Santuário barroco, de planta composta por nave centralizada e capela-mor retangular, com sacristia em eixo, circundada por um corredor interno, com coberturas em cúpula e falsa abóbada de berço, amplamente iluminada por vãos retilíneos e curvos rasgados na frontaria e fachadas laterais. Fachada principal harmónica com duas torres sineiras, terminada em entablamento e rasgada por portal em arco e duas janelas sobrepostas, interligadas pelas molduras comuns, e ladeadas por óculo e duas janelas interligadas mais estreitas. Nas fachadas laterais tem portas travessas em arco encimadas por frontão angular. Interior com coro-alto de cantaria sobre mísulas e colunas, duas capelas laterais com retábulos tardo-barrocos, em talha policroma de planta reta e um eixo, púlpito sobre coluna balaústre e capela-mor com silhar de azulejos figurativos alusivos a curas milagrosas de Cristo e retábulo-mor tardo-barroco, de planta reta e um eixo. Na sacristia possui arcaz de espaldar e, nos corredores de acesso, lavabos tipo urna. Ficou por concluir o remate da fachada posterior e as sineiras das torres, ainda que exista o seu projeto de construção. A planimetria da igreja é bastante erudita, com nave centralizada, formando um hexágono, aligeirado pelo eixo longitudinal formado pela capela-mor, inscrito num círculo e com corredores de circulação intermédios, desenvolvidos em vários registos. Apesar da igreja não ter sido concluída, Sérgio Gorjão considera improvável que o projeto inicial previsse a cobertura em abóbada, dada a ausência de referência documental e à colocação de cobertura em telha vidrada no coruchéu hexagonal. As fachadas apresentam contenção decorativa mas são valorizadas pelos jogos rítmicos das formas, visíveis no entablamento do remate da nave e nas superfícies côncavas, convexas e biseladas, bem como no perfil e modinatura dos vãos, dispostos em eixos e justaposição simétrica, acentuando a verticalidade do edifício, surgindo portas e janelas interligadas por molduras comuns almofadadas, recortadas e de remates distintos. As torres sineiras formam nártex sobre as portas travessas e os registos superiores têm o mesmo jogo rítmico dos vãos. Nas fachadas laterais, o registo superior surge mais recuado de modo a criar sacada corrida sobre o remate do registo inferior, acedida por portas laterais e atualmente sem guarda. A fachada posterior possui porta de acesso direto à sacristia que, interiormente, tem no ângulo curvo escadas de caracol de ligação ao piso superior. No interior destaca-se a grande simetria estrutural, com os panos do hexágono, definidos por pilastras colossais jónicas, de esquema semelhante dois a dois, e com os elementos dispostos em eixos, acentuando a verticalidade. Assim, o pano do coro-alto e o do arco triunfal têm amplo arco biselado e almofadado, com moldura exterior formando falso canopo e com nichos nas pilastras; as portas travessas, encimadas por tribunas e janelas termais, que conferem aspeto clássico, inserem-se em arco ladeado de portas, nichos e painéis, tal como os panos seguintes com as capelas laterais, surgindo nos nichos imagens dos Apóstolos. O púlpito surge no lado da Epístola e já foi deslocado. Os retábulos enquadram-se na Escola Pombalina, com telas alusivas ao orago, mas o retábulo-mor, já sem a tela, possui maquineta expondo o cruzeiro do Senhor Jesus da Pedra, objeto de devoção na base da construção do santuário, encimado por falsa mísula que constitui o remate da maquineta e tendo frontalmente passadiço de circulação. O Cruzeiro, talvez da Idade Média, tem imagem relevada de grande primitivismo e original posição do Cristo. No coro-alto e capela-mor existem silhares de azulejos figurativos tardo-barrocos, sendo estes sobrepostos pelas mísulas de sustentação da guarda da tribuna, sugerindo a sua colocação em data posterior. A cobertura da capela-mor tinha pinturas murais, mas desapareceram devido à humidade.
