Portal de Cidadania

Igreja de Nossa Senhora da Serra

Igreja de Nossa Senhora da Serra

O ponto de interesse Igreja de Nossa Senhora da Serra encontra-se localizado na freguesia de Zoio no municipio de Bragança e no distrito de Bragança.

Santuário Mariano com igreja construída no séc. 16, de que conserva o portal axial biselado e o arco triunfal, e ampliada no séc. 17 e 18, com planta retangular composta por três naves e capela-mor, interiormente com iluminação axial e bilateral e coberturas de madeira, tendo sacristia adossada à esquerda. A ampliação do séc. 17 é documentada pelas inscrições num cunhal da capela-mor e o Livro de Nossa Senhora de Rebordãos, de 1724, refere que o templo havia sido reduzido em 20 palmos de comprimento e em dez de largura. As sucessivas ampliações poderão explicar os diferentes tipos de suporte da cobertura interior, coexistindo colunas de fuste liso, pilares facetados, pilares com feixes de colunas nos ângulos, todos estes de capitéis esculpidos com motivos vegetalistas, e pilares lisos, de modinatura posterior e sem qualquer decoração. A descrição pormenorizada que o Abade Sepúlveda faz da igreja em 1790 já identifica estas diferenças na forma e decoração das "doze colunas" que separam as naves e a implantação e decoração do púlpito, comprovando-se que a sua estrutura estava definida a esta data. A fachada principal termina em empena, rasgada por portal em arco de volta perfeita biselado e óculo, e as laterais por janelas de capialço e porta travessa também em arco. O Abade Sepúlveda refere ainda a existência de três portais de cantaria, em "arco pontiagudo", uma fresta grande no lado nascente da capela-mor e uma igual na fachada poente da nave, muito próxima do altar colateral, percebendo-se, portanto, que a porta travessa da fachada lateral esquerda foi entaipada e os restantes vãos e o óculo da frontaria abertos em data mais recente, possivelmente numa das reformas oitocentistas do templo. No interior a coluna central tem púlpito retangular sobre coluna. Arco triunfal apontado e biselado, ladeado por dois retábulos colaterais barrocos, em talha pintada a marmoreados fingidos, de planta reta e um eixo. A capela-mor tem retábulo barroco, de talha dourada, de planta reta e três eixos. Os retábulos foram reformados e pintados em 1818, já que "há mais de cem anos se conservavam como saíram das mãos do entalhador"; assim, ampliou-se o retábulo-mor com os apainelados laterais, reformou-se o remate e, possivelmente, o banco e o sotobanco; o facto dos retábulos colaterais terem o corpo barroco, mas reminiscências do estilo nacional no remate deve ter resultado da reforma pelo abade Sepúlveda. O abade João Inácio R. da Costa, na transição do séc. 19 para o 20, manda construir o coro-alto, uma nova sacristia na fachada lateral direita, a Capelinha de Santa Teresinha e outras obras. Tipologicamente Marta Arriscado de Oliveira e José Ferrão Afonso classificam-na como igreja colunária, igreja algo arcaica, com cobertura leve de madeira sobre colunas e estruturas murárias. Os quartéis de romeiros, datados de 1939, têm planta retangular e fachadas de dois ou mais pisos, rasgados por vãos retilíneos.

