Arquitectura residencial e de saúde, seiscentista, barroca e neoclássica. Solar barroco, de planta rectangular, fachadas de dois pisos rebocadas, com pilastras nos cunhais e terminadas em cornija, rasgadas por vãos de molduras simples. Fachada principal aberta no primeiro piso por três portas largas e no segundo por janelas de peitoril, tendo acesso ao andar nobre por escada descentrada, com guarda plena e alpendre no topo assente em colunas toscanas. Nas outras fachadas rasgam-se essencialmente janelas de peitoril sobrepostas. No interior dispõem-se salas intercomunicantes entre si com tectos do andar nobre em madeira entalhada, formados por caixotões amplos facetados, alguns com pintura decorativa. Antigo hospital maneirista, de planta rectangular, com cunhais apilastrados e remate em cornija, com fachada principal de dois panos, um deles rasgado por portal de verga recta inscrita e encimada por frontão de volutas interrompido por nicho. Capela de planta longitudinal, com fachada principal terminada em empena, rasgada lateralmente por janelas, espaço único no interior com retábulo neoclássico, de talha policroma, de planta recta e três eixos. Complexo de grande valor histórico constituído por solar e hospital, botica, capela e cruzeiro junto ao caminho de Santiago e de apoio aos peregrinos, referindo-se o facto de dois mapas galegos, um de 1598, de F. Fer Ojea, editado em Amberes, e outro de 1608 apócrifo, incluírem Vilar de Perdizes nos Caminhos de Santiago e não a maior parte das cidades portuguesas junto à fronteira, nomeadamente Bragança. Constitui um dos poucos, senão único, Morgadio em Portugal que se sabe ter sido instituído por comenda pontifícia. O cunhal SO. do solar, pela sua estrutura e pelo corte e dimensão da cantaria, indicia ser o mais antigo, provavelmente pertencente à estrutura inicial do séc. 16 ou do 17. Na fachada E. conserva latrina saliente coberta por laje de cantaria, possivelmente do séc. 17, e na fachada posterior as várias mísulas sob as janelas do piso térreo poderão indicar a existência de um antigo alpendre. O hospital, de fundação quinhentista e integrando capela, entretanto arruinada, apresenta fachadas maneiristas sóbrias, com maior destaque para o portal, com imagem de São Tiago no nicho; lateralmente possui silhares com carrancas possuindo argolas para prender os animais; a fachada principal, com cunhal esquerdo apilastrado, foi prolongada posteriormente para encostar ao solar; interiormente possui numa das salas lareira. Ao que parece, integrava-se na categoria dos hospitais relativamente bem providos, visto que se dava a comer aos peregrinos caldo de azeite, caldo de carneiro e frango, possuindo um talho ao seu serviço. A capela actualmente existente, separada, corresponde à capela-mor de uma igreja que ficou por concluir, possuindo grande contraste entre a fachada principal, pouco cuidada e de carácter muito simples e robusto, porque foi feita apressadamente para fechar o espaço, com as restantes fachadas, rebocadas, de cunhais apilastrados, coroados por elegantes pináculos, terminadas em friso e cornija. No interior, as pilastras facetadas com capitéis fitomórficos de modinatura oitocentista na parede fundeira, deveriam pertencer ao pretendido arco triunfal. O retábulo-mor possui três eixos, os laterais muito mais estreitos, com mísulas. Constitui um dos poucos morgadios que se sabe ter sido instituído em Portugal por comenda pontifica.
