Núcleo urbano sede de freguesia. Vila situada em colina. Vila medieval com castelo e cerca urbana de jurisdição régia e posterior jurisdição senhorial (casa de Bragança). Núcleo urbano implantado dentro de muralha de forma elíptica e adaptado à topografia, com portas a N. e a S.. Traçado urbano aproximadamente radioconcêntrico, composto por vias organizadas paralelamente ao perímetro muralhado, entrecortadas por travessas com escadas para vencer o forte declive. Dois pólos centralizadores, em eixos opostos, estruturam o desenvolvimento urbano, o militar, no topo, constituído pelo castelo, e o religioso, mais abaixo, com a Igreja Matriz. O edificado localizado em torno da igreja, a N., é mais compacto, formando quarteirões longilíneos, conformados à vias. Torna-se mais disperso a S., combinando as casas com campos de cultivo murados, que muitas vezes correspondem a paramentos de casas arruinadas. Situada numa zona estratégica do país e com uma adaptação perfeita às características do território onde se insere, Ourém é ocupada desde a Antiguidade. Mas foi no séc. 15 que ganhou grandeza pelas mãos do 4º Conde de Ourém, D. Afonso, homem viajado de grande visão e cultura, que restruturou a vida social, económica (forte presença judaica) e institucional do burgo medieval. Reconstruiu as muralhas, reformou o núcleo habitacional e os espaços públicos, e mandou construir o Paço (v. PT031421110003), único no contexto territorial português, cuja arquitectura é comparada às roccas italianas quatrocentistas, nomeadamente a Rocca Sismonda de Rimini (MOREIRA, 1989). Apesar de muito detruída pelo terramoto de 1755, ainda estão presentes e bem conservados importantes vestígios das várias épocas de ocupação do núcleo, nomeadamente no que se refere aos edifícios públicos, assim como o conjunto fortificado do Paço dos Condes, castelo e muralhas, cuja imagem cenográfica domina a envolvência. A cripta da antiga Colegiada (v. PT03142111003), onde está sepultado D. Afonso, é a única estrutura que subsistiu da Igreja da Colegiada. Os muros correspondem na sua maioria a ruínas de casas, destacando-se a fachada da antiga Sinagoga.
Vila intramuros de traçado aproximadamente radioconcêntrico, delimitada por muralha de forma elíptica e adaptada à topografia. As duas portas de entrada para o antigo burgo (a N., Porta da Vila e a S., Porta de Santarém) marcam sensivelmente o eixo maior. A Porta da Vila localiza-se hoje nas traseiras da Igreja da Colegiada (v. PT031421110002) e em frente, estrategicamente orientada, encontra-se a Fonte gótica (v. PT03142111032), do séc. 15, com as armas do 4º conde de Ourém. A Porta de Santarém, com as armas da vila, dadas por D. Teresa, marca a entrada pela zona outrora mais residencial. Aqui localizou-se uma das 4 primitivas ermidas e igrejas do núcleo, a Ermida do Espírito Santo, onde hoje está a Capela de Nossa Senhora da Conceição (v.PT031421110032). A rede viária adapta-se ao traçado da muralha e às curvas de nível, contornando-as através de espirais que convergem para o ponto mais alto, o Castelo (v. PT031421110001), no Terreiro de Santiago, onde outrora existiu uma igreja com o mesmo topónimo. Dois pólos centralizadores em eixos opostos determinaram o desenvolvimento urbano: o pólo militar, no topo, estruturado a partir do séc. 9, composto pelo castelo, antiga alcáçova, e o Paço dos Condes, a uma cota mais baixa; e o pólo religioso, a N., junto à Porta da Vila, constituído pela Igreja da Colegiada de Nossa Senhora das Misericórdias. O espaço urbano mais estruturado, definido por quarteirões longilíneos, enquadrados pelas vias e adossados à muralha, localiza-se em torno da Igreja da Colegiada e ao longo das ruas de São João (dando acesso à Porta de Santarém) e Nova (R. de São José), tornando-se disperso à medida que converge para S., onde se implanta estrategicamente o Paço dos Condes, e para o topo. A largura média das ruas varia entre 3 e 3,5m, no entanto, a R. de S. José apresenta cerca de 5m, indiciando que esta rua, antiga R. Nova, terá sofrido um alargamento recente (também observável no edificado e nos muros de vedação das propriedades). Os quarteirões são entrecortados por travessas, na sua maioria com escadas, para vencer os socalcos, à medida que se sobe para o castelo; as ruas também se tornam mais íngremes ao atingir a cota máxima. A S., SO. e SE., onde o edificado é mais disperso, destaca-se o conjunto residencial e defensivo do Paço dos Condes, as casas combinam com campos de cultivo murado onde são visíveis vãos de portas, de casas arruinadas. Junto à Porta de