Arquitectura religiosa, vernácula. Conjunto de Passos da Via Sacra e Calvário, de construção seiscentista e setecentista. Os cruzeiros assentam sobre plataformas ou directamente no pavimento, tendo cruz simples. Três deles formam um Calvário, assentes em plataforma de degraus, interrompidos por plintos.
Conjunto de onze cruzeiros formando uma Via Sacra, que termina fora da povoação, no Calvário, relativamente bem preservadas, todos em cantaria e de tipologia comum. O primeiro cruzeiro, situado junto ao acesso da Igreja, é constituído por cruz latina simples, de hastes simples. O segundo cruzeiro está situado junto a uma via pública, assente em plataforma quadrangular de três degraus, onde assenta o plinto cúbico e uma cruz latina, de hastes simples. O terceiro surge junto à via pública e a casa de habitação, estando, directamente, embutido no pavimento, composto por cruz latina, surgindo, na haste vertical, a inscrição "1731". O quarto cruzeiro, já fora da povoação, assenta em plataforma quadrangular, de um degrau, com dado e cruz latina, ligeiramente inclinada para o lado direito. O quinto é de pequenas dimensões e encontra-se sobre afloramento granítico, composto por cruz latina simples; o mesmo sucede aos dois imediatos, um deles já nas imediações do Calvário. Este é composto por plataforma de cantaria, formada por três degraus e maciços laterais, o do lado esquerdo, parcialmente arruinado, e central, encimados por cornija, onde assentam as cruzes latinas, de hastes simples e assentes em plintos paralelepipédicos. No lado esquerdo, estrutura em cantaria, parcialmente arruinada, sendo difícil discernir a sua primitiva função, mas talvez se trate de um antigo púlpito.
Materiais
Estruturas em cantaria de granito; ferro fundido em algumas juntas.
Observações
*1 - o Calvário e a Via-sacra de Sendim ainda continuam a ser bastante utilizados pela população, no tempo de Quaresma, com o fortalecimento de tradições antigas por parte do conselho económico da fábrica paroquial e de muitos membros da Associação dos Amigos da Região do Tedo e Távora, com sede em Sendim; apesar de ter havido um certo esmorecimento destas celebrações, sobretudo a partir de meados do séc. 20, resta, no caso de Sendim, a Via-sacra em forma de procissão (ida ao Calvário), seguindo o percurso das 14 estações pelas ruas da povoação em direcção ao "Calvário"; a Via-sacra é acompanhada por cânticos entoados, separadamente pelo coro dos homens e pelo coro feminino, com um cariz musical medieval que lembra o cantochão ou canto gregoriano numa linha melódica bastante melismática (CRAVO, 2002, p. 6). Essa tradição religiosa do povo de Sendim é antiga: na Quarta-feira de Cinzas, não se comia carne, e, durante toda a Quaresma, mantinha-se o jejum às Quartas e Sextas-feiras; durante esse período, ninguém cantava e, nas sete semanas da Quaresma, não se fazia nenhum baile; durante a noite, os homens cantavam o terço, formando dois grupos - o primeiro grupo começava a cantar o "Pai-Nosso", junto à Capela de São Miguel, enquanto o segundo ia avançando; quando o primeiro grupo se calava, o segundo parava e continuava a cantar o resto do "Pai-Nosso", enquanto o primeiro grupo avançava; quando terminavam de cantar, já estes os tinham alcançado e começavam a cantar a "Avé-Maria", e assim sucessivamente, até os dois grupos chegarem ao Calvário, onde terminavam o terço; no caminho descendente, vinham todos juntos a cantar os "Martírios do Senhor", "Eu fui ao Calvário" e outros cânticos, até à Capela de São Miguel, onde haviam começado. A partir do Domingo de Lázaro, ou seja, 15 dias antes da Páscoa, eram tapados todos os santos dos altares com panos lilás e não se ornavam os altares com flores, a não ser com lírios roxos; no Domingo de Ramos, 8 dias antes da Páscoa, toda a gente levava um ramo à missa para se fazer a bênção dos Ramos, composto de oliveira, alecrim, loureiro, etc., e era guardado em casa todo o ano; quando havia trovoadas, punham-se encostados às janelas, para evitar perigos. Na Quarta-feira Santa, eram feitas as confissões e vinham três ou quatro sacerdotes para preparar a Comunhão Pascal; Na Quinta-feira, a partir do meio-dia, e até ao meio-dia de Sexta-Feira, já