Arquitectura recreativa. Jardim romântico, sentimental e intimista, constituía o espaço ideal para a vida social oitocentista da nobreza e burguesia lisboeta. Transformação do Passeio Público original, construído à semelhança dos boulevard à francesa. A Avenida da Liberdade constitui parte fundamental da Estrutura Ecológica de Lisboa, por promover a ligação entre a Baixa e o Parque Eduardo VII que, por sua vez, faz a ligação a Monsanto, constituindo o Corredor Verde de Monsanto. «Foi o primeiro espaço verde de Lisboa com carácter colectivo e institucional» (Ana Tostões, Monsanto, Parque Eduardo VII, Keil do Amaral, Arquitecto dos Espaços Verdes de Lisboa, p. 9). Importância da vegetação enquanto elemento unificador de um espaço compartimentado pela imposição física a que está sujeito pela sua localização no tecido urbano. Apesar da intensidade do tráfego que caracteriza esta artéria, a sua vivência enquanto passeio público sobrevive pela massa densa de vegetação e pela dimensão, convidando à circulação pedonal e à estadia. A luminosidade é factor fundamental na vivência das diferentes ambiências que se oferecem ao longo deste espaço. Do topo da Avenida, a vista sobre a junção cromática entre o azul do Tejo e do céu é singular.
O Passeio Público, desenvolvendo-se segundo uma plataforma rectangular (1500 m por 90 m), é delimitado nos seus extremos pela Praça Marquês de Pombal e pela Praça dos Restauradores. De pendente regular com orientação NNO. - SSE. é compartimentado longitudinalmente por um eixo viário principal central. Transversalmente, divide-se em talhões cuja composição se repete simetricamente e emparelhada em relação ao eixo principal; esta compartimentação é atenuada pela imposição dos alinhamentos arbóreos periféricos dos talhões e pela densidade arbórea interior, pelo que a longitudinalidade da composição é reforçada. Da Praça Marquês de Pombal aos Restauradores, a compartimentação tranversal, entre talhões, é fisicamente assumida pelo atravessamento das Ruas Alexandre Herculano, Barata Salgueiro, pela ligação entre a Praça da Alegria e a Rua das Pretas, e ainda, pela ligação entre a Travessa da Glória e o Largo da Anunciada. Os alinhamentos arbóreos que reforçam a periferia dos talhões são constituídos por duas fiadas de árvores, em regra lódãos e plátanos, constituindo um túnel contínuo ao longo da Avenida. Estes alinhamentos definem, para o interior dos talhões, um relvado que se pode apresentar simples, pontuado por herbáceas (regra geral Agapanthus umbellatus) ou ainda por palmeiras (Phoenix canariensis), por vezes cruzadas com Agapanthus nos compassos de plantação. Os alinhamentos de palmeiras, compassadamente distribuídos ao centro dos relvados surgem isolados a marcar a abertura da Avenida relativamente à Praça Marquês de Pombal. Estes alinhamentos, estando envolvidos pelo maciço arbóreo formado pela restante vegetação a partir do último terço do primeiro talhão (relativamente à Praça Marquês de Pombal), terminam a poente do eixo longitudinal a meio da Avenida e, a nascente, na ligação entre a Praça da Alegria e a Rua das Pretas. O último talhão nascente é pontuado por duas palmeiras. No lugar dos referidos relvados os talhões entre a ligação Praça da Alegria - Rua das Pretas e Travessa da Glória - Largo da Anunciada apresentam um lago com cascata e estatuária evocando os rios Tejo e Douro. Excepcionalmente, a meio da Avenida e a O., abre-se uma clareira pavimentada, pontuada pelo monumento aos Combatentes da Grande Guerra. Também os pavimentos, em calçada portuguesa, promovem a unidade espacial do conjunto; quer pela área que revestem, quer pela repetição de motivos e padrões, em regra florais, que integram os elementos de composição, por exemplo aqueles que pontuam os extremos dos talhões, como estatuária ( de que são exemplo Alexandre Herculano, Almeida Garrett, António Castilho e Oliveira Martins, no eixo formado pela Rua Alexandre Herculano ) e vegetação ( por exemplo as caldeiras em que se encontram exemplares da Palmeira das Vassouras ( Chamaerops humilis ). Ao longo da Avenida e de costas para os relvados, bancos de jardim convidam à estadia, nos talhões do extremo S. surgem esplanadas. Outros equipamentos, como telefones, entradas de metros, acessos ao estacionamento subterrâneo, sanitários e o Quiosque do Tivoli, surgem ao longo dos talhões. A circulação automóvel faz-se quer pelo eixo principal central, quer pelas vias transversais e laterais, sendo o estacionamento permitido ao longo destas últimas e ainda em duas bolsas que, a meio da Avenida, recortam os talhões. A N. da Avenida, a partir do Alto do Parque Eduardo VII, é perceptível a dimensão, forma e encaixe da Avenida relativamente às fachadas que a definem, destacando-se ainda a largura do eixo principal, tendo como cenário o Tejo e a Baixa Pombalina. Dos Restauradores, e dado que topograficamente a observação sobre a Avenida é feita a partir de uma cota inferior, destaca-se o eixo principal e as duas cúpulas longilíneas formadas pela vegetação.
Materiais
Inertes: pavimentos em calçada portuguesa com motivos florais. Vegetal: árvores - lodãos (Celtis australis), palmeiras (Phoenix canariensis), talhões relvados, plátanos (Platanus sp.).
Observações
A Avenida da Liberdade foi, desde o projecto de ampliação do Passeio Público, objecto de grandes polémicas.