Santuário composto por igreja, vários quartéis de romeiros, cruzeiro e duas capelas. IGREJA de planta retangular composta por três naves e capela-mor, tendo adossado à fachada lateral esquerda sacristia retangular e à lateral direita uma outra mais comprida. Volumes articulados com coberturas indiferenciadas em telhados de duas águas na igreja e de uma nos corpos adossados, no prolongamento da nave, rematados em beirada simples. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com pilastras toscanas nos cunhais da igreja, coroados por pináculos tipo pera. Fachada principal virada a O., terminada em empena, com friso e cornija, encimada por sineira, em arco de volta perfeita sobre pilares, albergando sino e rematada em cruz latina; é rasgada por portal em arco de volta perfeita, biselado, encimado por óculo circular. Na fachada lateral esquerda, a nave é rasgada por três janelas de capialço e na lateral direita por janela semelhante e porta travessa, em arco de volta perfeita; no anexo deste lado, abre-se porta de verga reta sem moldura virada a O. e três pequenos vãos a S.. Fachada posterior com a capela-mor cega e terminada em empena, coroada por cruz latina, e anexo da fachada direita rasgado por porta de verga reta. INTERIOR com paredes rebocadas e pintadas de branco e com azulejos policromos de padrão fitomórfico formando silhar, pavimento de cantaria e cobertura de madeira, a da nave com esteira central e quatro abas laterais, com traves assentes em mísulas volutadas, e a da capela-mor em falsa abóbada de berço abatido, sobre friso e cornija de cantaria. Apresenta as naves separadas por doze pilares e colunas, seis de cada lado, correspondendo os primeiros quatro a pilares quadrangulares lisos, os dois seguintes a pilares com feixes de colunas nos ângulos, seguidos de dois pilares facetados e, por fim, a quatro colunas de fuste liso, todos com capitéis de decoração vegetalista relevada, à exceção dos pilares lisos, possuindo cada nave sete tramos. Coro-alto de madeira, com guarda em falsos balaústres torneados, flanqueado por duas tribunas que se prolongam por dois tramos das naves laterais, também de madeira e com guarda em falsos balaústres torneados, mas dispostas num nível mais baixo. Na nave central, o portal axial tem guarda-vento de madeira, envidraçada, e, encostada à quinta coluna do lado do Evangelho, surge púlpito, de bacia quadrangular em cantaria, assente numa coluna canelada, de capitel fitomórfico, com guarda em falsos balaústres planos, pintados de dourado, acedido por escada de cantaria, em caracol. Na nave da Epístola a porta travessa possui guarda-vento de madeira, envidraçado, e abre-se portal em arco apontado, moldurado, de acesso ao anexo. Arco triunfal apontado e biselado, ladeado por dois retábulos colaterais, de talha pintada a marmoreados fingidos a azul, verde e dourado, de planta reta e um eixo. Na capela-mor, sobre supedâneo, dispõe-se o retábulo-mor, em talha dourada, de planta reta e três eixos, definidos por seis colunas torsas, decoradas de anjos e pâmpanos, sobre plintos paralelepipédicos ornados de acantos, e por duas pilastras intermédias, com fuste decorado por motivos vegetalistas, sobre plintos com o mesmo motivo; as quatro colunas interiores e as pilastras prolongam-se pelo remate, em arco interrompido pelo fecho volutado, enquadrado por cornija, adaptada ao perfil da cobertura. Ao centro, abre-se tribuna com boca rendilhada, interiormente pintada com elementos vegetalistas e albergando sacrário e imagem do orago. Nos eixos laterais possui apainelados, ornados de acantos relevados e sobrepostos por mísulas sustentando imaginária. A estrutura é ladeada por dois apainelados sobrepostos, com acantos e querubim central. Banco e sotobanco de apainelados com acantos e querubim central. Altar paralelepipédico. Sacrário ornado de acantos enrolados, rematado em cornija. Os QUARTÉIS dos romeiros apresentam planta retangular, com coberturas em telhados de duas águas, rematadas em beirada simples. Fachadas rebocadas e pintadas ou em cantaria aparente, com dois ou três pisos adaptados ao declive do terreno e rasgados por vãos retilíneos. Integram balneários públicos, três femininos e três masculinos e, interiormente, quartos de pequenas dimensões. CRUZEIRO composto por plataforma de planta quadrangular, formado por quatro degraus, plinto paralelepipédico, de faces almofadadas, encimado por base e coluna, de fuste liso, e capitel cúbico, ligeiramente em pirâmide invertida, decorado por frisos horizontais e escudos clássicos com os cinco escudetes; o remate é em cruz latina, de braços quadrangulares. A CAPELA DE SANTA TERESINHA tem planta retangular e massa simples, com cobertura homogénea em telhados de duas águas. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com faixa e cunhais sublinhados a cor. Fachada principal virada a NE., terminada em empena e rasgada por porta de verga reta.

Materiais

Estrutura rebocada e pintada; pilastras, frisos, cornijas, pináculos, sineira, cruzes, pilares, colunas, molduras dos vãos em cantaria de granito; portas de madeira; vidros simples e policromos; pavimento em cantaria; tetos de madeira; silhar de azulejos policromos; retábulos em talha pintada e dourada; cobertura de telha.

