Monte Santo, de influência direta dos santuários da Europa central e italianos, constituído por enorme escadaria, subindo em ziguezague, ligando várias ermidas de planta centralizada, construídas em épocas distintas, onde se integram os vários passos da Via Sacra, compostos por figuras de vulto, algumas de caráter popular, pontilhada de fontes com símbolos astrais e alegóricos e por terreiros onde se integram várias ermidas, estatuária e fontes. No topo, surge a igreja neoclássica, de planta em cruz latina, composta por nave de cinco tramos, marcados interior e exteriormente, transepto, capela-mor e anexos laterais, com coberturas interiores em falsas abóbadas de lunetas, intensamente iluminada por duas ordens de janelas retilíneas e por torre lanterna em forma de cúpula. Fachada principal do tipo fachada harmónica, com corpo central rematado em frontão triangular e de dois registos tripartidos, com duas ordens arquitetónicas distintas, toscana no inferior e jónica no superior. Torres sineiras de vários registos com coberturas em coruchéus bolbosos. Interior possui galilé, sobre a qual se desenvolve coro-alto, capelas laterais pouco profundas e contendo retábulos de talha neoclássica, púlpitos confrontantes com acesso pelos corredores laterais e, na capela-mor, retábulo cenográfico com a Crucificação, também neoclássico, com a composição de uma Crucificação e as várias personagens que a compõem, envolvidos por estrutura de talha convexa, sustentando anjos e enorme baldaquino, com claras influências barrocas. Destaca-se a galilé, muito profunda, para permitir albergar os vários peregrinos, e os corredores de circulação laterais, que terminam em capelas, dedicadas ao Crucificado. O Santuário teve uma grande repercussão em Portugal e no Brasil, influenciando muitos outros, sobretudo quanto à inserção paisagística, no topo de um monte, em cuja vertente evolui, num claro cenário barroquizante. Apesar do escadório ter sido construído em etapas sucessivas, o conjunto resulta harmonioso, optando-se pelo mesmo tipo de planimetria nas capelas da Via Sacra, só divergindo no aspeto decorativo, algumas com gramática rococó, sobretudo as existentes no terreiro superior à igreja. Ao longo do escadório, os elementos sagrados, capelas, cenas e figuras bíblicas do Velho e Novo Testamentos, e profanos, como figuras mitológicas, embora sacralizadas por reformas impostas no séc. 18, alternam-se, numa alegoria ao primado da Igreja Católica e à necessidade de catequizar e penitenciar os fiéis, como meio de obter a salvação.
Monte Santo composto por enorme escadório, onde se implantam as capelas da Via Sacra, várias fontes e, no topo, o terreiro da Igreja. IGREJA de planta em cruz latina, composta por nave, transepto pouco desenvolvido com capelas nos topos, de perfil poligonal, capela-mor profunda e também de perfil poligonal e galilés fechadas, adossados a cada uma das fachadas laterais, e duas torres sineiras, de volumes articulados e escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de uma (galilés), duas (nave e capela-mor), três (braços do transepto) e quatro águas no lanternim, sendo em semicúpulas encimadas por fogaréus nas capelas do transepto e em coruchéu bolboso vazado por sineiras de volta perfeita e remates em fogaréus nas torres sineiras.Fachadas rebocadas e pintadas de branco, percorridas por socos em cantaria, flanqueadas por cunhais apilastrados e rematadas por duplos frisos e cornijas com pináculos, em forma de fogaréus no transepto e lanternim. Fachada principal virada a O., rematada por frontão triangular, tendo representados em relevo símbolos da Crucificação, com cruz latina no vértice. Divide-se em dois registos, definidos por frisos e cornijas, cada um deles com três panos, definidos, no inferior, por quatro colunas toscanas assentes em altos plintos paralelepipédicos, surgindo, no central, pórtico de verga reta e, nos laterais, dois nichos de volta perfeita, encimados por frontão triangular e contendo as esculturas dos profetas Jeremias e Isaías, encimados por lápides com inscrições. O registo superior tem os eixos divididos por pilastras jónicas com fustes lisos, o