Igreja de misericórdia construída inicialmente no séc. 16, de tendência vertical, e reformada várias vezes, nomeadamente, em 1789 e após o incêndio de 1921, sendo, juntamente com a de Angra, a Misericórdia mais antiga do Arquipélago dos Açores. Apresenta planta retangular composta por duas naves, convertida numa única após o incêndio de 1921, e dupla cabeceira, com a capela-mor disposta no lado do Evangelho e a capela do Espírito Santo no da Epístola, mais baixa, interiormente com ampla iluminação axial e bilateral e tetos de madeira. As fachadas são rebocadas e pintadas, com os elementos estruturais, decorativos e as molduras dos vãos sublinhados a rosa, de caráter popular. A fachada principal é harmónica, com torres sineiras flanqueando pano central, terminado em empena ondulada, sublinhada por frisos e cornija, rasgado por três eixos de vãos retilíneos, encimados por frisos e cornijas, à exceção do portal que é de arco apontado; as torres são também rasgadas por vãos semelhantes. As fachadas laterais são rasgadas por janelas retilíneas na nave e em arco na cabeceira. No interior, a nave possui o volume das torres avançado, com coro-alto de madeira intermédio, dois púlpitos confrontantes, com bacia retangular de cantaria e guarda plena de madeira, e duas capelas laterais confrontantes, com talha pintada de branco revivalista. Tem arcos triunfais de volta perfeita sobre pilastras, e nas capelas-mores retábulos semelhantes, em talha pintada de branco, de planta côncava e três eixos, com estrutura revivalista do barroco nacional e decoração de inspiração barroca. Do séc. 16 conserva alguns elementos, nomeadamente a gárgula zoomórfica da fachada lateral esquerda e outros silhares. Na reforma de 1789, fizeram-se de novo as duas capelas-mores. Depois do incêndio de 1921, removeram-se os arcos biselados assentes em colunas com capitéis fitomórficos que separavam as naves e deve ter-se alterado o esquema de fenestração e decoração da frontaria e criado o coro-alto. O esquema de duas naves e dupla cabeceira tem paralelo com a Igreja da Misericórdia de Vila Franca do Campo (v. PT072106030005) e a da Ribeira Grande (v. PT072105090002), também nos Açores, a última com uma capela-mor também dedicada ao Espírito Santo. A Misericórdia conserva património móvel de grande interesse, destacando-se os painéis pintados, do séc. 16, nomeadamente os existentes na capela do Espírito Santo e que poderão ter pertencido ao antigo retábulo-mor dessa capela. A zona mais antiga do hospital apresenta fachadas viradas à rua com grande despojamento, de três pisos, rasgados por vãos retilíneos e abatidos no último, aí interligados por frisos horizontais, mas que devem ser feitura posterior relativamente aos inferiores. Possui pátio central retangular, do séc. 16 / 17, com fachadas evoluindo em dois pisos, três delas rasgadas no primeiro por arcadas de volta perfeita, biselados, assentes em colunas balaústres sobre muro, exceto no central que permite acesso à quadra. A ala nordeste, possivelmente reformada e alteada aquando da construção da ala oitocentista do hospital, apresenta os vãos do piso superior de modinatura semelhante aos existentes nas fachadas do hospital. O corpo mais recente do hospital foi construído em 1806 no lado oposto ao antigo hospital e apresenta maior destaque decorativo, com decoração revivalista barroca, sobretudo na zona do vão do átrio, tendo os panos dos extremos fenestração moderna, sem molduras. Possui fachada de um piso, com elementos de cantaria sublinhados a preto, destacando-se o portal na zona central, definido por pilastras e terminado em cornija contracurva alteada, com vão do átrio abatido encimado por brasão entre aletas, cartelas inscritas e frisos. Segundo Valdemar Mota, a decoração do portal apresenta algumas semelhanças com a da igreja das Lajes da Terra Chã e da ermida de Nossa Senhora dos Pretos, hoje seminário de Angra.
