Arquitectura industrial e piscatória, romana. Jazida arqueológica situada sobre pequena rechã formada por terrenos argilosos do "Paleogénico indiferenciado" (SILVA, COELHO-SOARES, 1987). Complexo da Época Romana com zona industrial de acordo com planimetrias, tipos de edifícios e materiais de construção aí encontrados, característicos da época: zona industrial com cetárias com diversos tamanhos de acordo com o uso dado a cada uma, com forma quadrangular de cantos em meia cana, tendo em conta problemas de higiene, com os interiores revestidos com argamassa signina; restos das paredes que subsistem são em alvenaria de pedra de tamanho médio, com ligamento de adobe; instalações de banhos com dois compartimentos quadrangulares, canais para condução das águas, forno, arcos e arquilhos de tijolo maciço; emprego de rebocos e concreto.
Ruínas que integram uma unidade fabril de salga da época romana, constituídas por oficinas, fábrica, e balneário em bloco independente. A fábrica é de planta rectangular, possuindo onze tanques (cetárias) e um pátio que abre para o exterior, a S.. Completamente cercada por espesso muro, apresentando uma abertura de 1,4 m da banda S., com soleira formada por dois grandes blocos de pedra, com pequeno degrau. Os TANQUES, destinados ao fabrico de salsamenta (as conservas de peixe, feitas a partir de lombos de cavala, sardinha e atum) têm plantas quadrangulares, rectangulares, cujas profundidades actuais variam entre cerca de 0,5 m e 1 m, distribuem-se por dois grupos funcionais: o das salgadeiras - constituído por muretes com 0,3 m de espessura, formados por blocos de pedra, de dimensões médias, ligados por argamassa; adossam-se ao muro exterior da fábrica ou são comuns a duas ou mais salgadeiras quando estas confinam entre si; internamente os cantos são acentuadamente arredondados chegando à forma quase ovalada, ndo sido evitadas as arestas vivas por questões de higiene; são revestidos nos fundos e nas paredes por resistente "opus signinum", desprovidos de fragmentos de cerâmica, tornado impermeável para a salga, onde o peixe macerava em sal; o outro grupo funcional de tanques marca a segunda fase da construção da fábrica: construídos provavelmente quando esta estava já em funcionamento, reutilizando o pavimento do pátio como fundo; os novos muros estão edificados sobre o mesmo pavimento e adossam-se ao revestimento de "opus signinum" dos muros pé-existentes e têm revestimento semelhante ao das salgadeiras (gravilha amassada com cal e areia): são menos profundos e têm um fundo menos impermeável (seriam reservatórios de sal ou de peixe); um é de planta subquadrangular e o outro é de planta trapezoidal (SILVA, COELHO-SOARES, 1987). O pátio de planta em L, com pavimento formado por calhaus subrolados argamassados; no braço O. existe uma depressão em calote de esfera, rico em fragmentos de cerâmica (possível estrutura de limpeza do pátio). Troço de canalização de direcção NS.-SO. passa por baixo da fábrica de salga, com largura máxima de 0,5 m e profundidade de 0,6 m. No exterior da fábrica, construções: muro em arco de blocos não aparelhados que se adossa troço O. do muro que limita a fábrica a S., respeitando a zona de entrada da fábrica; dois muros prependiculares ao que limita a fábrica a O.; um muro prependicular ao que limita a fábrica a E. (SILVA, COELHO-SOARES, 1987). POÇO ainda não escavado: era imprescindível água doce, em abundância, para o funcionamento deste centro de preparados piscícolas; nesta zona da serra a água superficial é escassa, mas uma das suas raras nascentes situava-se junto à fábrica, para o que esta dispunha de um poço de mergulho, a partir do qual a água era canalizada para a cisterna, situada junto ao balneário. ARMAZÉNS situados a NE. dos tanques: conjunto de compartimentos de planimetrias rectangulares, justapostos, com funções de armazenamento, parcialmente escavado. BALNEÁRIO que se estende para a E., parcialmente escavado, de pequenas dimensões com hipocausto e fornalha, com compartimento para banhos quentes (caldarium) com a boca do forno, e outro para banhos frios (frigidarium), com sistema de circulação do ar à vista.
Materiais
Pedra: calcário comum, calcário conquífero, brecha da Arrábida; alvenaria: cal e areia ligada por argila, "opus signinum".
Observações
*1 - no último quartel do Séc. 01, fim da primeira fase do Creiro, assiste-se à construção das fábricas de salga da Praça do Bocage e da Travessa de Frei Gaspar em Setúbal, coincidindo com o possível início do florescimento industrial de Setúbal Romana (SILVA, COELHO-SOARES, 1987).