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Igreja do Senhor dos Mártires

Igreja do Senhor dos Mártires

O ponto de interesse Igreja do Senhor dos Mártires encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Alcácer do Sal (Santa Maria do Castelo e Santiago) e Santa Susana no municipio de Alcácer do Sal e no distrito de Setúbal.

Igreja fundada na Idade Média pela Ordem de Santiago, estando documentada já no séc. 13, transformada em panteão dos Mestres da Ordem e depois em santuário associado à ocorrência de milagres, tendo sido reformada no séc. 14 / 15, e novamente no séc. 16, 17 e 18, resultando numa planta poligonal composta por nave, precedida de alpendre, e capela-mor, com duas capelas laterais góticas dispostas à esquerda, e torre sineira e uma outra capela românica à direita. A construção teve início no séc. 13, pouco depois da Reconquista, num local onde existia uma importante necrópole desde a Idade do Ferro, devendo corresponder à atual capela lateral direita, denominada do Tesouro no séc. 16, com nave e capela-mor, interiormente cobertas de abóbada de aresta e de berço, respetivamente, com fachadas terminadas em cornija reta sobre mísulas lisas equidistantes, inicalmente com acesso direto ao exterior, e atualmente com frestas de dois lumes na nave, de construção posterior, e fresta na capela-mor. No interior, o arco triunfal, de volta perfeita biselado sobre duplas colunas de capitel vegetalista, é encimado por óculo, e a capela-mor tem arcossólios laterais de arco apontado. Pouco depois deve ter-se construído um templo de maiores dimensões, junto a esta capela, de que subsiste parte da parede da nave, do lado do Evangelho, onde se abre arcosólio em arco de volta perfeita biselado, com túmulo ornado por espadas na tampa. À igreja adossou-se, em 1333, a denominada capela dos Mestres, com planta octogonal, interiormente coberta por abóbada de nervuras e amplamente iluminada por altas frestas de dois lumes em arco apontado e espelho trilobado, com as fachadas contrafortadas e terminadas em friso denticulado, cornija e platibanda, protegendo o terraço superior. Este é acedido por escada de caracol, integrada num corpo facetado autónomo, de caráter militar, coberto por falso lanternim e cúpula facetada, e dele é possível dominar um troço importante do rio Sado e visualizar o castelo de Alcácer. Na primeira metade do séc. 15, construiram-se duas outras capelas laterais confrontantes, subsistindo apenas a do Evangelho, igualmente gótica, de planta poligonal e dois tramos, o segundo facetado, coberta por abóbada de arestas e iluminada por frestas de arco apontado. As fachadas contrafortadas terminam em friso de ziguezague e platibanda plena, tendo gárgulas zoomórficas sobre os contrafortes, e sendo acedida, a partir da nave, por arco apontado sobre quatro colunas, com capitéis vegetalistas destacados. A capela confrontante foi demolida no séc. 18, devido à abertura de porta travessa e à construção da torre sineira, que aproveitou elementos do antigo portal, lápide com estrela de David e uma outra, alusiva à construção da capela em 1402, com as armas de Santiago e inscrição, constituindo o primeiro exemplar português gravado em letra gótica minúscula. A igreja foi reformada em meados do séc. 16, tendo-se então construído um alpendre frontal com quatro arcos, sobre o qual se construiu um coro, conforme descritos nas visitações de 1560; no séc. 17, deve ter-se reformado o alpendre, feito o portal axial, de verga reta e cornija, entre os postigos, e colocou-se o silhar de azulejos de padrão. Esses azulejos foram recentemente removidos e recolocados a enquadrar o arco triunfal, completados com outros novos semelhantes. Na segunda metade da centúria de setecentos, reformou-se a capela-mor e fizeram-se os retábulos de talha: o retábulo-mor de corpo côncavo e um eixo, rococó e com linguagem simplificada do período pombalino, os laterais e os colaterais de corpo reto e um eixo tardo-barrocos e de linguagem uniforme. Os atuais retábulos laterais são os antigos colaterais, para aqui transferidos nas obras recentes, data em que se apearam as pilastras exteriores e se abriram os respetivos nichos, e se transferiram os laterais para local desconhecido. A imagem medieval de Nossa Senhora da Cinta, com símbolos da Ordem de Santiago, estava, no séc. 16, num nicho sob o alpendre, sendo transferida para o interior da igreja antes de 1718, altura em que deve ter sido pintada e estofada. Atualmente está no presbitério e ainda é objeto de devoção popular, sobretudo das mulheres grávidas. Contudo, a oferta de um Cristo cruxificado, em finais do séc. 15, levou ao aumento da devoção cristológica ao Senhor dos Mártires e determinou a própria alteração da invocação do templo.

