Arquitectura religiosa, barroca e oitocentista. Antigo mosteiro feminino barroco da Ordem Beneditina, adaptado a asilo na transição do séc. 19 para o 20, de planta rectangular regular, desenvolvida à volta de claustro rectangular, integrando igreja longitudinal de nave única e capela-mor, interiormente mais baixa e estreita, cobertas por tectos de madeira entalhados formando caixotões pintados, com coros, antiga sala do Capítulo disposta em ângulo com a capela-mor e torre sineira quadrada ao centro de uma ala do claustro. Fachadas de grande regularidade resultantes da reforma oitocentista, de dois pisos, separadas por friso, com cunhais apilastrados e remates em friso, ritmado por argolas de ferro, e cornija sobreposta por beiral; são rasgadas por janelas de peitoril no primeiro piso e de varandim ou de sacada com guarda de ferro no segundo, todas integrando bandeira e encimadas por friso e cornija recta, excepto na fachada posterior onde as molduras são simples; na fachada lateral O. surgem duas amplas varandas fechadas com janelas de tripla guilhotina e na oposta dupla arcada. Conserva, no entanto, o pano central da fachada principal, barroco, marcando o corpo da igreja, terminado em platibanda rendilhada, e rasgado por portal de verga recta delimitada por aletas com acantos, encimado por friso vegetalista, cornija alteada com nicho albergando imagem do orago, coroado pelas armas nacionais, enquadrado por duas cartelas rectangulares, inscritas, e duas frestas polilobadas; do mesmo período, o corpo da portaria, a O., tendo ao centro portal de volta perfeita sobre pilastras toscanas, enquadrado por pilastras decoradas, ladeada de aletas, encimado por friso e frontão de volutas interrompido, nicho concheado, com imagem da Senhora da Caridade; ladeiam o portal duas frestas de topos curvos e, superiormente, duas janelas iguais às do restante segundo piso, sendo o pano coroado por platibanda plena de alvenaria rebocada, com frontão curvo e brasão. No interior, de paramentos revestidos a azulejos de padrão enxaquetado azul e branco, a igreja separa-se dos coros por vãos de arco abatido, os centrais mais largos, envoltos por elementos de talha joanina, possui púlpito joanino todo em talha dourada, acedido por porta, quatro retábulos laterais, de talha dourada, em barroco de transição, os do topo da nave de estrutura semelhante, com planta recta e três eixos, e os outros dois de apenas um, enquadrados por alfiz, e prolongando-se em apainelados de acantos pelas ilhargas e topo do arco triunfal, onde surge o crucificado em nicho. Capela-mor com decoração em barroco nacional, com tecto de caixotões entalhados e dourados, e painéis pintados com acantos simétricos e afrontados, retábulo-mor de talha dourada de planta recta e três eixos. Sacristia com tecto plano de caixotões entalhados e policromados, joaninos, e coros com elementos acharoados a preto e vermelho a imitar chinoiserie; claustro de dois pisos, o primeiro com arcada.
Planta rectangular, regular, desenvolvida à volta de um claustro central, integrando a S. igreja e coros, a O. a portaria, na ala S. do claustro torre sineira quadrangular, e possuindo nas fachadas E. e O. corpos rectangulares estreitos que nos cunhais virados a N. formam torreões quadrangulares. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de quatro águas, integrando nas vertentes viradas ao claustro e na fachada posterior águas-furtadas. Fachadas rebocadas e pintadas de branco possuindo embamento em alambor de cantaria rusticada, encimado por um outro mais baixo e simples, cunhais e panos definidos por pilastras colossais, e terminadas em duplo friso, o superior ritmado por argolas de ferro, nas fachadas S. e O. inseridas em florões metálicos, e cornija, sobrepujado por beiral. Apresentam dois pisos separados por friso e são regularmente fenestrados, tendo no primeiro janelas de peitoril encimada por friso e cornija recta e, no segundo, janelas de sacada na fachada S. e O., com guarda de ferro, e nas restantes de varandim, com o mesmo tipo de modinatura e com bandeira. Fachada principal, correspondente à igreja, virada a S. e organizada em três panos, os laterais com sete janelas sobrepostas; o central, sensivelmente mais alto, é coroado por platibanda vazada de elementos polilobados e pináculos laterais; ao centro, abre-se portal de verga recta delimitada por aletas com acantos, encimado por friso vegetalista sobreposto pelas insígnias