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Castelo e cerca urbana de Vila Viçosa

Castelo e cerca urbana de Vila Viçosa

O ponto de interesse Castelo e cerca urbana de Vila Viçosa encontra-se localizado na freguesia de Nossa Senhora da Conceição e São Bartolomeu no municipio de Vila Viçosa e no distrito de Évora.

Arquitectura militar, gótica, quinhentista e seiscentista Fortificação composta por três núcleos sobrepostos de épocas diferentes: a cerca da vila gótica, de planta rectangular sensivelmente irregular com o topo SE. curvo, interrompido por castelo artilheiro quinhentista, de nítida influência italiana, de planta quadrada irregular com torres cilíndricas em ângulos opostos e pátio central rectangular, envolvido por fosso e por uma fortificação de traçado tenelhado, reforçada parcialmente por uma cintura igualmente de traçado tenalhado. A cerca é rematada em parapeito ameado, de ameias de corpo estreito, quadrangulares, e abertas simples, rasgado regularmente por frestas rectangulares, interiormente circundada por adarve, acedido por escadas estruturadas na espessura da muralha. É rasgada por cinco portas em arco quebrado, com aduelas de cantaria, assente em impostas salientes, três delas flanqueadas por cubelos ultra-semicirculares e uma, entaipada, por cubelos quadrangulares, mais altos que a muralha, a qual é ainda reforçada nos ângulos por maior espessura e altura, criando zonas torreadas; a quinta porta rasga-se junto a uma torre albarrã, de planta quadrangular, interligada à muralha por passadiço elevado, com parapeito ameado, acedida por portal de arco quebrado e interiormente coberta por abóbada. O castelo artilheiro tem as fachadas parcialmente rebocadas, com sapata, terminadas em parapeito de remate convexo com merlões, rasgadas perpendicularmente por pequenos vãos quadrangulares de tiro mergulhante, e canhoneiras. As torres cilíndricas são rasgadas por canhoneiras, gradeadas, em duas ou três ordens de tiro e as fachadas por vários vãos, alguns moldurados. Na fachada principal abre-se portal em arco de volta perfeita, com aduelas dispostas em cunha e de aparelho rusticado, e postigo em arco de volta perfeita, de aduelas largas assentes nos pés direitos, ambos com porta de madeira chapeada e pregueada a ferro, inseridos em alfiz insculpido, encimados por sulcos verticais para recolher a vara de suporte das pontes levadiças, actualmente existente apenas no postigo, entrecortados por moldura convexa horizontal. Na fachada lateral esquerda abre-se um outro portal semelhante e na posterior um postigo mais simples. Interiormente, a muralha é rasgada em todo o seu perímetro por galeria abobadada a partir do vestíbulo, e as salas dos dois primeiros pisos são inter-comunicantes, através de vãos de diferentes modinaturas, com molduras de cantaria, apresentando pavimento cerâmico ou em xisto e cobertas por abóbadas, algumas cerâmicas, de diferentes perfis. À volta do pátio central; as fachadas têm três pisos, rasgados regularmente por vãos rectilíneos, com molduras de mármore, os do andar nobre de peitoril, encimadas por cornija, e alguns arcos; no centro existe cisterna de duas naves e poço. O castelo é envolvido por fortificação de planta em estrela irregular, composto de sete tenalhas, desiguais, e com pequena cortina de interligação na fachada NO., de que subsiste cerca de dois terços. O reparo apresenta a escarpa exterior em talude, com cunhais de aparelho demarcado, na maioria sem vestígios do parapeito, conservando duas tenalhas guarita circular, em alvenaria de tijolo rebocada e coberta por cupulim, com a escarpa interior completamente coberta de vegetação, tendo ainda no flanco N. porta, em tijolo, de arco abatido, e túnel em abóbada cerâmica de berço