Palácio real construído no séc. 18 para acolher a corte aquando da sua deslocação ao Santuário da Nazaré, com planta retangular, composta por dois corpos desiguais, de pequenas dimensões. Apresenta fachadas de linhas sóbrias e recurso a uma linguagem seiscentista, de dois pisos, separados por friso, sendo o piso térreo destinado a pequenas lojas do Santuário e à cavalariça. São rasgadas por vãos retilíneos, as fachadas compridas com esquema de fenestração semelhante ao nível do andar nobre, correspondendo a janelas de varandim, encimadas por friso e cornija reta, e com guarda em ferro forjado, ainda que na fachada S., virada ao mar, os vãos tenham um ritmo mais apertado e tenham sido adaptados a janelas de peitoril, com colocação de pano de peito em cantaria. A fachada E. possui varanda alpendrada sobre pilares assentes em plintos e, até 1830, tinha acesso através de um passadiço, à praça de touros que era montada junto à fachada sul. O portal principal desenvolve-se no extremo da fachada comprida virada ao pátio, precedido por escada de cantaria, e o acesso ao interior é feito atualmente pela varanda alpendrada, por portal indistinto e descentrado, desconhecendo-se se este era o esquema inicial, visto saber-se que, em 1887, se fazia uma nova entrada para o palácio. O interior possui ao nível do andar nobre eixo longitudinal, marcado por corredor central, com dependências de ambos os lados, algumas das viradas a S. conservando decoração em estuques, executada em 1889, enquanto que outras, segundo fotografias antigas, possuíam as paredes revestidas a tecido. As salas viradas a norte são decorativamente mais simples. O piso térreo era subdividido em pequenas lojas, viradas para o largo de Nossa Senhora da Nazaré e para o pátio da Senhora, abobadadas na década de 1770 / 1780, encontrando-se atualmente muito adulterado em termos de vãos e de interior, devido a obras posteriores. A construção do palácio paralelo à igreja, que não tinha os dois corpos retangulares laterais, criava amplo pátio intermédio, fechado por alto muro com acesso por portal central, em arco de volta perfeita, ladeado por colunas que sustentavam arquitrave e tabela, entre pináculos. O muro integrava lojas, na continuidade e com esquema semelhante às do palácio, sendo a metade esquerda coroada por balaustrada igual à do palácio.
Planta retangular composta por dois corpos em eixo, o disposto a O. mais estreito, e criando pátio para S., vedado por alto muro. Volumes articulados, com coberturas diferenciadas em telhados de três águas, no corpo principal, integrando larga mansarda virada a N., e de duas águas no corpo O., rematadas em beirada simples. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com dois pisos, os do corpo principal separados por friso, e rasgadas por vãos retilíneos, moldurados. Fachada principal virada a E., com pilastras toscanas nos cunhais, terminada em cornija de massa, e de dois panos definidos por pilar central. É rasgada, no piso térreo, por vãos interligados pela verga, possuindo no pano esquerdo duas portas e quatro janelas jacentes, duas delas com pilar intermédio, e no pano direito por três portas e janelas jacentes num ritmo mais irregular; no andar nobre, desenvolve-se varanda alpendrada corrida, com arquitrave, pintada de branco, assente em pilares, sobre plintos paralelepipédicos, e com guarda de madeira em balaustrada plana. A fachada virada a N. é precedida, no ângulo NE., por escada de cantaria de acesso ao andar nobre, com amplo patamar e guarda em balaustrada, ritmada por acrotérios, comunicando diretamente para a varanda e um portal lateral. Esta fachada é rasgada, no piso térreo, por portas e janelas de peitoril ou jacentes, em ritmo alternado, uma das portas criando espaço concavo com caixa-multibanco, e, no andar nobre, pelos dois portais e seis janelas de varandim, encimadas por friso e cornija reta e com guarda em ferro forjado; no extremo, entre duas janelas, abre-se bífora de vãos jacentes. Sob o balcão da escada existe espaço rasgado por porta e janela de peitoril, sem moldura. As águas-furtadas terminam em empena reta, rematada em cornija de betão, tendo a N. duas janelas de peitoril. No corpo adossado, abrem-se cinco