central com vão semicircular e os laterais retilíneos, rematados por friso e frontão semicircular. Abrem para varanda balaustrada, onde assentam as esculturas dos quatro Evangelistas. As torres sineiras, ligeiramente recuadas, evoluem em quatro registos divididos por frisos e cornijas. No inferior, janelas de perfil retilíneo, encimadas por cornijas contracurvadas, encimadas por janelas de varandim protegidas por guardas balaustradas, com espaldar interrompido em volutas e por óculo circular, que, nas faces frontais, são substituídos pelos mostradores dos relógios; o terceiro registo é cego e, no superior, surgem as sineiras em arcos de volta perfeita assentes em impostas salientes, tendo friso e remate em frontão semicircular. As fachadas laterais são semelhantes, marcadas pelos volumes escalonados da nave, anexos e transepto. A nave é rasgada por seis janelas retilíneas, formando duplo clerestório, acedida lateralmente pelas galilés, fechadas, com portas de verga reta de molduras recortadas e remates em frisos e cornijas curvas, sendo iluminadas por dois óculos elípticos. O transepto, à mesma altura da nave, é rasgado, no topo, por janelão retilíneo, tendo, num plano inferior, as capelas poligonais, com bãos retilíneos e óculos ovais em cada um dos panos, surgindo, no topo, fresta jacente. O lanternim do cruzeiro possui vãos em todos os panos, alternando entre janelas e óculos circulares. A capela-mor é rasgada por três janelas retilíneas. INTERIOR com acesso pelas galilés, de dois tramos definidos por pilastras toscanas, com paredes rebocadas e pintadas de branco, percorridas por silhares de azulejo de padrão policromo, com cobertura em abóbadas de aresta e pavimento em soalho. A do lado do Evangelho possui, sobre supedâneo, estrutura retabular com o Crucificado. A nave é em cantaria de calcário branco e vermelho, de cinco tramos, definidos por pilastras de fuste liso e capitéis coríntios, da ordem colossal, que se prolongam na cobertura em arcos torais, que enquadram abóbadas de lunetas, assentes em duplos frisos e cornijas, com pinturas formando apainelados e medalhões centrais representando glórias de anjos; pavimento em lajeado de granito. Possui teia de madeira, formando um U e protegendo as capelas laterais. O primeiro tramo é ocupado pelo coro-alto, em cantaria, assente em arco em asa de cesto e quatro consolas, tendo guarda balaustrada do mesmo material. O segundo tramo forma vãos em arcos de volta perfeita, de acesso às galilés, encimados por tribunas de perfil contracurvado com guarda balaustrada, a do Evangelho com grande órgão de tubos. Os tramos imediatos têm duas capelas confrontantes, inseridas em vãos de volta perfeita, assentes em pilastras toscanas, dedicadas a episódios da vida de Cristo, os do Evangelho com a Ressurreição do filho da viúva de Naim e a Conversão da Samaritana, surgindo, no oposto, o Perdão de Madalena e a Cura do Leproso. Estão encimadas por janela protegida por guarda balaustrada assente em consolas e rematadas por cornija e pedra de fecho saliente. O transepto apresenta, nos topos, pinturas murais formando, sobre fundo vermelho, elementos geométricos e fitomórficos e, nas pilastras que o ligam à nave, surgem os púlpitos quadrangulares, com bacia de cantaria e guardas de talha com elementos dourados, tendo acesso pelo muro através de porta em arco abatido. Nas paredes laterais, superiormente, dois nichos de volta perfeita, contendo os Quatro Doutores da Igreja (Santo Ambrósio e São Gregório Magno, no lado do Evangelho, e São Jerónimo e Santo Agostinho, no oposto). O lanternim, com cobertura em cúpula, tem florão central em talha dourada, tendo os panos da cúpula pintados, com fundos cinzentos ou dourados, estes com armas pontifícias ou de bispos; as trompas da cúpula são pintadas com geométricos, a "grisaille". Nos topos, duas capelas profundas com acesso por arcos de volta perfeita assente em colunas toscanas, com as coberturas e paredes apresentando pintura decorativa, com portas e janelas encimadas por sanefas e tendo, nas paredes testeiras, retábulos de talha dedicados a Nossa Senhora da Soledade, no Evangelho, e a São Clemente, na