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Hospital do Arcebispo D. João Crisóstomo

Hospital do Arcebispo D. João Crisóstomo

O ponto de interesse Hospital do Arcebispo D. João Crisóstomo encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Cantanhede e Pocariça no municipio de Cantanhede e no distrito de Coimbra.

Arquitectura civil hospitalar, neoclássica. Hospital de planta rectangular, composto por cinco corpos, volumetricamente escalonados, esquema que se repercute no número de panos da fachada principal, definidos por pilastras, tendo no pano central, terminado em frontão triangular, três portais em arco de volta perfeita, nos intermédios, terminados em platibanda plena, janelas de peitoril de verga abatida com bandeira, e nos dos extremos, terminados em platibanda integrando frontão triangular ao centro, janelas de verga recta. De cada um dos lados adossam-se corpos mais recentes, de diferente modinatura.

Planta rectangular composta por cinco corpos, tendo adossado a N. e S. dois corpos mais recentes rectangulares, com volumes escalonados e coberturas diferenciadas em telhados de uma, duas e quatro águas. Fachadas rebocadas e pintadas de branco com embasamento em cantaria ou em cimento encarapinhado, tendo o corpo principal cunhais apilastrados e remates em friso e cornija de estuque. Corpo principal formado por cinco panos. O central, sensivelmente mais avançado, é rasgado por três arcos de volta perfeita longilíneos, com molduras de cantaria exteriormente relevadas e interligadas, terminando em cornija e entablamento de cantaria, sobre o qual assenta frontão triangular, coroado, ao centro, por busto do Arcebispo João Crisóstomo, assente em plinto paralelepipédico, ladeado por volutas, e, nos ângulos, acrotérios e tendo no tímpano brasão da Misericórdia, encimado por coroa fechada e envolto por folhas de louro; lateralmente, fixam-se à caixa muraria dois mastros de bandeira e sobre a pilastra direita uma sineta. Panos intermédios simétricos, com duplo embasamento de cantaria, o inferior irregular, intercalado por friso saliente, rasgados por quatro janelas de peitoril, com bandeiras, e molduras de cantaria formando brincos quadrangulares inferiores e possuindo friso de cantaria envolvendo e interligando as bandeiras das várias janelas; estes panos terminam em platibanda plena de alvenaria rebocada com friso terminal mais saliente. Os panos dos extremos, igualmente simétricos, são mais baixos e seccionados em três panos por pilastras estilizadas, abrindo-se no central portal largo de verga recta, com moldura simples, e nos laterais duas janelas de peitoril longilíneas, também molduradas; os panos rematam em platibanda plena integrando ao centro frontão triangular de alvenaria sublinhado por frisos de estuque. Corpos adossadoa a N. e S. de cércea mais elevada, terminados em beiral avançado e com coberturas sobrepujadas por quatro chaminés, frontal e posteriormente rasgadas por três vãos; a fachada possui embasamento de cantaria e é rasgada por quatro vãos rectangulares bastante longilíneos, formando bandeira inferior, de alvenaria, e terminando superiormente em cornija. Nas fachadas laterais, abrem-se duas janelas de igual modinatura e, superiormente, de cada lado, janela de arco de volta perfeita, também com bandeira, e moldura de cantaria. Fachada posterior mais irregular, visto os corpos intermédios e os dos topos terem sido prolongados; o corpo com os três panos centrais termina em platibanda plena tendo ao centro igualmente frontão triangular, com óculo circular no tímpano; o pano central, delimitado por pilastras de cantaria, é rasgado por três janelas iguais às da fachada principal; do lado esquerdo abre-se ainda duas outras janelas sobrepostas. Nos panos mais baixos abrem-se janelas de peitoril de verga recta e bandeira mais estreita, possuindo moldura em cantaria formando brincos rectangulares. Os corpos adossados têm a cobertura igualmente sobrepujada por quatro chaminés, e na fachada rasgam-se janelas iguais às que possuem na fachada principal, tendo de cada lado dois corpos, mais baixos. INTERIOR com paramentos rebocados e pintados. No primeiro piso, a distribuição espacial processa-se a partir do átrio central, com pavimento cerâmico; no lado esquerdo, os paramentos são revestidos a placas cerâmicas, possuindo num dos ângulos plinto de madeira com estátua de bronze de D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa; no lado direito, guarda-vento de vidro separa a zona do lar; frontalmente, possui escada de acesso ao segundo piso, com guarda de vidro aplicado em estrutura de alumíneo. Destaque para a sala central da Administração, com portas em arco de volta perfeita integrando bandeira e tecto de estuque, ornado por frisos e, nos ângulos e ao centro, motivos fitomórficos.

Materiais

Estrutura rebocada e pintada; elementos estruturais, molduras dos vãos em cantaria; portas e caixilharias de madeira; vidros simples; pavimentos de madeira e cerâmicos; tectos de estuque; guardas de vidro com estrutura de alumínio; algerozes metálicos; cobertura de telha.