abatido de acesso à fachada principal do castelo artilheiro. Uma segunda cortina de traçado tenalhado existe de S. até à cerca da vila, composta por três tenalhas interligadas, muito arruinadas. A cerca da vila denota duas fases construtivas da época medieval, correspondentes possivelmente às intervenções no tempo do rei D. Dinis e D. Fernando; da primeira fase serão os cubelos quadrangulares a NO. e a NE. da muralha, um deles a N. desta última e apeado nas obras de meados do séc. 20, devido ao seu mau estado, bem como a torre albarrã, ainda que a mesma tenha sido reconstruída após 1665. Os cubelos ultra-semicirculares que flanqueiam três portas já serão posteriores, denotando a evolução da pirobalística, uma vez que o seu perfil eliminava o número de cunhais ou das frentes de tiro. O cubelo direito da Porta de Évora foi reconstruído nas obras de restauro, tal como a porta da Torre junto à torre albarrã, a qual desde o século 17, foi erroneamente designada por torre de menagem. A denominação das portas da cerca ao longo dos tempos sofreu algumas alterações, o que levou também a algumas confusões. O castelo artilheiro, construído no local do antigo castelo medieval, de que nada resta, deverá datar de finais do séc. 14, inícios do 15, e apresenta elementos da arquitectura militar de transição, possivelmente resultantes de uma reforma posterior, como as canhoneiras rectangulares rasgadas simultaneamente no corpo das torres, em duas ou três ordens de tiro, e no parapeito, o qual tem ainda os merlões rasgados por vãos de tiro mergulhante. A sua planimetria é bastante invulgar em Portugal, sendo notória a influência da arquitectura militar italiana, mais parecendo um paço acastelado. Se Túlio Espanca o assemelha ao castelo de Rocca Costanza de Pesaro, construído em 1474, pelo arquitecto Luciano Laurana, ainda que este tenha uma torre cilíndrica em cada um dos ângulos, John Bury atribuiu-o ao arquitecto italiano Benedetto da Ravenna, seguindo um desenho de Leonardo da Vinci. A planta quadrada com duas torres circulares em ângulos opostos surge no "castelo de Mascarenhas" em Aguz (Suira-Kedina), construído em 1519, talvez com traçado de um dos Arrudas, ainda que possua características diferentes, nomeadamente no parapeito ameado. No castelo destaca-se ainda a galeria abobada rasgada na grande espessura da muralha servindo de circuito de sentinelas, actualmente interrompido em alguns troços, bem como vários vãos, de modinatura manuelina ou já seiscentista. As salas do piso térreo, correspondentes aos antigos armazéns, alguns conservando chaminés de antigas lareiras, possuem pilares possantes quadrangulares com chanfro, definindo duas naves, enquanto no andar nobre apenas as salas da ala SE. têm duas naves, mas essas marcadas por elegantes colunas de mármore, correspondendo à principal zona residencial dos Duques de Bragança, sendo ainda uma das salas designada de Sala dos Duques. O terceiro piso das alas à volta do pátio foi acrescentado no século 19 e no actual pátio secundário ficavam as antigas cavalariças. O facto de Vila Viçosa ter sido englobada nos planos de defesa do Alentejo como praça de armas no séc. 17, levou ao reforço da defesa com a construção de uma fortificação de traçado tenalhado, igualmente bastante invulgar em Portugal continental, formando uma estrela, reforçada a E. e O. por uma outra cintura tenalhada, a de O. interligada à torre albarrã. As obras de restauro de meados do séc. 20, ao visarem a reintegração do castelo do tipo medieval, levou ao descongestionamento da cerca velha e à demolição de grande parte do sistema tenalhado, como a cintura a O. para a construção da avenida e arranjo urbanístico projectado pelo Eng. Duarte Pacheco, e de grande parte da estrela.