eixos de vãos, correspondendo no térreo a janelas de peitoril e um portal, e no segundo piso a janelas de peitoril, as duas centrais transformadas em janelas de varandim com guarda em ferro; à esquerda de uma destas janelas abre-se olho de boi. A fachada virada a S. é rasgada no primeiro piso por portas e janelas de peitoril ou jacente, e no andar nobre, num ritmo mais apertado, por janelas de varandim, encimadas por friso e cornija reta, mas adaptadas a janelas de peitoril com pano de peito em cantaria. A fachada O. do corpo principal é rasgada no segundo piso por portal sem acesso e três janelas de peitoril, sem moldura. INTERIOR: piso térreo com a zona virada a E. conservando as antigas lojas e o restante utilizado como cozinha e refeitório, com pavimento de madeira e lambril de madeira envernizada, escritórios e oficinas da Confraria. No andar nobre, o espaço é estruturado por corredor central a todo o comprimento do edifício, com lambril de madeira envernizada e pavimento cerâmico, seccionado por vários vãos amplos, com bandeira envidraçada. As salas dispostas à direita do corredor e viradas a N. são mais pobres a nível decorativo e do tipo de materiais empregues, enquanto as dispostas à esquerda e viradas a S. e ao mar, são mais ricas. Estas conservam decoração de estuques, a antiga sala de jantar nas paredes, onde formam apainelados retilíneos, alguns sobrepostos com colchetes, e no teto, com ampla moldura central recortada e decoração fitomórfica. As outras salas desta ala, apresentam estuques semelhantes, mas apenas intactos em metade dos tetos. A varanda alpendrada, acedida por três portas-janelas, diretamente pela escada a N. e com janela virada a S., possui silhar de azulejos de padrão, azuis e branco, pavimento em tijoleira e cobertura plana de madeira, pintada de branco, formando caixotões em losango, retangulares e facetados, com as molduras pintadas de cinzento.
Materiais
Estrutura de alvenaria rebocada e pintada; placas e cornija de betão; pilastras, pilares, plintos, frisos, molduras dos vãos, guarda e panos de peito em cantaria calcária; portas e caixilharia de madeira; vidros simples; pavimento cerâmico e de madeira; decoração em estuque; cobertura de telha.
Observações
*1 - O alojamento dos peregrinos que visitavam o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré era feito em casas particulares no Sítio, ou na vila Pederneira, nas moradias da Real Casa ou em tendas montadas, ao ar livre, junto às muralhas e nos pinhais próximos. Segundo o Pe. de Brito Alão, em 1628, os peregrinos ficavam nas casas dos romeiros, cerca de trinta pequenas habitações, de sobrado ou de terra batida, sob a responsabilidade do ermitão e que a Confraria de Nossa Senhora da Nazaré disponibilizava. Para além destas, havia as casas grandes, as mais antigas e a que chamavam de paços, que tinham uma sala grande, onde se chegavam a recolher mais de cem pessoas, se não estavam ocupadas de fidalgos, para quem estavam particularmente dedicadas; tinham ainda duas câmaras e duas cozinhas, e, por baixo, lojas. Os romeiros de estatuto social mais elevado podiam instalar-se nas casas novas, sobradadas, sendo possivelmente as que ficavam próximo da sacristia e as mesmas onde se alojavam os clérigos e religiosos. Existiam ainda estrebarias e cocheiras onde os visitantes podiam recolher os seus animais. Por volta de 1722, as casas de romagem ou de hospedaria ficaram inutilizadas pelo fogo, e, apesar de reconstruídas com dois pisos, cozinha e estrebaria, tiveram curta duração, visto que uma violenta tempestade no dia 19 de novembro de 1724 as ter derrubado em grande parte, não voltando a ser reconstruídas. Sobre as suas ruínas re-edificam-se as casas de residência do reitor, palácio, casas de residência dos capelães dos confrades e ermitão. Ao que parece, só no séc. 19, o Círio da Prata Grande conseguiu comprar um edifício próximo ao terreiro do Santuário para instalar os seus romeiros. *2 - O Palácio Real possuía mobiliário de grande qualidade, faiança dos grandes centros produtores nacionais e ricos revestimentos têxteis. *3 - Existem registos das visitas régias de D. João VI acompanhado pelo Príncipe D. Pedro, de D. Miguel e da Rainha D. Maria I.