Planta centralizada irregular, composta por nave hexagonal, exteriormente circular, e capela-mor retangular saliente, tendo adossada em eixo sacristia também retangular e, nos lados da nave, duas torres sineiras quadrangulares. Volumes articulados de tendência vertical, com coberturas em telhados de quatro águas no zimbório e nas torres sineiras, coroados por bolas de cantaria sobre acrotério, e de três águas na capela-mor e sacristia. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, percorridas por embasamento de cantaria e friso horizontal que percorre o imóvel, de cunhais apilastrados e terminadas em vários frisos e cornija ou apenas cornija, bastante avançada. Fachada principal virada a SO., com pano da nave rasgado por eixo de vãos interligados, composto por portal em arco de volta perfeita, de chave saliente, com moldura almofadada e exteriormente recortada, por janelão de sacada, sobre mísulas com festões, ladeadas de aletas, sem guarda, de topo em arco de volta perfeita, igualmente com moldura almofadada e recortada, e janela de topos curvos e igual moldura, que é comum. Lateralmente, rasgam-se, no registo inferior, dois óculos ovais de moldura almofadada e com colchete nos quatro topos, e, no segundo registo, duas janelas interligadas, de topos extremos retilíneos e os interiores curvos, de disposição oposta, com molduras comuns e recortadas, sobrepostas por cornija reta. A cornija da fachada possui lateralmente duas gárgulas abertas. As torres sineiras, inacabadas, têm os ângulos exteriores côncavos e, em cada uma das faces, três vãos, abrindo-se no primeiro arco de volta perfeita sobre pilastras, no segundo janelão curvo, com moldura almofadada recortada, pano de peito em cantaria igualmente almofadada, e frontão triangular, sobreposto por uma outra janela, retilínea, de moldura almofadada e terminada em cornija, ao nível do remate da fachada. Os arcos de cada torre acedem a nártex, coberto com falsa abóbada de aresta, de estuque, sob a qual se rasga porta travessa da nave, em arco de volta perfeita, com moldura almofadada e recortada, criando espaldar com fecho em mísula, rematado em cornija angular, inserido em amplo arco de volta perfeita. Fachadas laterais de três registos, o primeiro rasgado por três óculos ovais com colchetes nos ângulos, no segundo por três eixos de duas janelas interligadas, de topos exteriores retilíneos, formando falsos brincos retos, e os interiores curvos de disposição oposta, de molduras comuns, almofadas e recortadas; o terceiro piso, sensivelmente recuado, é rasgado por amplo janelão curvo, de chave relevada e moldura almofadada e recortada, sobreposta por cornija reta; lateralmente, abrem-se nos corpos avançados, dois portais de verga reta e moldura simples de acesso à cornija avançada do remate do segundo registo. Corpo da capela-mor e sacristia de ângulos curvos, delimitados por pilastras, com dois registos e rematado em platibanda plena, rebocada e pintada de branco; lateralmente é rasgado por dois eixos de três janelas retilíneas, as do primeiro registo e as inferiores do segundo, interligadas por frisos verticais, e as superiores um pouco mais altas, com molduras recortadas ao centro, formando espaldar no segundo registo. Nos ângulos abrem-se duas janelas iguais às inferiores dos panos laterais, sendo todas estas gradeadas. Na fachada posterior da sacristia, de três registos separados por friso, abre-se eixo de vãos interligados pela moldura, almofadada e recortada, e todos com fecho saliente, composto por portal em arco, vão ovalado e recortado e janela de topo curvo, sobre pano de peito em cantaria almofadada e encimada por frontão triangular. O coruchéu da nave assenta em tambor hexagonal, com cunhais apilastrados e rematado em friso e cornija, interrompida ao centro de cada face por óculo circular, gradeado, e platibanda plena, mais recuada, coroada nos ângulos por altos fogaréus. INTERIOR com as paredes rebocadas e pintadas de branco, a nave com as faces do hexágono definidas por pilastras colossais de fuste almofadado e capitel jónico, sustentando o entablamento sobre o qual assenta a cobertura em cúpula de madeira, decorada por apainelados, de molduras pintadas a marmoreados fingidos a azul, com