Igreja paroquial que constitui um raro exemplar de arquitectura pré-românica do Ocidente peninsular, com abundante materiral romano reaproveitado e reelaborado, que confere um aspecto classicizante ao conjunto, estatuto reforçado pela ausência de decoração e pelo predomínio das linhas rectas, de carcácter tardo-asturiano, de plano basilical e cabeceira tripartida. É composta por três naves, antecedidas por nártex bastante longo (maior que os dos templos asturianos áulicos), e de dois andares (dando o superior para o interior da igreja). transepto saliente e cabeceira datada dos primeiros anos do séc. 10. Tem vestígios de influência islâmica na possível torre-cruzeiro com ajimez axial em friso de arcos cegos, semelhante à torre cruzeira de São Frutuoso de Montélios (v. PT010303370014). Transepto saliente mas tripartido, sendo o cruzeiro antecido por iconostase de feição desconhecida; compartimentos laterais do transepto separados do cruzeiro e das naves laterais através de arcos-diafragma que reforçam o isolamento destes compartimentos em relação à nave central e cruzeiro. Iluminação e configuração original da cabeceira desconhecidas. Portas com lintel recto e arco de descarga de volta perfeita, solução comum na primeira metade do séc. 10, com exemplos em San Pedro de la Nave, São Gião da Nazaré, Santa Maria de Melque, Santiago de Peñalba, San Xés de Francelo. Estilisticamente está relacionada com os templos de São Pedro de Balsemão (v.PT011805210004), a Mesquita-Catedral de Idanha-a-Velha (v.PT020505040010), a estação arqueológica do Prazo (v. PT010914060177). A noroeste, surge um conjunto de sepulturas escavadas na rocha, mas em provável conexão com esta, de orientação variável e único na região do Mondego. Campanha gótica não especificada, materializada em dois capitéis vegetalistas, de que se conserva apenas um. Foi bastante intervencionada no séc. 20, com reconstrução integral da cabeceira, nártex e partes altas do corpo e do transepto, constituindo o seu processo de restauro um dos melhor documentados da História do Restauro em Portugal, com três projectos distintos e numerosos investigadores envolvidos.
Planta longitudinal, regular, composta por nártex, corpo de três naves, transepto saliente e cabeceira tripartida, coincidindo o exterior com a organização interna. Volumes articulados dispostos horizontalmente, com cobertura em telhado de duas águas no nártex, nave central, braços do transepto e capela-mor e em uma água sobre as naves laterais e absidíolos, continuando estes a cobertura exterior da capela-mor. Fachada principal orientada, organizada em três corpos, sendo o central o único a dois registos; primeiro registo ( corresponde ao nártex ), saliente, definido por largo arco de volta perfeita, inserindo-se as aduelas numa moldura; telhado em empena triangular, assente em dois modilhões sem decoração; segundo registo do corpo central recuado, com ajimez axial, moldurado, definindo o telhado uma empena triangular; corpos laterais simétricos e lançados no prolongamento lateral do segundo registo do corpo central, definindo o telhado uma linha oblíqua descendente; ao centro de cada corpo, uma porta de arco recto, mais baixa e de vão menor que a do arco principal. Fachadas laterais N. e S. simétricas, compostas por quatro corpos, correspondentes ao nártex, corpo do templo ( com alçado das naves laterais e, mais recuado, o da nave central ), transepto e cabeceira; a dois registos, definem-se os alçados da nave central e o corpos do transepto; corpos do nártex sem qualquer elemento divisor, assim como o das naves laterais, sendo estes os mais baixos, com telhado suportado, nos ângulos, por um modilhão de rolo; corpos do transepto com arco de descarga de volta perfeita sobre lintel recto, harmonicamente dispostos no alçado e, no segundo registo, uma pequena fresta, rasgada verticalmente; corpos da cabeceira correspondentes aos absidíolos ( de menor altura e profundidade ) e à capela-mor, todos sem elementos divisores. Fachada posterior organizada em cinco corpos, correspondentes às paredes fundeiras da capela-mor, dos absidíolos e da nave central e ao alçado nascente dos braços do transepto, divisão que tem correspondência em altura; capela-mor com uma fresta rectangular aberta a meia altura e telhado em empena triangular; absidíolos igualmente com uma fresta, mas de menor amplitude e linha de telhado oblíqua; alçados do transepto sem qualquer decoração; nave central com ajimez axial, de perfil