Arquitetura religiosa, barroca e neoclássica. Monte Santo, de influência direta do Santuário do Bom Jesus do Monte (v. IPA.00005694), constituído por largo do pórtico e escadaria, subindo em lanços suaves e em linha reta, ligando várias ermidas de planta centralizada e cobertura piramidal, de cantaria, construídas em épocas distintas, onde se integram os vários passos da Via Sacra, compostos por figuras de vulto, predominantemente de caráter popular, com pórtico dos Evangelistas acedendo a amplo terreiro, onde se erguem os quartéis, e o Escadório das Virtudes, com patamares pontilhados de fontes e estatuária. No topo, surge a igreja neoclássica, de planta retangular, composta por nave, de cinco tramos definidos por pilastras colossais, capela-mor e anexos laterais, com coberturas interiores em falsas abóbadas de berço e bastante iluminada por janelas retilíneas. Fachada principal do tipo fachada harmónica, com corpo central rematado em frontão triangular e de dois registos tripartidos, com duas ordens arquitetónicas distintas, dórica no inferior e jónica no superior. Torres sineiras de vários registos com coberturas em coruchéus bolbosos. Interior com coro-alto, quatro capelas laterais pouco profundas e duas profundas contendo retábulos de talha tardo-barrocos, púlpitos confrontantes neoclássicos com acesso pelo interior da caixa murária e, na capela-mor, retábulo-mor neoclássico, de planta convexa e um eixo. Santuário Mariano influenciado pelo do Bom Jesus, mas numa escala menor e com menor riqueza decorativa e qualidade escultórica, ainda que as estátuas das Virtudes, por exemplo, tenham sido encomendadas ao escultor Francisco Luís Barreiros, em 1860, segundo os modelos apresentados e as dimensões das do Bom Jesus. A disposição em linha reta da igreja e da Via Sacra não é original, visto que, inicialmente, se implantavam dispersas, e a igreja corresponde à segunda do santuário, tendo sido mandada construir a partir de 1835, mais para O. da primitiva, que depois foi transformada em quartéis e, mais tarde, demolida. As atuais capelas da Via Sacra resultam de duas fases construtivas. As mais antigas são referidas pela primeira vez em 1742 e correspondem às dispostas a E. do escadório, com planta quadrangular, portal retilíneo e passos da Paixão de Cristo, desde o passo de Cristo no horto até à Ressurreição de Cristo. As do lado O. datam da década de 1780, são maiores, têm planta hexagonal, linhas exteriores mais ricas, com fachada principal terminada em frontão triangular e vãos abatidos sublinhados por cornijas contracurvas, dispondo-se num ritmo mais espaçado e com passos complementares aos do lado oposto, predominando essencialmente cenas da infância de Cristo. Todas estas capelas tinham a cobertura revestida a telha, para maior impermeabilização, mas que, entretanto, foi removida. No interior os grupos escultóricos apresentam qualidade distinta, existindo figuras muito atarracadas (Entrada em Jerusalém) ou com corpos muito musculados (Adoração dos Pastores). No largo do pórtico, no início da Via Sacra, dispõe-se chafariz com o Anjo Gabriel sobre coluna inscrita, o qual, juntamente com a Virgem que surge na face interior do pórtico, cria uma Anunciação. O escadório que precede a igreja, o de maior riqueza escultórica, possui os muros em silharia fendida, painéis de aparelho "vermiculatum", fontes tipo nicho com elementos simbólicos, as Virtudes Teológicas, urnas e obeliscos piramidais. No topo deste escadório, desenvolve-se a igreja, cuja torre sineira E. só foi concluída no séc. 20 e os anexos da fachada O. nunca foram terminados. No interior, os retábulos laterais foram feitos pelo mesmo entalhador, apresentando estrutura semelhante, ainda que com pequenas nuances dois a dois, possuindo os das capelas profundas baldaquino no remate. Um dos retábulos do Evangelho representa a tradição da aparição de Nossa Senhora da Peneda a um homem de Ponte de Lima.
