Núcleo urbano sede distrital. Cidade implanta em costa marítima. Núcleo urbano amuralhado com tecido urbano de raiz medieval estruturado sobre preexistências romanas. Estrutura radial concêntrica que revela na organização espacial a herança dos eixos fundamentais cardo e decumanos e do forum da Ossónoba romana, a par da circular interna herdada da urbe islâmica. A sacralidade do espaço centralizador de toda a estrutura manteve-se, a par de uma rede viária influenciada e condicionada pelo limite urbano imposto pela muralha. Os quarteirões são de formas, dimensões e densidades de ocupação muito irregulares. Surgem a par dos logradouros de grandes dimensões, situações de logradouros praticamente inexistentes. No conjunto, verifica-se uma densidade de ocupação baixa, com o espaço livre, público e privado a assumir grande impacto. Como núcleo fundacional da cidade contém os exemplares mais representativos do edificado de diferentes épocas. Salientam-se os edifícios de arquitectura civil privada chã, palácios urbanos e casas abastadas com características burguesas, setecentista e oitocentista, com 2 pisos, com marcação de soco e cunhais relevados em argamassa ou em pedra, remate superior com cimalha simples ou dupla, telhados de tesouro ou telhado de duas águas e beirado, vãos guarnecidos com molduras frequentemente revivalistas, recorrendo a uma linguagem seiscentista, caracterizada por cimalha sobre a verga recta. No andar nobre surgem predominantemente as sacadas com guardas de ferro forjado e fundido nos balcões. Esta tipologia é representativa do surto de construções e adaptações de preexistências que se deu na segunda metade de oitocentos. Da arquitectura residencial corrente predominam os edifícios térreos ou com dois pisos, que se caracterizam pelo recurso aos telhados de tesouro e beirado rematado com cimalha adoptados por influência da arquitectura erudita/ nobre, paredes caídas, vãos de pequenas dimensões com moldura de cantaria simples ou com relevo em argamassa. Os elementos decorativos recorrem ao tema da lágrima e á introdução de cor nos barramentos do soco e cunhal. A característica dominante do edificado da cidade é sem dúvida a sua distintiva cobertura em "tesouro". Os telhados de tesoura ou tesouro são coberturas inclinadas de quatro águas com inclinação superior a 45º, correspondendo cada cobertura a uma divisão do edifício. Assim os telhados eram reveladores do número e dimensão das "casas" que constituíam uma habitação. Esta solução técnica e estética de influência oriental são característica das casas nobres do séc. 16 e 17 em Faro, fruto de um crescimento urbano estruturante durante uma época de contactos estreitos com a Índia. Para além de inúmeras casas nobres desta época que preservam este tipo de telhado, encontramo-los também no Paço Episcopal (na ala primitiva paralela á Sé) e no Convento de Nossa Senhora da Assunção.
Núcleo urbano da cidade de Faro. Implanta-se no limite do S. da área considerada como centro histórico. De forma aproximadamente circular esta sector da cidade corresponde ao núcleo fundacional, com ocupação urbana comprovada desde a idade do ferro. É desta época a delimitação do espaço intramuros e a consequente definição dos limites da cidade. Durante a ocupação romana a urbe extravasou o limite materializado pela fortaleza, estendendo-se para N. e ao longo da margem da ria. A área da Vila-a-dentro afirmou-se neste momento da sua história como o centro do poder político e religiosos, condição que não viria a perder até á actualidade. É da cidade romana que Faro herda a rede viária e a organização espacial e funcional. A Praça da Sé corresponde ao primitivo fórum e no local da actual sé sucederam-se o templo romano, a mesquita maior e a sé católica, sede de bispado. Este é o espaço estruturante por excelência do núcleo intramuros. Aqui se encontram os dois eixos fundacionais, condutores das zonas de expansão extramuros. O eixo definido pela Rua do Município/ Rua do Castelo ligava a cidade romana Ossónoba (Faro) a Lacaria (Lagos) e corresponde á implantação do cardo. Perpendicular a este, encontramos o eixo da Rua do Repouso/ Rua das Portas do Mar que se identifica com o traçado do