idêntico ao da fachada principal e telhado definindo uma empena triangular. INTERIOR: espaços diferenciados em nártex, corpo, cruzeiro, braços do transepto e cabeceira. Nártex rectangular protegido por grade de ferro; porta principal do templo com lintel recto, sobrepujado por arco de descarga de volta perfeita. Corpo do templo tripartido, com arcarias de aduelas rusticadas e molduradas sobre saiméis de grandes dimensões, comuns a duas arcarias, e colunas cilíndricas de bases e capitéis idênticos, sem decoração; suporte para baptistério no topo O. da nave lateral N., composto por base circular irregular escavada na rocha e um pequeno canal para águas; marcas da iconostase a anteceder o cruzeiro. Cruzeiro rectangular, separando-se da nave central por uma secção de parede sem arcarias, e dos braços por arcos diafragma em ferradura. Braços do transepto rectangulares, com cinco acessos, três interiores ( para o cruzeiro, naves laterais e absidíolos ) de idêntica configuração, em arco em ferradura, e dois exteriores ( os virados a N. e a S. ), de lintel recto com arco de descarga de volta perfeita, e duas pequenas portas voltadas a O., de vão recto, semelhante às dos alçados O. das naves laterais. Cabeceira tripartida, não inter-comunicante, com arco triunfal em ferradura e espaços rectangulares, sendo o da capela-mor mais largo e profundo. Pavimento homogéneo em lajes de granito, à excepção de uma secção da nave central a anteceder o cruzeiro, de madeira, sobre os restos de uma necrópole.
Materiais
Granito, madeira de castanho ( portas ), vidro, madeira ( pavimento e telhado ), telha, calçada portuguesa.
Observações
*1 - Praticamente desconhecida. Admite-se que possa ter sido uma reforma estrutural e não decorativa, incidindo sobre as partes altas e sobre a organização espacial pré-românica: supressão da tribuna ocidental; supressão da iconostase; nova configuração da cabeceira, que terá passado a ser escalonada e quadrangular; destruição da torre cruzeira; adossamento de uma torre campanário à secção N. do nártex, ou prolongando o corpo da igreja, suprimindo-se também o nártex, que passou a estar integrado no corpo ( FERNANDES, 2002: 217 e 220 - 227 ); *2 - Apesar de Tarquínio Hall equacionar um foral anterior, cujo conteúdo e data se desconhece ( HALL, 1993: 50 ); *3 - Diversos trabalhos no interior do templo, com renovação de capelas e construção de um coro alto, de madeira. Terá sido nesta altura que se reformulou parte da cabeceira, hipótese ainda não inteiramente provada; *4 - Informação de VASCONCELOS, Outubro de 1911: 78. Esta data é contrariada pelo próprio Marques Abreu ( 1930: 140 ), que dá a Primavera de 1811 como a das primeiras fotografias. PESSANHA, 1927: 76 indica que a data da visita de Marques Abreu é 1908; *5 - Planta igual à de São Pedro de Balsemão, com três naves e cabeceira de dependência única, quadrangular. Diferia pelo maior prolongamento do corpo e pelo menor comprimento da capela-mor ( em oposição às proporções de Balsemão ); *6 - Corpo de três naves ( reduzido a metade do comprimento da proposta de Vasconcelos ), transepto saliente e cabeceira tripartida escalonada de dependências quadrangulares, com a capela-mor mais larga e mais comprida que os absidíolos. Não coincidência da cabeceira com os muros existentes: arco triunfal situado mais a nascente; redução dos braços do transepto a um/quarto e desenho de dois absidíolos a ladear a capela-mor; *7 - Então datada de época visigótica, embora hoje se equacione uma cronologia em plena primeira metade do séc. 10; *8 - Corpo de três naves como proposto por Pessanha, antecedido por nártex de duplo compartimento ( o central, mais largo e correspondendo à nave central e uma escadaria a N. dando para uma eventual tribuna superior ); transepto e cabeceira idênticos aos propostos por Pessanha, com a adição de uma iconostase a separar a nave central do cruzeiro; *9 - Manutenção do corpo de três naves escalonado proposto por Pessanha; nártex de compartimento único correspondente à largura da nave central e de altura idêntica à das naves laterais; ausência de transepto; cabeceira tripartida quadrangular, não saliente, com capelas intercomunicantes; pequeno presbitério a E. da capela-mor, de dimensões muito reduzidas e com acesso através de um arco em ferradura de menor vão que o triunfal. Ajimez axial sobre o nártex, no prolongamento da fachada principal; iluminação lateral da nave central através de três frestas harmonicamente dispostas e das