Monte Santo composto por escadório, onde se implantam as capelas da Via Sacra, várias fontes, cruzeiro, pórtico dos Evangelistas, Escadório das Virtudes e, no topo, o terreiro da Igreja. IGREJA de planta retangular composta por nave e capela-mor, mais estreita e da mesma altura, tendo adossado lateralmente torres sineiras quadrangulares, à fachada lateral esquerda corpo retangular e na oposto um outro, mas que se prolonga por toda a fachada. Volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja e de uma nos corpos adossados, rematados em beirada simples. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com soco de cantaria, pilastras toscanas nos cunhais, coroadas por urnas, e remates em friso e cornija. Fachada principal virada a S., harmónica, com corpo central ladeado por duas torres. O corpo central, de dois registos separados por friso, tem o inferior dividido em três panos por pilastras dóricas, abrindo-se ao centro o portal, de arco abatido, com chave relevada e moldura encimada por elemento de cantaria e cornija reta. No segundo registo rasgam-se três janelões, o central maior, em arco de volta perfeita, com chave relevada e de onde parte fina grinalda fitomórfica, sobre pilastras, enquadrado por pilastras jónicas, que sustentam frontão semicircular percorrido por denticulado; os laterais têm verga abatida, com dupla moldura, chave relevada e frontão semicircular, com o tímpano de cantaria. Em frente das janelas corre balaustrada de cantaria, formando sacada na central, tendo nos extremos acrotérios almofadados. Este corpo remata em frontão triangular, com o tímpano em cantaria, ornado com brasão nacional, coroado por cruz latina de braços quadrangulares e trevados sobre acrotério. As torres sineiras, sensivelmente recuadas, possuem três registos, separados por duplo friso e cornija, abrindo-se no primeiro janela abatida, de dupla moldura, e no segundo, janela de sacada semelhantes às laterais do pano central, assentes em mísulas e com guarda em balaustrada. O terceiro registo, em cantaria e seccionado por friso, é rasgado, em cada uma das faces, por vão em arco de volta perfeita, de chave relevada, sobre pilastras, formando falsos brincos retos, interligadas por motivo semicircular inferior relevado, e albergando sino. Apresentam remate em balaustrada de cantaria, com acrotérios nos cunhais coroados por urnas, e cobertura em coruchéu bolboso. Fachadas laterais rasgadas por janelas retangulares de moldura simples, correspondendo a quatro na nave e a duas na capela-mor. Na lateral esquerda, abre-se ainda na face posterior da torre, na nave e na capela-mor, portais de verga reta e moldura encimada por frisos e cornija, possuindo a torre e o corpo adossado vários silhares em espera. Na fachada lateral direita, os corpos adossados dividem-se em dois panos por pilastras, cada um deles rasgado por um portal de verga reta, com moldura encimada por espaldar recortado, rematado em cornija, entre janelas jacentes, com molduras formando falsos brincos retos e terminadas em cornija. Fachada posterior terminada em empena, coroada por cruz latina biselada sobre acrotério, e rasgada por duas janelas jacentes, de molduras formando falsos brincos retos. INTERIOR com as paredes rebocadas e pintadas de branco, de cinco tramos definidos por pilastras colossais, duas delas sobrepostas por consolas com imaginária, pavimento em lajes de cantaria e cobertura em falsa abóbada de berço, de estuque, sobre entablamento bastante desenvolvido. No primeiro tramo desenvolve-se o coro-alto de cantaria, sobre arco abatido assente em consolas, com guarda em ferro, acedido de ambos os lados por portas de verga abatida com fecho relevado. No sub-coro existe guarda-vento de madeira envernizada, definido por pilastras de inspiração dórica, sustentando frontão semicircular, com IHS inscrito no tímpano. De cada lado abrem-se portais de verga abatida com fecho relevado, de acesso ao coro e às torres. Do lado do Evangelho existe pia de água benta de taça lisa, sobre pé facetado, e do lado da Epístola pia de água benta de taça hemisférica gomeada. Nos tramos seguintes surgem arcos de volta perfeita, com chave relevada, sobre pilastras, interligadas às janelas superiores, de verga abatida e com moldura terminada em cornija reta. No segundo tramo, no interior do arco, rasga-se portal de verga abatida, com chave relevada encimada por frontão com sobreporta de perfil curvo, rematada em cornija reta e tendo ao centro motivo relevado com pingentes. Nos tramos seguintes os arcos correspondem a