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Mosteiro de Santa Maria das Júnias

Mosteiro de Santa Maria das Júnias

O ponto de interesse Mosteiro de Santa Maria das Júnias encontra-se localizado na freguesia de Pitões das Junias no municipio de Montalegre e no distrito de Vila Real.

Mosteiro Cisterciense com igreja composta por uma nave poligonal, românica e capela-mor, gótica, com dependências conventuais desenvolvidas a S., de que conserva troço de arcada gótica do clausto e outras construções. A nave foi alteada na época renascentista conforme atesta a cornija. Fachada principal da igreja terminada em empena de cornija truncada por dupla sineira, tendo portal de arco de arco pleno. Interior com púlpito no lado do Evangelho, dois retábulos colaterais e retábulo-mor barroco, de estilo nacional de transição. A implantação do mosteiro a uma cota tão elevada, de plena montanha, arredado de bons terrenos agrícolas testemunha o interesse pela pastorícia. Denota-se certa uniformidade na largura das construções ao longo de diversas épocas (largura da igreja - 7.10 m, construções modernas das alas E. e S. com 7.10 m, cozinha setecentista com 7.20 m) o que lhe confere certa harmonia. Segundo Rui Maurício, o portal principal parece conciliar na sua composição o sistema decorativo do Vale do Cávado com a organização estrutural recorrente no românico rural da Galiza.

Planta composta formando um trapézio, tendo a igreja implantada a N. e as restantes construções a S. A igreja é de uma nave retangular com capela-mor também rectangular, mais baixa e estreita, com coberturas em telhados de duas águas na primeira e de uma na segunda, de pendor S. - N.. Fachada principal rematada em empena de cornija truncada por um campanário de dupla ventana - já sem sinos - encimado por uma cruz metálica ladeada por dois pináculos com remate boleado, idênticos aos que nas extremidades da empena sublinham os cunhais. Portal em arco perfeito de duas arquivoltas, a interna lisa e de arestas vivas e a exterior decorada com lancetas, apresentando o friso que a envolve três estreitos bocéis e um zig-zag duplo, sobre impostas, decoradas com motivos cordiformes que se prolongam num friso em toda a fachada; o tímpano é vazado, formando ao centro uma cruz de Malta inscrita num círculo e de ambos os lados três perfurações circulares; o dintel, decorado com bandas de quadrifólios, apoia-se sobre mísulas também elas decoradas com círculos e cruzes. Encima o portal, fresta, estreita e alta. Fachadas laterais da nave semelhantes, rematadas por friso e cornija moldurada, e percorridas por friso decorado com duas linhas contínuas em zig-zag; sob este, dispõem-se cinco mísulas de decoração geométrica, excepto duas na fachada N., e sobre ele abrem-se duas frestas rectangulares. No topo da nave, abrem-se ainda duas portas travessas confrontantes, de arco pleno, sem decoração e tímpano vazado por cruz de Malta inscrita num círculo, tendo o dintel N., assente em impostas lisas, encontra-se truncado no centro. A capela-mor possui vãos laterais actualmente tapados, rasgando-se uma janela rectangular central que destruiu parcialmente o antigo mainel; a janela axial, tem também sobreposição de elementos de estilos diferentes; na zona inferior conserva-se o arranque da fresta original românica, notando-se as bases dos colunelos laterais que foram destruídos pela construção da janela gótica em arco quebrado e tímpano central trilobado, entre duas frestas de arco quebrado. Na fachada S. tem adossadas as ruínas da antiga ala dos monges, tendo sido alteada até à cércea desta. Ao nível do primeiro piso antiga porta de ligação, agora tapada. No INTERIOR, a nave possui na parede da fachada principal, ao nível das impostas da porta, um friso lanceolado que envolve também o arco, e, à altura da fresta axial, um friso decorado com três fiadas de bilhetas, o qual se prolonga pelas paredes laterais à altura das frestas; estas apresentam internamente remate em arco de volta perfeita. Pavimento de lajes em granito e tecto em madeira. Sensivelmente a meio da nave, do lado do Evangelho, púlpito muito simples com varandim e corrimão em madeira. Arco triunfal de duas arquivoltas lisas assentes em ábacos biselados decorados com bolas, ladeado por dois retábulos de talha. Capela-mor coberta por abóbada de barrete de clérigo, apoiada em mísulas de canto. Retábulo-mor de planta rectangular e três eixos, divididos por colunas torsas com putti e pâmpanos, assentes em consolas decoradas por acantos, as exteriores apoiadas em pilares de pedra com motivos geométricos; ao centro, camarim, coberto por caixotões, com trono, e lateralmente duas mísulas; as colunas prolongam-se em duas arquivoltas formando ático, interrompido por brasão central; sobre altar de pedra, sacrário decorado com acantos e anjos, tendo na porta um Agnus Dei. O mosteiro compreende dois corpos com primeiro andar e segundo dispostos em ângulo. O primeiro corpo, situado ao longo do rio, no prolongamento do lado S. da ábside, constituía o dormitório dos monges. A fachada E., com desenvolvimento horizontal, conserva seis janelas quadradas no segundo piso, algumas com conversadeira, e outras seis, mais pequenas no primeiro. Do lado S. as construções dividem-se em dois corpos com orientação diferente, convergindo para o exterior, na zona central. Aí se localiza uma abertura que liga do exterior ao espaço do claustro. A fachada S. do lado do rio apresenta empena de duas águas assimétricas, tendo duas janelas no segundo piso e sob uma delas uma fresta no primeiro. Do lado contrário, no corpo onde se localizava a cozinha, a fachada S. apresenta uma empena de duas águas assimétricas e uma pequena fresta no segundo piso. A cozinha, situada no ângulo SO, conserva a chaminé de forma piramidal com pináculo de remate boleado. Um antigo sarcófago reutilizado na parede recebe as águas de uma poça, canalizadas através de uma conduta em pedra. A parede que limita o recinto pelo lado O. funciona como muro de suporte do terreno exterior da encosta, mais elevado. Só na zona mais a S. a parede se apresenta mais alta que o terreno, terminando no que resta da ombreira de um arco em bisel. No topo O. o espaço é fechado por um muro que une estas construções à igreja, tendo um portal de acesso formando ângulo recto com a fachada da igreja. Do claustro, situado no interior deste espaço, resta apenas uma parte da arcada do lado S. da nave. É composta por três arcos de volta perfeita e delimitada por pilares quadrados nos extremos. As pequenas colunas geminadas possuem bases e fustes lisos, capitéis com folhas e volutas, ábacos baixos, lisos e biselados. Um muro de pedra vã, adossado à fachada lateral N. da igreja, delimita um recinto sub-rectangular, com acesso por portão de ferro, utilizado como cemitério.

