Fortificação terrestre composta por castelo e cerca urbana, medieval, construída na década de 90 do séc. 13, pela Ordem do Templo, com as obras dirigidas pelo mestre da milícia frei Lourenço Martins, para defesa da margem esquerda do Tejo, articulando-se com outros castelos da Beira e do Alto Alentejo, sendo reformada no reinado de D. Afonso IV e no séc. 16, e reforçada no séc. 17, durante a Guerra da Restauração. O castelo, destruído na Guerra da Sucessão de 1704, e de que subsiste apenas um troço de muralha a sul, tinha características góticas, de planta quadrangular regular, com torres quadrangulares nos ângulos, integrando no seu circuito a de menagem, mais alta e com balcão e amplo vão no último piso, e duas portas, a principal virada à vila (nascente) e a da traição na frente oposta, de paramentos aprumados rematados por parapeitos ameados. Interiormente tinha dependências adossadas formando pátio central, as quais foram profundamente remodeladas e ampliadas no início do séc. 16, pelo comendador e alcaide João de Sousa. O poço do castelo, desenhado por Duarte de Armas e descoberto aquando da construção de uma vivenda no local, é escavado na rocha e tem cerca de 14 m. O castelo era envolvido por barbacã, de construção posterior, talvez no séc. 14 / 15, rasgada por troneiras cruzetadas e dois portais, desalinhados com os do castelo. A cerca da vila, desenvolvida para nascente, a partir das torres do castelo, conserva-se quase na sua totalidade, ainda que integrada e absorvida pela malha urbana, a partir do séc. 19, e sem o remate, que era de parapeito ameado, com vários balcões. Tem planta retangular e paramentos aprumados, inicialmente com três portas (a da Vila, a de Montalvão e de João de Évora) e três postigos (o de São Pedro, o do Canto do Adrião e o da Cadeia). Conserva apenas duas portas, em arco apontado sobre os pés direitos, tendo a da Vila as armas de Portugal antigo (anterior à reforma de 1485) no fecho e superiormente, este ladeado por um com a cruz de Cristo; é flanqueada por dois cubelos, bastante remodelados ao longo dos séculos e atualmente com parapeito ameado e vão posterior de acesso à zona superior e terraço. A porta de São João de Évora era igualmente flanqueada por cubelos, conservando-se apenas em deles. No ângulo nordeste da muralha subsiste a torre que defendia a porta de Montalvão, construída sobre afloramento rochoso, com dois pisos e acesso pelo adarve, por porta em arco apontado, biselado. A fortificação medieval tinha, ao todo, onze torres, de que subsistem apenas quatro. Também a cerca da vila era reforçada por uma barbacã, com alambor na frente norte. Durante a guerra da Restauração, Nisa integrava-se na segunda linha de fortificações, constituindo um dos castelos que barrava o acesso a Lisboa e protegia Évora, a cidade mais importante do Alentejo. Procedeu-se à construção de obras à moderna, com uma segunda cintura fortificada, para defesa da vila extramuros, onde colaborou, em 1662, o engenheiro militar Luís Serrão Pimentel, tendo essas estruturas sido demolidas no séc. 19, conservando-se apenas pequenos troços inseridos nos muros de vários quintais. Houve ainda um projeto do engenheiro Nicolau Langres, para envolver todo o sistema fortificado medieval e o Arrabalde, mas não foi concretizado. Entre o castelo de Nisa e o de Montalvão, também da Ordem do Templo, e Póvoa de São Martinho, havia quatro atalaias, com quem mantinha contacto visual: uma no outeiro da Atalaia, a 0,7 km a nordeste da margem direita da Ribeira de Nisa, a atalaia do Fidalgo, no cabeço do mesmo nome, entre o rio Sever e a Ribeira de São João, a de São Miguel, na serra de São Miguel, e a Torre da Atalaia, no cabeço da Atalaia, a 2 km da margem esquerda da Ribeira de São João.