capelas, albergando retábulos de talha policroma e dourada, de planta reta e um eixo, semelhantes dois a dois, sendo as últimas profundas, e fechadas por guarda em ferro. As capelas possuem a seguinte invocação: Visitação, Aparição da Senhora das Neves da Peneda a um homem de Ponte de Lima e Sagrada Família no regresso do Egito, no lado do Evangelho, e Nossa Senhora da Conceição, Santa Ana ensina a Virgem a Ler e Anunciação, no lado da Epístola. As terceiras pilastras são sobrepostas por púlpitos, confrontantes, de talha policroma e dourada, de bacia retangular sobre mísula, guarda plena, com apainelados ornados por cartela com florão, festões e motivos vegetalistas, com friso inferior de óvulos contendo florões e dardos; são acedidos por porta de verga reta, encimada por cornija e baldaquino de talha, com lambrequim de drapeados, rematado em espaldar vazado, com urna central, terminado em cornija contracurva e motivos vegetalistas vazados, e florões laterais. Arco triunfal de volta perfeita, sobre pilastras, sobreposto por sanefão em talha policroma e dourada, ornado com festões e motivos fitomórficos entrelaçados, de boca rendilhada, e tendo no fecho brasão nacional e acantos. Capela-mor rasgada lateralmente por porta de arco abatido, com dupla moldura e chave relevada, encimada por friso e cornija, e por janela igual às da nave, com cobertura em falsa abóbada de berço, de estuque, de três tramos, conferidos por arcos. Sobre supeâneo, dispõe-se o retábulo-mor, em talha pintada de bege, azul e dourado, de planta convexa e um eixo, definido por quatro colunas caneladas, de terço inferior marcado e decorado com festões, assentes em dupla ordem de plintos, os inferiores estriados e os superiores decorados com elementos vegetalistas, e de capitéis coríntios, coroados por urnas sobre acrotérios e plintos paralelepipédicos, estriados. Ao centro, abre-se ampla tribuna, em arco sobre falsas pilastras estriadas, decorado com motivos vegetalistas vazados, interiormente pintado com folhagem e albergando trono; este tem cinco degraus, ornados de festões e elementos fitomórficos, sobreposto por baldaquino, com colunas nos cunhais, de terço inferior estriado, sustentando o entablamento, com cobertura e urnas laterais, e frontalmente rasgado por arco de volta perfeita com drapeados a abrir em boca de cena. A estrutura termina em espaldar recortado, ornado de festões, com chave relevada, rematada em cornija, sobreposta por acantos e volutados. Banco com apainelados decorados com motivos vegetalistas, tendo ao centro sacrário, de talha dourada, tipo baldaquino, rasgado por arco polilobado com flores e folhagem, sobre colunas caneladas, inferiormente com pérolas e de terço inferior ornado de elementos fitomórficos, e de capitéis jónicos; remata em cornija contracurva sobreposta por folhagem e enquadra porta, recuada e decorada com elementos eucarísticos. Altar tipo urna contendo no frontal urna e motivos vegetalistas. O caminho ascensional do ESCADÓRIO inicia-se por escada de 75 degraus e dois lanços, no topo do qual surge plataforma, acedida por pórtico, com arco de volta perfeita, de fecho volutado, assente em pilastras toscanas, ladeado por pilastras, sustentando entablamento dórico e tabela, rematada em cornija contracurva, coroada por cruz latina sobre acrotério, entre pináculos piramidais com bola; o portal é ladeado por amplas aletas. Na face principal da tabela apresenta brasão nacional e, na posterior, nicho, em arco de volta perfeita, sobre pilastras almofadadas, interiormente concheado e albergando imagem pétrea da Virgem. O pórtico dá acesso a terreiro octogonal, delimitado por muro, capeado a cantaria, interiormente percorrido por bailéu, integrando seis capelas, com passos da Via Sacra, e tendo ao centro coluna, sustentando figura do anjo da guarda. As três capelas dispostas a E. possuem planta quadrangular, simples, com cobertura piramidal, de cantaria, coroada por pináculo piramidal com bola assente sobre plinto paralelepipédico. Têm fachadas rebocadas e pintadas de branco, com pilastras toscanas nos cunhais, coroadas por pináculos piramidais com bola, assente sobre plintos paralelepipédico, e terminadas em friso e cornija, frontalmente encimada por cruz latina de