Observações

*1 - Frei Agostinho de Santa Maria refere que, segundo a tradição, já antes do Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, ali havia uma ermida, e, se assim fosse, a ermida teria sido feita ainda em tempo dos Godos, não tendo os Mouros ali chegado, devido à serra ser muito deserta e uma brenha. Por esses tempos, aparecera a Mãe de Deus a uma menina inocente, filha de cristãos que por ali viviam, talvez sendo alguma pastorinha, e manda-a dizer a seus pais e parentes para que lhe reparassem a sua casa, que talvez por causa das guerras com os Mouros estaria arruinada, deserta, incapaz e indecente para habitar nela. Diz também para não temerem o rei Mouro que estava no castelo (o de Rebordãos), porque cedo haveria de acabar a sua vida, o que veio a suceder. Todos dão crédito às palavras da menina, até porque a Senhora lhes confirmaria que tal embaixada era sua, com milagres e maravilhas que logo começa a obrar, levando ao concurso de grande número de pessoas ao local. O Livro de Nossa Senhora de Rebordãos, existente no Cartório Paroquial e datado de 1724, refere que não existe na vila de Rebordãos nem nos livros da igreja nem noutra parte a certeza da primeira fundação da ermida. Sabe-se apenas da tradição que, há muitos anos, aparecera a Senhora a uma pastora muda dizendo-lhe para transmitir ao juiz que lhe fizesse uma ermida no mais alto daquela serra; a pastora, começando a falar, vai sem demora, cumprir a ordem da Senhora e, o juiz e todos os que a ouviram falar, maravilhados com o milagre, resolvem construir a ermida. Mas, como acharam que no alto da serra ficaria exposta a tantos ventos e tempestades, resolvem construir a capela na vertente da serra em lugar que se avistasse da povoação, contrariando assim a vontade da Senhora. Esta, aparece mais uma vez à pastora, que lhe refere a resolução da gente da vila, mandando a Senhora falar a João Rodrigues, o homem mais rico das redondezas, para que viesse no dia seguinte e visse marcado com neve o local onde se havia de construir o templo. Era o dia 5 de agosto, fazia imenso calor e já por mais de três meses não havia neve na serra. João Rodrigues viu contudo, com enorme espanto, marcado com neve, o local onde a Senhora queria que se construísse o templo "causa por onde se reconheceu o milagre da Senhora e loguo tratou de fazer hum mui grande e mui fermoso templo todo o campo que estava cubberto de neve naquele dia e mais bem ornado do que hoje se acha a qual Senhora e muito milagrosa". *2 - Existem duas narrativas de milagres bastante célebres, registados pela primeira vez já no séc. 18. Uma conta a história de um prisioneiro dos mouros que, durante a noite, no cárcere, invocou a Senhora da Serra, e na madrugada seguinte ao acordar achou-se, por prodígio "em terra de cristandade". A outra conta como um marinheiro, que viajava a caminho da Índia, viu acalmar a tempestade que ameaçava de naufrágio a embarcação, por intercessão da mesma Senhora. *3 - Segundo o Abade Sepúlveda no livro "Novena da Natividade da Virgem de Maria Senhora Nossa", em 1790, a igreja de Nossa Senhora das Neves ou da Serra tem as suas paredes "de alvenaria maciçadas de cal e os cunhais da frente e costas da Capela-mor de cantaria lavrada. Tem pelo interior desde as portas principais até ao arco da Capela-Mor 117 palmos e de largura 45. Todo este vão se divide em três naves por doze colunas de cantaria lavrada, seis de cada lado em iguais distâncias que sustentam todo o tecto do corpo do edifício. A nave pelo meio das colunas tem vinte e três palmos de largura e oito as naves dos lados até às paredes. A sua altura até à arquitrave é de vinte e sete palmos e daí para cima a que corresponde ao seu ponto. As primeiras quatro colunas mais próximas às portas principais são quadradas e lisas de pouco mais de dois palmos de grossura, seguem-se outras duas colunas lavradas da mesma grossura que nas quatro esquinas desde o fundo até ao remate mostram umas colunatas redondas de meio palmo de diâmetro; e entre estas vai pelo meio da coluna grande nas suas quatro faces um friso liso de meio palmo de largura e aos lados deste até às colunatas os seus vãos correspondentes. Continuam outras duas colunas grandes lisas e sextavadas de palmo e meio de diâmetro; e ultimamente outras quatro redondas do mesmo diâmetro de palmo e meio. Todas estas doze colunas na sua respectiva forma se elevam em igualdade, desde as suas bases até aos capitéis, à altura de vinte e sete palmos. A Capela-Mor tem de comprimento 35 palmos; de largura 36 e de altura até à arquitrave, vinte; e daí para cima o que corresponde ao seu ponto. O arco que a divide do corpo do templo é da mesma arquitectura das colunas lavradas que estão abaixo do corpo e de que acima se faz menção, cuja arquitectura é a que nos mostra maior antiguidade naquele edifício. Descendo da Capela-Mor pelo lado do Evangelho, no fundo da segunda coluna redonda, já descrita, se acha formado o púlpito, similhante em arquitectura ao referido arco e colunas lavradas, com sua escada de caracol até à altura correspondente. A Capela-Mor tem uma fresta grande ao Nascente que de todo a ilumina; e o corpo do templo outra igual ao Poente, muito próxima do altar colateral daquele lado. Três portais de cantaria, fechados em arco pontiagudo, servem a sua entrada e comunicação: o das portas principais, o das travessas e o que vai para da Capela-Mor para a sacristia. O tecto e pavimento de todo o edifício é de madeira de castanho, hoje totalmente reformado, e só junto do Altar-Mor e portas principais é o pavimento lageado". *4 - Os quartéis paralelos ao muro do adro foram construídos com paredes toscas e aberturas para o interior. As divisões tinham dimensões exíguas, em madeira e o teto de telha vã, espalhando-se pelo pavimento feixes de colmo, que serviam de colchão para os peregrinos pernoitarem. *5 - As imagens adquiridas pelo abade Sepúlveda e outras foram enterradas ao fundo do corpo da igreja, junto da entrada principal, como era costume antigo. *6 - As festividades a Nossa Senhora da Serra decorrem de 30 de agosto a 7 de setembro, com a realização de uma novena, encerrando a 8 de setembro, o dia mais importante, com a realização de uma procissão. Centenas de peregrinos, vindos das redondezas ou de zonas longínquas, permanecem na serra durante este período, hospedando-se nos quartéis do Santuário ou, diariamente, aí se deslocam, para cumprimento de promessas anteriormente feitas.