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Jardins da Quinta dos Embrechados

Jardins da Quinta dos Embrechados

O ponto de interesse Jardins da Quinta dos Embrechados encontra-se localizado na freguesia de Lumiar no municipio de Lisboa e no distrito de Lisboa.

Espaço verde de recreio. Quinta de Recreio barroca, rococó e neoclássica. Possui casa apalaçada, capela, aposentos rurais, jardim azulejado e dependências do colégio. O jardim é quadrangular, com eixo longitudinal a partir da casa, formando vários percursos ou alas transversais e paralelas aos muros que o cercas, quase integralmente coberto por azulejaria produzida na sua maioria na Real Fábrica de Faianças do Rato que se integra primeiro na fase inicial do rococó (1745-1755) com temáticas de caçadas, de festas, do quotidiano, da mitologia clássica a azul e branco, de motivos religiosos como painéis figurativos religiosos, alusivos a Cristo e a São João Baptista. Surgem, também, nos espaldares dos bancos e canteiros. Possui um lago centralizado, em cantaria, coberto por caramanchão, rodeado por banco corrido, interrompido por colunata, que flanqueia os espaldares dos bancos, com decoração de temática mitológica. O horto de recreio é um exemplo interessante dos jardins do séc. 18 que chegou até à actualidade, sem que tenha sofrido significativas alterações. O carácter de espaço fechado determinado pela contenção dos altos muros é prevertido pela imagética azulejar figurativa que reveste, bancos, alegretes, barras, molduras, colunas, medalhões e capitéis que se encontram adossados e a coroá-los, com caminho central e perursos periféricos, que ligam entre si por arcadas revstidas a azulejo policromo. Duas das alas são semelhantes, marcadas por colunas e por bancos contracurvados, encimados por painéis de azulejo, tendo, nos topos, fontes com falsas cascatas. O azulejo varia entre o gosto pela monocromia (azul ou vinhoso), utilizado no figurativo, rodeado por molduras policromas, com profusa decoração de concheados, asas de morcego, elementos vegetalistas, revelando uma linguagem rococó, pontuada, nas arcadas, por alguns elementos que anunciam o neoclassicismo, com o recurso aos apainelados lisos e florões. As cenas figurativas são maioritariamente do quotidiano ou galantes, inspirados em obras de Watteau. Destaca-se uma ala revestida a azulejos temáticas de animais mais ou menos exóticos correspondente à última década do reinado de D. José I, ou seja, ao período áureo da laboração da Fábrica do Rato. Os painéis são enquadrados por motivos decorativos ao gosto rococó, como as asas de morcego, os concheados e as palmetas, bem como motivos vegetalistas (grinaldas e florões) e de feição arquitectónica tanto nas galerias, como nos espaldares dos bancos, nos alegretes, nas molduras, nas colunas, nos capitéis e na colunata, com composições ornamentais e medalhões com busto neoclássicos.