apontamentos fitomórficos dourados, e florão central dourado inserido em cartela hexagonal. A nave possui pavimento de madeira sob o coruchéu e, ao longo das faces do hexágono, faixas pavimentadas a enxaquetado de cantaria, possuindo presbitério de um degrau em frente da face das capelas laterais e do arco triunfal. Coro-alto de cantaria, de perfil curvo, com guarda em balaustrada ritmada por acrotérios, assente em duas consolas formando pingentes e duas colunas, sobre plintos paralelepipédicos almofadados. O coro insere-se em amplo arco de volta perfeita, biselado e formando almofadas côncavas, com fecho saliente, envolvido por moldura exterior que se prolonga até ao entablamento em falso canopo; o arco assenta em pilastras, igualmente biseladas, abrindo-se no chanfro central portas de verga reta, acedidas por meio de escadas desenvolvidas na espessura dos muros, e nichos em arco, albergando imaginária. A parede fundeira da nave possui, ao nível do coro azulejos azuis e brancos, formando silhar, de representação figurativa e, ao meio, órgão de armário. No sub-coro existe guarda-vento de madeira, almofadado e formando lateralmente falsas mísulas; de cada lado tem, tal como as portas travessas, pias de água benta de taça hemisférica e exteriormente gomeada, sobre pés cilíndricos. Os dois panos laterais que se seguem são semelhantes dois a dois, e possuem ao centro arco longilíneo, de volta perfeita e chave saliente, ladeados por dois eixos de três registos separados por friso e cornija, possuindo no primeiro porta recortada, com fecho fitomórfico formando pingentes, encimada por cornija reta, no segundo nicho em arco de volta perfeita, de moldura igualmente recortada, albergando estátuas dos Apóstolos, e, no terceiro registo, painel retangular desnudo, com moldura de ângulos curvos e florões. Sobre o arco abre-se janelão de verga abatida, com moldura recortada e fecho saliente. Os dois panos que flanqueiam o coro-alto integram no arco central porta travessa de verga reta, com moldura recortada, bandeira de madeira, almofadada e recortada, encimada por tribuna retangular, fechada por guarda vazada, e por janela termal com decoração fitomórfica vazada. Nos dois panos que se seguem, os arcos correspondem às capelas laterais, dedicadas a Nossa Senhora da Conceição, no lado do Evangelho, e a São José, no da Epístola, com retábulos de talha policroma e dourada, de planta reta e um eixo. Junto à capela da Epístola dispõe-se o púlpito, com bacia de cantaria facetada assente em coluna balaústre, ornado a meio, e com guarda plena de madeira, almofadada, pintada a marmoreados fingidos a rosa, verde e branco, acedido por escada de madeira com guarda igual. Arco triunfal de volta perfeita biselado e com almofadas côncavas, sobre pilastras igualmente biseladas, rasgadas no chanfro central por dois nichos sobrepostos, pouco profundos e desnudos, envolvido por moldura exterior que se prolonga até ao entablamento em falso canopo. A capela-mor apresenta as paredes laterais com azulejos azuis e brancos formando silhar, com representação de quatro curas milagrosas de Cristo. Superiormente abrem-se duas tribunas interligadas, a primeira com vão recortado e sacada avançada ligeiramente, assente em duas mísulas e a segunda de varandim, ambas com molduras almofadadas e recortadas e com dupla guarda, a inferior em balaustrada de cantaria e a superior de madeira vazada. Sobre supedâneo de vários degraus, dispõe-se o retábulo-mor, em talha pintada a marmoreados fingidos a rosa, verde, azul, amarelo e dourado, de planta reta e um eixo definido por duas colunas de fuste liso, assente em dupla ordem de plintos paralelepipédicos, os inferiores almofadados, e de capitéis coríntios, sustentando o ático em frontão triangular com forte denticulado, o vértice re-entrante e, possuindo no tímpano elementos fitomórficos dourados; sobre o frontão surge amplo resplendor com o Delta Luminoso ladeado por dois anjos de vulto ajoelhados, todos dourados; ao centro possui nicho em arco de volta perfeita, com moldura formando falsos brincos retos e pingentes, interiormente com apainelado almofadado e decorado por elementos vegetalistas, possuindo ao centro mísula escalonada e recortada, sobreposta por motivos