braços quadrangulares, percorridos por sulco, sobre acrotério. Na fachada principal, percorrida por embasamento, abre-se portal, de verga reta e moldura encimada por cornija e lápide com inscrição, delida, criando fresta de arejamento, entaipada. No INTERIOR, com as paredes rebocadas e pintadas de branco e pavimento de cantaria, albergam grupo escultórico alusivo ao Passo da Paixão, representando Cristo no horto, Beijo de Judas e Cristo despojado das Vestes. As três capelas dispostas a O., maiores que as anteriores, possuem planta hexagonal, de massa simples com cobertura piramidal, de cantaria, coroada por cruz latina. Têm fachadas rebocadas e pintadas de branco, com pilastras toscanas nos cunhais, coroadas por fogaréus, assente em plintos paralelepipédicos, e terminadas em vários frisos e cornija. A fachada principal é percorrida por embasamento, termina em frontão triangular, e é rasgada por portal de arco abatido, de dupla moldura, a interior percorrida por frisos e com chave volutada, e a exterior recortada e com pingentes, encimada espaldar sobreposto por cartela inscrita e rematado por cornija contracurva. Nas duas fachadas laterais abrem-se janelas de peitoril, de arco abatido e moldura formando falsos brincos retos e terminada em cornija. No INTERIOR, com as paredes rebocadas e pintadas de branco e pavimento de cantaria, por vezes com estrado, albergam grupo escultórico alusivo ao Passo alusivo à vida de Cristo: Última Ceia, Entrada em Jerusalém e Jesus entre os Doutores. No meio do terreiro, sobre plataforma de planta octogonal, de dois degraus, monumento ao anjo da Guarda, composto por base galbada, decorada por folhas relevadas, com pequena taça cilíndrica, sobreposta por coluna de capitel coríntio, inferiormente com quatro florões, correspondentes a antigas bicas, e tendo na face frontal alta cartela inscrita, lateralmente enrolada. Superiormente surge plinto paralelepipédico, de faces terminadas em empena e decoradas por elementos fitomórficos, sustentando figura do anjo Gabriel, em pé e de vestes esvoaçantes. A partir do terreiro desenvolve-se em linha reta escadório, ao longo da encosta, em lanços sucessivos, de 120 degraus, com cerca de 220 m., delimitado por muro e integrando catorze capelas, dez do lado E. e quatro do lado O., dispostas num ritmo mais espaçado. As do lado E. têm planta quadrangular e estrutura igual às do terreiro, representando, de S. para N.: Cristo atado à coluna, Martírio de Cristo, Ecce Homo, Queda de Cristo, Cristo encontra as mulheres de Jerusalém, Cristo a caminho do calvário, Crucificação, Calvário, Lamentação de Cristo Morto e Ressurreição de Cristo; as capelas do lado O. têm planta hexagonal e estrutura iguais às do terreiro, possuindo no interior grupos escultóricos alusivos a: Apresentação de Jesus no Templo, Adoração dos Reis Magos, Adoração dos Pastores e Nossa Senhora das Dores. No topo da Via Sacra, dispõe-se o PÓRTICO DOS EVANGELISTAS, precedido por escadaria de onze degraus, e composto por murete de cantaria com soco, encimado por balaustrada, rematada em cornija contracurva, ritmada por quatro pilastras, as exteriores toscanas e as interiores coríntias, sobrepostas pelas estátuas pétreas dos Evangelistas, sobre acrotérios: São Marcos, São João, São Lucas e São Mateus, respetivamente da esquerda para a direita. Transposto o pórtico dos Apóstolos e nova escadaria, fica-se no grande terreiro, onde se erguem os vários alojamentos de peregrinos. Em direção a N. desenvolve-se o ESCADÓRIO DAS VIRTUDES, precedido por vários e largos degraus facetados. O escadório desenvolve-se em lanços convergentes e divergentes, os do topo de perfil curvo, sustentados por muros em silharia fendida, encimados por balaustrada de cantaria, integrando nos limites dos patamares e arranque dos lanços dupla ordem de plintos, os inferiores lisos, com volutas estilizadas ou em silharia fendida, sustentando fogaréus e, nos extremos, pirâmides, em silharia fendida, assentes em quatro esferas. No eixo central, surgem rasgadas, em cada um dos muros de sustentação dos quatro patamares, fontes tipo nicho, sobrepostas pelas quatro Virtudes Teológicas: a Fé, seguida da Esperança, Caridade e Glória.
Materiais