A quinta e o jardim desenvolvem-se na zona posterior do edifício, situado no extremo da propriedade e confinando com a via pública, com acesso a partir de um amplo pátio, pavimentado a calçada portuguesa, através de um porta em arco abatido e moldura simples em cantaria, protegido por porta de duas folhas metálicas, formando volutas, enquadrado por falsas pilastras toscanas, pintadas de bege e branco, que sustentam pequeno friso, surgindo, entre este e a verga, um painel de azulejos policromos (azul-cobalto, verde-cobre, amarelo-antimónio, roxo-manganês e óxidos de ferro), compondo três cartelas, a central com a figura de São Pedro, todas envolvidas por tarjas e largos enrolamentos de acanto sobre os quais se adossam elementos concheados sobrepostos ou intercalados por ramos e flores. O lado oposto do portão encontra-se, igualmente, revestido a azulejo, com o acesso flanqueado por duas estípides, sustentadas por duas ordens de plintos, encimadas por vasos, surgindo, sobre o vão, um enorme espaldar recortado, rematado por uma urna do tipo "Médicis", o qual contém um plinto que sustenta uma jarra. O jardim é de pequenas dimensões e encontra-se fechado por altos muros, revestidos a azulejos, dividido por um eixo central, determinado pela posição da casa, que se desenvolve da porta até a uma adulterada casa de fresco, sendo sucessivamente interceptado por eixos transversais; o principal encontra-se coberto por uma pérgula de glicínias e rosas e o conjunto encontra-se pavimentado em calçada à portuguesa. Existe um percurso periférico, encostado aos muros, que percorre todo o espaço e termina em portas que estabelecem ligações com as restantes áreas da quinta. No lado esquerdo, o pecurso periférico denomina-se "Passeio", pavimentado a gravilha e circunscrito entre colunas oitavadas, assentes em plintos com o mesmo perfil, apresentando capitéis de inspiração coríntia e rematadas por vasos em faiança, que se apresentam integralmente revestidos a azulejos policromos figurativos, formando elementos geométricos, onde dominam os encanastrados, entrelaçados e elementos fitomórficos. Entre cada coluna, desenvolvem-se bancos curvos, de espaldar recortado, flanqueados por pequenas colunas cilíndricas, revestidas a azulejo, formando uma falsa espira fitomórfica. Os assentos dos bancos são ornados por cartelas recortadas, por concheados e acantos, surgindo, nos espaldares, pintados a roxo manganês, cenas agrícolas e campestres, rodeadas por molduras plicromas fitomórficas, rematadas por uma concha. No lado esquerdo, desenvolve-se o muro, interrompido por pilastras assentes em plintos paralelepipédicos, que flanqueiam painéis figurativos, com cenas galantes e religiosas, possuindo, na base, canteiros e bancos rectilíneos, tudo forrado a azulejo policromo. Os painéis são policromos (azul, manganês, ocres e verdes) com a representação de cenas religiosas, de jardim, da corte e de galanteio com molduras assimétricas que se desenvolve em largos enrolamentos sobre os quais se adossam elementos concheados e arquitectónicos, flores, ramos, festões e grinaldas, surgindo, nos espaldares da esquerda de quem entra: cena de exterior de palacete com escadaria, fontes e figuração humana, seguindo-se a "Multiplicação dos Pães", cena de exterior de palácio com fontes de água e Neptuno e com figuração humana e as "Bodas de Cana". Nos canteiros e bancos, surgem cenas de galanteio, em roxo manganês. No topo, uma fonte com cascata, formando nicho em arco abatido, assente em misulas cerâmicas, com o interior revestido a embrechados e falsa cascata, que verte para tanque tronco-cónico invertido, em cantaria, flanqueado por dois painéis de azulejo em tons vinosos, representando cenas campestres ligadas à música. O conjunto é flanqueado por estípides, assentes em duas ordens de plintos, que sustentam espaldar contracurvado, com cornija saliente, tudo revestido a azulejo policromo, contendo um painel em monocromia, azul sobre fundo branco, representando uma figura feminina a ensinar um jovem, rematando em urna. No lado direito, desenvolve-se arcada de volta perfeita, assente em pilastras com o intradorso ornado por azulejo geométrico e fitomórfico, rematada por cornija e encimada por espaldar com albarrada e vaso, a qual dá acesso a outro eixo periférico, pavimentado a terra batida e seccionado por arcada. A primeira parte da ala tem, no lado esquerdo, quatro painéis de azulejo monocromo, branco, que serve de moldura a imagens de vulto em faiança branca, assentes em peanhas também em faiança, representando figuras da mitologia clássica, surgindo, intercalados, dois Apolos e duas Vénus, uma delas resultante da interpretação da Vénus de Milo, que intercalam com painéis de azulejo, em tons