Arquitectura religiosa, manuelina, maneirista e barroca. Igreja paroquial de planta longitudinal composta de três naves, com cinco tramos, tendo adossado lateralmente várias capelas, e capela-mor rectangular, contrafortada, e dois absídiolos quadrangulares, interiormente com tectos de madeira na nave e abóbadas de berço em caixotões nas capelas e absidíolos e abóbada estrelada na capela-mor, e iluminada axial e lateralmente. Fachada principal, rebocada e pintada, terminada em empena e rasgada por portal de verga recta, enquadrado por colunas suportando frontão interrompido e óculo quadrilobado. Fachada lateral direita com porta travessa de verga recta e fresta. No interior, as naves são separadas por arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas. Baptistério no lado do evangelho, e capelas laterais, mais ou menos profundas, com arcos de volta perfeita sobre pilastras ou colunas, caneladas, suportando entablamento, interiormente com abóbadas de berço, com caixotões, decorados, e albergando retábulos pétreos, de planta recta e três eixos, típicos da Escola Coimbrã. Púlpito em cantaria, de planta circular e guarda plena, decorada com vários elementos, sobre coluna, seguindo igualmente as características da Escola Coimbrã. Capela-mor com retábulo pétreo seguindo o mesmo esquema e absidíolo do Evangelho revestido a azulejos de tapete, maneiristas, e com retábulo de talha dourada, de planta recta e três eixos, também maneirista. Igreja remodelada ao longo do tempo, subsistindo vestígios de vários períodos. Do período manuelino, conserva a sacristia e a capela-mor, acedida por arco quebrado, coberta por abóbada estrelada com bocetes decorados, e com portal na parede do lado da Epístola, onde surge o monograma FP, que Pedro Dias (1982) identificou como referência ao mestre construtor Francisco Pires. O mesmo autor relaciona a sacristia e a capela-mor com outros imóveis de Montemor-o-Velho, afirmando serem subsidiárias da Arte que se praticava no estaleiro de Santa Cruz de Coimbra. Dá como exemplo a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, tendo em conta a presença de outro monograma no exterior do portal lateral da Igreja e as afinidades entre a decoração dos bocetes e das mísulas da Igreja do Botão com os capitéis e bases dessa e, a semelhança do traçado das curvas e dos perfis das molduras da porta da sacristia do Botão, com a porta lateral da Igreja de Montemor. Inicialmente de nave única, foi no séc. 17 ampliada, a expensas do povo, para três naves, a que se adossou, parcialmente na fachada principal, campanário terminado em empena, e várias capelas laterais. Conserva em alguns frontais de altar azulejos hispano-mourisco, do séc. 15 / 16, o do retábulo do Sacramento, executado em técnica de aresta, datável do séc. 16, cujo padrão, com cercadura, concilia motivos geométricos diversos, organizados segundo uma composição radial sugerindo rosáceas. No interior, sublinha-se o revestimento com azulejos de padrão, de módulo 6x6, monocromo, em tons de azul, com rosetas e entrelaces, datado do séc. 17, que, de acordo com João Pinho, é um padrão muito apreciado e usado na região de Coimbra. Tal, leva o autor pôr a hipótese de se tratar de um modelo de fabrico coimbrão, datável dos finais do séc. 17. A Capela de Santo António tem nas paredes azulejo de padrão lisbonense, de módulo de 2x2, tricolor, azul, amarelo e branco, envolvido por friso de larga difusão em Portugal. Os retábulos pétreos são maneiristas, mas o da capela de Nossa Senhora da Piedade, datada de 1721, tem na base do colunelo, do lado direito, a inscrição "16" e, no frontão, a data de 1661; a sua estrutura é semelhante ao confrontante da capela de Santo António. O retábulo da capela-mor, segundo Francisco Lameira, é de tipo narrativo ou didáctico, recorrente durante os sécs. 15 e 16; resultou de uma encomenda das freiras laurbanenses que incluía um outro, do qual restam alguns fragmentos no Museu Machado de Castro, segundo Nelson Correia Borges. Este retábulo pertencia inicialmente a outro local e só foi colocado na capela-mor durante as obras de restauro de 1940 / 1944, seguindo orientações eclesiásticas e substituindo um outro retábulo de talha, datado do final do séc. 17 / início do séc. 18. Este retábulo, cujas características nos remetem para a produção coimbrã, poderá ser de João de Ruão, ou da sua oficina. O retábulo do absidíolo do Evangelho, espaço de devoção da Irmandade de São Mateus, data do primeiro terço do séc. 17, possuindo o ático vazado por óculo. A torre sineira adossada a uma das capelas laterais foi construída no séc. 20.