da Ordem Beneditina, cornija alteada na zona central e nicho albergando imagem de Santa Ana, enquadrado por drapeados e festões pendentes de um baldaquino, coroado pelas armas nacionais entre dois anjos e uma esfera armilar (à esquerda) e cruz de Cristo (à direita). Enquadram o portal duas cartelas rectangulares, de almofada côncava inscrita, delimitada por friso de óvulos, e envolta em folhas de acanto recortadas, sobrepujadas por duas frestas polilobadas encimadas por friso e cornija superior, envoltas e sobrepostas por motivos fitomórficos. Fachada O., correspondente à portaria, de vários corpos. O corpo da portaria apresenta três panos, tendo nos laterais jogos de três janelas sobrepostas; no central, abre-se portal de volta perfeita sobre pilastras toscanas, enquadrado por pilastras sobrepostas por festões ladeada de aletas, semelhantes às da igreja, encimado por friso sobreposto por cartela com insígnias da Ordem Beneditina, e frontão de volutas interrompido por mitra; no seu enfiamento, dispõe-se ainda nicho concheado, assente em volutas, igualmente ladeado por aletas e elementos fitomórficos, albergando imagem da Senhora da Caridade; ladeiam o portal duas frestas de topos curvos e, supeiormente, duas janelas iguais às do restante segundo piso; este pano é coroado por platibanda plena de alvenaria rebocada, centrada por frontão curvo de cantaria com brasão nacional no tímpano coroado por cruz sobre globo e, lateralmente, pináculos piramidais. O corpo mais avançado disposto à esquerda, possui nos torreões janelas de sacada no segundo piso e, no pano central varandas sobrepostas fechadas com janelas de tripla guilhotina e, no segundo piso, bandeira superior. Fachada lateral S. marcada por três panos, os dois primeiros com janelas de peitoril em ambos os pisos, mas o primeiro tendo as do segundo piso encimadas por friso e cornija e integrando porta de verga recta e janela de sacada; o terceiro corpo, o mais avançado, todo em cantaria possui no primeiro arcos abatidos e no segundo varanda fechada. Fachada posterior de maior simplicidade, visto que as janelas são de peitoril ou, algumas dispostas regularmente, de varandim, mas todas de moldura simples. INTERIOR: Igreja de planta longitudinal composta por nave e capela-mor, interiormente mais estreita e baixa, revestidas a azulejos de padrão enxaquetado azul e branco (P-71), em algumas zonas com friso verde. A nave é coberta por falsa abóbada de berço, formando 45 caixotões, com molduras entalhadas e pintadas e painéis com cenas alusivas à vida de Santa Ana e da Virgem, com leitura cronológica perpendicular ao eixo da nave, do lado do Evangelho para o da Epístola, possuindo os caixotões devidamente numerados, assentando em friso de madeira igualmente entalhado. A parede fundeira da nave apresenta, em cada um dos dois registos, três vãos de arco abatido sobre pilastras, excepto os laterais do primeiro registo que são rectos, os centrais mais largos, possuindo como elemento separador dos dois coros, balaustradas de pau-preto, surgindo, no inferior do lado da Epístola, uma porta de ligação ao coro-baixo, com pavimento sensivelmente mais alto. Sobre cada um destes vãos, surgem cartelas de talha dourada envoltas em volutas recortadas e acantos, as centrais suportadas por anjos de vulto encarnados; na cartela central do coro-alto surgem as insígnias da Ordem Beneditina e de cada uma delas partem grinaldas policromadas, que as interligam, e das pilastras suspendem-se festões dourados. No início da nave, surge, de cada lado, um cadeiral, de estrutura semelhante, com policroma a vermelho, azul, verde e dourado, terminado em friso ornado e cornija, de espaldar delimitado por duplas pilastras, de fuste decorado por espiras, coroadas por pináculos, e com painéis pintados com as obras da Misericórdia; figuram no lado do Evangelho as sete Obras Corporais e no da Epístola seis Obras Espirituais, baseadas em cenas do quotidiano e cenas bíblicas, menos comuns. O cadeiral assenta em pés de madeira exótica ricamente recortados. No lado da Epístola, dispõe-se junto ao portal, protegido por guarda vento de madeira, púlpito rectangular em talha dourada, com base assenta em cinco anjos atlantes, guarda plena, com diversa decoração plana, que se prolonga pelas ilhargas da porta, de verga recta e acedida por escada rasgada no interior dos paramentos; é coroado por baldaquino, de feição mais exuberante, convexo no centro de cada uma