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A Lenda da Senhora do Cais- Setúbal

Num certo convento em Setúbal, uma monja conversava animadamente com um pescador de nome Ti Augusto. Animadamente talvez não seja o termo certo, já que a palidez da monja constrastava com a cor vermelha-violácia do pescador, o que apontava antes para uma altercação.


-Vigarista e impostora! Isso é o que você é, percebeu?! Gritava o homem por fim, num estado muito alterado.


A pobre mulher contorcia-se de inquietação, e consternada, com uma voz baixa e rouca que teimava ficar presa na garganta suplicava por calma, alegando incocência da acusação que lhe era feita:


-Não tive culpa do que aconteceu. Sim, fui descuidada e arrependo-me profundamente disso, mas não me culpe pela morte que ocorreu. Deus sabe o que se passou e só Deus me pode ajudar a mostrar que estou inocente.

 

O velho homem tinha espelhado nos seus olhos vagas de fúria, ódio e revolta e foi nesse estado que virando costas, abandonou o convento, deixando-a angustiada monja envolta numa aura de tristeza.

 

Valentim, um outro pescador, saía para o mar e, como fazia todos os dias, olhou pensativamente a varanda de Ester, uma judia casada com D. Manuel Vaz de Castro.
Também Ester olhava os pescadores quando saíam ao entardecer, para a sua faina diária, vigiando-os discretamente da sua varanda.

Não pensem no entanto que Valentim sofria de solidão amorosa, já que este levava consigo para a vastidão do mar, o coração de muitas moças da região. Era nelas que pensava durante as longas horas que passava no mar, enumerando-os à semelhança de peixes enleados na sua rede.

Certo dia, o olhar que trocou com Ester foi diferente. Algo se abateu sobre o seu coração cheio de conquistas, expulsando-as uma a uma. Apenas Ester lá permaneceu.

 

O seu pai, rapidamente se apercebeu do sentimento que se apoderava do seu filho, de forma que, num dia em que não sairam para o mar, lhe pediu que esquecesse a judia. Valentim negou, fez-se de desentendido, alegando que Ester nem sabia da sua existência, mas o pai não se deu por vencido, alertando para a perigosidade do fidalgo, marido da judia, alegando que o filho podia ter qualquer mulher que quisesse, excepto aquela.

 

Por seu lado Ester, continuava a olhar a saída dos pescadores, reparando que Valentim não aparecera nesse dia. O seu coração apertou-se. O que se passa?- pensou. Estarei louca?

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Sinto falta de um pescador que nem conheço? Sim...algo se passa aqui dentro, um doce encanto com sabor a maresia...Amanhã, dar-lhe-ei um sorriso, que mal fará um simples e inocente sorriso?- perguntou a si própria.

 

A voz da razão teimou porém em apoquentá-la e durante algum tempo uma luta feroz foi travada no seu íntimo. Chega! Não quero nem vou permanecer eternamente encerrada neste palácio, esperando D. Manuel, meu marido, voltar dos seus guerreios. Amanhã sorrirei, sim!

Assim, foi. No dia seguinte, ao avistar Valentim, que como de costume, para ela olhava, sorriu-lhe. Atordoado com o sinal, Valentim sorriu também, seguindo alvoroçado o seu caminho.

 

O ritual repetiu-se nos dias que se seguiram e Valentim andava nas nuvens. O seu pai no entanto, mostrava-se abatido e de mau humor.

 

Numa bela tarde, Valentim já no seu pequeno barco, ao passar em frente ao palácio, encostou-o ao muro, prendendo-o, e apenas com um salto, subiu à varanda para onde olhava todos os dias. Ester assustou-se, mandando-o embora, pedindo-lhe que a esquecesse, alertando para o perigo do marido chegar a qualquer momento, mas Valentim apaixonado apenas queria olhá-la mais de perto e sentir a sua presença.

 

Subitamente, D. Manuel surgiu, de espada em punho e ameaçadoramente questionou quem era o pescador e o que fazia ali. Ester tentou impedir o naufrágio que se avizinhava, mas sem esperar justificações, o marido trespaçou-o inclementemente, atirando-o ao mar.

 

Na manhã seguinte, o mar devolveu-o, entregando-o serenamente a Ti Augusto. Enquanto carregava o seu filho nos braços chorava, lágrimas de dor, ódio e vingança e soube naquele momento que vingaria em Ester a morte de Valentim.

 

A judia nunca mais foi a mesma. Na varanda, nunca mais apareceu e nunca mais D. manuel lhe tocou. O seu corpo e alma deixaram de lhe pertencer, tendo sido atirados ao mar juntamente com Valentim. Sem vida, foi para um convento, esperando que um dia lhe fosse devolvido o que havia sido enterrado com Valentim.

 

(Sim, era Ester a monja que abriu esta história, e que conversava agitadamente com aquele velho pescador cheio de angústia e ódio, o ti Augusto)

 

Numa tarde em que não foram para o mar, os pescadores começaram a discutir uns com os outros por qualquer razão, e foi tal a altercação que entre facas, gritos e feridos, Ti Augusto que observava de longe a confusão, viu a imagem de Nossa Senhora ir pelos ares e cair no mar. Imediatamente se atirou à água a fim de a resgatar, mergulhando bem fundo até a alcançar já meio enterrada na areia. Quando subiu à tona, vinha lívido, tão branco que parecia estar prestes a desfalecer. Segurando a imagem na mão, olhava-a hipnotizado.

 

Os pescadores vendo esta cena, pararam os seus desatinos e assustados, fitaram-no, procurando saber se o Ti Augusto se sentia bem. Então, reunindo forças que desconhecia ter, o velho pescador exclamou:

 

-Milagre!!! Homens...é um milagre! É a Nossa Senhora do Cais, mas o rosto, vejam...o rosto é o da judia!

 

A imagem, ainda hoje se encontra no seu nicho, o que pouca gente sabe é que a sua face tem esta história antiga.

POR: PNMF




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