Planta longitudinal composta por três naves, de cinco tramos e capela-mor, rectangular, mais estreita, ladeada por dois absidíolos quadrangulares, tendo adossado na fachada lateral esquerda uma capela rectangular e, na oposta, três capelas, rectangulares e torre sineira, quadrangular, colocada no topo da primeira. Volumes escalonados, com coberturas em telhados de uma, duas e quatro águas. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, as laterais terminadas em beirada dupla e as das capelas laterais e capela-mor em cornija de cantaria; a principal e a lateral direita são percorridas por embasamento, igualmente rebocado e pintado. Fachada principal terminada em empena, coroada por cruz latina de cantaria, decorada com os instrumentos da Paixão, e rasgada por portal de verga recta sobre impostas volutadas, ladeado por duas colunas toscanas, assentes em plintos, que suportam arquitrave e fragmento de frontão, de friso denticulado, tendo no tímpano cartela rectangular com inscrição, enquadrada por volutas. Sobre o portal, rasga-se óculo quadrilobado. À direita encontra-se aposta campanário, em cantaria aparente, de aparelho irregular, terminado em empena, rematada por cornija, com dois vãos em arco quebrado, encimados por inscrição. Fachada lateral esquerda cega, abrindo-se no topo da capela lateral, janela jacente, moldurada; a lateral direita é rasgada por portal de verga recta e fresta moldurada e, a capela, com cunhais de cantaria, por janela jacente moldurada. Torre sineira, ligeiramente mais estreita que a capela, com embasamento de cantaria, cunhais marcados, coroados por pináculos piramidais sobre plintos, e terminada em frisos e cornija, coberta em coruchéu piramidal, coroado por pináculo e catavento em ferro, em forma de galo; apresenta na fachada lateral direita e posterior frestas molduradas e na frontal relógio circular moldurado; superiormente, rasga-se em cada uma das faces vãos em arco de volta perfeita, moldurados, albergando sino, existindo sobre o frontal lápide com inscrição. A segunda capela, terminada em empena, é rasgada por janela e a que se lhe segue, é mais pequena e termina em cornija sobreposta por beirada. A fachada posterior é composta pelos volumes da capela-mor, com contrafortes escalonados de cantaria nos cunhais e ao centro, encimados por gárgulas de canhão, decoradas com motivos geométricos relevados e zoomórfico, e dos absidíolos, rasgadas lateralmente por fresta com moldura de capialço e janela quadrada, respectivamente, gradeadas. INTERIOR com naves separadas por arcos de volta perfeita, sobre colunas toscanas, pavimento, desnivelado a partir do último terço, com zonas de circulação e capelas em cantaria e cerâmico nas restantes áreas, e com tecto em madeira, de masseira; as paredes são rebocadas e pintadas de branco. O portal axial é ladeado, do lado da Epístola, por pia de água benta cilíndrica, tendo na base dois troncos entrelaçados. Na nave do Evangelho, dispõe-se baptistério, sobre soco de cantaria, com pia baptismal facetada, protegida por teia de balaústres, e tendo frontalmente nicho de alfaias quadrangular. Nas naves laterais, ao nível do tramo médio, rasgam-se duas capelas, semelhantes, a do lado do Evangelho, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, e a oposta a Santo António; são acedidas por arcos de volta perfeita, em pedra de Ançã, decorado com acantos e intradorso com almofadas de motivos geométricos, sobre colunas compósitas, enquadradas por pilastras, de fuste almofadado com motivos geométricos, assentes em plintos também almofadados, sobrepostas por colunas caneladas, de terço inferior marcado, sobre mísulas, suportando arquitrave, ornada com motivos geométricos; seguintes com acantos relevados. Interiormente, têm cobertura em abóbada de berço, com caixotões contendo motivos geométricos diversos em alto-relevo, sobre friso ritmado por mísulas e cornija. A capela de Nossa Senhora da Piedade possui teia de madeira, e ambas têm nicho de alfaias, com a configuração do portal. Albergam retábulos em cantaria, de planta recta e três eixos, ladeados por orelhas recortadas, conservando vestígios de policromia. Na nave do Evangelho rasgam-se sequencialmente duas capelas, pouco profundas, com arco de volta perfeita, o primeiro com vestígios de