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Rua da Sofia

Rua da Sofia

O ponto de interesse Rua da Sofia encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Coimbra (Sé Nova no municipio de Coimbra e no distrito de Coimbra.

Componente urbano. Eixo viário. Rua. Espaço urbano de formação linear, cujo eixo matricial é uma via larga e direita, construída na 1ª metade do séc. 16, numa altura em que aflorava o Renascimento em Coimbra. A Rua da Sofia seguiu o modelo da universitária Rue de Sorbonne, em Paris, embora duplicando as suas dimensões de comprimento e largura (LOBO, 2006). O plano inicial idealizado por Frei Brás de Barros baseava-se na construção de um campus universitário em linha, em que os diferentes colégios se dispunham sequencialmente de um dos lados da rua (o lado NE.). Do outro lado seriam edificados habitação e comércio, que serviriam de apoio à universidade. É ainda possível estabelecer um paralelismo com a Rambla de Barcelona, a rua universitária da cidade, sendo esta, porém, um alinhamento pré-existente, um canal de escoamento de cheias sazonais. A sua implantação também era tangencial ao núcleo da cidade murada, funcionando como charneira entre esta e o arrabalde em crescimento (LOBO, 2006). Outra vertente científica defende um plano baseado num sistema de 5+1 propriedades de 5x4 módulos de base 6 braças, tendo 1+4 módulos de fundo. As medidas das frentes dos lotes aforados para construção de casas no lado poente da rua também eram aproximadamente submúltiplas de 6 braças (ROSSA, 2006). A altura dos edifícios surge igualmente referenciada a cerca de 6 braças de altura. Isto indica que a rua estaria planeada quer em termos planimétricos, quer em termos de altura das fachadas, existindo uma proporcionalidade entre a sua largura e a cércea dos edifícios. Apesar do seu carácter revolucionário, a Rua da Sofia segue a lógica urbanística da tradição portuguesa tardo-medieval, com a adopção do tipo "platea", uma rua larga, eixo estruturante do crescimento urbano. Dá-se aqui a conjugação de originalidade e tradição, algo comum na história urbana nacional (ROSSA, 2001). Relativamente aos tipos arquitectónicos de referência, existem dois padrões de colégio. O modelo conventual, fundado na arquitectura religiosa e no qual se inserem os colégios da Graça, do Carmo e de S. Pedro. O tipo palaciano, referente à arquitectura civil, do qual o Colégio do Espírito Santo terá sido o precursor. O Colégio de S. Tomás segue este exemplo, que viria a ser profusamente utilizado na Alta da cidade (exemplares destruídos no séc. 20 e substituídos pelas instalações universitárias actuais).