IGREJA de planta poligonal composta por nave, precedida por alpendre quadrangular, e capela-mor, mais estreita e mais alta, tendo adossado à fachada esquerda duas capelas laterais e à direita torre sineira quadrangular e uma outra capela lateral. Volumes articulados, com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e de três no alpendre, mais alto que a nave, terminadas em beirada simples, e em terraço revestido a cerâmica nas capelas laterais. Fachadas da igreja e da torre sineira rebocadas e pintadas de branco, e as das capelas laterais em alvenaria ou cantaria aparente. Fachada principal virada a O., com alpendre de cunhais apilastrados, a metade superior em falsas pilastras de alvenaria, reforçadas por gatos de ferro, com faixa pintada de azul e terminado em empena reta, com friso, também pintado de azul, e cornija de massa; é rasgado, em cada uma das faces, por arco de volta perfeita, sobre pilastras, e por janelas retilíneas, a virada a O. de varandim, com molduras simples e grades de ferro. Interiormente o alpendre apresenta pavimento cerâmico, integrando lápide tumular, cobertura em falsa abóbada de berço, de estuque, assente em colunas, flanqueadas por bancos, com assentos de cantaria. A nave é rasgada por portal de verga reta, encimado por friso e cornija, entre dois vãos retangulares, gradeados e com portadas de madeira. Na fachada lateral direita, a torre sineira, no alinhamento da nave, apresenta cunhais com pilastras de alvenaria e dois registos, separados por duplo friso de alvenaria, o superior pintado de azul, e cornija, abrindo-se no primeiro duas frestas desalinhadas a S. e no segundo, em cada uma das faces, sineira em arco de volta perfeita, sobre pilastras albergando sino. A torre é rematada em dupla cornija e friso de alvenaria, este pintado de azul, com fogaréus nos cunhais e com cobertura em coruchéu bolboso achatado, vazado por óculos, assente em estrutura piramidal com aletas relevadas, coroado por cata-vento em ferro. Na face virada a O. integra lápide inscrita, no ângulo SO. elementos do antigo portal de uma capela lateral, compostos por coluna de capitel fitomórfico e o arranque do arco, e na face virada a E. círculo com estrela de cinco pontas contendo ao centro florão. Na nave rasga-se porta travessa de verga reta encimada por janela retangular, gradeada, com molduras simples, e, na capela-mor, pequena fresta. A fachada posterior da capela-mor termina em empena, é rasgada por fresta e possui inferiormente maciço de alvenaria semicircular, prolongado ligeiramente na fachada lateral direita, onde é telhada. INTERIOR com as paredes rebocadas e caiadas de branco, exceto parte da nave do lado do Evangelho, que é em cantaria aparente, pavimento cerâmico e cobertura em falsa abóbada de berço, de madeira, pintada com frisos vermelhos, azuis e cartelas recortadas, ornadas de elementos fitomórficos e laçarias, assente em cornija. Coro-alto de madeira, pintado a marmoreados fingidos a rosa, azul e bege, sobre duas amplas mísulas laterais, com guarda em balaustrada, prolongado sobre o alpendre e para onde comunica por arco em asa de cesto, sobre pilastras; tem acesso a partir da torre sineira, por porta aberta recentemente no lado da Epístola. No sub-coro, o teto é pintado com vários frisos, um deles, vegetalista e possui guarda-vento de madeira, com pilastras nos ângulos, pintadas a marmoreados fingidos a rosa e verde, ornadas de motivos vegetalistas. Lateralmente tem, de cada lado, pia de água benta em mármore, de bacia hemisférica, a do lado da Epístola gomeada. No lado do Evangelho abre-se arcosólio, em arco de volta perfeita biselado, interiormente percorrido por cornija e albergando túmulo com arca lisa e tampa com volume em duas águas, decorado no lado esquerdo da zona da cabeceira por duas espadas, uma delas, maior. No lado da Epístola abre-se nicho de perfil curvo albergando imaginária e, a seguir à porta travessa, dispõem-se dois retábulos laterais, de estrutura semelhante, em talha policroma e dourada, de corpo reto e um eixo. O presbitério é acedido por três degraus centrais. Arco triunfal revestido a talha pintada a marmoreados fingidos a rosa, azul e bege, ornado de motivos vegetalistas, sobre pilastras com os mesmos motivos. A parede testeira da nave é revestida a azulejos de padrão policromo fitomórfico. Capela-mor pouco profunda coberta por falsa abóbada de berço, de estuque, albergando retábulo-mor em talha pintada a marmoreados fingidos a azul, verde, bege e dourado, de corpo côncavo e um eixo, definido por duas estípites exteriores, ornadas de motivos vegetalistas, sobre mísulas, e quatro colunas estriadas, de terço inferior marcado por anel, assentes em plintos paralelepipédicos e de capitéis coríntios. Ao centro abre-se