vinosos, representando diversos animais inspirados em estampas de zoologia (leões, águias, avestruzes, búfalos, veados, corças, cabras monteses, macacos, pêgas, pavões, patos, papagaios, entre outros); são flanqueados por canteiros semicirclares e, na base, surgem bancos contracurvados, revestidos a azulejos, ornados por cartelas e elementos concheados. A meio da ala, surge um arco de volta perfeita, assente em pilastras, rematado por espaldar com cartela figurativa, em monocromia, azul sobre fundo branco, representando uma cena do quotidiano familiar, sendo o conjunto envolvido por concheados, elementos fitomórficos, carranca, tudo encimado por uma urna do tipo "Médicis". A seunda parte da ala possui o muro revestido a azulejo, com um primeiro registo em monocromia, azul sobre fundo branco, onde surgem elementos arquitectónicos, cenas campestres e albarradas floridas encimado por painéis de perfis recortado, numa sucessão sinuosa, com figuração a roxo manganês, representando cenas do quaotidiano, algumas agrícolas, rodeados por molduras policromas, com concheados, asas de morcego, enrolamentos e flores. Encostados ao muro, canteiros com flores. No topo da zona revestida a azulejo do muro, pequena porta rasgada no muro e que dá para a Azinhaga da Fonte Velha, com a moldura forrada a azulejo de pedra torta azul e com padronagem da mesma tonalidade. O muro prossegue, em betão, reforçado por pilares internos. No lado direito, partindo da casa, surge uma ala semelhante à primeira, composta por colunas, bancos curvos e o muro forrado com azulejos, tendo canteiros e bancos corridos, com temática e forma semelhantes às anteriores; nos painéis aparecem: cena de exterior de palacete, escadaria e figuração humana, "Dança de Herodíades", a "Degolação de São João Baptista", cena de exterior de palacete, fontes de água, escadaria e figuração humana, " São João Baptista a Pregar" No topo, uma fonte com cascata, semelhante à anterior, tendo, no lado direito, arcada, também semelhante à do lado oposto, de acesso à quarta ala. Esta possui dois espaços diferenciados, um primeiro marcado pelo muro recortado e sobrepojado por urnas de faiança, revestido a painéis brancos, superiormente azuis, representando cenas quotidianas, envolvidas por laçarias e elementos vegetalistas. Adossados ao muro, surgem canteiros recortados, intercalados por plintos curvos, revestidos a azulejo de monocromia, azul sobre fundo branco, com cenas mitológicas, encimados por pequenas peanhas que sustentam estátuas de faiança que representavam as Quatro Estações (restando intacto o "INVERNO"). As cenas surgem identigicadas por uma legenda, sucedendo-se : "CISNE", "ANDROMEDA", "PERSEO", "PLEADAS", "ICARO", "ECO", "NARCIZO", "ALFEO", "ARETUSA", "LIANDRO, "ERO", "ARIM", "SCILLA" e "PROCOPO". Ao centro do muro, surge uma fonte do tipo nicho, com o interior com tanque em cantaria, semicircular, e embrechados e o exterior revestido a azulejo, com acesso por arco de volta perfeita, assente em pilastras e pedra de fecho em forma de carranca, flanqueado por estípides, encimadas por pilaretes e vasos com flores, ocupando parte do espaldar, recortado e rematado em cornija e urnas de cantaria, possuindo, ao centro, uma cartela alegórica, rodeada por concheados e vasos floridos, sob a qual surge a inscrição "EUROPA". A ala possui um segundo espaço, marcado por um largo gerado pelo conjunto de um caramachão que cobre um chafariz circular, de bordo boleado e com plinto galbado e ornado por acantos ao centro. Enconta-se rodeado por colunata revestida a azulejo, que encima, parcialmente, um banco corrido curvo, ornado por almofadados e florão; as colunas são oitavadas, assentes em plinto saliente e com o mesmo perfil, criando sete vãos de arco em cortina, sobre os quais surgem elementos ornados por reserva formada por bustos antrompomórficos, que sustentam cornija. Entre as colunas, os espaldares do banco, de perfil recortado, ornados por um dragão, massa de Hércules e a pele do leão sua vítima, tudo envolvido por concheados e asas de morcego. Surgem, ainda, bancos curvos com espaldares recortados com animais fantásticos e cenas de galanteio e de pesca, que fecham pequenos canteiros. No topo da ala, arco de volta perfeita, assente em pilastras, tudo revestido a azulejo, flanqueado por duas colunas coríntias e figuras de convite, que sustentam cornija e espaldar recortado com cartela rodeada por anjos, que centram uma "Caridade". O interior da retícula é preenchido por um jardim de buxo de traçado curvilíneo, onde se encontram algumas árvores de grande porte, Cupressus sp. e Araucaria sp. Todas as outras partes, pomar e horta se encontram completamente adulteradas, restando apenas na área de pomar, alguns painéis de azulejo.

