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Quinta da Abelheira

Quinta da Abelheira

O ponto de interesse Quinta da Abelheira encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Santo Antão e São Julião do Tojal no municipio de Loures e no distrito de Lisboa.

Espaço verde de produção agrícola / Espaço verde de recreio. Quinta de fundação monástica que remonta ao séc.12. Foi alvo de grandes melhoramentos no séc.18 que lhe conferiram uma caracterização estilística barroca. Integra o Palácio da Abelheira, seus jardins com estrutura de buxo ainda aparente, painéis de azulejos, bancos, namoradeiras e casa de fresco, mata e áreas agrícolas de regadio e sequeiro. Alguns elementos construídos com função recreativa foram introduzidos no sec.19, quando a quinta ficou na posse de famílias inglesas proprietárias, igualmente, da Fábrica de Papel do Tojal. Sobressai a engenhosa estrutura de captação, armazenamento e distribuição de água pela propriedade, com extrema racionalidade na distribuição pelos diversos espaços de recreio e produção, difícil de datar, mas que denota que a estrutura vicentina foi intencionalmente respeitada nos séculos 18 e 19. A Quinta da Abelheira atravessou diferentes momentos históricos desde a fundação da nacionalidade portuguesa, dando suporte a funções que percorrem transversalmente as tipologias de construção na paisagem, desde cerca, a quinta de recreio de família da alta burguesia, ou pólo industrial. Apresenta elevado valor arquitetónico e paisagístico.