Estrutura rebocada e caiada; soco, muretes, frisos, cornijas, pináculos, fogaréus, cruzes, sacadas, balaustras, cobertura das capelas, estátuas, escadório, pias de água benta, pia batismal, bacia do púlpito e outros em cantaria de granito; retábulos e guarda do púlpito em talha policroma e dourada; grupos escultóricos das capelas em madeira pintada; pavimentos de cantaria, coberturas de estuque ou cantaria; portas de madeira ou em ferro nas capelas pequenas da Via Sacra; grades em ferro cobertura de telha.
Observações
*1 - Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, no Santuário Mariano, no concelho do Soajo, entre o lugar de São Salvador da Gavieira e o de Castro, fica uma montanha altíssima de penedos muito grandes, à vista soltos e mal arrumados, tendo entre eles três que entre si formam uma lapa, e tendo em cima deles outro atravessado, de tamanha grandeza que é visto à distância de uma légua. Nesse sítio apareceu a milagrosa imagem da Senhora da Peneda ou das Neves, a 5 de agosto de 1220, mais ou menos, tempo em que se pode chegar àquele sítio, devido às neves que o cobrem a maior parte do ano. Quando entre as penedias uma pastora pastoreava algumas cabras, apareceu-lhe a Senhora, ao que dizem em forma de uma pomba branca voando ao seu redor, e manda-a dizer aos habitantes do seu lugar da Gavieira para ali lhe edificarem uma ermida. A pastora contou aos seus pais o pedido, mas esses não lhe dão crédito. Noutro dia, voltando a pastorinha com as suas cabras àquelas paragens, volta a aparecer-lhe a mesma Senhora numa lapa, e diz-lhe: "filha, já que não querem dar crédito ao que eu mando, vai ao lugar de Rouças (da mesma freguesia de Gavieira), onde está uma mulher entrevada há dezoito anos, e diz aos moradores do lugar que a tragam à minha presença para que ela cobre perfeita saúde". Assim fez a pastorinha e quando a mulher, chamada Domingas Gregório, chega à presença da imagem sagrada, logo ficou livre de todos os achaques que padecia, louvando a Virgem pelo benefício recebido. Frei Agostinho diz que a imagem é tão pequenina, não passando de um palmo de altura, que não foi obra dos homens, mas formada pelos anjos para acudir a remediar aos pecadores. Refere ainda que todos os que presenciaram o milagre de Domingas Gregório ficaram entusiasmados e trataram de construir a capela. Como porém o sítio da lapa onde apareceu a imagem era difícil para a construção, resolvem construí-la mais abaixo. Contudo, a imagem voltava sempre ao lugar primitivo, decidindo-se assim construir ali a ermida. O Pe. Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa, alude a uma tradição diferente. Segundo ele, entre ásperas serras, ao pé de uma altíssima e precipitada penha, foi achada há muitos anos, numa lapa, Nossa Senhora da Peneda, por um criminoso, natural de Ponte de Lima. Este, acoçado da justiça, passava miseravelmente a vida entre aqueles solitários bosques, servindo-lhes de companhia as feras, mas recorrendo a Deus com suas penitências de grande arrependimento, a Senhora consente que ele fosse o primeiro a vê-la depois de tantos anos estar ocula. A imagem, com o corpo tendo menos de um palmo, é de cor morena e tem o Menino Jesus no braço, sendo imagem milagrosa e de grande romagem todos os anos desde 5 de agosto até o dia de São Lourenço (10 agosto). Independentemente das tradições da aparição da Virgem na Peneda, o culto de Nossa Senhora das Neves foi oficializado na comarca de Valença pela Constituição Sinodal, de 1472, e o foral de D. Manuel ao Soajo, de 7 de outubro de 1514, confirma que os moradores daquela vila apascentavam os seus gados na branda da Peneda. Em 1775 já ali haveria uma pequena povoação, visto proceder-se a uma busca às casas dos moradores, para averiguar se tinham furtado tabuados do santuário. *2 - O Tombo de Castro Laboreiro, datado de 1565, regista os limites do santuário desde o "Lagarto pelo rio do Ermitão [possível alusão ao regato que passa jnto ao santuário], ao Ermitão e Porto Baraço", designação dada ao local que fica no fundo dos últimos muros do santuário, abaixo do grande pórtico, podendo a palavra Ermitão referir-se ao ermita que ali vivia para zelar pela capela. *3 - Este Inventário é, contudo, incompleto, pois não enumera as capelas ou os quartéis, quer os