vegetalistas e festões, sustentando candelabros; exteriormente, ladeiam as colunas falsas pilastras decoradas com motivos vegetalistas dourados; ao centro existe maquineta envidraçada, em talha pintada a marmoreados fingidos a azul, com ângulos facetados ornados por motivos fitomórficos, que enquadram a porta trilobada e sobrepujam o remate em entablamento; alberga a Cruz do Senhor da Pedra, inserida em base dourada, com volutas e motivos vegetalistas. Em frente e num plano avançado dispõe-se banqueta tipo urna com friso vegetalista tendo frontalmente mesa de altar em cantaria. Entre a maquineta e a banqueta desenvolve-se passadiço com escadas, de ambos os lados, com guarda plena de madeira, de remate curvo, para permitir a aproximação e o toque ao Senhor da Pedra. A capela é circundada por corredores abobadados dispostos em vários registos que interligam os vários espaços, pequenas salas poligonais e acedem ao coro-alto e às várias tribunas. No primeiro registo os corredores conduzem à sacristia, que tem arcaz com módulos de três gavetas, encimado por espaldar em talha pintada a marmoreados fingidos, rematado em entablamento e seccionado em vários panos por pilastras, coroadas por pináculos fitomórficos; o espaldar integra dois espelhos rematados por espaldar fitomórfico e, ao centro, um nicho, de perfil curvo, boca rendilhada, rematada em cornija contracurva sobreposta por espaldar fitomórfico e albergando imagem do Crucificado. No corredor da sacristia existem lavabos, sob janelas, com depósito em urna, decorada por festões de drapeados, lágrimas, motivos vegetalistas e dois florões com bicas, sobre pé que assente em estrutura semicircular para suporte de vasilhame e com tampa coroada por bola. Sobre a sacristia desenvolve-se a sala das sessões.
Materiais
Estrutura de alvenaria rebocada e pintada; embasamento, pilastras, frisos, cornijas, pináculos, fogaréus e molduras dos vãos em cantaria; portas de madeira; grades em ferro; coro-alto, bacia do púlpito, pias de água benta, colunas e outros elementos interiores em cantaria; guarda-vento, guardas das tribunas e arcaz em madeira; guarda do púlpito em madeira pintada; silhares de azulejos; retábulos de talha policroma; telas pintadas; estátuas de gesso; pavimento de madeira e de mármore branco e cinzento italiano na igreja e cerâmico nos corredores; coberturas em falsas abóbadas de berço, de estuque e cúpula de madeira na nave; cobertura de telha.
Observações
*1 - Existem diversas lendas subjacentes à construção do santuário do Senhor Jesus da Pedra, mas todas tendo na base os maus anos agrícolas e as doenças, para as quais a imagem do Senhor da Pedra (cruz de pedra com a imagem relevada de Cristo, exposta no retábulo-mor) tinha poder de intercessão. A mais popular refere que, durante uma prolongada seca na região, na década de 1730, um lavrador foi chamado pela imagem, que se encontrava escondida num combro por entre silvados, num terreno da Colegiada de Santa Maria de Óbidos, junto à estrada que ligava a vila às Caldas da Rainha, a qual lhe dissera que não iria chover enquanto não se venerasse condignamente a uma imagem. Outra versão conta que decorria um ano agrícola muito seco e a imagem foi encontrada num lugar onde havia um pequeno olho de água. A imagem, motivo de veneração, foi caindo em esquecimento. No séc. 18, sendo a região de Óbidos assolada por uma seca e após terem falhado várias procissões intercedentes, um lavrador recordou a antiga devoção da cruz que foi então objecto de procissão, chovendo finalmente em abundância, concorrendo tal evento decisivamente para a fama da cruz. Segundo Frei Dionísio Matoso, existia a tradição de ter sido a rainha D. Leonor, mulher de D. João II, que, enquanto viúva, mandara construir o cruzeiro com Cristo gravado junto ao caminho de Óbidos - Caldas, para indicar o caminho das águas curativas das Caldas da Rainha, caindo posteriormente no esquecimento. A devoção ao Senhor da Pedra parece, portanto, ser antiga, dirigindo-se ao local do cruzeiro protegido por uma capela de madeira algumas procissões, como a das ladainhas. Mas, devido à distância da vila e a outros fatores, o hábito foi-se desvanecendo, passando a cruz ao abandono, até ser reedescoberta no séc. 18.