Interface fluvial e ferroviário projetado e construído por Miguel Pais, no último quartel do séc. 19, de acordo com uma estética tardo-romântica, que conjuga elementos neomanuelinos e industriais. Assim, apresenta uma fachada principal cenográfica, fachada poente, com arcadas e altas torres lembrando o piso térreo da fachada sul do Mosteiro dos Jerónimos, decorada com motivos marítimos e vegetalistas, enquanto que no interior é possível observar a técnica do ferro aplicada a suportes arquitectónicos, asnas, varões, tubos de metal, colocados abertamente à vista na cobertura da gare ferroviária.
Edifício de planta conjunta, resultante da articulação de dois corpos retangulares, longitudinais, alongados. CORPO DO FRONTISPÍCIO: planta retangular, longitudinal, irregular com quatro torres adossadas, ao longo dela, sem coincidência interior-exterior, tratando-se de uma única fachada. Massa simples interrompida pela inclusão de torres poligonais, duas nos topos e duas embebidas a meio do alçado. Cobertura plana e em domos de abóbadas góticas. Frontispício voltado a este com embasamento proeminente, desenvolvendo-se em simetria por três panos, cujos elementos divisores são as torres que se desenvolvem em três registos com remate em domo. Os panos compõem-se de um portal central flanqueado por duas janelas de cada lado, de arcos alteados e quebrados, separados por contrafortes escalonados. O remate é em platibanda e cornija. Interiormente o alçado desenvolve-se em pano liso revestido a um terço do pé-direito com alizar de azulejos brancos, e com uma moldura central retangular, vazia; há correspondência dos vãos descritos que fazem a iluminação interior, sendo as janelas interiormente incorporadas em arcadas. O remate é em cornija de coroamento interrompido pelos arranques das asnas de ferro da cobertura da gare. GARE: planta longitudinal escalonada, regular, composta pelos vários corpos que a formam, desenvolvidos em simetria, alcançando cerca de 80 metros de comprimento. Da gare faz parte o cais de embarque de igual comprimento, com duas vias e uma plataforma para passageiros de quatro metros de largura, perfazendo a largura total de 15, 50 metros. Disposição horizontal das massas, cobertura exterior em terraços e telhados de duas águas. Fachada principal orientada a poente, com embasamento levemente proeminente, com divisão em três panos principais. O pano central é delimitado pelos corpos de dois torreões de três pisos demarcados por janelas que se sobrepõem, o remate é em cornija de coroamento em empena angular com agulha no topo; entre estes corpos o alçado é formado por um registo com portal central e janelas laterais, o remate é em cornija com água furtada em arcada ao centro. Os corpos laterais desenvolvem-se plasticamente de modo semelhante ao central, embora sejam mais baixos, e terminem por dois torreões de dois registos. Fachadas norte e sul, de dois registos, de um pano delimitado lateralmente por cunhais apilastrados. No piso inferior abre-se um portal central flanqueado por duas janelas altas e estreitas de grande verticalidade; no registo superior rasga-se uma rosácea. O remate é em frontão de arco e segmentos, com cornija de coroamento. Os vãos de janelas e portas são de arco pleno, com duas folhas e bandeira de lume, fechada, decoradas com laçaria em ferro. Fachada nascente composta por uma série de portas largas de duas folhas com bandeira semelhantes às da fachada oposta, com o pano murário com alizar forrado a cantaria calcária a um terço do pé-direito. INTERIOR: de espaço diferenciado em vários pisos, com vestíbulo principal, salas para passageiros, gabinetes, escritórios, salas para pessoal e de repartições de movimento e tráfico, no piso térreo e quartos para pessoal graduado nos pisos superiores. A articulação entre os pisos faz-se por lances de escada de caracol, escadaria com poço aberto e escadaria de lances opostos. A iluminação faz-se pelos vãos de portas e janelas descritos. As coberturas são de teto de madeira e os pavimentos de tijolo-mosaico de diversos tipos e em madeira. Os dois volumes descritos unem-se pela cobertura da gare ferroviária em telhado escalonado, em estrutura de ferro, com asnas, coberto de chapa de zinco e estrutura envidraçada. Fora, destaca-se ainda um cais de mercadorias com teto de chapa zincada. Frente à estação desenvolve-se amplo cais fluvial, em cantaria: assente sobre fortes muralhas e cercado por elas, postas em fundamentos hidráulicos, num leito de lodos profundos, constituído por muro de suporte de sustento de estrada, com 448 metros de extensão do lado sul, 70 metros de testa, e 340 metros do lado norte, com altura média de 4,5 metros. Muro sul com 250 metros. Uma vistosa e forte balaustrada de ferro guarnece toda a cortina de cais da estação, formando uma espaçosa varanda *2.
Materiais
Cantaria, alvenaria, betão armado, ferro fundido, tijoleira, mosaicos de cerâmica vidrada, madeira, telhas.
Observações
*1 Abertura do procedimento de classificação conjunta do Complexo Ferroviário do Barreiro, constituído pelos edifícios das Oficinas do Caminho-de-Ferro (Estação Primitiva) (v. IPA.00006631), a Estação Ferroviária e Fluvial do Sul e Sueste, a Rotunda das Máquinas Locomotivas, o Bairro Ferroviário (v. IPA.00011801) e seis locomotivas, um loco-trator, uma automotora e três carruagens, no Barreiro, União das Freguesias do Barreiro e Lavradio, concelho do Barreiro, distrito de Setúbal ; *2 Muitos dos ornatos da estação foram obtidos nas próprias oficinas dos Caminhos de Ferro do Barreiro; *3 Esta obra foi por muito tempo julgada de execução impossível por falta de fundamentos sólidos para os alicerces, opinião compartilhada por alguns engenheiros estrangeiros. O desenvolvimento do Barreiro ficou incondicionalmente ligado à construção da Estação Fluvial e ao Terminal Ferroviário de Sul e Sueste.