alminhas de Nossa Senhora do Carmo (v. IPA.00022998). Entre os baluartes de São Jerónimo e o de Santa Ana, surge revelim duplo em torrão, coberto de vegetação. O acesso à COROADA, precedida por ponte de cantaria, com guarda também de cantaria vazada, é feito por porta em arco de volta perfeita, igualmente com as aduelas em cunha, entre duplas pilastras, almofadadas, suportando friso e frontão de volutas interrompido por tabela retangular, disposta na vertical, com as armas nacionais, coroadas, sobre inscrição em cartela recortada, terminada em frontão curvo; o arco é sobreposto pelo brasão do visconde de Vila Nova de Cerveira, D. Diogo de Brito de Brito e Nogueira, com coronel de nobreza, e ladeando o frontão surgem duas bolas sobre plinto. A porta é flanqueada por duas casamatas, que possuem frestas de tiro rasgadas na escarpa exterior e no transito, por onde têm acesso, através de amplo arco abatido, fechado, com portal de verga reta. No interior são rebocadas e pintadas, com cobertura abobadada e tendo chaminé fronteira à porta. O transito é coberto por abóbada de berço e tem, sensivelmente a meio, porta de madeira chapeada a ferro. Na face interna, a porta possui arco em volta perfeita simples e as casernas são rasgadas por frestas de tiro, janelas de diferentes modinaturas e, do lado poente, portal de verga reta. A norte a coroada tem duas portas falsas de acesso ao fosso, com transitos rampeados e abobadados, possuindo a meio estrutura de cantaria de suporte das portas intermédias; do lado do fosso têm vão em arco de volta perfeita. A PRAÇA é rasgada por três portas e duas poternas, uma porta a sul, por onde se faz a ligação entre a coroada e a praça, possuindo passadiço com ponte fixa de cantaria com guarda também de cantaria, uma a nascente e outra a norte e duas poternas na frente poente. A porta principal, designada PORTA DO MEIO tem arco em volta perfeita, de aduelas em cunha, entre pilastras toscanas suportando duplo friso e cornija sobrepujada por brasão nacional, com coroa fechada, entre aletas e duas bolas sobre plintos laterais. O transito é rasgado por frestas molduradas e coberto por abóbada de berço, possuindo a meio estrutura de sustentação de porta intermédia, atualmente inexistente. Virada ao terrapleno, a porta tem arco simples de volta perfeita e a casamata, disposta a poente, rasgada por porta de verga reta e janela jacente; no interior, em cantaria aparente, com as juntas pintadas de branco, e cobertura em abóbada de berço, tem lareira com inscrição. A poente, entre o baluarte da Lapa e o de São João, abre-se poterna de arco em volta perfeita, com transito coberto de abóbada de berço conduzindo ao fosso e à Fonte da Vila. Fronteiro, dispõe-se o revelim da Fonte da Vila, com rampas laterais de acesso às canhoeiras e paiol na gola, acedido por duas portas de verga reta. Na cortina de São João, que integra troço da muralha medieval, rasga-se a porta de D. Afonso ou dos Açougues, tendo virada ao terrapleno interior arco abatido e, exteriormente, no nível inferior de defesa, arco apontado de aduelas altas, tendo no fecho escudo nacional de escudetes deitados. A porta a nascente, denominada por PORTA DO SOL ou de Santiago, é muito simples, apresentando arco em volta perfeita com fecho saliente. O transito, coberto por abóbada de berço, é rasgado por frestas de tiro molduradas e possui a meio a estrutura de suporte da porta intermédia, conservando apenas as dos extremos, de madeira, chapeadas a ferro. Na face interna tem vão em arco de volta perfeita, ladeada por duas portas em arco abatido, janelas do mesmo perfil, ambas com fecho saliente e óculos ovais gradeados das antigas casa da guarda e prisão. Esta porta é protegida pelo REVELIM DAS PORTAS DO SOL com duas rampas de acesso às canhoeiras e tendo na gola antiga caserna, abobadada. A norte, na gola do baluarte do Socorro, abre-se a PORTA DA GAVIARRA OU DE SÃO VICENTE, com estrutura convexa, apresentando arco de volta perfeita sobre impostas salientes, ladeado por pilastras toscanas que suportam semicúpula coroada por brasão nacional entre volutas e com coroa fechada; conserva porta de madeira chapeada a ferro. Sob o baluarte desenvolve-se transito em cotovelo apertado e com grande inclinação para vencer o desnível do terreno, coberto