Observações

Desde o século 16 que se refere a existência de um hospital na vila, com fundação desconhecida. A 15 de Maio de 1527, D. João III concede por carta de mercê a Heitor Rodrigues Ribeiro, a pedido do mesmo, a administração da capela e hospital de Cantanhede, que então se achava vaga, em sua vida somente, e dos bens dela e encargos dela, de uma missa diária pela alma dos defuntos; o administrador ficava também obrigado a ter 2 livros, um onde se lançava as despesas feitas com os encargos da instituição e outro onde se devia conter a relação de todos os bens, com respectivas confrontações. Por instrumento público, datado de 17 Maio de 1550, lavrado no tabelião Pero Freire, de Lisboa, Heitor Rodrigues Ribeiro renuncia à administração da capela e hospital. A 20 Dezembro 1558, D. Sebastião dá alvará permitindo António Caldeira, natural de Aveiro, suceder seu sogro Heitor Rodrigues Ribeiro na administração da capela e hospital. O novo administrador era obrigado a mandar dizer na capela do hospital quatro missas em cada semana pela alma dos defuntos e a dar à sua custa no hospital agasalho, camas, lenha e azeite aos pobres, servindo sua mulher de hospitaleira. Em 1593 (12 Novembro), passa-se carta autorizando António Caldeira e mulher a renunciaram à administração da capela e hospital em quem casasse com sua filha Margarida Soares. D. Filipe I, por alvará de 12 Janeiro1594, concede a esta e a seu marido Matheus Ribeiro de Gouveia, a administração do hospital e capela, que foi depois sucedido por seu filho Sebastião Soares de Gouveia. Em 1624, 16 Janeiro, um acórdão da Relação destitui Matheus Ribeiro da administração do hospital, por falta de cumprimento dos encargos a que se obrigara, e substitui-o, provisoriamente, por Manuel Rodrigues, de Coimbra. A sentença foi embargada por Sebastião Soares de Gouveia, seu filho, o qual alegava que Matheus Ribeiro tinha renunciado nele a administração da capela e hospital em 3 Julho de 1622, por se achar velho e doente, queixando-se de não ter sido ouvido nesta questão. Nesta época, as rendas do hospital eram de 124 a 130 alqueires de trigo e 20 galinhas anualmente e as despesas orçavam em duas centenas de missas para sufrágio da alma dos defuntos instituidores, as quais seriam realizadas em qualquer igreja por "não auer altar, nem ermida, nem Capella particular onde se digam". A 14 de Março, um alvará nomeia Francisco Antunes Pinheiro para administrador e a 20 Agosto, uma sentença indefere os embargos ao acórdão colocados por Sebastião Soares de Gouveia. Em 1634, encontrava-se novamente vaga a administração do hospital e capela, mandando D. Filipe III fazer o seu Tombo com as confrontações de todos os prédios, indicação dos encargos e intimação aos futuros administradores de que não lhes era permitido vender, trocar ou alhear os bens da instituição. Data de 18 Novembro a elaboração do Tombo do Hospital, feito por Vicente Ribeiro; nele, é descrito como tendo duas casas, cobertas de telha, mas muito danificadas, tendo defronte das portas alpendres, um meio derrubado e outro para cair, numa das casas tendo um altar de pedra, mas sem imagem ou figura pintada, e por detrás de uma das casas havia uns pardieiros, um deles parecendo ter tido sobrado; as casas confrontavam a N. com o quintal de Diogo de Faria, a S. com a rua pública, a E. com o rocio e a O. com os herdeiros de Maria Ribeiro. Em 1674, pelo falecimento de António Fernandes Semide, a administração da capela estava vaga, a qual foi solicitada pelo Provedor e Irmãos da Misericórdia a D. Afonso VI, tendo-lhe sido dada por D. Pedro, por carta de mercê, datada de 16 Maio, estipulando algumas obrigações, entre as quais mandar reedificar a capela e hospital. Tal não viria a ocorrer, talvez devido à Misericórdia possuir uma capela espaçosa e em boas condições. Em 1700 o procurador da Coroa, talvez com dúvidas sobre a administração da Misericórdia, mandou sequestrar os bens da instituição, sendo o sequestro embargado pela Irmandade. A 21 Agosto manda-se levantar o sequestro, visto ter-se provado que a Misericórdia tinha recebido da Coroa "in perpetuum" a administração da capela. Em 1758, a 29 Maio, o reverendo Manuel de Jesus Maldonado escreve nas Memórias Paroquiais que a vila, com 220 vizinhos, tinha hospital, mas que era apenas uma pobre casa sem ter camas, nem enfermos, servindo apenas para recolher algum passageiro que vinha pela Misericórdia, tendo por um só hospitaleiro; o rendimento anual era de 95 alqueires de trigo mais meio alqueire de trigo, 33 alqueires de milho e em dinheiro líquido 8010$000 rs, de que fazia os gastos. Em 1821, a Misericórdia tinha de rendimentos: 130$000 rs, sendo 110$000 rs da Santa Casa e 20$000 rs da capela do Hospital, que estava sujeita a vários encargos pios e aos de albergar os peregrinos, socorrendo-os com esmolas e conduzindo os enfermos pobres aos hospitais vizinhos. Em 1826, no "Mapa das fazendas pertencentes ao Hospital de Cantanhede" este é descrito como umas casas, compostas de 5 casas, 3 para uso da hospitaleira e 2 que servem para os pobres, com seu rocio na frente, e confinando com: a E. com o rocio, a O. com os herdeiros do Dr. José António Brandão desta vila, a N. com José Crispeniano da Silveira e a S. com rua pública. A 27 Junho 1833, a Mesa decide dar remédios aos atacados de cólera - morbus e em Outubro de 1855 obteve autorização para realizar obras no Hospital em caso de invasão do concelho pela mesma epidemia. O antigo hospital, fronteiro à igreja Matriz, acabou por ser vendido pela Misericórdia após a construção do novo hospital.