Cerca urbana de planta retangular irregular, de que se conserva grande parte da muralha, ainda que integrada na malha urbana e em grande parte oculta pelos edifícios que a ela se adossam, duas portas, a principal, denominada porta da Vila, quase a sudoeste, e a Porta de Montalvão, junto ao ângulo nordeste, e um cubelo quase no ângulo noroeste, que ladeava a porta de São João de Évora. As estruturas apresentam paramentos aprumados, em cantaria de granito, já sem o remate ou com remate em parapeito ameado ou liso, e os cubelos e a torre têm cobertura em terraço. A porta da Vila rasga-se num pano de muralha, rematado em parapeito ameado, e tem arco apontado, de aduelas largas assentes nos pés direitos, de bases salientes, tendo na aduela de fecho as armas de Portugal; sobre o portal existe moldura retilínea contendo as armas de Portugal e a cruz da Ordem de Cristo. No intradorso, a porta conserva as caixas das coiceiras e os buracos laterais da antiga tranca. A porta é flanqueada por dois cubelos quadrangulares, bastante avançados, igualmente rematadas por parapeito ameado. Na sua face interna, o pano de muralha apresenta adarve estreito, desenvolvido na espessura do muro, protegido por guarda, em alvenaria de pedra, com escada de acesso, de dois lanços. A partir do adarve acede-se também à zona superior dos cubelos, que têm na face virada a norte porta de verga reta sobre impostas biseladas. A nordeste subsistem dois panos de muralha, parcialmente integrados nas habitações, tendo no ângulo torre quadrangular, sobre afloramento rochoso. Na muralha virada a nascente, interrompida pela abertura de uma estrada, existe pano rematado em parapeito ameado, tendo a ameia central seteira, e rasgado pela denominada porta de Montalvão, em arco apontado, de aduelas regulares sobre os pés direitos; a porta é encimada por vão retilíneo, moldurado. A torre, rematada em parapeito liso, possui dois pisos, o inferior sobrelevado, acedido a poente por porta de arco apontado, biselado, sobre os pés direitos, a partir do adarve da muralha norte; interiormente é iluminada no piso inferior por seteira a nascente e a sul e no superior por uma seteira em cada uma das faces. Uma estrutura metálica, assente em pilares, contorna a torre e permite aceder ao topo do pano de muralha existente a norte, com parapeito liso, e à torre. Quase no ângulo nordeste da cerca da vila, na Rua Canto João de Évora, subsiste, a poente, cubelo quadrangular, sem remate, e pequeno arranque do pano de muralha onde se abria a porta de São João de Évora, disposta no enfiamento da via que se desenvolvia a partir da Igreja Paroquial.
Materiais
Estrutura em cantaria de granito; betão armado; caixilharia e portas de madeira; vidros simples.
Observações
*1 - DOF..."A porta de Montalvão e a porta da Vila (restos da muralha da vila, século XIV), de Nisa...". *2 - A vasta herdade da Açafa abrangia grande parta da antiga Beira Baixa, com a atual Vila Velha de Ródão e os atualmente chamados campos do Açafal, bem como uma extensa zona do Alto Alentejo, gradualmente povoada, e na qual se incluem os territórios das atuais povoações de Montalvão, Nisa, Póvoa e Meadas e Marvão (BASSO: 1988, p. 39). Contudo, nem todos os autores são concordantes quanto aos limites da Açafa na margem sul do Tejo. *3 - No Tombo da Comenda de Nisa, elaborado por frei João Pereira e frei Diogo do Rego, em 1505, procede-se à seguinte descrição do castelo e respetivas casas da Ordem: "tem hi mais huu castello dentro da dicta villa e a huu canto dela. que tem primeiramente huua barbacãa de pedra e barro bem corregida e huua barreira pequena e huu muro forte de cantaria todo bem guarneçido e ameado. e estaa na dicta barreira huu portal de pedraria com suas portas nouas. e no dicto muro outro portal boom de pedraria com suas portas nouas. fortes e forradas de coiro de boy bem fechadas. e