Fortificação composta por três núcleos articulados, cronologicamente díspares: a cerca da antiga vila medieval, o castelo artilheiro implantado a SE. e interrompendo a cerca, envolvido por fosso escavado na rocha, e uma cintura de cortina de traçado tenelhado, reforçada por uma outra, igualmente de traçado tenalhado, estendida sensivelmente de S. até à cerca a E.. A CERCA possui planta rectangular sensivelmente irregular com o topo SE. curvo, rematada em parapeito ameado, de ameias de corpo estreito, quadrangulares, e abertas simples, sendo o parapeito rasgado a ritmo regular por frestas rectangulares a abrir para o interior da cerca. Interiormente, a muralha é circundada por adarve, protegido na maior parte da face interna por parapeito bastante baixo, acedido por escadas estruturadas na espessura da muralha. A cerca é reforçada interiormente por maior espessura da muralha nos cunhais virados a NO., criando zona torreada sobrelevada, o cunhal NO. - SO. curvo e o do lado oposto em ângulo recto, com escadas de acesso ao parapeito, rasgada sob as ameias laterais e na do ângulo, curvo, por seteiras rectangulares. Nesta fachada virada a NO., sensivelmente ao meio, dispõem-se dois cubelos ultra-semicirculares flanqueando a porta principal, a Porta de Estremoz, ladeados por dois outros cubelos quadrangulares, todos eles mais elevados, mas os primeiros com parapeito ameado, igual ao da muralha, e os segundos com parapeito liso, acedidos por escadas a partir do adarve. A porta apresenta arco quebrado, com aduelas de cantaria, assente em imposta saliente inferiormente biselada, e com pés direitos também de cantaria, tal como a zona do intradorso, onde forma abóbada abatida. O parapeito sobre a porta é rasgado por três frestas e as ameias laterais são escalonadas até alcançarem a altura do parapeito dos cubelos. Sensivelmente a meio da muralha virada a SO., implanta-se uma torre albarrã, de planta quadrangular, interligada à muralha por passadiço elevado sobre arco de volta perfeita, ambos rematados por parapeito igual ao da muralha; a torre, com cunhais de cantaria, é rasgada a meio do último piso, virado a O. e a S., por fresta terminada em arco trilobado, encimado por gárgula, e na virada a N., por fresta rectangular. O acesso ao interior é feito através do adarve por porta em arco quebrado, de aduelas assentes em impostas, ladeado, à esquerda, por fresta rectangular, gradeada. Interiormente, é coberta por abóbada de berço quebrado e tem escadas de pedra de acesso ao piso superior e terraço. Na muralha, sob o arco de ligação, que tem ao meio bueiro rectangular, actualmente tapado, rasga-se a Porta da Torre, em arco de volta perfeita de aduelas largas, assentes nos pés-direitos, tendo na face interna aduelas de xisto. Igualmente virada a SO., mas na zona de inflexão da cerca, dispõem-se dois cubelos ultra-semicirculares flanqueando as Portas de Évora, em tudo semelhante às de Estremoz; o troço da muralha que inflecte e é interrompido pelo fosso que envolve o castelo artilheiro, termina em escadas organizadas na própria espessura da muralha e interliga-se ao caminho coberto do fosso. Na face virada a NE., a muralha apresenta sensivelmente a meio dois cubelos quadrangulares, com parapeito simples sobrelevado, acedido pelo adarve, flanqueando a antiga Porta de Elvas ou o Postigo, com marcas de canteiro com as letras B. S. e O., actualmente entaipada. A E., rasga-se na cerca a Porta de Olivença, do Sol ou da Traição, semelhante à de Estremoz, conservando as siglas P.S. Z., e também flanqueada por dois cubelos ultra-semicirculares, acedidos pelo adarve a partir de escadas divergentes que se adossam na face interna da muralha, junto aos mesmos. A pouca distância, a muralha inflecte em ângulo, terminando abruptamente junto ao caminho coberto à volta do fosso do castelo artilheiro, sobre o qual é rasgada por vão em arco abatido. CASTELO ARTILHEIRO de planta quadrada irregular com torres cilíndricas nos ângulos E. e O., desenvolvido à volta de pátio central rectangular e, actualmente, com um pátio secundário rectangular estreito, disposto paralelamente à fachada SO., correspondente às antigas cavalariças, com coberturas articuladas em telhados de quatro águas, e em terraço no adarve e torres, com pavimento cerâmico. Fachadas