Formação urbanística quinhentista de traçado linear, estruturada por uma via larga e comprida, rigorosamente rectilínea, com 460 metros de comprimento e 12,5 metros de largura. Construída no sopé das colinas da Conchada e de Montarroio, apresenta-se praticamente plana, com um declive não perceptível. A cota altimétrica mais baixa situa-se nos 20 metros acima do nível médio das águas do mar e a mais alta, a 23 metros. A Rua da Sofia segue uma orientação SE./ NO. desde o seu elemento gerador, o Mosteiro de Santa Cruz (e o indissociável Largo de Sansão), até ao seu término, dando origem à Ladeira de Santa Cruz e à Rua da Figueira da Foz, que inflectem ligeiramente para O. Esta orientação corresponde a uma direcção paralela à margem do rio Mondego neste troço de território. O Mosteiro de Santa Cruz é o elemento catalisador do aglomerado urbano para Poente, sendo o Largo de Sansão o ponto de convergência de 8 ruas dispostas em leque com abertura na direcção do rio: a Calçada (actuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz), as ruas dos Pintadores (actual Rua do Corvo), Tingerodilhas (actual Rua da Louça) e da Moeda, a Rua Direita e, finalmente, a Rua da Sofia. O Largo de Sansão é o espaço estruturante a partir do qual se definiram os eixos que compõem toda a malha urbana das áreas centrais de cota mais baixa. Apresenta uma forma trapezoidal, com um lago central e 2 plataformas laterais sobrelevadas providas de rampas, dando acesso à Igreja de S. João das Donas (actual Café de Santa Cruz) e aos Paços Municipais. A actual praça, reformulada no final do séc. 20, articula-se de modo a potenciar a relação a diferentes cotas com os edifícios com a qual confronta, dando primazia ao equilíbrio outrora perdido na ligação com o Mosteiro de Santa Cruz. Os dois lados da Rua da Sofia ilustram realidades completamente distintas, quer ao nível morfológico e urbano, quer em termos topográficos. Para NE. os terrenos são mais declivosos e a frente urbana é muito mais fechada. Apenas podemos definir dois quarteirões de grandes dimensões, alongados no sentido da rua primordial, divididos pela Ladeira do Carmo, indicando que neste lado se preservou mais a integridade do plano original quinhentista. Para SO. a topografia caracteriza-se pela planura e o traçado urbano é mais permeável, existindo uma série de transversais que se direccionam para o rio. Denominam-se, a partir do Largo de Sansão e até ao fim da rua, por Tv. da Rua Nova (acesso à R. Nova), Rua Nova (acesso à R. Direita), Beco de S. Boaventura e Beco do Fanado (acesso ao Terreiro da Erva), Rua do Carmo (passa pelo Terreiro da Erva e liga à Av. Fernão de Magalhães), Rua João de Ruão, Rua Dr. Manuel Rodrigues e Rua João Machado (ligação à Av. Fernão de Magalhães), estas últimas abertas já no séc. 20. Existem assim 9 quarteirões para o lado SO., que apenas exibem alguma regularidade formal a partir da Rua do Carmo, uma vez que as ruas seguintes são de construção recente. A única saída da cidade para N. no traçado medieval era a estreita Rua Direita, frequentemente inundada pelo rio Mondego. Quando a Rua da Sofia é aberta passa a ser um eixo fundamental do crescimento de Coimbra, definindo uma direcção de força na malha urbana e constituindo uma alternativa de saída da cidade para N. Os quarteirões compreendidos entre os dois eixos viários estruturantes do conjunto, constituídos pelas Rua da Sofia e Rua Direita, são quarteirões com uma forma irregular, muito diferenciados entre si e entrecortados por ruas sinuosas, como a Rua Nova e a Rua do Moreno, sinal evidente da presença do traçado medieval. No entanto, existe um factor de variação relacionado com a proximidade em relação a uma ou a outra rua matricial. Junto à Rua da Sofia, os lotes têm uma escala maior e os prédios de rendimento são frequentes. Mais próximo da Rua Direita, o tipo de referência é o lote estreito plurifamiliar. Este é um dos factos que comprovam o carácter revolucionário do plano e do loteamento efectuado no séc. 16 para a construção da nova rua. No final desta zona, o Terreiro da Erva anuncia a transição do traçado medievo para uma situação mais regular, sendo um largo de dimensões consideráveis mas sem uma forma definida. É um espaço claramente remanescente, resultante da junção do Quintal do Prior ao Adro de Santa Justa. Nasceu neste local, no séc. 12, a primitiva igreja de Santa Justa, da qual ainda resta uma abóbada numa casa de habitação. A partir da Rua do Carmo, os quarteirões têm uma forma rectangular ou trapezoidal, orientando-se a maior dimensão do primeiro no sentido SO./NE. e dos outros dois na direcção perpendicular a esta. O plano quinhentista de Frei Brás de Barros determinava a construção de colégios no lado NE. da Rua da Sofia, ficando a frente oposta destinada à edificação de prédios de rendimento e comércio. A tipologia dos edifícios atesta esta opção, verificando-se uma grande mancha de arquitectura religiosa, nomeadamente educativa, no lado que chegou à contemporaneidade mais íntegro, apenas existindo programas residenciais nos imóveis situados nas extremidades da rua. Na extremidade junto ao mosteiro crúzio surge o primeiro conjunto colegial, na subida da encosta de Montarroio, designado por Colégio das Artes (hoje com acesso pelo Pátio da Inquisição, que lá esteve instalada durante alguns séculos). Era um grande complexo de salas de aula, destinado a estudos preparatórios nas áreas das humanidades e das artes, com pátios em vez de claustros. Este conjunto edificado sofreu muitas modificações e terá surgido da reformulação e reaproveitamento de dois colégios anteriores aí situados colégios (S. Miguel e Todos-os-Santos). Seguindo ao longo da Rua da Sofia, encontramos o Colégio do Espírito Santo ou de São Bernardo (v. PT020603170084). Foi o precursor de um modelo de colégio palaciano, radicado na arquitectura civil, com a capela integrada, revelando uma regularidade formal e volumétrica, fixada em torno de um pátio central. Separado deste pela Ladeira do Carmo, surge o Colégio do Carmo (v. PT020603170026), sendo