Arquitectura civil hospitalar da década de 70 do século 20, enquadrada na orientação discursiva do "brutalismo" inglês. A estruturação da planta do edifício tomou como base a reprodução de um módulo de construção e unidade de espaço, ordenador do edifício no seu conjunto. Este módulo, definido por uma malha quadrangular [7.85x7.85m], foi determinado a partir do estudo das unidades de internamento, permitindo: conciliar as necessidades de economia do espaço com uma conveniente compartimentação; uniformizar os elementos construtivos; adoptar uma eficiente programação e coordenação dos projectos das especialidades e trabalhos de execução construtiva; recorrer aos sistemas de pré-fabricação e estandardização. Nos pisos inferiores este módulo foi aumentado para o dobro, de forma a tirar partido do piso técnico para estabelecer a transição dos elementos estruturais. Os vãos exteriores correspondem a ¼ deste módulo base de construção, medindo 3.85 m de largura. Cada secção de Internamento foi dividida em Serviços que, por sua vez, se subdividiram em Unidades Clínicas. Uma Unidade Clínica correspondia a um número específico de camas, entre 30 a 45, assistidas por um Posto de Enfermagem e dotadas de espaços de apoio complementares. Esta estrutura de funcionamento, associada à necessidade de orientar os quartos a sul, determinaram uma organização linear em extensão, o que implicou a criação de um núcleo central, constituído pelo Posto de Enfermagem, Sala de Trabalho e Espaços de Apoio (despejos, rouparia, etc.), localizando-se, em cada extremo, as áreas de Refeitórios e Salas de estar dos pacientes. O dimensionamento dos quartos foi pensado de modo a permitir contemplar duas camas de doente, ou uma cama e um sofá-cama para acompanhante. A cada Serviço corresponde, ainda, uma Unidade Central que integra gabinetes médicos, dotada de acesso independente pelo exterior. Na organização do programa e na estruturação do esquema funcional da área de Consulta, Diagnóstico e Tratamento o autor procurou assegurar as relações mais convenientes entre as unidades de espaço e garantir a separação eficaz entre as zonas afectas aos serviços internos, ao público, aos pacientes internos e aos pacientes externos. No Bloco Operatório e Cuidados Intensivos, zonas que requerem maiores cuidados de assepsia e de isolamento, foram criados acessos e circuitos de circulação autónomos, nos quais a entrada dos enfermeiros e médicos à zona esterilizada é realizada mediante o atravessamento de zonas de filtragem. A execução do projecto do hospital implicou um estudo aprofundado do programa funcional, visível nos numerosos esquemas gráficos e organogramas executados pelo autor da proposta, nos quais foram considerados: a articulação de cada área funcional; o movimento do pessoal interno; o movimento e distribuição da roupa; o movimento e distribuição dos processos clínicos e administrativos [ver RCR: PT43/165]. Referido projecto assentou ainda na experiência do autor encetada no projecto em 1955 para o Hospital Regional de Beja [PT040205130072], cujas unidades de internamento obedecem à mesma organização programática e espacial. A solução equacionada por Chorão Ramalho para o complexo hospitalar tomou como princípios estruturadores os condicionalismos de ordem urbana e paisagística, e a proximidade ao Templo de Santa Luzia. Na Memória Descritiva que acompanha o ante-projecto, o autor sublinha a preocupação em "atenuar [...] o seu impacto na paisagem, procurando dominar a sua composição volumétrica e tratamento de superfícies [...] A partir daí porém julgamos preferível libertarmo-nos de compromissos de expressão arquitectónica, ou de mimetismos em relação a uma arquitectura preexistente, para antes exprimir singela e coerentemente a organização do edifício e as técnicas empregadas na obra a realizar na época presente. Tal como noutras épocas aconteceu, em que a arquitectura militar, religiosa ou senhorial dominaram o burgo pela sua escala e presença [...] poderemos agora admitir que a obra social ou de interesse colectivo, como é o caso de um Hospital, tome idêntica posição" [RCR: PT44/165, Parecer do CSOP, 20 Abr. 1972]. Para além das determinantes já mencionadas, a proposta foi estruturada de acordo com a organização funcional e programa proposto, destinado a uma lotação de 327 camas (tipo V). Referido programa enquadrava-se no conjunto de 8 programas-tipo elaborados pelos Ministérios das Obras Públicas e da Saúde e Assistência, contemplando lotações que iam desde 120 a 530 camas, distribuídas em função do número de utentes por Distrito *3. Entre os objectivos enunciados na concepção do edifício eram sublinhados: a) a concentração das entradas num hall central, a partir do qual irradiam todos os acessos dos doentes, público e de alguns funcionários; b) distinção