decumanos. Ambos sofreram alterações e descontinuidades resultado das sucessivas intervenções no tecido da cidade. A urbe islâmica viria a contrair-se retomando o limite amuralhado, com um acréscimo considerável da densidade de ocupação do intramuros. O espaço urbano dividia-se em duas áreas distintas, comuns a todas as cidades islâmicas medievais, ainda perceptíveis na estrutura dos quarteirões, a alcáçova/ castelo e a medina/ urbe civil. A primeira detinha o poder político e militar e erguia-se no extremo sul da cerca. No castelo foram instalados quartéis do regimento de artilharia do Reino do Algarve no séc. 18. Sucedeu-lhe uma ocupação fabril durante o séc. 19 e início de 20, até á sua dilaceração pela abertura da rua Nova do Castelo. Sobre as estruturas do castelo ergue-se hoje o espaço cultural da Fábrica da Cerveja Portugália. A segunda área corresponde ao restante espaço intramuros e apresenta traçado muito irregular, onde predominam quarteirões de grandes dimensões, com densidades de ocupação heterogéneas. Sobre os eixos fundamentais da Rua do Castelo/ Rua do Município e da Rua do Repouso/ Rua das Portas do Mar abrem-se nas muralhas as portas da cidade. A Porta da Vila seria a principal e marcava a entrada na cidade num percurso preferencial de acesso ao castelo. A Porta do Repouso definia o circuito de ligação à chamada Porta do Mar, por onde se acedia ao porto marítimo. Até á construção da linha-férrea no séc. 19, a água vinha até ás muralhas. Outra marca do urbanismo islâmica visível ainda na estrutura viária da cidade é a circular intramuros, identificada nas ruas dos Cónegos (actual Rua do Rasquinho), Monsenhor Bouto e do Arco apesar das descontinuidades impostas pelas alterações do traçado urbano, sofridas ao longo da sua evolução. Após a reconquista cristã nascem novos arrabaldes. A Mouraria como consequência directa da necessidade de acomodação da população mourisca fora cidade, e a Ribeira enquanto área de expansão natural, ao longo da faixa ribeirinha, respondendo a novas necessidades funcionais e económica. Aqui se abriu a Praça da Rainha (actual D. Francisco Gomes), correspondente a um rossio junto á Porta da Vila. Instalou-se o mercado e o açougue, a alfandega e o hospital e capela do Espírito Santo. Foi no entanto na Vila-a-dentro que se mantiveram os grandes edifícios públicos e religiosos. A alcáçova, a casa da câmara no local do actual edifício dos Paços do Concelho, o pelourinho, a sé e o paço episcopal. Foi também no intramuros que se instalou a judiaria até ao final do séc. 15, aquando da sua expulsão. Neste local veio a ser construído o Convento de Nossa Senhora da Assunção (actual Museu Municipal) com a respectiva cerca que se estenderia até á muralha. Na sequência da instalação do convento abre-se o Largo das Freiras (actual Praça D. Afonso III), para onde dava o adro da igreja. Este largo seria um alargamento do eixo principal da Rua do Repouso/ Rua Norberto da Silva/ Rua das Porta do Mar. Actualmente apresenta uma forma sensivelmente rectangular resultante de uma intervenção de regularização posterior, que se estendeu sobre o antigo adro. Esta praça está rodeada por construções de dois pisos, com fachadas com vãos em cantaria e caiadas de branco, acolhendo muitas destas serviços de restauração nos pisos térreos e por muros altos de quintais a N. e a O. O pavimento é empedrado, com uma zona ajardinada ao centro, onde se ergue uma estátua equestre em bronze representando o rei D. Afonso III. Pontuado por algumas árvores o largo é utilizado como parque de estacionamento para os que vivem ou trabalham na Vila-a-Dentro. A S. abre-se um largo sem denominação específica que dá acesso á Rua Norberto da Silva. O Largo da Sé estruturou-se, tal como o conhecemos hoje, no início do séc. 17. Após a devastação provocada pelas tropas inglesas promoveu-se a reconstrução da Sé e a construção do edifício do Paço Episcopal que delimitaram a configuração do largo, reforçando o seu carácter monumental e de centro cívico e religioso da cidade. Com uma forma em "L" é quase integralmente rodeado por edifícios de grande porte: a Sé Catedral, o Complexo do Paço Episcopal e do Seminário Episcopal e os Paços do