Paiol construído no início do séc. 19, a expensas da Fazenda Real, para, em tempo de paz, servir de paiol geral e guardar a pólvora armazenada intramuros, evitando perigo para a cidade, contudo a sua localização afastada da praça de Elvas acaba por determinar o seu abandono desde muito cedo e a consequente ruína e descaracterização. Tipologicamente, o paiol tem planta retangular, composta por armazém e casa de recebimento, mais pequena e volumetricamente mais baixa, abrindo-se numa das suas faces laterais o acesso ao interior, coberto por abóbadas de berço e com ventilação por respiradouros em chicana, abertos nos muros laterais, envolvidos por alto muro corta-fogo. Em finais do ano de 1897, antes do paiol ser arrendado, já se pretendia proceder à inversão da frontaria e abrir um novo acesso ao interior, ao centro da fachada norte, no enfiamento do portal do muro corta-fogo, contrariando os parâmetros preconizados pelos tratados militares e por Manuel de Azevedo Fortes. Contudo, é possível que essa alteração tipológica só tenha ocorrido depois da venda do paiol a um particular, em 1902, visto que uma planta do ano anterior ainda o represente com o primitivo acesso, apesar de lhe introduzir recortes laterais no muro corta-fogo a delimitar os para-raios que, segundo parece, nunca foram construídos. A disposição das gárgulas, de meia cana, nas fachadas laterais, para escoamento das águas da cobertura, aponta igualmente para um outro tipo de remate inicial dessas fachadas, possivelmente em platibanda plena, como ocorre, por exemplo, no paiol de Santa Bárbara, e da disposição ou tipo de cobertura. As fachadas são em talude e em ambos os topos do armazém existem janelas de arco abatido com cornija angular e olho-de-boi, interligados por singela decoração de massa; os dois compartimentos do paiol comunicam entre si por portal abatido. O muro corta-fogo possui os ângulos curvos e, na frontaria, portal de linguagem tardo-barroca, de corpo convexo, definido por pilastras de massa, a imitar silharia fendida, ornadas de falsas mísulas, sustentando o remate, em empena com cornija angular, ladeada de aletas, que enquadram nicho com imagem de Santa Bárbara, protetora dos que utilizam explosivos. Inferiormente, abre-se amplo vão abatido encimado por brasão de Portugal. Os pombais, de planta circular e altos corpos torreados, com coberturas cónicas, construídos no séc. 20 a enquadrar o muro corta-fogo, conferem ao conjunto uma imagem "sui generis". A casa da guarda, construída frontalmente para albergar a guarnição que defendia o paiol, tinha inicialmente planta retangular e fachadas de um piso, e apesar de ter sido ampliada, conserva, no núcleo primitivo da fachada principal, o esquema de fenestração, com porta entre duas janelas de peitoril simples. A antiga guarita já não existe.
Planta retangular composta por dois corpos, correspondendo ao armazém e casa de recebimento, disposta a sul, mais estreita e mais baixa, envolvidos por alto muro corta-fogo, de ângulos curvos. Volumes escalonados, com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas no armazém e de três na casa de ressalva. As fachadas são rebocadas e pintadas de branco, a principal do muro corta-fogo com faixa azul. A fachada principal deste surge virada sensivelmente a norte, com portal central de corpo convexo, bastante saliente, definido por duas pilastras de massa, a imitar silharia fendida, sobrepostas por falsas mísulas, sustentando o remate, em empena, revestida a massa, criando aletas laterais e terminada em cornija angular. É rasgado por vão, em arco abatido, com portão de ferro, encimado por brasão com as armas de Portugal, sem coroa, e nicho, igualmente em arco abatido, albergando imagem pétrea de Santa Bárbara. O armazém apresenta as fachadas em talude, com pilastras de cantaria nos cunhais, coroados por fogaréus, pintados de branco, sobre acrotérios. A atual fachada principal, terminada em empena com cornija, surge igualmente virada a norte, rasgada por portal de verga abatida, sem moldura, e janela de arco abatido, com moldura de massa e cornija angular, encimado por sobrejanela a interligar a pequeno olho-de-boi circular. As fachadas laterais terminam em friso e cornija de massa e possuem regularmente, de cada lado, quatro gárgulas em meia cana. Na fachada posterior, igualmente terminada em empena, sobre a casa de ressalva, rasgam-se janela e olho-de-boi, de igual modinatura. INTERIOR com as paredes rebocadas e pintadas de branco, pavimento em cimento e cobertura em abóbada de berço, de tijolo em cutelo, sobre cornija.