Propriedade de planta irregular alongada no sentido N. / S. A situação geomorfológica da quinta caracteriza-se por dois tipos de relevo distintos, revelando a transição que se efetua no local. Assim, do núcleo edificado para S. domina o relevo suave, tendo o terreno sido armado em terraços numa ampla extensão, através da construção de muros de contenção em pedra argamassada, desde o muro NO. da propriedade até ao rio, com o objetivo de facilitar a utilização agrícola dos produtivos solos de Barros Castanho Avermelhados. Do núcleo edificado para N., domina o relevo ondulado de declives mais acentuados, onde dominam solos Litólicos não Húmicos, pouco produtivos, em que o coberto dominante é o antigo olival da quinta. O núcleo edificado situa-se numa plataforma central, sensivelmente à cota altimétrica de 40 m, e nas suas imediações, entre os 30 e os 50m, situam-se a maioria dos elementos construídos que a caracterizam como quinta de recreio, como sejam os jardins e pomares (dos quais restam algumas espécies vegetais ornamentais e de fruto), sistemas complexos de captação, armazenamento e distribuição de água, caminhos e muros, entre outros. A cota máxima é de cerca de 90m e atinge-se no limite N., na encosta do olival e a mínima, de 15 m, ocorre no limite SO. da propriedade, junto ao rio Trancão. Predomina a exposição S. e O. no sentido da várzea e do rio, criando condições climáticas muito favoráveis à fixação humana e à produção agrícola, com temperaturas moderadas e elevada humidade relativa. A disponibilidade de água subsuperficial é elevada resultando na abundância de pontos de captação. A Quinta é atravessada, a N. do Palácio, por uma linha de água que drena toda a encosta do Zambujal e que é bem marcada no terreno, e por duas outras linhas de drenagem natural que sulcam o olival em direção ao Trancão, rio que recolhe a água que circula na Abelheira. O acesso principal à quinta, em alameda central, foi alterado pela construção da via de cintura da AMLN que atravessa e divide a S. a propriedade em duas parcelas autónomas; uma delas, de reduzida dimensão, margina a EN 115-5, engloba o alto muro com o portão de ferro e a placa toponímica com a designação "Quinta da Abelheira", mantém no seu interior três edifícios de construção recente; a outra parcela, a N. da via, mantém a estrutura da quinta da Abelheira. O acesso é efetuado por um portão provisório, localizado imediatamente a N. da via de cintura, numa abertura do muro de alvenaria de pedra da antiga cerca. A propriedade é vedada em toda a sua extensão, ora por muro alto de alvenaria de pedra a N. e E., ora por muro de contenção na margem do rio Trancão a O.; a exceção é o limite S. que é efetuado por vedação em rede de arame confinante com a via de cintura. Existem duas outras entradas para a propriedade, uma no limite NO., pela antiga EM. 613, com continuidade em caminho na encosta do olival, a N. do palácio, e uma outra a E. do palácio, próxima ao extremo S. do edificado do Zambujal. A estrutura da quinta é marcada por uma ALAMEDA CENTRAL com cerca de 1km que une o topo S. da propriedade ao palácio. Esta alameda é ladeada por muros de pedra em toda a sua extensão com a dupla função de delimitação e contenção das terras laterais, é pavimentada em calçada grossa de basalto e marginada por oliveiras e eucaliptos, alguns de porte notável. Os terrenos laterais à alameda são barros muito férteis, tendo sido utilizados como TERRAS DE CULTIVO de cereais, olival e hortas, sucessivamente de S. para N. e, atualmente, encontram-se com prado natural. Da alameda até ao rio Trancão estas terras encontram-se armadas em terraços, contidos por muros de alvenaria de pedra, a maioria dos quais com caleiras adossadas, a cerca de 1 metro do solo, para condução da água de rega *2. Da alameda para E., uma extensa e plana folha de cultivo, em abandono de produção de cereal, domina visualmente o quadrante SE. da propriedade. Nesta plataforma apenas a ruína de um antigo moinho em alvenaria de pedra se eleva do solo *3. No topo N. do percurso em alameda, alcança-se o NÚCLEO CONSTRUÍDO que inclui palácio, capela, casa, edifícios de apoio, pomares e jardins, posicionando-se numa plataforma intermédia entre os campos de cultivo e a encosta N., disfrutando de um complexo sistema de captação, armazenamento e distribuição de água, proveniente quer do rio Trancão, através de uma enorme levada sobre muro de pedra, quer da grande reserva circular, através de canais intramuros ainda visíveis no muro que delimita o percurso entre o pátio do palácio e a reserva, e que permitiu o abastecimento ao edifício principal, às estruturas de recreio e a rega de pomares e jardins. São estes os CAMPOS DE REGADIO, abrangem a zona central da quinta, junto ao núcleo edificado, onde a disponibilidade hídrica é maior e os declives menos acentuados. Inclui as áreas denominadas Jardim Pequeno, Jardim Grande, Pátio e Pomar das Nonas, Pomares da Tangerina, da Meia Laranja, da Reserva e do Rio, Porta de Ferro e Courela. O JARDIM PEQUENO assenta em plataforma sustentada por muros de suporte, com acesso a partir do Palácio ou por escadaria de ligação ao Pátio e Pomar das Nonas. Abrange o espaço junto à fachada S. do Palácio, a plataforma lateral e os patamares que se desenvolvem a cotas sucessivamente mais baixas. Neste jardim permanecem duas namoradeiras revestidas a azulejo em muito mau estado e um tanque retangular de construção recente. A E. do Jardim Pequeno, o PÁTIO DAS NONAS é rodeado pelos edifícios (palácio e capela, edifício com três torreões e apoios), e pelos três portais (o de acesso pela alameda central e dois que marcam o acesso aos campos agrícolas a S.); apresenta uma estrutura de jardim formal, com canteiros retangulares delimitados por murete e percursos pavimentados em tijolo burro e pedra. Neste local existem painéis de azulejo e dois tanques, um dos quais, adossado ao edifício dos torreões, estabelece um eixo visual com o nicho junto à escadaria de acesso ao Jardim Pequeno. A NE. do Pátio e Pomar das Nonas, situa-se o Pomar da Tangerina, onde ainda é visível pérgula, caleira, poço e tanque. A S. do Pátio das Nonas, o Pomar da Reserva é constituído por três plataformas sustentadas por muro de suporte com sistema de rega em caleiras adossadas, onde estão plantadas árvores de citrinos; o JARDIM GRANDE, na extremidade N. dos campos de regadio, e na continuidade do Pomar da Tangerina, apresenta um carácter intimista onde se misturam funções recreativas e produtivas. Dominam as laranjeiras estando os elementos construídos limitados a escadaria com degraus cujo espelho é revestido a azulejo e a latada com esteios de pedra; a RESERVA, na zona E. da propriedade, tem características semelhantes ao Jardim Grande, apresenta um grande tanque circular de armazenamento de água e uma casa de fresco, à qual se acede pelo caminho que ladeia e circunda o tanque. A N. de toda esta área de recreio e produção na envolvente do núcleo construído, situam-se o OLIVAL e a MATA, numa área caracterizada por encostas declivosas e de solos pouco profundos, funcionando como fator de equilíbrio ecológico em termos de biodiversidade e conservação da água e do solo *4. É delimitada fisicamente da área de jardim por caminhos em terra batida e tem acesso direto pelo portão norte da Quinta. No séc. 20 foi reformulada a área SO. da propriedade, que é designada por Terra dos Chalets, dado que aí se situam algumas moradias, edificadas para alojamento de técnicos da fábrica de papel.