privados dos mesários e capelão, quer os dos romeiros. *4 - A coluna do anjo não ficou, contudo, concluído nesta data. De facto, durante o ano económico de 1787 e 1788 existem pagamentos ao pedreiro José Lata, de Parada do Monte, do carreto da pianha do anjo Gabriel; ao mestre que fez o anjo de 31 dias de jornal (20$460); aos mestres António Barbosa e João Rodrigues e respetivos oficiais de ajudarem a levantar o anjo (recebendo cada mestre 3$240); de pregos para segurar o mastro e escada para levantar o anjo (1$440); com papel para escrever a inscrição da coluna ($320); etc. A 11 setembro de 1788 paga-se 50$000 a João Rodrigues à conta da obra do chafariz da coluna do anjo. *5 - Segundo o Tombo da freguesia do Soajo, de 1795, a igreja tem por dentro, desde a porta principal até ao altar-mor, o comprimento de 20 varas de cinco palmos (22 metros), e de largura sete varas de dois palmos (8 metros e alguns centímetros). Pelo exterior tem de comprido 22 varas e três palmos, pela testa por detrás da capela-mor, da parte do nascente, oito varas e meia, e na frontaria, da parte poente, onze varas e três palmos, onde se inclui uma torre, que está unida à mesma frontaria, com seu sino. Tem três altares de talha dourada; no altar-mor tem colocada a imagem de Nossa Senhora das Neves da Peneda, no altar do Evangelho as de Nossa Senhora do Rosário e São Joaquim e Santa Ana e no da Epístola a imagem do Senhor Crucificado. Tem coro de madeira pintado, tal como o púlpito, e uma admirável porta férrea que divide a capela-mor, sendo esta e todo o corpo da igreja de abóbadas de cantaria pintada, que, "tudo com boa proporção, fazem um magnífico templo ornado com cortinas de seda, muitos e vários ornamentos preciosos com que se celebra o culto divino majestosamente". Tem muitos e bons quartéis, para acomodação do imenso povo que concorre todo o ano, especialmente nos meses de agosto e setembro. Para o santuário entra-se por uma soberba portaria de cantaria lavrada, com excelente risco e secção, seguindo-se logo um padrão que há-de servir de chafariz, onde existe a seguinte inscrição: "Governando a Igreja Católica o Santissimo Papa Pio VI no ano XIII do seu felicíssimo pontificado, reinando em Portugal Maria I, pia, augusta, fidelíssima, no ano X do seu Império, regendo a Igreja Bracarense o arcebispo Dom Gaspar, príncipe, singular, magnífico, no ano XXVIII do seu governo, os administradores deste santuário, depois de restaurarem suas ruínas, impetrarem a graça do jubileu sagrado, colocaram o Santíssimo Sacramento no tabernáculo santo, ampliaram o antigo terreiro, fundaram estes santos e magníficos edifícios, puseram esta pedra para monumento eterno do seu zelo, triunfo da religião e glória imortal da Santíssima Virgem na era de Cristo de MDCCLXXXVIII". Continuam a subir para o terreiro de uma e outra parte importantes passos de cantaria e abóbada lavradas, as quais se acham incompletas, ignorando-se o seu destino. *6 - A obra da igreja nova passa a correr por conta das ofertas extras com destino a tal empreendimento, sendo o dinheiro adiantado pelos mesários. Contudo, a 25 de maio de 1842, José Jerónimo Vilaça, administrador do Concelho de Arcos de Valdevez e do Soajo, manda incluir tudo nas contas do santuário, o que obrigou à sua reorganização. *7 - Segundo a Memória descritiva apresentada em 1855 - 1856, era tradição de, há quase setecentos anos, ali ter aparecido a Mãe de Deus, com o Menino no braço, sobre uma fraga, a um criminoso de Ponte de Lima. E sendo divulgada essa feliz aparição, apareceram em grande número os povos a venerar a Virgem e a oferecer-lhe muitas e generosas esmolas, levando a que se erigisse uma confraria à Mãe Santíssima, com o título de Confraria de Nossa Senhora da Peneda, tendo na época grande número de Irmãos, provenientes do Distrito e da Província da Galiza. Com o produto das esmolas, desde logo se começa as obras do santuário, fazendo-se uma igreja de abóbada com o respetivo altar-mor e com dois altares colaterais no corpo; fazem-se muitas capelas que representam o nascimento, paixão e morte de Cristo e vários quartéis, para recolher gratuitamente os romeiros que anualmente concorrem ao santuário, desde fins de julho até meio de setembro. Os mesários