em alvenaria de pedra miúda mista, argamassada e parcialmente rebocada, com sapata superiormente capeada, terminadas em parapeito de remate convexo com merlões, rasgadas perpendicularmente por pequenos vãos quadrangulares de tiro mergulhante, e canhoneiras a abrir para o exterior, actualmente protegidas com grade de ferro em T, abrindo-se ainda em ritmo irregular no parapeito outros pequenos vãos quadrados para escoamento de águas pluviais. As torres cilíndricas são rasgadas por canhoneiras, gradeadas, na face interna virada ao fosso em três ordens de tiro, e no ângulo exterior, em duas ordens, uma no piso térreo e outra no terceiro, tendo verga abatida e capialço bastante pronunciado. Fachada principal virada a NE. rasgada, sensivelmente à direita, por portal principal, em arco de volta perfeita, com aduelas dispostas em cunha e de aparelho rusticado, com porta de madeira chapeada e pregueada a ferro, integrando "porta de homem", ladeada por postigo, em arco de volta perfeita, de aduelas largas assentes nos pés direitos, e porta igualmente chapeada e pregueada a ferro; ambos os portais, abrem-se em alfiz insculpido e são encimados por sulcos verticais para recolher a vara de suporte das pontes levadiças que os precediam, actualmente existente apenas no postigo, com guarda em corrente de ferro, apoiando-se num maciço avançado na contra escarpa, o qual tem guarda de alvenaria rebocada e capeada a cantaria; os sulcos verticais são ainda cortados por moldura convexa horizontal. Na mesma fachada, à esquerda, rasga-se superiormente, vão rectangular, gradeado. Fachada lateral esquerda rasgada à direita por portal em arco de volta perfeita assente nos pés-direitos, disposto em alfiz insculpido, com moldura côncava horizontal, cortando os sulcos verticais para recolher a vara de suporte da ponte levadiça, actualmente inexistente; é ladeado por vão em arco abatido, gradeado, sobre pequeno vão de defesa; no extremo esquerdo, abre-se um postigo, em arco de volta perfeita, acedido por ponte de alvenaria com guarda do mesmo material, encimado por vão de defesa. Fachada lateral direita rasgada no piso superior, à direita, por dois vãos com capialço sobrepostos e, à esquerda, por duas janelas, de verga abatida e moldura de cantaria, gradeadas. Fachada posterior rasgada apenas no piso superior por canhoneira, gradeada, e por orifício de tiro mergulhante. Actualmente, o acesso ao INTERIOR é feito pelo postigo da fachada principal, que, juntamente com a porta principal, conserva os chumbadouros das antigas duplas portas; segue-se pequeno corredor, a partir do qual se abrem lateralmente os vãos, em arco de volta perfeita, da galeria abobadada ou circuito das sentinelas, rasgada na espessura dos muros, de cerca de 5 m., e que percorre todo o perímetro do castelo artilheiro, actualmente interrompido em alguns troços, tendo pavimento cerâmico, em xisto ou em terra batida, e sendo protegidos por portas gradeadas em ferro; frontalmente, tem amplo arco de volta perfeita, correspondente a um terceiro portal, já sem porta, ladeado por fresta, o qual conduz a vestíbulo; a partir deste, tem-se acesso, em cotovelo, ao pátio principal, por arco, que também teve porta, e às salas do piso térreo do castelo, por porta de verga recta sobre os pés-direitos, ladeada por pequeno nicho, em arco de volta perfeita e interior com abóbada de quarto de esfera, desnudo; no extremo esquerdo fica a actual portaria do castelo, com porta de verga recta, e no oposto, existe ampla chaminé embutida na parede, em tijolo. As fachadas viradas ao pátio principal são rebocadas e caiadas, com três pisos, terminadas em cornija de massa e beiral, e rasgados a ritmo regular por vãos rectilíneos, sobrepostos, com molduras de mármore, abrindo-se no piso térreo janelas rectangulares jacentes, no segundo janelas de peitoril, com caixilharia de duas folhas e bandeira, encimadas por cornija, e no terceiro janelas de peitoril. A fachada NE. possui, sensivelmente ao centro, escalinata de acesso ao segundo piso, com balcão de guarda em alvenaria rebocada e caiada, rasgada no vão por portal de verga recta simples, a que se adossa maciço saliente alto, com as armas da Casa de Bragança afixadas; nos ângulos abrem-se arcos de volta perfeita, o a N. para a porta fortificada e o a