Materiais

INERTES: alvenaria de calcário e basalto rebocada (muros), alvenaria de pedra (escadas), cantaria de calcário (escadas do pátio e pomar das nonas), madeira, alvenaria com reboco e espelho em azulejo (escadas no jardim grande), estuques e mármores, calçada de calcário regular (eixo de acesso à propriedade, pátios), calçada de calcário irregular (pavimento no jardim pequeno e junto ao tanque de rega circular), tijolo burro (pavimento no pátio e pomar das nonas), lajes de calcário com fiadas de tijolo burro (pavimento sob latada), lajes de calcário, irregular, ortogonal (pavimento no jardim da tangerina), betonilha (pátio e pomar das nonas, junto à casa do caseiro), calçada de basalto (pátio e pomar das nonas). VEGETAL: árvores - acacia (Acacia sp.), ameixoeira-de-jardim (Prunus cerasifera var. Atropurpurea), amendoeira (Prunus dulcis),árvore-do-gelo (Brachychiton populneus), castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum) e (Aesculus x carnea), choupo-negro (Populus nigra), cipreste-da-california (Cupressus macrocarpa), cipreste (cupressus sempervirens var. Horizontalis e Cupressus sempervirens var. Sempervirens), diospiro (Diospyrus kaki), corisia (Chorisia speciosa), eucalipto (Eucaliptus globulus), falsa acácia (Robina pseudoacacia), figueira (Ficus carica), freixo europeu (Fraxinus excelsior), grevílea (Grevillea robusta), jacarandá (Jacaranda mimosifolia), laranjeira (Citrus aurantiacum var. Sinensis), loureiro (Laurus nobilis), magnolia (Magnolia grandiflora), nogueira (Juglans regia), olaia (Cercis siliquastrum), oliveira (Olea europaea var. Europaea), palmeira-das-canárias (Phoenix canariensis), pereira (Pyrus communis), pimenteira-bastarda (Schinus molle), plátano (Platanus orientalis), tilia (Tilia cordata), ulmeiro (Ulmus minor), zambujeiro (Olea europaea var. Sylvestris); arbustos - árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum), buxo (Buxus semperviriens), carrasco (Quercus coccifera); loendro (Nerium oleander), romanzeira-de-jardim (Punica granatum); trepadeiras - glicínia (Wisteria floribunda).

Observações

*1 - DOF: Quinta da Abelheira, incluindo o palácio, jardins e envolvente florestada. *2 - Estas parcelas são designadas por Pomar do Rio, São Gonçalo, Porta de Ferro e Courela (SEQUEIRA,1935).*3 - Parcelas designada por Terra da Cruz e Pombal e Terra das Rosas (SEQUEIRA,1935). *4 - Inclui as zonas denominadas S. João da Coelheira, Encosta da Baleia, Moinho Novo, Terra da Mata, Mata, Encosta dos Currais e Jogo das Almas (SEQUEIRA,1935). 5*, - A grande reserva circular encontra-se representada na cartografia do séc.18 (1764), sendo possível compreender que se destinava a recolher e armazenar a água que drenava da encosta do Zambujal, através da linha de água que ainda hoje atravessa a encosta e a propriedade da Abelheira, a N. da reserva. *6 - Uma linha de água natural canalizada a funcionar como caneiro de drenagem, com estrutura construtiva semelhante, encontra-se na Quinta dos Marqueses de Fronteira, (ver Castel-Branco, 2010, p. 28).