Santarém, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e a antiga Farmácia, adossadas à muralha e provavelmente datadas do séc. 17 e 15. A riqueza tipológica ao nível dos edifícios públicos retrata a importância desta vila na época medieval, cujo apogeu se deu já no séc. 15, com D. Afonso, 4º Conde de Ourém, que reestruturou e repovoou a vila. No Largo da Igreja da Colegiada, reconstruída após o terramoto (onde permanece a cripta, do séc. 15, com o túmulo do 4º Conde Ourém), destaca-se a Casa do Alcaide, de 2 pisos e janela de sacada ao centro e, a uma cota a cerca de mais 2 m, no Tabuleiro da Misericórdia, a Casa Paroquial e o Antigo Hospital da Misericórdia, hoje transformado em Pousada (v. PT031421110019). O centro administrativo, político e judicial situa-se a NE., na R. Nova (R. de São José), onde se implanta a antiga Casa da Câmara, hoje Junta de Freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, e o Pelourinho (v. PT031421110002) no jardim fronteiro. Os dois edifícios torreados da antiga Cadeia, com 3 pisos, localizam-se no cruzamento da R. Nova (R. de São José) com a R. D. Afonso IV; a casa da guarda ter-se-á localizado em frente, no edifício que hoje pertence à Pousada, não existindo porém nenhum vestígio tipológico. Na R. D. Afonso IV, atrás do antigo Hospital da Misericórdia, situa-se a ruína da Sinagoga, cuja fachada de 2 pisos com 2 portas em arco ogival ainda subsiste. Os espaços verdes públicos são de pequena dimensão, à excepção do Terreiro de Santiago, a NO. do castelo. O largo ajardinado de Santa Tereza de Ourém resulta da demolição de uma casa nos anos 80 do séc. 20, cuja janela manuelina terá sido colocada na casa contígua. O Largo do Pelourinho foi provavelmente estruturado no séc. 15, época de construção da Casa da Câmara. O Terreiro de Santiago é um espaço amplo e desafogado, recentemente ajardinado, com uma estátua de D. Nuno Álvares Pereira (3º Conde de Ourém) ao centro. Por se encontrar no topo, exposto ao vento e com escassa vegetação arbórea, não é um local de permanência. Os espaços verdes privados predominam, destacando-se os campos de cultivo, hoje na sua maioria ao abandono, que enquadram o castelo; localizam-se a meia encosta entre este e o aglomerado situado ao longo do perímetro da muralha. Num desses espaços, a NE. do Terreiro de Santiago e desnivelado em relação a este, foi construído o cemitério municipal. A arquitectura residencial tem pouca expressão tipológica, devido ao terramoto de 1755 que arruinou quase toda a vila e às intervenções mais recentes, pouco criteriosas. Na R. de São João, ainda subsistem alguns exemplos de casa térreas, em alvenaria de pedra granítica não aparelhada com junta seca (por vezes caiada) que terão servido para armazenamento de alfaias agrícolas ou de celeiro. Também na mesma rua, raros exemplos de casas de 2 pisos com loja / oficina, de escassa fenestração ao nível do piso térreo e com dupla entrada (acesso interior ao piso superior), e habitação no piso superior.Todas se encontram devolutas.
Materiais
Não aplicável
Observações
A povoação teve inicialmente a designação de Abdegas, que significava "pai de Egas" (LEAL, 1875), referida na carta de doação, de 1183, do eclesiástico da Vila ao Mosteiro de Santa Cruz: "De ecclesiastico de Auren qui pruis Abdegas vocabatur" (ELYSEU, 1982). *2 - A Colegiada de Santa Maria da Misericórdias é umas das maiores e mais antigas fundada pela acção eclesiástica da Casa Ducal de Bragança. Segundo Saúl A. Gomes, a tela com a pintura de Nossa Senhora da Misericórdia, na capela-mor da actual igreja, representará o antigo edifício gótico, destruído no terramoto. Está prevista a instalação do Museu do Vinho no Paço dos Condes (projecto a realizar pela DGEMN, em colaboração com a Fundação da Casa de Bragança e a Câmara Municipal de Ourém). ARMAS DA VILA - Na Porta de Santarém, sobre o fecho do arco, as antigas armas esculpidas, dadas por D. Teresa à vila - castelo de 2 torres ameadas, ladeando porta encimada pelas 5 quinas, dispostas em cruz; no topo um crescente e uma estrêla; outrora distinguia-se uma águia em remate. Numa das faces do torreão do Paço, as armas do Conde de Ourém - escudo colocado obliquamente, com 2 faixas cruzadas em diagonal, nas quais estão relevadas 5 cruzes de braços iguais flordelizados; remata o escudo um elmo, outrora encimado por águia de braços abertos, com uma coroa ao colo. No Pelourinho o escudo das armas oficiais da vila, aí esculpido em 1620 - em campo branco uma águia negra entre 2 escudos com quinas e sobre estes de um lado uma estrêla, do outro um crescente.