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Moagem de Sampaio

Moagem de Sampaio

O ponto de interesse Moagem de Sampaio encontra-se localizado na freguesia de Sesimbra (Castelo) no municipio de Sesimbra e no distrito de Setúbal.

Arquitetura industrial, do séc. 20. Fábrica de moagem de cereais, para produção de farinhas em rama, correspondendo a um edifício de pequenas dimensões, de planta retangular simples, com fachadas de um piso, interiormente sobradado, rasgada por vãos retilíneos ou em arco abatido de chave relevada. Foi construída no início do séc. 20, num momento chave da economia concelhia, traduzida na transição de uma produção rural e artesanal para um sistema de produção industrializado moderno. Implantado nas imediações de centros produtivos agrícolas, como a quinta Sampaio e a de Calhariz, recebia ainda cereais provenientes de todo o concelho, sobretudo de campos de cultivo privados. A partir de 1946 passou também a proceder à torrefação de café. Durante mais de meio século, funcionou com um motor a gasogénio fabricado em Inglaterra, que atesta a evolução da engenharia mecânica numa época de rápida mudança tecnológica, e que constitui um importante investimento pelos seus proprietários, visto possibilitar a transmissão de potência aos três casais de mós, a todo o sistema de limpeza e molhagem do cereal, e, numa fase inicial a um dínamo para produção de iluminação no edifício *2. A limpeza do cereal era feita por máquina com combinados de limpeza, concebidos para pequenas moagens, por evitarem a montagem de máquinas separadas para finalidades distintas, poupando assim espaço. Toda a maquinaria da moagem está em funcionamento, exceto o motor Hornsby-Stockport que, apesar de conservado, está no momento a ser reacondicionado ao abrigo do apoio obtido por meio de candidatura ao Programa EDP Ilumina o Património da Fundação EDP.

Planta retangular simples, com cobertura homogénea em telhados de duas águas, rematadas em beirada simples, e integrando duas trapeiras, uma virada à frontaria e outra à fachada posterior. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, rasgadas por vãos retilíneos ou de verga abatida com molduras simples de cantaria. Fachada principal virada a SO., rasgada por portal central em arco abatido com fecho relevado, por dois portais mais estreitos de verga reta, à esquerda, e por janela de peitoril e portal em arco abatido e chave relevada, à direita. A trapeira surge ao centro, com as paredes revestidas a zinco, rasgada por janela de verga reta, com caixilharia de duas folhas e bandeira, e terminada em aba corrida de madeira. Fachada lateral esquerda terminada em empena, rasgada no piso térreo por porta e janela de peitoril e, ao nível do sobrado por porta. Fachada posterior rasgada por janela de peitoril e várias janelas retangulares jacentes, tendo adossado panos de muro, criando espaço retangular, mais estreito, sobre o qual se apoiam várias estruturas em ferro e acedido por vão abatido. INTERIOR com as paredes caiadas de branco e certas zonas com faixa cinzenta, com os espaços correspondentes à antiga sala de moagem, sala de vendas e escritórios, salas de armazenamento, sala do motor e às áreas de limpeza do cereal, com paredes em tabique. Sobrado sustentado por viga central assente em mísulas de pedra e acedido por escada de madeira. No exterior existe um conjunto de estruturas que fazem parte do circuito industrial: um anexo onde se processava a torrefação de café, um poço, que outrora funcionava com uma nora e um tanque de refrigeração da água para o motor.