que serviam no ano de 1837 empreenderam a construção de um novo templo, para poente e a pouca distância do velho, mas em sítio mais elevado e com a frontaria virada a S., onde se acham colocadas as capelas, que todas lhe ficam em linha reta. A Mesa dirigiu-se por escrito aos párocos de muitas freguesias pedindo-lhes que exortassem os fiéis a concorrer com as suas esmolas para esse fim, o que produziu óptimo resultado, pois o rendimento de tal receita, puramente eventual, tem feito e continua a fazer face às avultadas despesas da obra da igreja nova. Assim, o novo templo acha-se concluído de paredes em todo o corpo da igreja, capela-mor, sacristias ou corredores pela parte nascente, e tudo já está coberto de telha e estucado, estando também concluída a torre O., lajeada a capela-mor e sobradado o coro. Está também lajeado todo o corpo da igreja e sacristia, corredores e supedâneos dos altares que se acham construídos. Também se acham forradas as duas capelas colaterais e feita uma clarabóia na nova igreja. Fez-se um novo quartel para os romeiros, abaixo da capela de Nossa Senhora das Dores, e uma fonte de água potável no chafariz do pórtico. E está-se a fazer a tribuna do altar-mor e os seis altares laterais, para cujas obras já se despendeu 391$340. *8 - O contrato refere que c Pelo contrato, percebe-se também que a velha casa da Mesa estava no espaço do escadório, sendo reservada a sua pedra, e pensava-se já na construção da atual, visto referir que se devem deixar "as adentações para as Casas da Mesa". *9 - A obra do escadório foi vistoriada pelo administrador do concelho, António Pereira de Sá Sotomaior, pelo fiscal das obras do santuário, mesários e pelo pedreiro José Rodrigues Pereira, de Viana, que o acharam conforme no essencial. Contudo, verificaram"algumas toleráveis faltas, algumas das quais procedidas de irregularidades da mesma planta e risco notadas" pelo mestre de Viana. Assim, a obra é aprovada no geral, excepto o "paredão junto e do lado do templo velho por se achar desaprumado em duas polgadas". Em 1859, a 20 de junho, tendo-se verificado que os mestres fugiram da obra do escadório, por os pagamentos estarem atrasados, a Mesa delibera, de acordo com o pedreiro Góis de Melo, pagar diretamente aos empregados ao fim de cada semana. *10 - Os peritos dizem que, tendo examinado a obra do escadório do Real santuário da Peneda, confrontando-a com o risco e escritura do contrato, entendiam que a obra se podia dar por acabada e aprovada, embora nela faltassem algumas pirâmides que julgam e entendem à face da escritura do contrato não serem da obrigação do mestre, bem como algumas pequenas diferenças que se encontram na mesma obra, atribuídas à imperfeição da planta. *11 - No sítio designado Berço, o santuário tinha para agasalho dos romeiros um quartel antigo que estava arruinado e agora se pretendia reparar. Contudo, Francisco Martins fizera uma tapada no baldio, cercada por muro, ficando no seu interior aquele prédio, impedindo assim a passagem dos materiais para a reparação, a passagem dos romeiros, etc., provocando um litígio entre ele e o santuário. No mesmo local do Berço, existira antigamente uma capela antiga da Via Sacra, antes delas serem dispostas em linha reta pela encosta, a qual foi demolida e a sua sua pedra dada ao pedreiro António José para a obra da torre sineira. *12 - No santuário havia o costume de se simular o funeral das pessoas que tinham alcançado a cura de graves doenças, amortalhando-se os devotos. Muitos romeiros eram levados em caixões como se fossem defuntos. O trajeto fazia-se desde o pórtico até à igreja e, alguns iam também até ao cemitério. Algumas pessoas iam mesmo num caixão fechado, mas a maior parte ia num caixão aberto e alguns limitavam-se a ir a pé atrás do caixão. Por vezes, acompanhava o cortejo uma banda de música. Havia quem assistisse dentro do caixão, em geral aberto, à missa de promessa, e até havia quem mandava cantar ofícios aos defuntos. Mais recentemente, os romeiros fazem o seguinte percurso na Via Sacra: começam na Capela de Nossa Senhora das Dores, descem o escadório percorrendo as capelas por esse mesmo lado, dão a volta no largo do pórtico e depois sobem o escadório pelas capelas dispostas a E..