das faces, coroado por quatro anjos esvoaçantes sustentando as insígnias da Ordem Beneditina (torre, báculo, mitra e ave), e, ao centro, por anjo guerreiro. Do outro lado do guarda-vento, pia de água benta, de perfil semicircular relevado, encimado por arca tumular de Álvaro Soares de Eça e sua esposa D. Joana de Sousa, dos Sousa Arronches, inserida em nicho de frontão curvo e tímpano concheado, sobrepujado pelo brasão de família. Lateralmente seguem-se quatro retábulos, confrontantes, de talha dourada, com as actuais invocações do Bom Jesus das Chagas e de Nossa Senhora das Dores, no lado do Evangelho, e da Santíssima Trindade e de Santa Ana, no da Epístola. Os do topo da nave apresentam estrutura semelhante, de planta recta e três eixos, definidos por colunas torsas, sobre consolas, que se prolongam no ático em duas arquivoltas, profusamente decorados com putti encarnados, pâmpanos e fénices policromados, tendo, no remate, anjos com trompas francesas; os outros dois têm apenas um eixo, definido por pilastras e colunas, duplas no da Santíssima Trindade, assentes em consolas com anjos atlantes, prolongadas no ático por igual número de arquivoltas e possuindo o mesmo tipo de decoração; os retábulos surgem enquadrados por alfiz delimitado por quarteirões, encimado por friso convexo e espaldar com cartelas alusivas aos primitivos oragos ou, no caso do dedicado à Santíssima Trindade, com as armas do seu último administrador. Possuem altares paralelepipédicos, com frontal pintado de cinzento com motivo pintado, e moldura em talha dourada. Os retábulos prolongam-se em apainelados de acantos pelas ilhargas do arco triunfal, de volta perfeita sobre pilastras toscanas, ambos almofadados, tendo lateralmente duas mísulas sobrepostas com imaginária, a superior enquadrada por arco de volta perfeita assente em pilastras; sobre o arco triunfal, surgem seis apainelados de acantos e anjos divididos por quarteirões com atlantes, com imagem do Cristo Redentor inserto em nicho central, de arco de volta perfeita sobre pilastras. Os retábulos são protegidos por teia em madeira exótica, formada por balaústres intercalados por pilastras coroadas por bolas, formando o presbitério. Capela-mor com tecto de perfil curvo, formada por 42 caixotões entalhados e dourados, com florões nos encontros, e de painéis pintados com acantos simétricos e afrontados, assente num friso de acantos e cornija, ritmada por mísulas equidistantes. Lateralmente, dispõem-se no topo quatro painéis com os quatro Doutores da Igreja Latina (Santo Ambrósio e São Jerónimo no lado do Evangelho e São Gregório e Santo Agostinho no lado oposto), pintados sobre tela, emoldurados a talha dourada. Sobre o supedâneo, acedido por três degraus centrais, assenta o retábulo-mor de talha dourada, de planta recta e três eixos delimitados por colunas torsas, decoradas por pâmpanos, anjos de vulto encarnados e fénices, bastante relevados, assentes em consolas, igualmente com anjos de vulto, e com capitéis coríntios; nos eixos laterais possui painéis de acantos relevados e imagens em mísulas, e, no central, tribuna, com boca ornada de folhas recortadas, e interiormente também decorada com painéis de acantos, o tecto formando caixotões, albergando trono de vários degraus encimado por resplendor entre glória de anjos, envolvido por anjos de vulto, dois deles de maiores dimensões e ajoelhados. O ático possui três arquivoltas, unidas no sentido do raio, possuindo, entre as duas exteriores, painéis com folhas de acanto relevadas, e tendo, ao centro, mitra encimada por querubim e folha de acanto. Banco formado por painéis de acantos relevados; ao centro, sacrário em forma de templete, com remate em espaldar de acantos recortados, com a pomba do Espírito Santo em cartela, fénices laterais e cruz, e porta ornada com Agnus Dei. Altar paralelepipédico, em talha dourada e policroma, com frontal ornado de acantos relevados e, ao centro, o sudário de Verónica. Sotobanco composto por painel ornado de acantos e com anjo atlante ao centro. Sobre o supedânio assentam dois anjos tocheiros, de madeira estofada, e duas cadeiras, de talha policroma a vermelho, azul, verde e dourado, de espaldar tripartido e delimitado por pilastras, de fuste decorado por espiras, coroados por pináculos, e com painéis pintados; nestes figuram cenas campestres e, nos centrais, anjo entre flores. Na parede do lado do Evangelho, abre-se porta acedendo a corredor, tendo