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Lagar de Varas do Fojo

Lagar de Varas do Fojo

O ponto de interesse Lagar de Varas do Fojo encontra-se localizado na freguesia de União das freguesias de Moura (Santo Agostinho e São João Baptista) e Santo Amador no municipio de Moura e no distrito de Beja.

Arquitectura agrícola oitocentista. Lagar de azeite de vara e fuso, com mós de tracção animal. A estrutura e funcionamento evoluíu do lagar de tipo romano de vara e peso (neste a vara era accionada por meio de um sarilho, cujos montantes se encastravam nos entalhes abertos no peso, em vez do fuso do lagar de varas). Era um lagar de tipo comunitário, que trabalhava à maquia (qualquer pessoa que tivesse azeitona podia utiliza-lo deixando em compensação uma parcela do azeite produzido ao dono do lagar). Possuia três espaços distintos: a zona das tulhas onde a azeitona era depositada, a sala de moagem onde a azeitona era transformada em pasta, e a zona das varas onde esta era prensada *2. A sua autenticidade e bom estado de conservação, testemunhando a actividade oleícola que detinha importante papel económico no seio da comunidade mourense. Um dos últimos exemplares de lagares de varas de toda a Península Ibérica. Conserva toda a maquinaria original.

Planta composta por 2 corpos rectangulares dispostos em "L", com pequenos corpos rectangulares adossados a O. e a S.. Um quintal rodeado por muro cerca o edifício do lado S.. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de 2 águas. Alçado principal, virado a N., rasgado por porta de verga recta e por óculo; alçado S. rasgado por 2 janelas abrindo para o quintal. Interior com vigamento à vista e revestimento de cana; no corpo longitudinal (N. / S.), dividido por grandes arcos transversais, alinham-se 12 grandes tulhas encostadas às paredes laterais; no corpo transversal, de pavimento mais elevado, encontra-se o engenho da moenda, com 4 mós de galgas verticais, de tracção animal e as 2 prensas de varas (adaptadas a 2 pesos por meio de fusos) de tracção humana; entre as varas uma caldeira para aquecer a água usada na caldeação das seiras. A água necessária ao funcionamento do lagar era fornecida por um poço no corredor entre as tulhas e por uma cisterna existente no quintal. Nos pequenos compartimentos anexos, tulhas adicionais para azeitona (E.) e para bagaço (S.).

Materiais

Alvenaria de pedra e tijolo, rebocada e caiada, com cobertura de telha assente em vigamento de madeira, forrado a cana; pavimento de ladrilho e cimento.

Observações

*1 - Moura era famosa pela abundância de olivais e pela qualidade do azeite que produzia, figurando este entre os melhores do Mundo, qualidade traduzida na expressão popular "Fino como o azeite de Moura"; *2 - "As azeitonas chegavam ao Lagar e eram logo encaminhadas para as tulhas onde permaneciam até serem prensadas. Por ordem de chegada as azeitonas iam sendo levadas em cestos para a sala de moagem onde, pacientemente iam sendo moídas. Após o árduo trabalho do burro que accionava o engenho da moenda durante muitas horas, as azeitonas eram moídas até constituírem uma pasta. O pavimento do lagar destinado a este trabalho era de terra batida para facilitar a tarefa do animal. Quando bem moída, a massa de azeitona era retirada pela abertura existente na base do farneiro e levada em gamelas para ser enseirada. Após o enchimento das seiras, ou enseiramento, com a massa de azeitona, o lagareiro sobrepunha um conjunto de seiras sobre o estrado da prensa a que se dá o nome de algués. Sobre as seiras ainda se colocava a porta e os malhais, sobre os quais iria assentar a extremidade mais pesada da vara. Em seguida seria accionado o mecanismo da vara, que a faria baixar. Dois homens introduziriam uma alavanca, ou panca, na base do fuso da vara, fazendo com que o mesmo girasse sobre o eixo, assente no peso. Fazendo subir a ponta da vara, que em forma de forquilha actua ao longo do fuso, baixa a outra extremidade, transformando a vara numa espécie de alavanca inter-resistente. Quando a extremidade oposta ao fuso baixa, exerce pressão sobre as seiras, fazendo-as libertar azeite e água-ruça. Depois de escorridas as seiras, a vara subia novamente para que se pudesse proceder à caldeação. Nesta operação era utilizada a caldeira do lagar, onde era aquecida a água necessária a esta operação. Depois de quebrada e remexida a massa do interior das seiras, as seiras eram abertas, e era-lhes colocado uns paus ao alto que as mantinham abertas, e de seguida era-lhes deitada água bem quente. Esta água quente fluidificava a massa de azeitona que já havia sido prensada, e ao mesmo tempo iria permitir o desprender de azeite que esta massa ainda continha. Esta operação permitia que a vara fosse novamente accionada, de forma a realizar novo aperto. Juntamente com a água quente iria correr pelo boeiro até á tarefa, mais algum azeite á mistura.Para a separação do azeite da água ruça é necessário proceder à decantação destes líquidos, de forma a purificar o azeite o mais possível. Era na zona das tarefas que se procedia a esta operação, que, como atrás foi referido, era da responsabilidade do mestre do lagar e era determinante para a qualidade do azeite e para a própria reputação do lagar. O azeite corre das seiras pelo boeiro até ás tarefas, de mistura com a água ruça. Sendo mais leve que a água, o azeite sobrenada na tarefa, enquanto que a água ruça permanece por baixo. O azeite desta tarefa passa a uma outra tarefa, a que está ligada por um pequeno canal, a galeira. A água ruça é libertada para fora da primeira tarefa, destapando um buraco que possui próximo da base e que levará a água ruça para um tanque subterrâneo conhecido como inferno ou ladrões. Com o auxilio de uma candeia e de uma vara de marmeleiro o mestre de lagar mede o nível de água ruça, para conhecer o momento ideal de a escoar, destapando o espicho. À tarefa para onde vai só o azeite dá-se o nome de tesoiro, ou pilão, e o azeite era retirado daí para outros recipientes, pelo lagareiro, com o auxílio de uma concha. Um buraco na parede facilita o acesso do lagareiro ao fundo da tarefa, de onde retira também manualmente os assentos ou borras do azeite. Estas borras eram levadas para umas tarefas que apenas serviam esta finalidade.