ninguém trabalhava e, de tarde, ninguém se podia pentear, nem se podia estender a roupa, nem pôr a corar nem a enxugar. Às três da tarde tocavam as "matráculas" (matracas), pois os sinos não voltavam a tocar até ao "Aleluia!". Então toda a gente ia à missa, à Igreja Matriz de Sendim, e a seguir fazia-se a Via-sacra ao Calvário; uUm homem mais forte carregava uma grande cruz até ao cimo do Calvário. Na noite de Quinta-Feira de Endoenças, fazia-se a Procissão do Encontro de Jesus com sua Mãe: os dois andores encontravam-se no fundo da Calçada, onde se faziam discursos. Na Sexta-feira Santa, de manhã, fazia-se novamente a via-sacra ao Calvário e, às três da tarde era a Adoração da Cruz na Igreja, sendo as toalhas retiradas dos altares; à noite, era a Procissão do Senhor Morto ou "O Enterro de Jesus" (COELHO, 2001, pp. 4-5). Actualmente, a tradição das Endoenças encontra-se recriada da seguinte forma: na Quinta-Feira Santa, após a missa da Comunhão Pascal, começam os ofícios das Endoenças com a Via-sacra, conhecida como "Ida ao Calvário", pelas ruas de Sendim em direcção ao Monte do Calvário; nessa procissão seguem três cruzes: a primeira e maior que é levada um pouco à frente pelos mais jovens, e que, segundo a tradição, deverá ser carregada pelos jovens que vão à inspecção militar nesse ano; depois, vem a cruz média que encabeça a procissão, logo seguida do grupo dos homens; esta procissão é dividida pela cruz mais pequena que vem junto ao padre e divide o grupo dos homens do grupo das mulheres e pára junto às cruzes de pedra que se encontram ao longo do percurso a marcar as estações da Via-sacra; durante o percurso, no andamento entre as estações, vão-se entoando cânticos diferentes entre as Mulheres: "Virgem Mãe de Deus e Mãe Nossa, Tende de Nós Misericórdia!" e os Homens: "Senhor Deus e Pai-nosso, Tende de Nós Misericórdia"; No "Monte do Calvário" cada cruz da procissão fica encostada a uma das três cruzes de pedra erguidas no Calvário; terminada a Via-sacra e depois de as crianças terem recolhido seixos suficientes para encherem os bolsos (os seixos abundam naquele serro e segundo a tradição, os que forem recolhidos durante as cerimónias da Via Sacra servem para afugentar os perigos da trovoada e outros males), segue a procissão, organizada da mesma forma, em direcção à Igreja, pelo caminho mais rápido e sem interrupções, entoando os homens os "Martírios do Senhor" com o Refrão a ser repetido pelas mulheres; após a Via-sacra, inicia-se a "Procissão do Encontro", ainda no lugar de Sendim, que conta com figurantes, dois andores (Nossa Senhora da Soledade e Senhor da Agonia ou Senhor dos Passos), que, seguindo percursos diferentes, originam o "Encontro" no Largo do Pelourinho, onde decorre o "Sermão do Encontro", que é pregado pelo oficiante; na Sexta-Feira Santa, fazem-se os ofícios religiosos próprios do dia com adoração da Santa Cruz, seguindo-se nova "Ida ao Calvário", nos moldes do dia anterior; ao final da tarde, realiza-se a Procissão do Enterro ou do Senhor Morto, que decorre nos lugares de Aldeia e de Paço, saindo da Capela da Santa Bárbara e terminando na Capela de São Miguel, sendo constituída por vários figurantes, os andores do Senhor Morto e da Nossa Senhora da Soledade, e abrilhantada pelos sons melancólicos e tristes de marchas fúnebres interpretadas pela Banda de Música de Sendim com paragens onde se ouve a entoação lamentosa, em latim, de Verónica; no Sábado Santo de Aleluia, é celebrada, de manhã, a Vigília Pascal, na Capela de São Miguel, que começa com a Benção do Lume Novo no exterior, acendendo-se o Círio Pascal com lume novo; em seguida, a benção da Agua Benta com água nova, e, começada a Missa, na altura do "Glória", tocam os sinos a "Aleluia da Ressurreição" (CRAVO, 2002, p. 6). A palavra "endoença", tal como indulgência, vem do latim "indulgentia(m)"; as indulgências (ou perdão) dos pecados, eram dadas pelo clero aos penitentes, principalmente durante a Semana Santa; o sentido da palavra "endoenças" evoluiu para "cerimónias religiosas celebradas durante a Semana Santa", embora muitas vezes e em alguns lugares se liguem aos festejos de Quinta-feira Santa que inclui a Procissão do Encontro.