sobre ha dicta porta huua torre forte de dous sobrados telhada de telha uãa e debaixo della huua logea abouedada que ho dicto dom joham de sousa comendador e alcaide moor e senhor da dicta villa mandou fazer. e tem ao leuante huua chaminee e huua janella com suas. portas bõoas. da outra parte contra ho sul tem duas torres cada huua em seu canto do dito muro. e ao norte tem huua torre de menagem forte e de bõoa altura que tem huua janella ao leuante com suas portas e tem dous sobrados. e he oliuellada de oliuel uelho de castanho. todas estas torres som bem ameadas: debaixo da dita torre de menagem estaa huua porta que se chama da treiçam com suas portas nouas forradas de ferro. e na barbãa da parte de fora outro portal com suas portas bõoas. dentro do dicto castelllo estaa ora começada huua parede com dous arcos. em que ho dicto ioham começa de fazer huu apousentamento. aalem da dicta parede estaa huu apousentamento do dito alcaide moor nesta maneira. primeiramente huua sala terrea pegada no dito muro bem madeirada e cuberta de telha uãa que leua de longo onze uaras de medir e seis de largo. e ante ha porta da dita sala huu alpendere grande e bem madeirado cuberto de telha uãa com seus poyaaes d arredor. aalem da dicta sala estaa huua câmera sobradada madeirada de nouo telhada de telha vãa e tem ao norte huua chaminee e huua freesta junto com ella e ao leuante huua janela d asentos com suas portas bõoas. e per baixo huua logea do seu tamanho ha qual ho dito dom ioham mandou correger de nouo. e leua sete uaras de longo e çinquo de largo. e sobem della pera ha dita camera per huuua escaada de madeira com sua porta d alcapooe. junto desta camera contra ho leuante tem outra casa que serue de guarda roupa bem madeirada e cuberta de telha uãa sobrada e com outra logea debaixo do tamanho della. leua de longo çinquo uaras e duas e meya de largo. Esta casa de guarda roupa mandou fazer de nouo ho dicto dom ioham. aalem da dicta vay hua varanda bem madeirada e cuberta de telha uãa que leua noue uaras de longo e três de largo. Aalem desta casa estam huuas varandas que uam sobre huu patio e huu poço que estaa antre ho dicto muro e ho dicto apousentamento has quaes ho dicto dom ioham mandou fazer quasi de nouo. junto das ditas varandas vay huua camera pequena sobradada bem madeirada. forrada d oliuel de cortiça que leua çinquo uaras de longo e duas e meya de largo. todas estas casas som cafeladas de cal de dentro e de fora. junto da dita sala contra ho norte estaa huu retrete pequeno de despejos da casa. no cabo do sobredicto alpendere contra ho norte estaa huua casa pequena térrea bem madeirada telhada de telha uãa que leua quatro varas de longo e três de largo. junto do dicto apousentamento estas huua casa terrea que serue de despensa. que leua seis uaras de longo e quatro de largo. ha qual casa ho dito ioham mandou fazer de nouo.e junto della huu corredor terreo coberto de telha per onde vam a huua casa que serue de cozinha bem madeirada e telhada. que leua quatro uaras de largos quatro de longo.e tem huua chamjnee contra ho ponente. com sua cantareira. ho qual corredor ho dito dom ioham mandou fazer. junto da dicta cozinha estas huua estrebaria com suas manjadoirad bem telhada e bem madeira da em que datam has azemelas.leua quatro haras de longo e quatro de largo.esta casa mandou fazer o dito dom ioham. junto da dicta cozinha estaa huua estrebaria com suas manjadoiras bem telhada e bem madeirada em que estam has azemelas. leua quatro uaras de longo e quatro de largo. esta casa mandou fazer ho dito dom ioham. junto desta estrebaria estaa logo outra em que estam caualos. e tem suas manjadoiras. parte della forrada de cortiça cuberta de telha. leua seis uaras de longo e quatro de largo. esta casa mandou outrosi fazer o dito dom ioham. aalem desta casa estaa outra estrebaria grande com suas manjadoiras que leua