pintura mural e intradorso rasgado por um nicho, de cada lado, albergando imagens, e o segundo sobre pilastras toscanas, tendo na parede de fundo nicho curvo. Na nave da Epístola existem também duas outras capelas, intercalados por púlpito; a primeira, mais simples, tem arco de volta perfeita, sobre pilastras, ambas almofadadas, e apresenta parede rebocada e pintada de branco rasgada por nicho curvo longilíneo, assente em friso horizontal; a segunda é acedida por arco de volta perfeita, decorado com elementos vegetalistas e querubins e de intradorso almofadado, sobre colunas coríntias, encimadas por cornija, interiormente com abóbada de berço; apresenta altar com frontal integrando imagem do Cristo Morto em maquineta. Púlpito em pedra de Ançã, cilíndrico, com guarda plena decorada por cartelas, carrancas, vieiras e outros elementos, conservando vestígios de policromia; assenta em base ornada de motivos vegetalistas e coluna toscana. Arco triunfal quebrado de várias arquivoltas, a interior sobre capitel fitomórfico, encimado por um baixo-relevo, de cantaria, com representação do Calvário, policromo. Capela-mor com parede do lado do Evangelho rasgada por portal, de arco contracurvado, dobrado, acedendo ao absidíolo, ladeado por mísula de cantaria suportando imagem, e a da Epístola por fresta moldurada. Cobertura em abóbada estrelada com cinco bocetes, destacando-se o central, policromo, com representação das armas de D. Catarina de Eça, suportadas por dois anjos tenentes dourados e, a de topo, dividida em dois círculos concêntricos, o interno com decoração vegetalista e o externo com inscrição, sobreposto por cruz de Cristo; as restantes apresentam decoração vegetalista e geométrica, conservando vestígios de douramento. Na parede testeira surge o retábulo-mor, de cantaria, de planta recta, três eixos, definidos por pilastras decoradas com cartelas e frutos, sobrepostos por colunas balaustres sobre plintos, e dois registos, marcados por entablamentos com querubins nos frisos; no primeiro registo surge sacrário em forma de templete, de faces definidas por colunas, ladeado por imagens, e terminado em tambor e lanternim, encimado por crucifixo, entre dois anjos músicos; nos eixos laterais tem nichos concheados, albergando as imagens relevadas de de São João Evangelista (Evangelho) e São João Baptista (Epístola). No segundo registo surge, ao centro a representação da Coroação da Virgem, em que esta é ladeada por Cristo e Deus Pai, e nos eixos laterais, inseridos em nichos pouco relevados, anjos músicos. Ático em frontão triangular, no eixo central, com Deus Pai no tímpano, e elementos recortados nos laterais. Banco ritmado por plintos paralelepipédicos decorados com a representação de quatro Apóstolos, figurando, à esquerda, São Paulo e São Tiago Maior e, à direita, Santo André e São Pedro, intercalados por cartelas pintadas e enquadrando, ao centro, representação das Almas. Altar paralelepipédico, com frontal revestido a azulejo hispano-mourisco, com motivos geométricos policromos e cercadura, ornada de motivos vegetalistas estilizadas envolvido por moldura, decorada com motivos geométricos policromos. Absidíolos acedidos por arcos de volta perfeita sobre pilastras, de fuste almofadado, o do lado da Epístola decorado com símbolos da Paixão, supedâneo de três degraus e cobertura em abóbada de berço de caixotões, decorados, no lado do Evangelho, com motivos Marianos e florões e, no lado da Epístola, apenas com florões. O absidíolo do lado do Evangelho apresenta paredes revestidas a azulejo de padrão, de módulo 6x6, P-603, envolvido por cercadura B-45, em 22 ao alto, sendo a do lado do Evangelho rasgada por janela quadrada, moldurada e gradeada. Na parede fundeira surge retábulo de talha dourada, de planta recta e três eixos, ladeado por orelhas de talha, policroma. O absidíolo do lado da Epístola tem na parede lateral direita nicho de alfaias e janela de verga abatida, moldurada; destaca-se altar paralelepipédico com frontal revestido a azulejo hispano-mourisco, policromo e de motivos geométricos.
Materiais
Estrutura de alvenaria rebocada e caiada; molduras dos vãos, arcos, capelas, em cantaria; retábulo de talha; portas de madeira; janelas de vidro simples; grades de ferro; cobertura de telha; algerozes metálicos.