fronteiro pia de água benta de perfil semircular, exteriormente decorada com caras e encimada por concha e cruz, e, à esquerda, protegido por porta, arca tumular de Martim Vaz de Sousa (possuindo também as ossadas dos pais do fundador Fernão de Sousa, o da Botelha, e D. Mécia de Brito), inserida em nicho com frontão curvo concheado; o corredor liga à sacristia, a antiga casa do Capítulo, com tecto plano, em castanho, formando 15 caixotões entalhados e policromados, decorados com motivos circulares concêntricos à volta de florão central e com folhas de acanto nos ângulos, sendo o florão central mais relevado e formando pingente, envolto por moldura recortada. No topo N., sobre arcaz recente, e ladeando Cristo na cruz, encimado por sanefa, conserva dois nichos de talha, com pilastras ladeadas por orelhas recortadas, suportando arquitrave, encimada por sanefas de talha, e albergando imaginária. Na parede E. possui retábulo de talha dourada, de planta recta e um eixo, enquadrado por duas arcas tumulares, com almofada inscrita, encimada por concha e envolvida por moldura em toro; na parede S. existe ainda lavabo com duas bicas carrancas, encimadas por reservatório concheado envolto em ampla moldura com elementos recortados, possuindo bacia rectangular. O coro-baixo, onde os internos assistem ao culto, e acedido pela igreja ou por corredor a partir da portaria, apresenta os paramentos revestidos a azulejos de padrão igual ao da igreja, e tecto de madeira formando 32 caixotões, de talha em branco. Nas paredes, no intervalo dos vãos, dispõem-se 36 cadeiras do antigo cadeiral, acharoadas a preto, com motivos decorativos dourados, de temática vegetalista, arquitectónica, zoomórfica e antropomórfica; as suas misericórdias apresentam maioritariamente faces humanas, sobretudo masculinas, algumas com ar bastante exótico. Sobre as cadeiras corre um espaldar, acharoado de vermelho, com elementos decorativos a dourado, possuindo plintos e friso inferior ornado de acantos, consolas laterais e friso superior de acantos com querubim central, enquadrando telas pintadas com cenas da vida de Cristo, sendo coroados por espaldar recortado de acantos entre pináculos estilizados. O coro-alto é igualmente revestido a azulejos, mas disposto em dois andares, o superior de maior amplitude, e com tecto de madeira, formando 20 caixotões, de talha em branco, com frisos, cornijas e mísulas de folhagem relevada, proveniente do antigo refeitório, assente sobre cornija moldurada de estuque que parte de mísulas vegetalistas em cada um dos ângulos. Conserva apenas 12 cadeiras do cadeiral, com a mesma estrutura e decoração das do coro inferior, cinco delas formando ângulo, não possuindo já o antigo espaldar com painéis pintados que o encimava. À parede fundeira, encosta-se o retábulo de São Martinho, proveniente da nave, de planta recta e um eixo, e, no lado do Evangelho, dispõe-se órgão positivo de armário. A portaria apresenta azulejos semelhantes aos da nave formando silhar e tecto plano de talha em branco, formando caixotões de perfil recortado. À direita abre-se porta de acesso a corredor de ligação à igreja, ao coro-baixo e secretaria, e à esquerda uma outra para o Lar; ao fundo, desenvolve-se escada de dois braços curvos acedendo ao segundo piso, com tecto de estuque formando caixotões acompanhando o seu perfil. O claustro apresenta actualmente dois pisos, com arcada de 15 x 16 arcos de volta perfeita, sobre colunas de capitel decorado com elementos fitomórficos, carrancas ou lisos, no primeiro, sendo o segundo todo em cantaria, com galeria envidraçada e janelas de peitoril com caixilharia de guilhotina; as alas do primeiro piso possuem azulejos enxaquetados formando silhar, reproduzindo o padrão da igreja, sobre embasamento de cantaria, e portas de verga recta, moldurados e com bandeira. A meio da ala S. insere-se a antiga torre sineira, toda em cantaria, de dois registos, com contrafortes escalonados nos cunhais; no primeiro registo tem, na face frontal, vão em arco de volta perfeita sobreposta por vão de igual perfil com adufa, dois escudos, um com as armas nacionais e outro com esfera armilar, relógio, um outro escudo nacional e óculo com adufa, que se repete nas outras faces da torre; no registo superior, abre-se em cada uma das faces, sineira também com adufa, sendo rematado por cornija encimada por platibanda rendilhada, com gárgulas e pináculos nos cunhais, e coruchéu piramidal com cogulhos vegetalistas ao longo dos ângulos. Toda a sua estrutura interior com as antigas escadas, desapareceu, encontrando-se actualmente completamente "oca" e com novo acesso. Nas alas do segundo piso, inserem-se, nas paredes, seis oratórios de talha dourada de diferente perfil. No centro da quadra, ajardinada, existe fonte com tanque circular, assente em soco de três degraus, formado por coluna galbada, taça também circular com quatro bicas com motivos antropomórficos, coroado por esfera armilar e cogulho fitomórfico. À volta do claustro dispõem-se as várias dependências do Lar, incaracterísticos.