S. para a última sala de exposições do piso térreo. Nas fachadas SE. e NO., semelhantes, mas mais estreitas, com ritmo de três janelas por piso, tem ainda na primeira arco de volta perfeita para o corredor da porta fortificada a SE.. Na fachada SO., adossa-se igualmente ao centro escalinata de acesso ao andar nobre, com guarda em alvenaria rebocada e vazada inferiormente por vãos em arco de volta perfeita e enviesado; à esquerda, no ângulo S., abrem-se dois amplos arcos, um biselado para zona alpendrada e o outro para o corredor de ligação ao pátio secundário. Ao centro do pátio fica o poço, com boca quadrangular, com lajes no topo, presas por gatos de ferro, e armação em ferro forjado, decorada com elemento estilizado sustentando uma roldana; na proximidade, fica ainda a boca da cisterna, rente ao chão, a qual é de duas naves definidas por coluna, suportando abóbada, alimentada por aquedutos subterrâneos *1. À volta do pátio secundário, com corpos formando U, as fachadas são rebocadas e pintadas de branco, terminadas em beiral, rasgadas em ritmo irregular por vãos rectilíneos, meios encobertos pela vegetação de grande porte, possuindo arcos de tijolo entre a fachada posterior da ala SO. e o muro de sustentação do adarve, encostado ao qual existe escadas de ligação ao mesmo e às torres; o terceiro piso, disposto ao longo do caminho de ronda, é rasgado por pequenas janelas de peitoril, com molduras de cantaria, algumas biseladas, ou, na fachada virada a SO., sem moldura, por pequenos vãos de iluminação, porta de verga recta ou em arco na ala paralela à fachada SO.. INTERIOR: as salas do piso térreo, com o circuito do Museu Arqueológico organizado a partir da fachada NO. e a terminar na NE., são inter-comunicantes por vãos de diferentes modinaturas, com molduras de cantaria, apresentam pavimento cerâmico ou em xisto, paredes rebocadas e caiadas, à excepção do corredor e torre E., e são cobertas por abobadilhas ou abóbadas de diferentes perfis. As salas do segundo piso são igualmente rebocadas e pintadas de branco, com pavimento cerâmico e cobertas a abóbadas e abobadilhas de diferentes perfis. No terceiro piso, actualmente desactivado, destaca-se a sala paralela à fachada SO., de três naves escalonadas, separadas por arcos de volta perfeita assentes em pilares, de alvenaria rebocada e caiada. O FOSSO, com 7 m. de profundidade e 6 m. de largura, foi escavado na rocha, tendo em alguns troços camisa em tijolo, e possuindo parapeito de alvenaria rebocada ou grade ao longo da fachada NE. e NO. À volta do fosso e do castelo artilheiro, adaptando-se à sua forma, foi construído FORTIFICAÇÃO DE TRAÇADO TENALHADO, formando forte de planta em estrela irregular, composto de sete tenalhas, desiguais, e com pequena cortina de interligação na fachada NO., de que subsiste cerca de dois terços, sensivelmente desde o meio da fachada SO. até ao ângulo N., ainda que muito arruinado e encoberto por vegetação de grande porte e arbustos. O reparo levantado à volta do castelo artilheiro, apresenta a escarpa exterior em talude, com alvenaria argamassada de aparelho incerto, com os ângulos demarcados a alvenaria igualmente de aparelho incerto, mas diferente, não apresentando na sua maioria vestígio do parapeito e tendo a escarpa interior completamente coberta de vegetação; duas tenalhas dispostas a. E., conservam no ângulo flanqueado guarita, de planta circular, em alvenaria de tijolo rebocada, terminada em friso e coberta por cupulim, uma delas tendo ainda ressalto inferior. A fortificação a NO. tinha flancos laterais ligando as tenalhas de ângulo à cortina central, com troço da tenalha e cortina ainda subsistentes, mas cuja altura vai morrendo em direcção às portas de Évora, sem o parapeito e muito encoberto pela vegetação; no flanco N. rasga-se porta, em tijolo, de arco abatido, flanqueado por pilastra, terminando em cornija e possuindo túnel em abóbada cerâmica de berço abatido de acesso à fachada principal do castelo artilheiro. Desde sensivelmente a S. até à zona da cerca da vila que inflecte e ligando-se a ela, existe uma segunda cortina, de traçado tenalhado, composta por três tenalhas interligadas, muito arruinadas e igualmente encobertas pela vegetação. Da cerca nova resta apenas um troço por detrás do Convento da Esperança.