Materiais
Estrutura de alvenaria, rebocada e pintada; cunhais da célula de armazenamento, gárgulas, moldura dos vãos do muro corta-fogo e brasão em cantaria; molduras do paiol em massa; grades e portão em ferro; imagem em cantaria de granito.
Observações
*1 - Segundo Mathias José Dias Azedo, "a maior parte destes depozitos exigem maiores cuidados, por q todos necessitão maiores precauções; mas também hé grande desvantagem reconcentrar a polvora em hum só ponto, que pode ser consumida por hum acontecimento funesto, e produzir muito maiores efeitos a sua explosão, e q de todos os inconvenientes, o maior hé conservala tão distante das fortificações, quando haja receio de guerra, principalmente em hum local tão próximo da raia, e de huma Praça vezinha…". Além disso, não acha possível construir os entrincheiramentos projetados de modo que "cobrissem a altura do Almazem de q se trata, e portanto ficarião expostas as suas paredes a serem batidas, e dirribadas em breves momentos por algumas peças assestadas em distancia conveniente, e neste cazo alguma granada poderia produzir inflamação". *2 - Em documento assinado nesta data, o general governador da Praça de Elvas, Thomáz de Aquino de Sousa, relata o estado de conservação dos dois edifícios. O paiol tem as abobadas em bom estado de conservação, paredes com carência de reboco em grande parte da sua superfície interior, mas sem ruturas pronunciadas, de onde pudesse resultar falta de estabilidade do edifício. A cantaria de lancil está em bom estado, com exceção da respetiva ao portado do paiol propriamente dito de um vão de janela, não existindo porta alguma, de comunicação ou da janela, nem vestígios pelo menos de soalho, forro de paredes e prateleiras. O telhado da casa de ressalva está completamente deteriorado e o restante carece de pequenas reparações. A guarita exterior, que é de alvenaria, está em sofrível estado. Bem conservados estão os quatro cunhais do edifício, os quais são de cantaria, bem como o muro do guarda fogo, as oito gárgulas, destinadas a dar escoamento às águas pluviais recebidas nos telhados e a "seganha" de ferro existente na casa da ressalva com aplicação à pesagem da pólvora. O corpo da guarda tem o telhado de duas águas, uma em bom estado e a outra em mau, portas de janela e de comunicação exterior bem conservadas à exceção de uma janela (em mau estado), uma porta de comunicação interior sem fechadura e o soalho em mau estado. Tem em bom estado as tarimbas, madeiramento de telhado e rebocos, não contando o correspondente a um cunhal do edifício sem contudo, a sua falta poder comprometer a segurança ao mesmo edifício. *3 - O paiol dos Murtais é descrito como um edifício retangular, de 38m x 14m, tendo num dos topos uma câmara de entrada, circundado por um muro guarda-fogo com uma larga porta ornamentada numa das faces menores, oposta à câmara de entrada. O paiol tem paredes de 2,20m de espessura e é coberto por uma abóbada com espessura correspondente. Entre o paiol e o muro guarda-fogo corre uma "rua" de 4,40m; as paredes e muros estão perfeitamente conservados e a abóbada não apresenta sinal de ruína, porém o telhado que a protegia está completamente arruinado, tendo desaparecido as portas e Janelas, restando unicamente as paredes nuas. *4 - Jerónimo José Barbas informa ainda que, dado o abandono do paiol, por não ser preciso para o serviço do Ministério da Guerra, o mesmo servia de abrigo de ciganos e vadios, tendo-lhe sido roubado tudo o que fora possível levar, inclusive parte das cantarias, deixando a abóbada descoberta, o que causa a infiltração de água e já apresenta algumas fendas, pelo que se não for protegida, brevemente ficará em ruínas. *5 - O paiol é descrito no Tombo como abobadado, dentro de um recinto murado, e composto de dois compartimentos; a guarita fica a 6m do muro do paiol; a casa da guarda, completamente em ruínas, implanta-se a 68,5m da frente do paiol. Todos os edifícios ficavam encravados na Herdade dos Murtais, de Jerónimo José Barbas, e desocupados. O paiol, em regular estado de conservação, exceto no telhado, que está destruído, é avaliado em $225 por m2, totalizando 292$050, a guarita, em regular estado de conservação, é avaliada em $450 e a casa da guarda, em ruínas, avaliada em 7$480, totalizando 299$980.