Materiais
Estrutura rebocada e pintada de branco; elementos estruturais, pilastras, molduras dos vãos, embasamentos, frisos e cornijas, colunas, pias de água-benta, degrau do presbitério, supedâneo e outros elementos de granito; retábulos, nichos e elementos decorativos em talha dourada e policroma; cadeiral da nave em madeira policroma; cadeiral dos coros, órgão, retábulos e espaldares do coro em talha acharoada e dourada; teias em pau-santo; tectos de madeira, simples, pintados, dourados, envernizados ou em estuque simples ou decorado; pavimentos de madeira, lajes de granito e cerâmico; janelas com vidro simples; portas e caixilhararia de madeira; revestimento ou silhar de azulejos; painéis com telas pintadas; cobertura exterior de telha; argolas de ferro.
Observações
*1 - Segundo Fr. Leão de São Tomás, Cronista Beneditino, António Correia teria obtido licença para fundar um recolhimento, durante o triénio iniciado em 1502, onde se recolheram 3 ou 4 beatas, mulheres humildes. Seria então uma pequena igreja ou ermida, com coro e duas celas. Em 1512, enquanto o Dr. António Correia permanecia noutras designações, as irmãs D. Margarida, D. Isabel e D. Brites de Sousa, anteriormente expulsas do convento de Vila do Conde por não se quererem sujeitar à reforma que ali se fazia, obtiveram licença da Câmara para ingressarem no de Santa Ana. Por esta altura, regressando António Correia a Viana, como Corregedor, não se agradou da situação, mas a influência dos parentes das 3 irmãs perante o rei teria invalidado os seus esforços para reverter a situação, vendo-se obrigado a favorecê-las. Este relato parece não ter fundamento nem apoio documental, já que na reunião da Câmara de 21 Janeiro 1510 se refere a intenção de pedirem e darem esmolas para se fazer o mosteiro e, como tinham dinheiro para o principiarem, decidem pedir licença ao rei e ao bispo para tal. *2 - as pedras foram lançadas pelo Arcipreste da Colegiada, Rodrigo Annes, auxiliado por Frei João da Barreira, guardião do Convento de São Francisco do Monte, outra pelo Juiz de Fora, António Correia, auxiliado por João Martins de Ricalde, a terceira por Fernão Barbosa e Pedro Pinto e a quarta pedra por Gonçalo Pereira auxiliado por outras pessoas nobres. *3 - deveria ter 25 palmos de altura, ser de boa construção, "com seus cunhais e frestas, e arcos de porta, e a capela seria outavada"; o concelho forneceria os respectivos materiais e pagava-lhe $300 por "braça craveira de dez palmos, assim do vazio dos arcos, frestas como do cheio"; as portas e frestas do dormitório e claustro seriam de tijolo. *4 - compreendiam o madeiramento da casa do dormitório, corredor, coro e igreja, duas portas, uma do dormitório para o corredor e outra para o claustro, obrigando-se a concluir a obra até ao dia de São Lázaro (17 Dezembro). *5 - a obra de pedraria importou em 2:454$530; execução das taipas, telhados, abóbadas e reboco das paredes 167$640; mudar e reformar a porta grande que na altura servia de porta do carro e outras coisas 16$540; reforma das casas onde se fez o forno e desmonte do velho 29$900; mudança do cano que conduzia a água ao chafariz da vila, visto que o antigo estava no local onde se construiu o dormitório do mirante 17$200 (dos quais se abateu 3$000 dos mestres pedreiros nesta conta, na do forno e na da porta grande, levando a que importasse apenas 14$200); transporte de entulhos 27$020; cal 369$960, incluindo a fina vinda da Figueira da Foz e a da região; tijolo para as abóbadas do mirante e outras zonas 43$700; telha 139$788; madeiras compradas em várias partes da província 629$605; serração e fasquiamento das mesmas 199$310; jornas dos carpinteiros 622$870; madeiras vindas da Flandres e algumas do Brasil 472$239; pregaria e grades 428$790; ferragem vinda do Porto e trabalhada naquela cidade e na de Viana 63$560; dois