Materiais

Estrutura de xisto, piçarra, rocha da região aparente ou argamassada e rebocada; colunas e molduras de vãos do castelo artilheiro em mármore; grades de ferro; portas exteriores de madeira chapeadas a ferro; portas interiores envidraçadas e de madeira; pavimento cerâmico e em xisto; cobertura de telha.

Observações

*1 - Segundo Túlio Espanca, a cisterna tinha capacidade para armazenar 80 m3 de água, podendo ser abastecida em caso de necessidade por um poço, com 16 metros de profundidade, ainda existente no princípio da rampa do paiol. *2 - É comum dizer-se que D. Fernando mandou abrir a NE. a porta de Elvas, entre dois cubelos quadrangulares, construir um outro a N. e dois outros flanqueando os da porta de Estremoz, no entanto, esses cubelos quadrangulares são nitidamente anteriores aos ultra-semicirculares. Afirma-se ainda que D. Fernando mandou abrir a SO. da cerca a porta da torre, segundo Túlio Espanca, executada por um pedreiro de nome Machado. *3 - A 8 Junho de 1381 fez-se mercê do castelo a Vasco Porcalho, Comendador-mor de Aviz. Em Outubro de 1383, com a morte de D. Fernando, o castelo, ainda que nas mãos de um partidário de D. Leonor Teles, tomou o lado do Mestre de Avis e, em Dezembro, aquando da sua aclamação, estava na posse de Garcia Pires de Campo, cavaleiro da Ordem de Aviz. A 22 Abril de 1384, D. João I voltou a doar a tenência do castelo, rendas e direitos da vila para sustento dos que serviam na guerra, a Vasco Porcalho, porém, Álvaro Gonçalves e Pedro Rodrigues, alcaide-mor do castelo de Alandroal, desconfiaram que Porcalho se tivesse passado para o lado de Espanha, levando a que ele abandonasse a praça. D. João I devolveu-lhe o governo da praça, de que ele tomou posse, excepto a chamada torre de menagem, que ficou na posse de Álvaro Gonçalves. Porcalho acabou, no entanto, por tomar o partido de Castela. Em 1834, quando Nuno Álvares Pereira tentou tomar posse do castelo, os homens de Porcalho, ao atirarem pedras pelo matacão da ponte entre a cerca e a torre albarrã, mataram Fernão Pereira, seu irmão, e o seu escudeiro, Vicente Esteves. Após a vitória de Portugal na batalha de Aljubarrota, em 1385, Porcalho abandonou o castelo. *3 - A data de construção do castelo artilheiro continua por averiguar e datar. Segundo Túlio Espanca, D. Jaime teria iniciado a sua construção por volta de 1520, o que exigira a demolição de casas no interior da muralha medieval e parte do castelo e da cerca velha, entre as Portas de Évora e as do Sol, e atribui o traçado aos arquitectos Diogo ou Francisco Arruda. Segundo o Padre Espanca, D. Jaime teria mandado reformá-lo depois de regressar de Azamor, mudando-lhe a porta principal de SE. para NE., formando-lhe de novo as torres nos ângulos noroeste e sueste e D. Teodósio teria ainda melhorá-lo, criando a sala das Armas. Segundo a descrição que Cadornega fez do castelo, por volta de 1683, a cerca da vila velha tinha 5 portas: a da torre, junto à qual existia a capela com abóbada de Nossa Senhora dos Remédios, a do sino de correr, a porta do sol, que dava para o convento de Nossa Senhora da Esperança, a do postigo e a do curral. No interior ficava o castelo, semelhante ao de Milão, com cava ou fosso e barbacã com uma porta; a porta do castelo, acedida por ponte fixa, era chapeada a ferro, seguida de uma outra porta, existindo entre ambas um "forte rastilho" por entre a muralha, seguindo depois uma terceira porta; havia ainda um postigo à direita, tendo vão superior por onde se deitavam "artifícios de fogo"; à ilharga havia uma grande boca de fogo; aí havia um vão grande com janelas e troneiras; seguia-se uma outra porta que acedia ao pátio do castelo; na ala direita deste dispunham-se, nos baixos, os armazéns de vinho e azeite e nos altos a morada de quem assistia no castelo, com mulher e família, pessoa nobre e cavaleiro da Ordem de Cristo, possuindo no interior muitas "cabras da Índia" servindo de tapetes e panos lavrados para o serviço