Compõem-se de solar, um hospital, as ruínas da antiga capela de Santa Cruz, a capela actual, uma botica e uma casa em ruínas, dispondo-se desalinhados, oblíquos entre si e conflituosamente próximos. SOLAR: de planta rectangular, volume simples de dois pisos, com cobertura em telhado de quatro águas. Fachadas em cantaria aparente, de aparelho irregular, conservando em algumas zonas o reboco, terminadas em cornija. Fachada principal virada a S. com escadaria descentrada de lanço único de acesso ao andar nobre, com guarda de cantaria plena, alpendre sobre o patim, apoiado em duas colunas de granito, e vão inferior tendo porta de verga recta. No primeiro piso abrem-se três portas largas, uma delas no vão da escada, de verga recta, e, no segundo, nove janelas de peitoril, molduradas e com caixilharia de guilhotina, e uma outra, possivelmente de sacada, entaipada. À direita da escada, adossa-se obliquamente corpo rectangular em ruínas do antigo hospital. Fachadas laterais rasgadas por duas janelas em cada piso, na voltada a O. todas de peitoril com caixilharia de guilhotina e na voltada a E. de peitoril com portadas, no piso inferior, e de sacada, com guarda de ferro e possuindo bandeira, no piso superior; nesta fachada destaca-se caleira de saída das águas de lavagem da cozinha, e latrina, em pedra, saliente, de planta rectangular, sobre duas mísulas, coberta por laje. A fachada posterior, voltada a N., é rasgada em cada piso por sete janelas de peitoril, sobrepostas e molduradas a cantaria, com espaçamentos distintos entre si; os vãos do piso térreo, tendo inferiormente mísulas pétreas, possuem portadas simples de madeira, sem vidros, tendo apenas uma caixilharia de guilhotina, e os do segundo piso têm todos este tipo de caixilharia. No cunhal SO. apresenta vestígios de uma pedra de armas dos Sousa do Prado, feita em estuque. INTERIOR: compartimentado através de uma parede mestra central que o divide transversalmente e de três paredes mestras longitudinais, para além das dos topos. Organiza-se em oito grandes salas por piso, intercomunicantes através de portas de verga recta e de dupla folha, com pavimentos de terra batida no primeiro piso e de madeira no segundo, comunicando os dois pisos por escada em L de dois lanços localizada na cozinha. Junto ao quarto próximo do cunhal NE. foi construída uma instalação sanitária com paredes de tijolo, constituindo a única excepção aos salões do restante solar. No andar nobre, as várias dependências apresentam tectos facetados, formando caixotões, assentes em trompas, entalhados, alguns deles em branco ou com pintura. Destaca-se o da sala de jantar, octogonal, de amplos caixotões, com florões de talha dourada nos encontros, apresentando ao centro os brasões do 8º morgado Alexandre de Sousa Pereira Coutinho e de sua mulher, com pintura policroma; e um dos quartos, com pintura policroma de motivos fitomórficos. HOSPITAL: de planta quadrangular e um só piso, em ruína e sem coberturas. Fachadas em cantaria aparente. A fachada principal, virada a O., termina em cornija e é marcada por dois panos por pilastra; no pano da esquerda, abre-se portal de verga recta, moldurado, com inscrição na padieira, encimado por frontão de volutas interrompido por um nicho, em arco de volta perfeita, abóbada concheada, albergando imagem de São Tiago, em pedra, sobre mísula; ladeia o portal dois silhares, esculpidos com uma carranca, e com argola para de ferro. A fachada lateral N., oblíqua em relação à fachada do solar, distanciando um mínimo de 0,30 m e um máximo de 1,40 m desta, é rasgada por dois grandes vãos; a lateral S. apresenta uma janela engradada pertencente à capela original que ruiu e outros vestígios como azulejos na parede e sepulturas no pavimento; sobre o cunhal SO. surge relógio de sol. Fachada posterior marcado por antigo vão entaipado, encimado por janela rectangular jacente. INTERIOR apresentando na parede N. uma lareira ao centro, assente em duas mísulas, ladeada pelos dois vãos. CAPELA: implantada entre o corpo do antigo hospital e a botica, apresentando-se afastada destes, possui planta longitudinal e volume simples, de 10 metros de comprimento, com cobertura em telhado de duas águas. Fachada principal virada a O., em cantaria aparente de aparelho irregular, terminada em empena simples e rasgada por portal de verga recta, moldurado. Fachadas laterais rebocadas, terminadas em friso e cornija de cantaria sobrepujada por beiral, rasgadas por janela rectangular com capialço e tendo adossado a S. sacristia rectangular, também rebocada, com pilastras nos cunhais, terminada em cornija e beiral e com cobertura de apenas uma água; na fachada S. abrem-se duas janelas rectangulares jacentes. Fachada posterior da capela com pilastras nos cunhais, encimados por plintos adelgaçados, e terminada em empena, de friso e cornija, sobrepujada por beiral e com cruz de cantaria sobre plinto; a da sacristia é cega. INTERIOR: com paramentos rebocados e pintados de branco, com vãos laterais possuindo moldura recortada e formando avental; pavimento lajeado integrando três sepulturas e tecto em falsa abóbada de berço, de madeira decorada, assente em friso e cornija moldurada, a qual na parede fundeira possui pilares facetados com capitel estilizado fitomórfico. Sobre supedâneo acedido por três degraus, retábulo em talha policroma, de planta recta e três eixos, definidos por colunas coríntias com o terço inferior marcado por enrolamentos e assentes em plintos sobrepostos, os inferiores paralelepipédicos, decorados com elemento fitomórfico, e os superiores jacentes, marmoreados a azul, e duas pilastras toscanas exteriores; no eixo central abre-se tribuna, em arco de volta perfeita, de moldura marmoreada, com o fundo pintado de branco e tecto em caixotões, albergando trono de cinco degraus com coroa fitomórfica; nos eixos laterais, muito mais estreitos, mísulas; ático em cornija encimada por anjos centrais. Altar paralelepipédico, com frontal decorado com cartela recortada e elementos fitomórficos, sobre o qual surge banqueta e sacrário, marmoreados, este com porta decorada por cruz latina e enquadrada por quarteirões volutados. No interior da sacristia, com paramentos rebocados e pintados de branco, pavimento de lajes e tecto plano de madeira, existe um lavabo com espaldar superiormente recortado, possuindo florão central encimado por pequeno reservatório concheado e bacia trilobada. CRUZEIRO: implantado no terreiro fronteiro à capela, é composto por plinto paralelepipédico, com face frontal de almofada concava, e cruz, de braços quadrangulares, possuindo frontalmente sulcos gravados. BOTICA: de planta rectangular e volume simples coberto por telhado de quatro águas; fachadas em cantaria aparente de aparelho irregular, rematado nos cunhais por pináculos, rasgadas por vãos moldurados e apresentando vestígios de outras construções adossadas e actualmente em ruína.