ralos para os confessionários 2$645; chumbo para os vãos 10$441; tintas 39$670; gastos miúdos 23$400; conserto do dormitório da Bela Vista, por Francisco Fernandes; restauro da varanda do claustro sobre o capítulo por 53$280, mais 17$425 aos pedreiros pela sua reedificação, e onde trabalharam Afonso Fernandes, Domingos António, Lourenço da Costa, Alexandre e Miguel Neto. O Mirante era constituído por corpo rectangular com dormitórios, a O., perpendicular ao edifício existente, tendo um mirante no topo S. e ligando-se a meio à torre sineira por outro dormitório, o da torre dos sinos, posteriormente designado por trânsitos. Como é visível por uma fotografia de 1898, e pela planta da vila de 1759, o mirante possuía cunhais apilastrados, coroados por 4 pináculos, e com esfera no centro do telhado. Na fachada principal virada à rua, abria-se, no primeiro piso, 3 arcos de volta perfeita, por onde se entrava para o mosteiro, encimadas por 2 pisos com amplos vãos protegidos por gelosias, sobrepostas pelas armas reais. As portadas acediam a uma sala coberta a abóbada de tijolo, rasgada por porta lateral que permitia entrar no terreiro de fora, onde se lajeou um passadiço que, passando sob o dormitório da torre, conduzia ao terreiro de dentro e à portaria do mosteiro. Do mirante partia uma ala de dormitório, ao nível do 2º piso, constituído por 8 celas viradas a O., ao Passamano, designado por dormitório do Passamano, e 3 viradas a E., ao terreiro da Igreja, separadas por corredor central, existindo mais 5 celas no corpo que liga à torre, cada uma com uma janela, e outras 5 no corpo perpendicular, mas com as janelas viradas ao terreiro de dentro. Estas 21 celas, foram repartidas pelo correspondente número de religiosas que contribuíram pessoalmente para a sua construção. *6 - as obras consistiram em delimitar a igreja desde o cunhal do coro até ao da capela-mor por pilastras, coroadas por pirâmides, remate em entablamento, novo portal e duas frestas com cornija e a transferência do primitivo portal manuelino para o muro do terreiro virado à rua. *7 - o douramento era aplicado aos remendos de talha nos retábulos laterais e arco, púlpito, talha nova das grades do coro, retábulo de São Martinho, com os "altos dourados e os baixos de vermelho acharoado e o presépio e respaldo estofado", oratório de Nossa Senhora do Rosário, do coro-baixo; pintura das portas dos confessionários, sacristia e "tabuleiro dela", as grades dos altares e novos painéis do tecto. *8 - assinaram o Auto de Inventário o Arcipreste do Julgado, António Cerqueira Lima, a Abadessa, Luísa Antónia do SS. Sacramento, o Cónego Manuel Maria Delduque da Costa, e o representante da Repartição da Fazenda João Pedro Coelho; tinha 3.700 m2 e os pátios e cerca murada 9.730 m2; foi avaliado em 17:000$000; a cerca confrontava a N. com o caminho que ia para São João de Arga, a S. e O. com o mosteiro e a E. com o quintal de João Barbosa de Guimarães; tinha água vinda de uma mina, próxima de Santo André, terra lavradia, vinha, mata, pinheiros e carvalhos, bem como morada de casas e residência do capelão. *9 - estando presente no Mosteiro o Conselheiro Dinis Kophe Severim de Sousa Lobo, delegado do Tesouro, António José Nunes Júnior, delegado da Academia de Belas Artes de Lisboa, Manuel Nicolau da Costa, tesoureiro desta, e Júlio Pereira Reixa, escrivão da fazenda do concelho, procedeu-se à escolha de diversos objectos e imagens para o Museu das Belas Artes: 50 ladrilhos de azulejos antigos com figuras e outras ornamentações (avaliados em 5$000); uma cadeira abacial, pintada de encarnado e dourado (3$000), uma grade de pau-santo, com balaústres encimados por elegantes pirâmides e com aplicações metálicas (24$000), e uma imagem de São Pedro (40$000), tudo da sala do capítulo; imagem de Nossa Senhora do Rosário (10$000) da Capela de São Martinho, do claustro; o púlpito em talha do refeitório (15$000); imagem de Santa Catarina da parede do claustro (15$000); dois nichos em talha do coro-alto, um com quadro figurando Adoração de São Bento (20$000) e o outro com quadro representando Santa Ana e o Menino (42$100). *10 - no entanto, surgiam condições: submeter ao Governo o projecto de obras e fins a que se destinava; manter o culto na igreja; fazer entrega da água da nascente do Espinheiro para os serviços de Caminho de Ferro; fazer a entrega da água para o reservatório da estação; construir um fontanário público; realizar obras