no paço; a ala fronteira à porta do pátio servia, no piso térreo, de guarda a grande quantidade de "pelotaria dos calibres de artelharia", munições de mosquete, arcabuzes e pistolas e, no piso superior, às tapeçarias e ricas armações do palácio, em veludos e damascos, com franjas de seda e ouro de diversas cores, cadeiras do mesmo material e muitos outros paramentos e ornatos, que iam para o paço em carroças. As salas dispostas na ala esquerda serviam de celeiros e no piso térreo havia muitas talhas com vinho e azeite. A ala que fechava a quadra tinha nas salas do piso térreo armazéns com picaria sobre postes pequenos e vigas; as salas do segundo piso tinham armações com todo tipo de armas de fogo, espadas e "traçadas"; tinha 2 carreiras de colunas ou postes cobertos de armas brancas, peitos e espaldas, morrões e capacetes, manoplas e saias de malha, e entre as colunas um cavaleiro armado sobre madeira, com rodas. Seis armeiros cuidavam continuamente destas armas sob a orientação do Marquês Brás Soares de Sousa. Todos os armazéns tinham janelas gradeadas viradas à quadra. No pátio havia muitas peças de artilharia e um vão abobadado com escada por onde se subia ao alto do castelo, onde havia 4 salas e quartéis de soldados. Numa estava a pólvora e noutra a mesma era fabricada. Por cima de tudo corriam as plataformas e ameias da artilharia com os seus "4 cubelos". O fosso tinha nos 4 cantos umas lapas que entravam no castelo e que ligavam à cisterna, cujo sistema permitia esvaziar toda a cisterna no fosso. *4 - Segundo o Padre Espanca, na cerca nova, de alvenaria, com 5m de altura e 1 de espessura e guaritas nos cunhais, abriram-se 4 novas portas: a do Nó, a de Santa Luzia, a de São Sebastião e a da Esperança, a primeira deslocada e as outras já desaparecidas. Tinha o seguinte traçado: a NO., em frente de Borba, ficava a porta do Nó, talvez então chamada de Santo Agostinho; a muralha seguia para NE., abrangendo a cerca dos Gracianos e os quintais de várias casas, até ao extremo da R. Carreira das Nogueiras "onde se tolerava um boqueirão em tempo de paz chamado Boqueirão do Corregedor para comunicação com as hortas do ribeiro do Beiçudo e o rossio do Outeiro do Bicalho, onde ficava a porta de São Francisco. Depois, ligava-se à cerca antiga e à estrela, voltando a aparecer a E., onde ficava a porta da Esperança, de arco bastante elevado, sem cantarias, encimada por pequena abóbada, formando uma varanda, com face frontal decorada por duas grosseiras pirâmides de alvenaria laterais. Esta porta dava saída para as hortas do ribeiro do Rossio de São Paulo, Outeiro do Ficalho, Elvas, etc. A muralha prosseguia então para S., por entre os quintais do Convento da Esperança e horta da mesma, e depois ao longo dos quintais do baixo Rossio, onde em 1849 existiam muitos lanços da muralha. A S. da aldeia, ficava a porta de São Sebastião, seguindo a muralha para O.; depois entrava na cerca do Convento de São Paulo e, na esquina do convento, onde começava a estrada moderna para o Alandroal, separava-se o Rossio do Carrascal, estendendo-se o muro para NO. em direcção à R. de Fora, depois a um lagar de azeite e continuava pelos quintais da "faceira do poente da R. de Frei Manuel". A muralha atravessava depois o Colégio Jesuíta, junto ao qual ficava a porta de Santa Luzia, semelhante à da Esperança, cuja casa da guarda foi absorvida na construção do Colégio. Os muros continuavam atravessando o casario e os quintais a O. da R. de Santa Luzia até à R. das Cortes, onde em tempo de paz estava aberto o boqueirão, conhecido como Boqueirão de Luís Jorge. Dali prosseguia pela horta do Convento das Chagas, Reguengo, Palácio Real e Ilha, até se ligar à porta do Nó. *5 - A Capela de Nossa Senhora dos Remédios foi construída para ministrar a missa aos presos na cadeia, integrada nos antigos Paços do Concelho. No séc. 20 tinha fachada terminada em cornija de coroamento, rasgada por portal de verga recta, sobreposto por pequena