Materiais
Paredes exteriores de alvenaria de granito rebocado, com cunhais e guarnições dos vãos em cantaria; cobertura em estrutura de madeira revestida a telha de barro; pavimentos em terra, soalho de madeira ou lajeado de granito; tectos em madeira, alguns de caixotões, e pintados; retábulo de talha policroma; caixilharias de madeira.
Observações
*1 - A Zona Especial do Paço é conjunta com a da Capela de Nossa Senhora das Neves (v. PT011706280169). *2 - A origem deste Paço está intimamente ligada a Santiago de Compostela, pois a criação inicial da botica e hospital tinha como objectivo o apoio a esses peregrinos. Analisando a rede viária romana e medieval, os principais afluxos de peregrinos para Santiago deveriam chegar sobretudo pela via que vinda da Beira Alta (Lamego) apanha a estrada romana Vila Real - Chaves e que depois de Oura, inflecte em Santa Eulália de Anelhe para Vilar de Perdizes passando em Redondelo e Calvão, ou a que vinha da Beira Baixa segue por Idanha-a-Velha, Guarda, Marialva, Mirandela, Valpaços, Valtelhas, Vilarandelo e Chaves. De Chaves este segundo trajecto apanha a "estrada das capelas" ou "estrada velha de Montalegre" por Sanjurge, calçada do Lapedo, Paimogo, São Caetano, Soutelinho da Raia e Vilar de Perdizes. À saída de Soutelinho o caminho principal apanhava a calçada que segue paralela à fronteira até à ponte da Assureira, vencia o Monte Meão até à ponte de Chaves e, passada esta, curva junto à Alminha de Ás-da-Loba, seguindo depois sobre a actual estrada nacional até se desviar para N. para atravessar o lameiro a O. da fraga da Caravela e entrar, a direito, em Vilar de Perdizes a meia encosta do monte da Cruz apanhando a vreia, até à Parada do Paço e ao hospital. De Vilar de Perdizes o caminho principal seguiria pelo Caminho Real que assente em calçada romana passa perto do Castro de São Millan, em direcção a Lucenza, Ginzo e Ourense. O hospital teria capacidade para 9 a 12 catres e, ao que parece, estava relativamente bem apetrechado, visto a carta de instituição determinar oferecer, para além do fogo, água e sal aos peregrinos, oferecer também um caldo de azeite, caldo de carneiro e frango. Aliás, em Vilar de Perdizes, existia um talho ao serviço do hospital. O pão seria feito no forno, nomeadamente no de cima da vila. A tradição oral de Vilar de Perdizes diz que quem agarrasse as argolas existentes na frontaria do Hospital ficava sob jurisdição do Morgado e não poderia ser perseguido. Julga-se que nessa época nas proximidades estaria a residência do Abade António de Sousa. Nos termos da instituição do Morgadio, e da organização tradicional do exército português, existiam unidades militares formadas por soldados da terra, sob o comando do Morgado, que formavam no terreiro fronteiro ao Paço, ainda hoje conhecido por "parada". Há registo de que o 9º Morgado de Vilar de Perdizes, João António de Sousa Pereira Coutinho, possuía no Paço uma biblioteca com 4000 volumes. O solar de Vilar de Perdizes terá ainda desempenhado um papel importante na introdução da cultura do bicho da seda em Trás-os-Montes, tendo as primeiras experiências sido ai realizadas. Aliás, uma amoreira centenária testemunho dessa tentativa sobreviveu no Parada do Paço até há poucos anos.