nítida entre áreas de circulação afectas a doentes, serviços e público exterior; c) reunir no piso de entrada todos os serviços que devem ser mais directamente acessíveis ao doente ou ao público; d) instalação, no piso de entrada, dos serviços de apoio à Consulta Externa e Urgência; e) assegurar e facilitar o acesso entre a Admissão e o Internamento, e destes com o movimento do pessoal; f) criação de um piso técnico, sob a zona de Internamento, para instalação de equipamentos, serviços industriais e de abastecimento. O autor recorreu à aplicação de materiais estandardizados e pré-fabricados, que, para além de assumirem uma identidade de carácter formal, permitiram: criar uma solução modular e uniformizada, com consequências directas ao nível da economia, racionalização e velocidade de execução da obra; e facilitar a planificação e coordenação dos projectos de especialidades. Aquando da sua edificação, o Hospital comportava os seguintes serviços e instalações: INTERNAMENTO - dividido em unidades, com uma lotação média de 34 camas [3 e 1 cama por quarto], dispondo de serviços necessários à autonomia de cada especialização (Medicina, Cirurgia, Ortopedia, Cuidados intensivos, Obstetrícia, Ginecologia, Pediatria, Infecto-contagiosos, Urgência); SERVIÇOS DE APOIO-DIAGNÓSTICO E TERAPÊUTICA - consulta externa e de urgência, Bloco operatório, Unidade de cuidados intensivos, Bloco de partos, Radiologia, Laboratórios, Fisioterapia, Farmácia, Central de esterilização, Psiquiatria; SERVIÇOS GERAIS - Cozinha, Lavandaria, Incineração, Central Térmica, Central de ar condicionado [bloco operatório e de cuidados intensivos], Central de emergência, Central de gases, Central de desinfecção; Oficinas, Garagem; DIRECÇÃO E SERVIÇOS ADMINISTRATIVOS; SERVIÇO SOCIAL; SERVIÇOS DE APOIO INTERNO - Restaurante, Bar, Salas de espera, Vestiários e balneário; SERVIÇO CULTURAL - Biblioteca e Sala de Conferências; SERVIÇO RELIGIOSO - Capela com acesso interno e pelo exterior.
O complexo hospitalar é formado por volumes de configuração paralelepipédica justapostos, distribuídos paralela e perpendicularmente entre si, em função das prescrições programáticas. O acesso principal ao edifício é realizado mediante um hall de entrada, situado ao nível do piso térreo, a partir do qual se distribui toda a circulação de utentes e funcionários. No piso de entrada desenvolvem-se os serviços de pessoal e todos aqueles que exigem um contacto directo com o público, a saber: Consulta Externa, Serviço de Urgência, Radiologia, Laboratórios, Serviços Administrativos, Farmácia e Serviços Técnicos. Ainda ao nível do pavimento de entrada situa-se a Capela, volumétricamente individualizada no conjunto das construções, dotada de acesso autónomo pelo exterior e de um acesso interior destinado aos utentes internados ou aos funcionários. As unidades de internamento distribuem-se verticalmente em 6 pisos, destinando-se o último ao tratamento de infectocontagiosos.
Materiais
ALUMÍNIO ANODIZADO: caixilharia dos vãos exteriores; BETÃO: estrutura, sapatas, lajes de pavimento e coberturas, e revestimento das fachadas com aplicação de painéis pré-moldados; MADEIRA PRENSADA: face interior dos paramentos verticais; ARGAMASSA de cimento com CORTIÇA incorporada: pavimentos; TINTA de ÁGUA: aplicada sobre a generalidade das paredes interiores, integrando resinas epoxy nas zonas de maior movimento; MÁRMORE: no revestimento das paredes das salas de cirurgia do Bloco Operatório e da Urgência; LADRILHO VINÍLICO: na generalidade dos pavimentos, excepto nas instalações sanitárias e serviços, revestidos a LADRILHO HIDRÁULICO, e nos átrios, revestidos a PEDRA BRUNIDA. O revestimento dos tectos nas áreas dos compartimentos é em REBOCO PINTADO, sendo, nos corredores e átrios em PLACAS METÁLICAS PERFURADAS E PINTADAS [amovíveis para visita das instalações técnicas]; TERMOLAMINADO: revestimento da generalidade das portas, com aros metálicos pintados em estufa
Observações
*1 - A Comissão das Construções Hospitalares foi criada pelo decreto nº 35.621, de 30 de Abril de 1947; (2) A programação anterior estabelecida para o Hospital Distrital de Viana do Castelo não previa a instalação de Serviços Psiquiátricos. O Centro de Saúde Mental mais próximo estava instalado no Hospital de Gelfa, situado a 14 km de Viana do Castelo, que era um antigo Sanatório Marítimo do IANT ocupado por 60 pacientes femininos, manifestando, nesta data, deficientes condições de ordem funcional, cujas obras de beneficiação seriam muito onerosas, dada a sua localização junto ao mar. Os doentes masculinos, em situações clínicas agudas, eram internados numa casa de saúde privada, da Ordem de S. João de Deus, situada em Barcelos. *3 - de acordo com o censo de 1970, o Hospital destinava-se a servir uma população de 250.000 habitantes.