de longo dez uaras e çinquo de largo. e junto della huua casa de palheiro que se nom pode medir. Antre este apousentamento e ho que ora ho dito dom ioham começa de fazer estaa huu terreiro de bõoa grandura em que estaa huua moreira grande com seu poyal de pedra e cal d arredor: todolos portaaes destas casas tem booas portas". *4 - Segundo os desenhos de Duarte de Armas, Nisa possuía um castelo, envolvido por barbacã, a partir do qual se desenvolvia, para nascente a cerca da vila. O castelo tinha planta quadrangular, com os ângulos reforçados por torres quadrangulares; a de sudoeste tinha 3 x 3 varas de largura e 14 varas de altura; a de sudeste tinha 3,5 x 5 de largura e 13,5 de altura; a de noroeste, correspondendo à torre de menagem, tinha 6 x 7 varas de largura e 17 de altura, interiormente com dois sobrados; e a de nordeste tinha 6 x 6 varas e 14 de altura e era sobradada. Quer as muralhas quer as torres terminavam em parapeito ameado, sendo as torres rasgadas por seteiras e, na torre nordeste e no pano de muralha poente, amplo vão. Interiormente, desenvolviam-se dependências adossadas às faces poente, onde se abria, perto da torre de menagem, a porta da traição, sul e nascente, onde ficava a porta principal, com salas térreas ou sobradadas; a ala poente possuía parcialmente uma arcada e a nascente uma dependência começada de novo. No ângulo sudoeste existia ainda um poço profundo. A barbacã, com alguns troços arruinados, era rasgada por troneiras, a maioria cruzetadas, e por portas na frente nascente e na poente. A partir das torres viradas a oriente desenvolvia-se a cerca da vila, com várias torres, duas flanqueando a porta da Vila, que, tal como as muralhas rematavam em parapeito ameado, possuindo os panos de muralha vários balcões sobre mísulas. A cerca era igualmente protegida por barbacã que, na frente sul, possuía alambor. À torre poente da porta da vila adossava-se a torre do relógio do município. *5 - Segundo as Memórias Paroquiais, de 1758, a vila é murada com muros de cantaria, obra do rei D. Dinis, que mandara re-edificar no sítio chamado Vale do Zambujal, junto a uma torre antiga existente no local, denominada "Torre de João Vaqueiro, e que ainda hoje existe, sem ruína, contigua com os muros, de cuja fundação não há notícia. Esta torre "he muito alta e tem por dentro algumas casas". A vila tem de circuito onze torres e três portas principais, além de três mais pequenas, chamadas postigos; no cimo das portas principais está um escudo com a cruz da Ordem de Cristo e outro com as quinas de Portugal, com os escudetes dos lados virados e apontados para o meio. Os ditos muros têm, em certas partes, quarenta palmos de alto e, em outras, menos, e, de largura, têm dez palmos. Toda a pedra de cantaria de que são construídas é grossa, exceto a das torres que é fina. Tem um soberbo castelo, a esta data também muito arruinado, depois que o inimigo deitou abaixo com minas, em 1704, as suas quatro torres, que tinha nos quatro cantos, as quais eram muito altas, especialmente a torre da Cinta, que dizem que tinha mais de setenta côvados de altura. Dentro do castelo estão umas paredes muito altas de um palácio onde moravam os Gamas, alcaide-mor da vila, condes da Vidigueira e nesta data marqueses de Nisa. *6 - Pelo inquérito realizado em 1827, os bens pertencentes à alcaidaria de Nisa são compostos pelo direito de portagem, e "uns casarões chamados de Castellos", totalmente arruinados, que havia sido antiga morada dos Templários, e dois pequenos bocados de terreno, um correspondente ao pátio dos ditos casarões e que se achava cercado de muralha igual à que cercava a vila, e outro que era imediato a este da parte exterior da dita muralha ou paredão do lado sul, ambos conhecidos como "Chões dos Castellos". Nestes casarões existiam à data várias escadarias e janelas sobre arcos, e outros vestígios.