Epístola. Arco triunfal de volta perfeita, ladeado pelas capelas colaterais, sobre supedâneos de dois degraus, com os retábulos de talha inseridos em arcos de volta perfeita, sendo dedicados a Nossa Senhora de Fátima (Evangelho) e a Nossa Senhora das Dores (Epístola). Capela-mor protegida por teia de balaústres, em calcário, com portadas metálicas no centro. O espaço divide-se em dois tramos, por pilastras semelhantes às da nave, e em dois registos, por frisos, com as paredes ornadas por pinturas decorativas, no primeiro tramo com painéis ovalados a representar cenas da vida de Cristo, rodeada por cartela com o mesmo perfil de fundo cinzento e decoração de "ferronerie", envolvida por friso retilíneo vermelho com motivos fitomórficos, módulo que se repete no segundo tramo, a envolver as portas de verga reta com moldura recortada e dupla cornija, a superior contracurvada; no registo superior, janelas semelhantes às da nave. Cobertura em abóbada de lunetas, pintada por elementos geométricos e vegetalistas, com medalhões circulares centrais a representar anjos com os instrumentos da Paixão. No topo da capela-mor, surge a representação de um Calvário, com figuras de tamanho natural, estando o Cristo enfatizado por estrutura arquitetónica de perfil circular, constituída por quatro colunas coríntias, assentes em plintos paralelepipédicos decorados por festões e motivos fitomórficos, que suportam entablamento e baldaquino em forma de coroa, rematada por vasos de flores e lambrequins; a figura de Cristo é enquadrada por pilastras também coríntias, que sustentam dossel com cortinas e sanefa. O caminho ascensional do ESCADÓRIO inicia-se num pórtico assente sobre alta plataforma, com acesso por escada em leque, ladeada por duas fontes de mergulho, em nicho de volta perfeita, com tanque semicircular. O portal, propriamente dito, é de volta perfeita assente em impostas salientes, com cunhais almofadados, tendo, no fecho, as armas do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles. Junto a este e protegidas por muros, duas capelas quadrangulares, rebocadas e pintadas de branco, com coberturas a quatro águas, tendo acesso por portal em arco de volta perfeita e rasgadas, nas fachadas laterais, por óculos; nelas surgem representadas a Última Ceia e Cristo no Horto. Seguem-se trinta e nove lanços de escadas ziguezagueantes, onde se implantam capelas de planta octogonal, com cunhais em cantaria e remates em friso e cornija, rasgadas por portal axial de verga reta, encimado por frontão semicircular e por escudo, surgindo, nas faces imediatas, janelas retilíneas, rematadas por frontões com o mesmo perfil do portal. A primeira é a Capela da Traição, possuindo, no interior, uma pintura de paisagem, criando o fundo para as 11 imagens; no lado esquerdo, a fonte de Diana, surgindo, no espaldar contracurvado, os seus atributos (mão, aljava e arco). Segue-se a Capela das Trevas, contendo a imagem de Cristo com as mãos atadas e olhos vendados, surgindo, à direita, a fonte de Marte, com espaldar contracurvado encimado por pináculos, onde surgem os respetivos atributos bélicos. A Capela da Flagelação tem o fundo pintado a representar Jerusalém e a figura escultórica de Cristo atado a uma pequena coluna; à esquerda, a fonte de Mercúrio, de espaldar decorado pelo caduceu. A Capela da Coroação de Espinhos encontra-se ladeada pela Fonte de Saturno, identificada por uma inscrição e pelos seus atributos, um braço com uma foice. Partindo desta, acede-se a um terreiro de perfil curvilíneo, onde se implantam duas capelas octogonais, com a representação do "Ecce Homo" e do "Caminho do Calvário". Daqui parte o escadório, subdividido em duas partes distintas, que termina no templo. O início das escadas é marcado por duas colunas helicoidais, tendo no topo uma serpente, de onde jorra a água. Chega-se, então, a novo terraço com duas capelas hexagonais, representando "Cireneu" e a "Crucificação". A partir deste, evolui o Escadório dos Cinco Sentidos, com lanços convergentes e divergentes a partir de um eixo simétrico, com os terreiros sustentados por muros de alvenaria, rebocados e pintados de branco, com pilastras de