cornija, janela estreita gradeada e, enquadrada por molduras relevadas de massa, painel de azulejos monocromos azuis sobre fundo branco, de perfil semicircular com representação de Nossa Senhora da Misericórdia, de meados do séc. 18. Possuía nave rectangular, coberta por abóbada de berço e as paredes revestidas a azulejos historiados alusivos à vida da Virgem (com 2,50 x 9,50) com a figuração do Nascimento da Virgem, Apresentação da Virgem no Templo, Casamento da Virgem, Anunciação da Virgem, Nossa Senhora da Conceição, Visitação, Natividade, Apresentação do Menino no Templo, Fuga para o Egipto e o Menino entre os Doutores. Tinha ainda retábulo de talha dourada e policroma, de estilo rococó, e um quadro com representação do orago. *6 - Neste mesmo ano de 1643, as obras da Capela do Santíssimo e da sacristia geral da Igreja Matriz estiveram embargadas, uma vez que tal ampliação interceptava uma rua que partia do postigo da Porta do Sol. *7 - A Câmara combinara com o Governador repartir as estacas pelos moradores da vila, que ficavam obrigados, juntamente com os seus herdeiros, a apresentá-las caso voltassem a ser necessárias, mas depois o Governador mandou vendê-las a $350 a carretada. *8 - Já na relação do estado dos instrumentos militares, datada de 6 Agosto de 1762, se fazia referência à estacada do castelo, existente à roda do mesmo, estar totalmente arruinada, permitindo a entrada de quem quisesse; no muro antigo da porta dos Remédios, muitas das escadas e caminho de ronda estavam incapazes e o parapeito estava em parte derrubado; a trincheira à volta da vila estava derrubada pelo temporal e pelos moradores que a usavam para saírem para fora, havendo necessidade de consertá-la para não devassar a vila; as grades que serviam em vários buracos por onde entrava a água não aparecem e eram muito necessárias; as 4 portas da vila precisavam de poucos consertos e estavam capazes de servir. *9 - Por ordem do Príncipe Regente, em 1806 trouxe-se para a vila 3 canhões, um de ferro e dois de bronze, calibres 8 e 24, para dar salvas em momentos solenes. *10 - Ao longo do séc. 19 são várias as informações sobre o estado de conservação do castelo. No dia 10 de Fevereiro de 1816 a cortina "do mais alto" para o fosso, do lado do Convento da Esperança, "se agaxou no cumprimento de 30 varas e em altura de 17 varas", não se podendo perceber maiores danos devido ao entulho. Em 1831 sabe-se que era necessário consertar as torres que flanqueavam a cidadela, o seu lajeado achava-se muito arruinado e as águas repassavam as abóbadas. Segundo o Pe. Espanca, por volta de 1845, a cerca velha tinha apenas 3 portas: a de Estremoz, a NO., a do Sol, Olivença ou Traição, a E., e a de Évora a SO., o parapeito antigo subsistia em muitos pontos, noutros estava refeito ao moderno e noutros estava raso ou quase ao adarve; não existia nenhuma ameia nem uma das torres da porta de Évora. Numa informação datada de 7 Junho de 1856, o Eng. Frederico Perry Vidal informa o Administrador Geral que algumas guaritas estarem caídas, duas obras avançadas tinham sido demolidas pela Câmara, os fossos, parte da esplanada e os intervalos da fortificação estavam cultivadas. *11 - Em 1943 compraram-se duas parcelas de terreno e procedeu-se à demolição e regularização de casebres, e construção de muros para formação de zona de protecção do castelo. Considera-se ainda conveniente a aquisição de outros terrenos entre a nova avenida em construção, cerca e castelo, para servirem de alameda pública, cujo projecto era do Engenheiro Duarte Pacheco. *12- A primitiva ponte, também de alvenaria, foi demolida durante a Guerra da Independência, tendo sido posteriormente substituída, por duas vezes, por uma outra de comunicação em madeira. Segundo a memória descritiva de 1843, sobre o local da ponte, existia no fosso o aterro com a altura de 2 palmos, proveniente da demolição da antiga ponte, o qual era preciso então remover e aproveitar para a nova construção