naves laterais por duas frestas e por porta no tramo mais próximo da cabeceira; iluminação E. através de três janelas correspondentes aos três volumes ( presbitério, capela-mor e nave central ); *10 - Discurso de Marques de Abreu. Estiveram presentes Alfredo Magalhães ( Ministro das Obras Públicas ), Henrique Gomes da Silva ( Director Geral da DGEMN ), Baltazar de Castro ( Director dos Monumentos Nacionais do Norte ), Manuel de Aguiar Barreiros e José Vilaça; *11 - Nártex maior que no primeiro projecto; manutenção do corpo em três naves, com acrescento de uma sacristia a N., sensivelmente com as mesmas proporções que as naves laterais; transepto saliente; iconostase a separar a nave central do cruzeiro ( de dois andares, o primeiro de tripla arcada e o segundo com três janelas em arco em ferradura harmonicamente dispostas em relação aos vãos inferiores ); cabeceira tripartida e escalonada, quadrangular; colocação da torre sineira no prolongamento N. da fachada O. da sacristia, com ligação através de um arco em ferradura inventado; inexistência de frestas laterais na nave central, mas duas em cada alçado das naves laterais; inexistência de vãos de iluminação nos topos superiores do transepto; arco triunfal inserido em alfiz; capela-mor com telhado de três águas; *12 - Recusa do local da torre e da construção de uma sacristia; recusa em construirem-se novas aduelas rusticadas; supressão de janelas nas naves laterais; colocação de aximezes nos braços do transepto; configuração tripartida da janela da cabeceira, à maneira asturiana; *13 - Em relação ao anterior, supressão da torre, arco em ferradura e sacristia; colocação do altar a meio da capela-mor e não adossado à fachada E.; alteração do segundo registo da iconostase, passando a ter três séries de três arcos em ferradura; supressão de vãos de iluminação nas naves; colocação de aximezes nos torpos do transepto; capela-mor com telhado de duas águas; maior abertura do arco triunfal e supressão do alfiz que o envolvia; janela tripartida na fachada E. da capela-mor; *14 - Nártex de compartimento único, maior que o proposto por Vilaça; manutenção do corpo de três naves; transepto saliente com arcos diafragma a separar o cruzeiro dos braços e estes das naves laterais; cabeceira tripartida escalonada e quadrangular, de capela-mor e dius absidíolos muito pequenos. Inexistência de solução a dar à iluminação E. da capela-mor e da nave central; ajimez no alçado O. da fachada principal; arco do nártex com aduelas inseridas numa moldura; arco da porta principal e das portas do transepto de volta perfeita, com lintel recto; inexistência de frestas nos alçados laterais; recusa de um museu no narthex; abandono da iconostase; *15 - Composto por colunas classicizantes, com grandes impostas de rolos, material fotografado por Marques Abreu e ainda visível no local na altura do restauro; *16 - FERNANDES, 2002: Igreja de planta longitudinal, antecedida por nártex de duplo compartimento em altura ( com dependência térrea e tribuna superior dando directamente para a nave central ), mas planimetricamente correspondendo à nave central. Corpo tripartido em naves de três tramos, separadas entre si por arcarias de tripla arcada em ferradura, com iluminação lateral para a nave central, através de janelas de arco em ferradura harmonicamente dispostas nos alçados e axialmente em relação ao fecho de arco das arcarias formeiras. Cruzeiro separado da nave central através de uma iconostase, de que se desconhece a configuração. Braços do transepto separados das naves laterais e do cruzeiro através de arcos-diafragma em ferradura. Cruzeiro rectangular com cobertura em madeira e abundante iluminação, através de quatro ( ou dois ) ajimezes integrados ao centro do friso de arcos cegos que decorava a torre cruzeira. Cabeceira tripartida, mas de configuração desconhecida, aceitando-se a forma escalonada actual ou, ao invés, de parede nascente única, correspondendo a uma maior profundidade dos absidíolos. Em altura, nártex e nave central deveriam estar à mesma altura, apenas superada pela torre cruzeira, espaço volumetricamente mais proeminente; naves laterais e braços do transepto mais baixos que a nave central; cabeceira desconhecida, sendo de aceitar uma gradação volumétrica entre capela-mor ( mais elavada ) e absidíolos; *17 - processo contrariado pelo Arquitecto Chefe da 4ª Secção dos Monumentos Nacionais que, em informação de 13 de Outubro de 1941, opta por um "lageamento de forma irregular".