de benfeitoria; construir o hospital no prazo de dois anos; e todos os materiais e talhas que não fossem usadas deveriam reverter para a Fazenda Nacional, para serem vendidas. *11 - A Congregação da Caridade foi fundada em 1779 pelo beneméito José da Costa Pimenta Jarro e outros conterrâneos, com o objectivo de solicitarem esmolas para os pobres; 1780 - Pimenta Jarro comprou às suas custas uma pequena casa com quintal, na R. da Amargura, que reparou para ali recolher alguns mendigos; reuniu-se com os monges da Arrábida e entregou aos companheiros e congregados a casa e objectos que para ela comprara; 1782 - organização do 1º regulamento ou estatutos, inspirados na associação análoga existente na R. dos Remédios, em Lisboa; 1783, 14 Julho - doa todos os bens para cumprimento do seu objectivo; 1784, Junho - depois de se procederem a algumas reparações e obras na casa, realizadas por alguns benfeitores, ali se rocolheu pela primeira vez vários idosos, com sustento provido pelos congregados que para tal pediam esmolas e rezavam o terço em procissão pelas ruas da cidade; 1789 - organização dos 1ºs. estatutos; 1790 - alvará régio aprovando-os; 1792 - os Congregados da Caridade compraram um pequeno quintal contiguo ao que já possuiam e procedem a ampliação das acomodações; 1796, 17 Março - carta régia aprovando novos estatutos; 1798 - começa-se a constituir um pequeno fundo para o estabelecimento, totalizando então 150$000 rs, tendo 8 idosos; 1805, 25 Março - confirmação dos novos estatutos; 1810 - tinha de capital 650$000, incluindo 188$000 em papel moeda; 1820 - tinha de capital 2:170$000, sendo 420$000 em papel moeda, continuando a ter apenas 8 asilados; 1825 - aquisição de casas baixas e quintal, na R. de Santo António, contíguo ao já existente, onde se construiram acomodações para mais asilados; 1830 - ali se recolhiam 13 pobres, sendo o capital de 6:718000, sendo 1:273$000 em papel meda; 1850 - tinha de capital 10:200$000, sendo 452$000 em papel moeda, amentando o número de asilados para 18; 1857, 6 Maio - reconhecida a capacidade do edifício para albergar os idosos, a Mesa por iniciativa de Mateus José Barbosa e Silva, decide constituir um fundo especial para proceder a melhoramentos no edifício e para construir um outro, no mesmo local; mais tarde reconheceu-se o desejo inexequível por falta de espaço para albergar os idosos durante as obras; 1860 - albergava 23 invalidos, e o seu fundo era de 10:915$00 em metal; remodelação no asilo, transformando-se as pequenas celas em camarata, construção de um refeitório, melhoramento da cozinha, aumento das roupas, louças e utensílios domésticos, movéis etc; 1862 - possuindo 2:531$000 de fundo, reconstruiu-se e ampliou-se a casa no quintal para o lado da R. de Santo António, ficando o piso superior para camarata de invalidos masculinos e o inferior para as velhinhas "cacheticas" e para rouparia; subscrição mensal pelos amigos para aumentar número de internados para 29, o que conseguiu; 1867, 1 Julho - carta de lei concedendo parte da cerca do extinto Convento de Santo António para construção de novo edifício; 1869, 30 Março - falecimento do benfeitor José de Miranda Carvalho, legando-lhe avultado capital; 1870, 30 Março - elevou-se para 30 o número de idosos; tinha de fundo permanente 29:700$000 e para o novo edifício 12:864$000; 29 Junho - reunião dos Irmãos da Caridade decidindo-se construir no terreno obtido, um novo edifício com capacidade para albergar 70 pobres inválidos, e que para o seu projecto se abrisse concurso com prémios no valor de 450$000, 225$000 e 112$000 para os três melhores classificados, pelo juri de engenheiros que deveria ser nomeado em Lisboa; 1873 - conclusão do concurso com júri presidido pelo Marquês de Sá da Bandeira; devido ao traçado do caminho de ferro de Viana cortar o terreno destinado à construção do edifício, as obras do mesmo nunca se iniciaram e inviabilizaram os projectos; 1877 - expropriação do terreno pelo Estado da Caridade, que recebe em troca um terreno na R. da Amargura, fronteiro ao seu primitivo edificio, ficando o resto da antiga cerca e água respectivamente para indemnização das despesas feitas; 1880 - a Congregação da Caridade possuia 40:797$000 de fundo, e mais 31:225$000 para a construção do novo edifício; 1882 - na sequência da morte de Mateus José Barbosa e Silva, assume a direcção do Congregação António Alberto da Rocha Páris, até então vice-superior; vendo-se a