Concelho. Daqui se distribui a circulação para a rua do Município, a rua do Trem, a rua da Porta do Mar e a rua Domingos Gueiro. O Largo encontra-se empedrado e é utilizado como estacionamento, com alguns espaços ajardinados e uma estátua em pedra representando o bispo D. Francisco Gomes Avelar. Resta referir relativamente aos espaços públicos o Largo do Castelo que se abre entre a rua do Castelo e a rua Nova do Castelo. Era o espaço que antecedia a entrada do castelo e onde culminava o percurso a partir da Porta da Vila. Foi desvirtuado com a abertura da rua Nova do Castelo, tendo-se perdido a sua leitura e funcionalidade. É um espaço trapezoidal, rodeado de armazéns, oficinas remanescentes da industrialização da área do castelo e de parte da cerca do convento de Nossa Senhora da Assunção. Na frente S. é composta por construções térreas dedicadas ao comércio e á restauração e a galeria municipal. É um espaço de circulação, com área para estacionamento. O terramoto de 1755 teve um efeito extremamente nefasto no edificado, quer ao nível dos imóveis estatais quer no que diz respeito á arquitectura civil residencial. No tocante á arquitectura religiosa são notáveis as intervenções do arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri, mandado vir de Itália para a reconstrução dos edifícios destruídos pelo terramoto. Destacam-se o edifício do Paço Episcopal já referido anteriormente e o Arco da Vila, construído para conferir a monumentalidade própria da época á antiga Porta da Vila. As intervenções modernizadoras do séc. 19 reflectiram-se na construção de grandes edifícios públicos como o do Governo Civil e o Quartel dos Bombeiros Voluntários sobre o pano de muralha, alteraram de forma irreversível a leitura da fortaleza. Da análise da arquitectura residencial da Vila-a-Dentro destacam-se os exemplares solares e casas abastadas de setecentos e oitocentos, com incidência no pós terramoto de 1775. Na reconstrução foi retomada a linguagem da arquitectura chã, materializada sobretudo nas molduras dos vãos. São disto exemplo a Casa Domingues Gueiro, na rua com o mesmo nome e a Casa do Capitão Manuel de Oliveira. Este é um caso representativo de uma casa senhorial do séc. 16 que foi alvo de diversas intervenções, sendo legíveis elementos quinhentistas e setecentistas. A fachada actual é do séc. 18, recorrendo ao todo o léxico revivalista ao nível dos vãos e varandas. Diferente foi a solução ao nível da cobertura. Muitas das coberturas com telhados de tesouro muito apreciadas durante os séculos 16, 17 foram no século 18 revestidas por telhados de duas e três águas. O Solar dos Sárrias é um dos mais representativos exemplares da arquitectura senhorial seiscentista. Situado no encontro da Rua dos Cónegos (actual Rua do Rasquinho) com a Rua do Repouso, apresenta hoje características introduzidas durante o séc. 19, sobretudo ao nível dos vãos do piso nobre, mantendo a cobertura original em telhado de tesouro. Também na Casa da Família Cortes, na Rua do Repouso, e na Casa José Maria Assis, na Rua dos Cónegos (actual Rua do Rasquinho) é legível a identidade da habitação urbana oitocentista, de características burguesas impostas em edifícios setecentistas. Destaca-se igualmente o edifício setecentista da Escola do Magistério Público, na Rua Domingos Gueiro. O seu excepcional logradouro tem frente murada para a mesma rua e para a Praça D. Afonso III. Os logradouros de grandes dimensões são característica comum a todos estes edifícios. Do séc. 19 chegam marcas visíveis de grandes alterações na fisionomia do núcleo amuralhado. No interior destaca-se desta época o novo edifício dos Paços de Concelho no mesmo local onde existia o anterior. Da arquitectura residencial oitocentista refere-se o exemplo da Casa dos Condes de Santa Maria também na Rua do Cónegos (actual Rua do Rasquinho). A vivência da Vila-a-Dentro teve alterações profundas ao longo do séc. 20. A utilização dos edifícios é predominante terciária, com um decréscimo muito acentuado da vertente residencial. Concentram-se aqui serviços públicos e equipamentos culturais, instalações religiosas e serviços relacionados com a restauração e o turismo.
Materiais
Não aplicável
Observações