tribuna, em arco de volta perfeita, com moldura de acantos, cartela recortada no fecho, encimada por motivos florais relevados, interiormente com o fundo pintado com a cidade de Jerusalém, e albergando imagem do Crucificado. A estrutura remata em espaldar adaptado ao perfil da cobertura, com fragmentos de frontão, encimados por dois anjos de vulto, volutados e possuindo baldaquino plano, de perfil recortado, inferiormente pintado a imitar brocado. Banco com apainelado contendo cartelas, volutados laterais e flores centrais. Na fachada direita, a primeira capela lateral designa-se por CAPELA DE MARIA DE RESENDE e tem planta poligonal de dois tramos, o primeiro retangular e o segundo facetado, com fachadas em alvenaria de pedra aparente, com contrafortes escalonados retangulares a marcar os tramos e ângulos, percorridas no terço inferior por cornija biselada e rematadas em platibanda plena com friso em ziguezague no topo, possuindo ainda gárgulas zoomórficas sobre os contrafortes. É rasgada em cada um dos panos das fachadas viradas a O. e a N. por fresta longilínea, em arco apontado com esbarro inferior sobre a cornija que percorre os panos, prolongando-a. O INTERIOR é acedido pelo lado do Evangelho da nave, por arco apontado, de duas arquivoltas, sobre colunas de capitéis vegetalistas, precedido por três degraus. Apresenta as paredes rebocadas e pintadas de branco, percorridas por cornija sob as frestas, pavimento cerâmico e cobertura em abóbada de arestas, sobre mísulas e com bocetes em florões e um em escudo. Na parede frontal tem, sobre soco de dois degraus, sarcófago de mármore, talvez de D. Diogo Pereira, composto por arca lisa e tampa de perfil contracurvo (2,58 comprimento x 1,40 altura x 0,92 largura). Sobre ele e entre as duas frestas, surge lápide retangular inscrita encimada por brasão de família, com elmo timbrado e paquife, envolvido por moldura. Junto ao arco de acesso, do lado do Evangelho, existe um outro sarcófago, mais pequeno (1,03 x 0,56 x 0,56), com arca lisa e tampa trapezoidal, com três águas. Segue-se a CAPELA DOS MESTRES OU DE SÃO BARTOLOMEU, de planta octogonal, com fachadas em cantaria aparente, percorridas no terço inferior por cornija biselada, com contrafortes retangulares escalonados nos ângulos, rematadas em friso denticulado com gárgulas facetadas no alinhamento dos contrafortes, cornija e platibanda plena. Cada um dos panos é rasgado por janela de arco apontado, de dois lumes e espelho trilobado. No ângulo entre a capela de Maria de Resende e a dos Mestres, existe corpo facetado, integrando escada de caracol de acesso ao terraço da capela, com cobertura piramidal de cantaria, sobrelevada relativamente à platibanda, e sob a qual se rasgam pequenos vãos retangulares. Acede-se ao INTERIOR por portal em arco apontado, biselado, e abatido na face interna, rasgado no lado do Evangelho do presbitério da nave. Apresenta as paredes em cantaria aparente, percorridas no terço inferior por cornija, com pavimento cerâmico e cobertura em abóbada de nervuras, sobre mísulas, com bocete em florão. Sobre o portal, a janela tem a metade inferior entaipada. No pano do lado do Evangelho rasga-se porta de verga reta, biselada, para as escadas de acesso ao terraço que, na zona inferior, estão cortadas pela passagem de comunicação à capela de Maria de Resende, atualmente entaipada. Em frente, ocupando parte de três faces do octógono dispõe-se arcaz, sobre degrau, encimado por sacrário tipo templete, com cobertura piramidal ornado de acantos e com custódia na porta. Ladeia o arcaz, do lado da Epístola, lavabo em mármore, preto e branco, com espaldar retangular contendo bica carranca, encimada por cornija reta e silhar ornado de volutas e elementos vegetalistas, coroado por cruz latina; frontalmente tem bacia retangular. Na fachada lateral direita a CAPELA DO TESOURO é composta por nave retangular e capela-mor quadrangular, mais baixa e estreita, com fachadas terminadas em cornija assente em mísulas equidistantes. A nave é rasgada, nas fachadas viradas a O. e a S., por fresta mainelada, em arco apontado e biselado, gradeada. Fachada posterior da nave terminada em empena e rasgada por óculo circular e a da capela-mor, terminada em empena reta rasgada por pequena fresta. INTERIOR acedido a partir da capela-mor, por vão em arco apontado, apresentando as paredes em cantaria aparente, pavimento cerâmico e cobertura em abóbada de aresta sobre mísulas, na nave, e abóbada de berço, na capela-mor. No lado do Evangelho, abre-se no topo da nave, junto ao vão de acesso, nicho em arco apontado. Arco triunfal apontado e biselado, sobre duplos colunelos com capitéis vegetalistas, pouco relevados. A capela-mor tem de cada lado, um arcosólio de arco apontado, biselado.