impossibilidade de construir o novo edifício no terreno cedido elo Estado, pensa-se adquirir parte da cerca do Mosteiro de Santa Ana, contígua; o Superior decidiu obter todo o mosteiro e cerca, ao qual se acrescentaria o terreno existente; solicitação do mosteiro ao duputado do Círculo de Viana, Ernesto Júlio Goes Pinto, e outros; 1887, 20 Agosto - carta de Lei autorizando o Governo a conceder à Congregação da Caridade o Mosteiro de Santa Ana e a cerca; 1890 - a Congregação da Caridade possuía 106:729$000, sendo de capital permanente, para sustentação da casa, 50.751$000, e de capital para o novo edifício 55:978$000; 1894, 23 Junho - elaboração de novos estatutos; 1897, 4 Novembro - alvará aprovando-os. *12 - o projecto previa: 1) no Campo da Caridade (letras A, B, C, D, E, F), construção de instalações rurais, habitação para criados, arrumos de ferramentas, telheiro para veículos, cavalariça, eido, pocilga, eira, tulha, espigueiro, cano de despejo e fossa abobadada, bebedouro para o gado, tanque, pomar, horta e arruamento; 2) junto ao núcleo construído, a construção de um estendal de roupas, jardins, parques, arruamentos, tanques, escadarias e gradil; 3) obras de captação de água na mata de São João de Arga, construção de uma fonte pública, reservatório abobadado em alvenaria hidráulica e dois tanques grandes; 4) na igreja, obras no pavimento (soalho), cobertura com telha tipo Marselha, rebocos e pinturas nas paredes, socos, das portas e janelas, abrir-se-iam duas portas e duas janelas para o claustro interno, que se ajardinaria, e falava-se na possibilidade de introduzir dois novos altares, um púlpito e a antiga casa do capítulo mudar para sacristia; 5) construção de um anexo no extremo O., de dois pisos, formando o torreão ou o mirante, para alojar o administrador fiscal do asilo, capelão e sacristão; 6) a capela da cerca, do Senhor dos Passos, manter-se-ia para capela funerária, a que se anexaria a casa mortuária; 7) construção de casa hospitalar isolada, com duas enfermarias de 5 leitos cada; de uma lavandaria de 2 andares, com estufa, escoadouro e sala de costura; um armazém isolado, com colchoaria, depósito de combustível e adega; 8) construção de gradil a toda à volta, com 4 portões de 2 m. de vão cada um e 1,50 m. de altura, em alvenaria e soco e cimalha de cantaria; 9) construção de escadaria fronteira à igreja e de arruamentos do parque e jardim em alinhamentos quebrados para suavizar a subida; 10) os coros seriam destinados aos habitantes do asilo, devendo-se truncar o inferior para abrir passagem entre o pavilhão ocidental a erguer na frente e o corpo principal do convento; 11) construir 2 pavilhões na frontaria com embasamento rusticado e varanda saliente ao centro (não concretizado); 12) consolidar a torre manuelina, reformando-se as paredes, soalhos, escadas internas e gigantes dos cunhais, colocando na face O. o pórtico e os dois brasões, que tinham sido transferidos para o mirante. *13 - consistiram: ampliação do claustro, alargando-se 30 cm das alas E. e N., de modo a conservar a quadratura e a linha de eixo com a porta da igreja e da torre; introduziram-se mais 12 colunas novas, vindas, segundo se diz, de um outro convento da cidade; para a regularização das principais fachadas exteriores, a torre sineira foi transferida para a ala S. do claustro, construindo-a segundo o método antigo (corpo de alvenaria, revestida a cantaria), mas aumentando-lhe a altura (1,40 "do corpo até ao pavimento das sineiras" e mais 30 cm "no corpo das sineiras") e acrescentando-lhe os contrafortes dos cunhais; com o prolongamento do claustro, a porta para a sacristia foi ligeiramente avançada, perdendo a comunicação directa entre os dois espaços, passando a aceder a corredor intermédio entre a igreja e a casa do Capítulo; uniformização e regularização das fachadas vencendo-se a diferente largura da nave e capela-mor com o alargamento da face S. da última, alteamento destas fachadas; pequena alteração do remate do frontão do portal da igreja e das frestas, que se deslocaram um pouco para criar com o portal um eixo simétrico; abertura na face N. da igreja de duas outras janelas; colocação sob as frestas de cartelas com inscrições alusivas à cedência do Mosteiro à Congregação da Caridade e sua adaptação a Asilo; colocação de remate em platibanda; terraplanagem do terreno fronteiro até alcançar a cota da rua pública; a zona da antiga portaria foi igualmente alteado.