o terceiro da rua no sentido SE./NO. A sua tipologia insere-se no modelo conventual, fundado na arquitectura religiosa, que evidencia a igreja externa adjacente a um claustro de 2 pisos que, por sua vez, serve de elemento organizador e distribuidor dos espaços funcionais. O claustro é a peça fundamental dos edifícios, uma vez que articula espaços de utilização cultual, educacional e residencial no interior dos colégios. A igreja funciona como interface de comunicação entre a população e as ordens religiosas. Segue-se o Colégio da Graça (v. PT020603170048), sensivelmente a meio da rua e adossado ao anterior. É o maior de todos e constitui-se como o mais representativo do modelo conventual, sendo aquele que se aproxima mais da construção original. A razão de implantação dos colégios no lado NE. da via deveu-se à direcção preferida para as igrejas, com a capela-mor voltada a E. e a entrada no sentido oposto, dando para a rua. Mas essa implantação no arranque da encosta, permitiu um piso semi-enterrado, passível de ser rentabilizado com fins comerciais, e a sobrelevação dos conjuntos colegiais, assentes numa plataforma superior à cota da rua. Desta forma a arquitectura religiosa ganha maior monumentalidade e as funções educativas conseguem maior privacidade. As igrejas resolvem o problema do acesso ao seu interior com uma plataforma que antecede o portal principal, à qual se acede por escadaria. A igreja do Colégio da Graça é aquela que revela maior autenticidade, com a fachada principal num plano recuado. Exibe uma plataforma liberta de coberturas, realçando assim o desnivelamento, menos evidente nas Igrejas do Carmo e de São Pedro, uma vez que estas reformularam as suas fachadas, avançando até ao alinhamento da rua e formando um nártex que cobre a plataforma. Finalmente, a rematar a via e adossado ao anterior, encontra-se o Colégio de São Pedro dos Religiosos Terceiros (v. PT0603170083), que remata a via. O Colégio de São Pedro foi construído numa fase mais tardia, mas seguiu o modelo conventual preconizado pelo Colégio da Graça. Ao longo de todo este lado da via, destaca-se a presença estruturadora das três igrejas alternadamente com os corpos colegiais, o que confere um ritmo monumental ao enfiamento viário, dentro de uma certa regularidade formal de arquitectura de programa desenvolvida em 3 e 4 pisos. Os materiais utilizados são em geral a cantaria em paredes, embasamentos, cunhais, colunas e guarnecimentos dos vãos e a alvenaria de pedra revestida a cal em paredes e muros. Após o final da Rua da Sofia, sobe-se a Ladeira de Santa Justa, onde existe um enfiamento de prédios plurifamiliares de lote estreito. No cimo da ladeira ergue-se a actual Igreja de Santa Justa (v. PT020603170049), que deve a sua implantação sobrelevada às frequentes inundações que sofria na anterior localização no Terreiro da Erva. Opera uma articulação barroca no extremo NO. da rua, em situação de destaque, no arranque da encosta. Voltando o olhar em direcção ao Largo de Sansão, torna-se clara a percepção de um enfiamento perspéctico convergente para o Mosteiro de Santa Cruz, em que este surge como pano de fundo, reafirmando a sua presença geradora do conjunto da Rua da Sofia. Caminhando do lado SO. da rua, surge, em frente ao Colégio de São Pedro, o Colégio de S. Tomás (v. PT020603170139, depois Palácio dos Condes do Ameal e actualmente Palácio de Justiça de Coimbra). Insere-se no modelo palaciano, apresentando disposição de grande regularidade em torno de um claustro centralizado, ficando a capela interna inserida num dos lanços laterais. Revela uma maior preocupação urbana na fisionomia, enquadrando-se facilmente na frente de rua, embora constituindo um quarteirão por si só. Este edifício, em conjunto com o Colégio do Espírito Santo, representa a introdução do modelo palaciano na arquitectura colegial de Coimbra, muito utilizado na zona Alta da cidade. As obras de conversão em Palácio de Justiça visaram o desafogamento do edifício em termos urbanos, passando a existir enfiamentos viários em todo o seu perímetro, constituindo um quarteirão autónomo, consentâneo com a dignidade das funções nele exercidas. A abertura das ruas Dr. Manuel Rodrigues e João de Ruão seccionaram o antigo Convento de São Domingos (v. PT020603170009), anteriormente adossado ao respectivo colégio. A abertura destas duas ruas permitiu um enfiamento frontal em relação às fachadas principais das igrejas, conferindo maior monumentalidade à medida que se acede à Rua da Sofia pelas suas transversais. O que resta do convento dominicano é a sua igreja inacabada, hoje transformada em centro comercial, sensivelmente a meio da rua. Em frente ao Colégio do Espírito Santo fica o Colégio de São Boaventura (v. PT020603170205), o mais recente, também ele transformado em zona comercial e de serviços. À medida que nos aproximamos do Mosteiro de Santa Cruz ainda se destacam alguns prédios de rendimento de desenho mais elaborado, com elementos decorativos de pedra, ferro, argamassa e cerâmicos. O lado SO. da rua encontra-se mais descaracterizado, processo que se iniciou logo após o plano ser elaborado, com a implantação, inicialmente não prevista, de colégios e igrejas deste lado. A abertura recente de ruas também contribuiu para um agravamento da situação. Enquanto do lado NE. da rua existe uma certa regularidade morfológica, mesmo ao nível da cércea dos edifícios, do lado oposto tal não se verifica, denotando-se alguns edifícios dissonantes em termos de volumetria e composição. Apesar de profundamente alterados, o essencial da implantação e da configuração dos colégios manteve-se até aos dias de hoje.

Materiais

Não aplicável

Observações

A Rua da Sofia possui trânsito automóvel nos dois sentidos entre a Pç. 8 de Maio e a R. Dr. Manuel Rodrigues. A partir desta rua faz-se em sentido único, dirigido para a R. João Machado e para a R. Figueira da Foz. O portal principal do antigo Colégio de São Tomás, classificado como MN e desenhado por Diogo de Castilho, está localizado no Museu Machado de Castro.