Materiais

Edifício principal: estrutura com paredes-mestras (com cerca de 0,60 m) em alvenarias de pedra, tijolo maciço e cal, rebocadas e exteriormente com argamassas de cimento pintadas com tintas acrílicas e interiormente com cal; reforço da estrutura com seis tirantes em ferro ancorados por "bolachas" de ferro fundido em ambos os sentidos do edifício; portas e janelas com molduras, ombreiras e soleiras em cantaria de calcário e caixilharia e portadas interiores em pinho, tratado com zarcão; portas com ferragem tipo "leme" e "cachimbo" e fecho de correr e as janelas com ferragem de tipo corrente, também com fecho de correr; vidros simples; revestimento exterior das trapeiras em zinco; paredes interiores em tabique, segundo o método de armação de grade simples picada e encascada com pedra e cal, rebocadas com argamassas de cal e revestimento em cal; pavimento de cimento e em soalho em pinho nacional; cobertura interior com estrutura em pinho nórdico laminado (casquinha) recorrendo ao sistema de "bocas de lobo" e "tesouras"; forro interior das mansardas em soalho de pinho nacional (tipo macho-fêmea); piso superior construído com vigamento de pinho nórdico laminado (casquinha) suportado por viga central assente em mísulas de alvenaria de calcário; escada de acesso em pinho nacional; cobertura com telha tipo "marselha". Anexo de torrefação de café: estrutura (com cerca de 0,40 m de espessura) em alvenaria de tijolo maciço e cal, rebocado exterior e interiormente e caiado, com pilares de tijolo cruzado e reforçada com vigas de aço, que suportam a cobertura inexistente; porta reforçada por arco de descarga em tijolo; pavimento em cimento. Poço: parede em alvenaria de pedra e cal, rebocada e caiada; grade de proteção.

Observações

*1 - Da investigação entretanto conduzida e dos contactos estabelecidos com a comunidade, surge um projeto paralelo, fruto da tomada de consciência relativa à importância da moagem de cereais em Sesimbra, e que vem a dar corpo à publicação "Engenhos de Moagem de Cereais no Concelho de Sesimbra", apoiada pela mesma entidade no âmbito do PRODER. *2 - A transmissão de potência era efetuada por correias de lona e couro, transpondo dois dos três espaços do piso térreo e o primeiro piso do edifício. O engenho atingia uma potência nominal de 25 cavalos-vapor a 250 rotações por minuto. Para o arrefecimento recorria-se à água proveniente do poço anexo ao edifício, que era bombeada para a câmara existente à volta do cilindro do motor pela ação de uma bomba em cobre que aproveitava o funcionamento do próprio engenho. Esta água, após arrefecer a peça, tornava a ser conduzida para o exterior, para arrefecer num tanque ainda existente. Voltava a ser admitida, mercê da força da bomba de água, cumprindo novamente a sua função. A limpeza do cereal procedia-se por uma máquina com combinados de limpeza, que fazia o crivo, sopro, seleção e escovagem do cereal, permitindo a remoção de palhas miúdas (moinha), de pó, de sementes diversas e de outras matérias nocivas à farinação. Esta máquina possui ainda um íman para remoção de pedaços de arame de fardo que tenha ficado no campo em resultado do trabalho de anos anteriores; bandeja despedradora que recorre à força da gravidade para separar elementos de maior massa (as pedras) de outros de menor massa (o cereal). Consiste numa caixa triangular de madeira, inclinada no sentido do vértice do triângulo e que oscila em varas flexíveis pela ação de um excêntrico acionado por uma correia. No interior da caixa, os golpes dados ao cereal pelos vértices de caixas triangulares mais pequenas ali existentes obrigam-no a subir, contrariando a força da gravidade, e a sair da máquina. Este mecanismo não é suficientemente forte para fazer o mesmo às pedras. Estas, por terem uma massa maior, descem em direção ao vértice da máquina saindo por um orifício para caixa própria; Trieur Marot: crivo rotativo que permite separar trigo inteiro de trigo partido e de outras sementes, recorrendo para tal a uma seleção por tamanho e forma. Possui dois elementos fundamentais montados num plano ligeiramente inclinado: um cilindro com alvéolos de diferentes dimensões e, dentro deste, um veio sem-fim. Inicialmente o cereal e demais sementes são vertidos para dentro do cilindro em rotação. Sucede então que aquelas sementes e o trigo partido, pela sua forma, ficam alojados nos alvéolos até que a rotação do cilindro, a cada ¼ de volta, os deposita dentro do veio sem-fim que funciona no centro daquele. O trigo inteiro, por sua vez, vai viajando pela porção inferior do cilindro pela gravidade proporcionada pelo plano inclinado, já que a sua forma e elementos de madeira no interior do engenho não permitem que seja apanhado pelos alvéolos. Por debaixo do trieur, caixas diferentes recolhem cereal inteiro, cereal partido e outras sementes.