Materiais

Calcário, mármore, tijolo, telha cerâmica, ladrilho cerâmico, azulejo, vitral, vidro, estuque, estuque trabalhado, ferro forjado e fundido, alvenaria mista, reboco pintado, madeira, madeira pintada.

Observações

*1 - DOF:... Quinta dos Azulejos, no Paço do Lumiar, na parte em que existem espécies cerâmicas do século XVIII. *2 - comprador do guarda-roupa das princesas do Brasil, da Beira e das infantas, guarda-mor do Sal desde 1753 e cavaleiro da Ordem de Cristo; teve uma única filha e herdeira D. Maria Josefa casada com João Pedro da Silveira seu sucessor no cargo de Guarda-Mor do Sal em 1762 e que, em 1766, passou para o seu filho José Maria Boaventura Silveira. *3 - "Hoje, 3 de Novembro de 1753, António Colaço Torres, grã-cruz da Ordem de Cristo, recebe a visita do rei D. José I e da rainha D. Maria Ana. Ao cair da noite, sob um céu constelado de estrelas, os lustres do jardim desenham novas constelações multicolores e geométricas. Uma brisa húmida vinda do amplo estuário do Tejo agita as chamas das velas, alonga e desfigura as sombras. / Longas padiolas em forma de barcas, com damas cor de cereja seguidas de lacaios africanos e indianos, portadores de archotes, vogam através dos grupos. António Colaço Torres oferece agora ao príncipe sorvetes de limão da Tunísia, de groselha à moda italiana, pérolas de melão geladas e regadas com vinho do Porto muito velho, uvas passas caramelizadas e maceradas num vinagre raro perfumado com grãos de cravinho. / 3 de Novembro de 1753: já nos paióis se preparava, insidioso, o tremor de terra que dentro de alguns meses devastaria Lisboa... palácios, igrejas, quartéis, conventos, quarteirões inteiros, tudo ou quase ia desmoronar-se. Os incêndios, as vagas chegadas do alto mar, como esquadrões violentos, porão a cidade a saque e liquidarão a população. / O jardim de faiança do Paço do Lumiar, esse, por protecção divina, será poupado." (WEELEN, 1992). *4 - são dessa época estas recordações: "Estou vendo (...) no aristocratico páteo, a um lado o grande tanque esverdeado e doirado (...) / Estou vendo as duas escadas de pedra, subindo uma para a capella, a outra para as salas. Ao fundo o portão de ferro do jardim; nelle os alegretes de porcelana e marmore, os vasos da China, os azulejos historiados. Na primeira rua as duas cascatas, correspondendo-se de extremidade para extremidade; a da esquerda com o seu Baccho a cavallo numa pipa; a da direita com uma sereia; outras duas de um brutesco magnifico aos dois tôpos da rua de arcaria chamada do Principe D. José, que ali costumava espairecer-se. Na meia-laranja da direita, entre estas duas ruas, a opulenta cascata, com o collosso do Tejo reclinado com a sua urna sôbre penedias bravas, e sôbre um florido pórtico de conchas; aos lados, dois cisnes; as aguas repuxam de todas as partes. Defronte, um tanque redondo repuxa tambem uma arcaria líquida e prismática, até á abóbada de verdura, que alastra sombras movediças, e em cujo vertice pompeia, de trombeta em punho, uma estátua da Fama. / Quasi ao fundo do jardim, uma sala vegetal, com assentos e meza de mármore, guarda tantas sombras e frescura, contém tanto silencio e mysterio, no meio de tão profusos ruidos de aguas e folhagem, que um poeta ali se fartaria de inspiração, e dois noivos de ventura. Eu e as outras crianças só espreitavamos tudo aquillo de longe, porque uma criada velha (que não podia mentir) nos tinha dito que morava lá uma princeza moira. (...) / Ao sahir do jardim a horta, o pomar com a sua nora, as searas com a sua eira. (...) / Uma tarde... foram todos os da casa ao convento de Odivellas; fiquei eu só com a criada velha. Estamos á janella da casa de jantar; avistamos, lá por um oiteiro, o nosso rancho em burrinhos de albardas verdes e encarnadas; um sol magnifico envolve tudo aquillo; que invejas para mim! / N`um recanto da casa arrulham as rolas n`um viveiro de arame, alto como uma torre (...)" (CASTILHO, 1926). *5 - Padre Augusto Gomes Pinheiro, mais conhecido por "Senhor Prior" (1893-1976), nasceu no Carvalhal da Aroeira (São Pedro, Torres Novas) e desde cedo ficou ao cuidado da sua tia após a morte prematura da mãe; ingressou no Seminário de Santarém e depois no dos Olivais onde concluiu o Curso de Teologia em 1916, sendo ordenado padre em 6 de agosto do mesmo ano; iniciou a sua missão de Educador como Pároco de Enxara do Bispo (Mafra) e, mais tarde, na Venda do Pinheiro até fundar em 1935 o Colégio Manuel Bernardes, no Paço do Lumiar; em 19 de março de 1945, recebeu o grau de comendador da Ordem de Instrução Pública.