cantaria granítica, tendo seis fontes distribuídas ao longo do eixo da simetria, a primeira denominada das Cinco Chagas, com cinco bicas e taça encimada pelos instrumentos de tortura (corda, martelo e azorrague), com espaldar volutado e remate em cruz. Seguem-se, em cada patamar, cinco fontes graníticas, alusivas aos cinco sentidos, cada uma delas ladeada por esculturas figurando personagens do Antigo Testamento e inscrições latinas: a fonte alusiva à Visão, com as imagens de Jeremias e Moisés, a da Audição, com as esculturas da Esposa dos Cantares e de David; a fonte ligada ao Olfato com Sunámites e Noé, seguida por uma outra fonte com as imagens de Esdras e Jónatas; segue-se a Fonte do Paladar, ladeado pelas imagens de Isaías e Isaac. Chega-se, então, a amplo terraço, de onde parte o Escadório das Virtudes, composto por três lanços com muros semelhantes aos do escadório anterior, mas com urnas sobre as pilastras, surgindo, no eixo, fontes com as figuras da Fé, Esperança e Caridade, ladeadas por esculturas alegóricas, representando a Confissão, Docilidade, Glória, Confidência, Paz e Benignidade. No penúltimo patamar, duas capelas onde se representa o "Arrependimento de São Pedro" e "Maria Madalena", de estrutura semelhante às dos Passos da Paixão. Segue-se pequeno lanço de escadas que leva ao Terreiro de Moisés, onde se encontra a Fonte do Pelicano, dois obeliscos e duas capelas, dedicadas ao Levantamento da Cruz e à Descida da Cruz, surgindo, à esquerda desta, a estátua de São Longuinhos. No adro da Igreja, sobre plintos, as esculturas em granito de Anás, Pilatos, Herodes, Caifás, José de Arimateia, Nicodemos, Centurião e Pilatos. Do terreiro da igreja evolui a escadaria para o Largo das Três Capelas, à esquerda, onde se desenrolam episódios posteriores à morte de Cristo, o primeiro com a representação da "Deposição" e "Ressurreição", aparecendo, no último, de estrutura octogonal, uma fonte central, tendo a Capela do Encontro de Emaús, a Capela da Ascensão e a da Aparição a Santa Maria Madalena, surgindo, ainda, as esculturas dos Evangelistas, São Marcos, São Lucas, São João e São Mateus. As Capelas são hexagonais, rebocadas e pintadas de branco, percorridas por embasamento e com pilastras nos ângulos, com cobertura piramidal; são rasgadas por portais em arcos abatidos, com molduras recortadas e orelhas de concheados e acantos, sendo encimados por amplos espaldares profusamente decorados, que rematam em pequenos frontões triangulares; as janelas dos panos imediatos, com os extremos curvos, apresentam moldura contracurvada, também decorada com concheados, enrolamentos e acantos.
Materiais
Estruturas em cantaria de granito, as capelas e igreja rebocadas e pintadas; modinaturas, balaustradas, cunhais, embasamentos, pilastras, cornijas, cruzes, frontões, fontes, pavimentos em cantaria de granito, sendo a cantaria das colunas proveniente da Pedreira do Penedo Negro, no Chão de Felgueiras, freguesia de São Bento de Donim; retábulos, estatuária, vigamentos das coberturas de madeira; janelas com vidro simples; coberturas exteriores em telha.
Observações
*1 - DOF: Santuário do Bom Jesus do Monte. Conjunto constituído pelo santuário, escadório, capelas e pórtico. *2 - a Igreja encontrava-se onde atualmente se ergue o Escadório das Virtudes e encontrava-se rodeada por adro labiríntico, com canteiros e estátuas com oito palmos de altura; tinha, sobre a cornija do remate, platibanda e oito anjos em pedra, de estatura natural, segurando instrumentos da Paixão; na fachada, três portas separadas por colunas, tendo sobre a principal a inscrição latina: "Crucifixo Domino Sacratum hoc / Templum Posteritati commendant / et animam suam Illustrissimus / Dominus Rodericus o Moura Te / les Archiepiscopus Bracharensis / Hispaniarum Primaz, anno Do / mini nostri Jezu Christi milessi / mo Septingetessimo et vigessimo / quinto"; na sacristia, existia a reprodução escultórica de um Monte Calvário; tinha dois altares laterais, dedicados a Santo António e São Rodrigo, sendo interiormente revestida a azulejo e a cobertura pintada com anjos a segurar instrumentos da Paixão; existiam dois púlpitos no meio da nave.