Observações
*1- Os brasões da capela de Santo António são dois escudos, um deles individualizado - com as armas dos Melos, à esquerda - e o outro dividido entre três apelidos - Feios, Pereiras e Melos, à direita. As armas dos Melos caracterizam-se por terem como base a cor vermelha, com dobre-cruz de ouro, acompanhada de seis bosantes de prata e com bordadura do segundo esmalte; no timbre usavam uma águia estendida de negro, bosantada de prata. As armas dos Feios têm escudo azul composto por três bandas de vermelho, perfiladas a ouro, possuindo no timbre um ramo de feijoeiro em flor, todo ele em verde. No escudo do lado esquerdo são ainda visíveis as armas dos Pereiras, apresentando escudo vermelho, sobre o qual se dispõe uma cruz de prata florenciada e vazia, motivo que se repete no timbre, embora pintado de vermelho e ladeada por duas asas de ouro ou prata estendidas. *2 - D. Catarina D’Eça, terá nascido em 1440, julga-se na vila d’Eça, em resultado do último casamento de D. Fernando, senhor de Eça, na Galiza, com D. Isabel d’Ávila. Assim, era neta do Infante D. João, e bisneta de D. Pedro e de D. Inês de Castro. Foi abadessa do Mosteiro do Lorvão entre 1472 e 1521, tendo desenvolvido uma acção mecenática bastante importante na freguesia do Botão, em Gouveia e no Lorvão, a qual pode ser atestada, não só pelas obras arquitectónicas, mas também por obras de escultura, paramentos e objectos litúrgicos. Para a vila de Botão mandou construir um celeiro e um paço, de que restam apenas alguns vestígios, constituindo como que um ante-espaço do próprio Mosteiro do Lorvão, servindo inclusive de lugar de vilegiatura da abadessa e das doentes. *3 - Atendendo aos registos do Padre Manuel Dias, Padre do Botão em 1674, existiam, neste concelho, cinco Confrarias, nomeadamente: do Senhor de Jesus, da Senhora do Rosário, de Santo António, de São Brás e de São Mateus. Todas estavam em funcionamento e cada uma tutelava e administrava o seu património, sendo a de São Mateus a que mais se evidenciava, uma vez que, era da sua competência gerir o Hospital onde estava sediada (informação que pode ser verificada nas Informações Paroquiais, de 1674, segundo João Pinho). No entanto, todas possuíam paramentos e alfaias, tendo particular interesse o caso da Confraria do Senhor, a qual detinha: dois castiçais, um cálice, uma custódia, um turíbulo e um vaso em prata; lâmpadas, castiçais de latão, três toalhas para o altar, pano para púlpito, vestimenta com alva, amita e cordões, duas galhetas e prato de estanho, além de olivais que se assumia como fonte directa de rendimento. Pese embora o facto de não se conhecer, em concreto, as circunstâncias da constituição da Misericórdia do Botão, João Pinho, não despreza a hipótese da fundação desta irmandade remeter para a expansão da Misericórdia em Portugal, no contexto do reinado de D. Manuel I, tendo como modelo a de Lisboa criada por D. Leonor. Conforme João Pinho refere, as eleições desta confraria realizar-se-iam no oitavário de todos os santos e a sua orgânica seria constituída por: um juiz, um procurador (com obrigação de cobrar as entradas dos irmãos, fintas, condenações e rendimentos da Irmandade dados em rol pelo escrivão), um escrivão (com obrigação de fazer os termos, lançar contas, dar o rol para a cobrança, escrever as eleições, ter o rol dos irmãos, apontar suas faltas), um mordomo (obrigado a receber as cobranças feitas pelo procurador e pagar as despesas necessárias de tudo dando conta no fim do ano); nove cabiduais e um andador (para avisar os irmãos dos falecimentos e horários dos funerais), porém, além destas funções todos tinham a obrigação maior de acompanharem o irmão defunto à sepultura. Actualmente restam, no Botão, três irmandades: a Irmandade de Misericórdia de São Mateus, no Botão, abrangendo as aldeias de Outeiro e Mata de São Pedro; a Irmandade de São João, em Larçã, e a Irmandade de Santo António que detém Póvoa do Loureiro e Paúl. *4 - Em torno da igreja, tal como noutras zonas da freguesia do Botão, foi encontrada tijolaria romana.