Materiais

Estrutura em alvenaria de pedra e tijolo rebocada e caiada ou em cantaria de calcário aparente; pilastras, molduras dos vãos e outros elementos em cantaria de calcário aparente; portas de madeira; grades de ferro; vidros simples; pavimento cerâmico; cobertura de cantaria, madeira ou estuque; retábulos, coro-alto e guarda vento em talha policroma e dourada; pias de água benta, túmulos e lavabo em mármore; cobertura de telha; betão armado e lajes pré-esforçadas na cobertura da igreja.

Observações

*1 - DOF: Capela de São Bartolomeu, corpo da Igreja do Senhor dos Mártires e capelas do século XIII e de Maria Resende. *2 - Jorge Custódio apresenta como hipótese explicativa da denominação dos Mártires a ligação ao enterramento dos cruzados mortos durante o cerco e conquista de Alcácer em 1217, por analogia com o que ocorreu na conquista de Lisboa, em que um dos cemitérios então construídos deu origem à designação posterior de Igreja dos Mártires. *3 - A capela de São Pedro é descrita em 1513 como tendo "huu altar forrado dazulejos, e sobre ele duas Imagees, huua de sam pº e outra de sam paullo, e tem huus mamtees e huuas toalhas lavradaas e amte ho allar huuas grades de pao e he forrado dolivel e tem huas portas boos". Em frente da porta tinha alpendre sobre "três esteios", com cinco varas de comprido e três de largo. O visitador refere ainda que, segundo os antigos, a capela fora edificada por um João Anes, que lhe deixara uma vestimenta e um cálice, estando na época a cargo dos pescadores, os quais, cada domingo, mandavam dizer uma missa à sua custa e faziam mordomo cada mês, como faziam os pescadores em Setúbal a Santo Estêvão. Ainda que se desconheça a data da construção da capela, esta deve ser antiga porque em 1513 o cálice de prata deixado pelo instituidor já estava "velho e quebrado", tal como a vestimenta de linho e o missal, referindo-se que estavam todos fora de uso.