por abóbada de berço. Do lado do terrapleno interior o transito, com amplo arco de volta perfeita, simples, é ladeado, à direita, pela antiga casa da guarda da Gaviarra, rasgada por porta de verga reta e janela quadrangular, ambas molduradas. Logo no início do transito, existe túnel de ligação ao nível inferior do baluarte e integra a estrutura da porta medieval e de uma das torres que a flanqueavam, formando "poço de luz" o qual, superiormente, ao nível da bateria, é protegido por gradeamento de ferro; a chamada Porta Afonsina tem verga reta sobre pilastras e capitéis vegetalistas, com tímpano cego, inserido em amplo vão de arco apontado, com aduelas sigladas, funcionando como porta intermédia do transito. Junto a esta porta, surge ainda vão entaipado encimando a primitiva cisterna. A cortina entre o baluarte de São Francisco e o do Socorro é reforçada por tenalha, rasgada por porta de verga reta, através da qual se faz a ligação entre a Porta da Gaviarra e o REVELIM DA GAVIARRA, disposto frontalmente. Este tem rampa de acesso às canhoeiras e uma outra, colocada perpendicularmente, à falsa braga. Virada ao fosso e atualmente sem ponte que o transponha, abre-se a chamada Porta de Monção, de arco de volta perfeita sobre impostas salientes, entre pilastras toscanas que suportam arquitrave, sobreposta por brasão dos Noronha em cartela com enrolamentos e coronel de marquês, encimada por cornija e brasão nacional e dois plintos laterais. A porta tem transito abobadado, com frestas de tiro molduradas e, na face interna, vão em arco de volta perfeita ladeado por casamata rasgada por porta de verga reta e janela jacente. No terrapleno interior, os baluartes são de torrão, coberto de vegetação e, junto às canhoeiras, possuem baterias com lajes de cantaria, algumas delas possuindo bocas de fogo; o acesso às falsas bragas é feito por transitos abobadados e com vãos em arco de volta perfeita simples. O baluarte de São Francisco apresenta cavaleiro.
Materiais
Estrutura em cantaria de granito, de aparelho "vittatum" ou irregular; terraplenos em torrão; parapeitos em cantaria de granito ou tijolo de burro; portas de madeira chapeadas a ferro; grades de ferro; cobertura dos paióis em telha cerâmica e pavimento cerâmico ou lajes.
Observações
*1 - Segundo os desenhos de Duarte Darmas, por volta de 1509, Valença apresentava uma muralha ovalada envolvendo a vila, com três portas, a dos Açougues ou de D. Afonso, a poente, a da Gaviarra, a norte e a do Sol a nascente, dois cubelos, um com balcão virado a sul e outro ladeando a porta norte, e hipotética torre de menagem integrada no circuito, ao que parece correspondendo a uma das que flanqueava a porta da Gaviarra. A barbacã, com alguns cubelos, tinha porta entre torres a norte, sul, e a nascente. Ambos os circuitos de muralhas e torres mostravam então muitos sinais de degradação e ruína. Da fortificação medieval subsiste, para além dos vestígios na disposição urbana da zona mais antiga, um troço da muralha da barbacã a nascente, com portal à face e armas de Portugal (anterior à Reforma de 1436), e também a estrutura da porta da Gaviarra a norte, revelando já maior imponência e nitidamente ladeada por duas torres. *2 -Um relatório de 1817 refere que a fortaleza acomodava em quartéis abarracados um regimento de Infantaria, uma companhia de Artilharia e alguns veteranos, não tendo proporções para blindados ou provas de bomba, mas tinha lugar para as fazer com pouca despesa; os corpos da guarda dos revelins da Fonte, Sol e Gaviarra podiam albergar, cada um, doze homens, o da guarda principal alojava quarenta, o do revelim da Coroada vinte e o das portas do meio da praça vinte. Não possuía cisterna, mas apenas um poço de água salobra e outro de água doce na Coroada e na praça um poço com nora aparelhada (que precisava conserto) e outros poços particulares. Tinha três fontes nos fossos: a das Tripas, hoje na vertente do talude sobre a Av. de Espanha, a de Cristelo, a Fonte da Vila, e a Fonte das Barracas na esplanada de Faro. *3 - No início de 2001 a Câmara Municipal de Valença desistiu da ideia de construir parques de estacionamento nos fossos da fortaleza, depois de ter sido alertada para o facto de que tal obra poderia comprometer a candidatura da vila a património mundial.