Materiais

Estrutura em granito com paredes da igreja em aparelho isódomo e pseudo-isódomo, evidenciando as várias fases de construção. Madeira. Cobertura da igreja com telha de aba e canudo.

Observações

*1 - A construção do mosteiro parece ter sido rápida, talvez devido à abundância de afloramentos graníticos na proximidade, que funcionavam como estaleiro. A construção junto a um riacho provocou um rápido assoreamento da área (pelo que a capela-mor anos depois teve de ser substituída por outra), grande enterramento do corpo da igreja e baixamento das portas, facto que talvez tivesse levado ao desaparecimento da cornija românica ao subir-se o corpo da nave. *2 - As sondagens arqueológicas no claustro puseram a descoberto dois tipos de sepulturas, as estruturadas com pequenas lajes graníticas, em caixa, e as escavadas nos depósitos argilosos; estas últimas, cronologicamente anteriores, uma das quais com recorte antropomórfico, correspondem à ala N. do claustro, junto à parede da igreja, a que são paralelas. Identificou-se ainda a sapata da arcada do claustro na ala E. e o leito da mesma sapata para O.. A S. não foi detectada, mas uma vala, que na sequência estratigráfica, é imediatamente anterior à vala de fundação do actual muro a S., bem como foi definida uma área funcional dedicada ao trabalho do ferro. *3 - A comunidade monástica de Pitões das Júnias deve ter sido sempre relativamente modesta, quer em número de monges, quer em termos de poder económico, o que se espelha no tamanho das instalações construídasem torno do claustro. Para além da pastorícia, os monges deveriam também dedicar-se ao apoio dos peregrinos que, vindos de Chaves e de Montalegre, optassem por seguir o caminho secundário do Barroso antes de atingirem a Galiza e Santiago de Compostela por Santa Comba de Bande e por São Miguel de Celanova. Ainda que esporádico, este apoio traduzir-se-ia em algumas esmolas e dádivas à comunidade.