Complexo de planta irregular composto por igreja retangular, de uma nave e cabeceira retangular, mais baixa, dispondo-se posteriormente o edifício mais antigo do hospital, de planta quadrangular irregular, desenvolvido à volta de pátio retangular, e desenvolvendo-se ao longo da fachada lateral direita o edifício mais moderno do hospital, composto por vários corpos articulados, criando pátios intermédios. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas, rematadas em beirada simples ou dupla. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com embasamento a preto, e os cunhais, frisos, cornijas e molduras dos vãos sublinhados a rosa. IGREJA: Fachada principal virada a NO., de três panos, os laterais correspondendo a torres sineiras quadrangulares, sensivelmente avançados e de cunhais boleados. O pano central termina em empena ondulada sublinhada por triplo friso, decorado por pingentes e diferentes denticulados, e cornija, que se prolonga e contorna os panos das torres sineiras, sendo coroado por cruz, tipo céltica, sobre acrotério. É rasgado por três eixos de vãos, o central composto por portal, em arco apontado, encimado por friso e cornija, interligado ao arco por frisos verticais, e por janela em arco, com peitoril saliente e igualmente encimado por friso e cornija interligado ao arco por frisos verticais, sobreposto por elementos enrolados relevados; de cada lado abrem-se duas janelas retilíenas sobrepostas, com os ângulos inferiores sublinhados por elementos curvos avançados e moldura prolongada superiormente por friso, que alarga lateralmente e cria ao centro losango. As torres sineiras, de dois registos separados pelos frisos e cornijas que vêm do pano central, são rasgadas no primeiro por duas janelas iguais às do pano central, encimadas por reserva circular contendo motivo tipo florão. O segundo registo, mais estreito, é rasgado, em cada uma das faces, por vão em arco peraltado sobre pilastras, albergando o vão central da torre direita, sino; remate em dupla cornija, com urnas nos cunhais e cobertura em coruchéu piramidal octogonal. Fachadas laterais terminadas em cornija, integrando num desnível da lateral esquerda da capela-mor uma gárgula de cantaria zoomórfica; na nave rasgam-se duas janelas retilíneas e na capela-mor uma de arco abatido. Fachada posterior terminada em empena, com a nave coroada por cruz, tipo celta. INTERIOR: com as paredes rebocadas e pintadas de branco, pavimento de madeira e cobertura também de madeira formando masseira. Na parede fundeira dispõem-se lateralmente os corpos das torres sineiras, avançados na nave, com o cunhal de cantaria e acesso por porta de verga reta moldurada; no espaço intermédio surge o coro-alto de madeira, com guarda em balaústres torneados, tendo por fundo pano vermelho, e sendo acedido por porta de verga reta do lado da Epístola, moldurada. No sub-coro existem pias de água benta de perfil curvo. Lateralmente dispõem-se confrontantes, púlpito de bacia retangular sobre mísula, com guarda plena de madeira acedido por escada de madeira com guarda igual, e coluna de arranque coroada por bola; sobre o púlpito do lado do Evangelho, surge entre as janelas vão quadrangular com elemento de cantaria esculpido. No topo da nave existem capelas laterais confrontantes e de estrutura semelhante, a do lado do Evangelho dedicada a São Pedro e a da Epístola a uma Santa Mártir. A parede testeira é rasgada por duas capelas-mores, geminadas, acedidas por arcos de volta perfeita sobre pilastras toscanas e interligadas entre si por um arco, também de volta perfeita sobre pilastra toscana, encimada por cornija, dispondo-se a verdadeira capela-mor do lado do Evangelho e sendo a do lado da Epístola dedicada ao Espírito Santo. Entre os arcos triunfais surge mísula de cantaria com imaginária sobreposta por painel com as armas da Misericórdia e por vão retangular moldurado, com painel pintado com um anjo. As capelas possuem pavimento de cantaria, cobertura em falsa abóbada de berço, de estuque e sobre a janela lateral corre cornija em arco. Sobre supedâneos de madeira, apresentam retábulos semelhantes, em talha pintada de branco, de planta côncava e três eixos, definidos por duas pilastras exteriores sobre plintos paralelepipédicos e quatro colunas, de fuste espiralado, composto por três elementos torsos, e terço inferior torso com larga espira fitomórfica, assentes em mísulas e plintos paralelepipédicos ornados, e de capitéis coríntios, que se prolongam em três arquivoltas fitomórficas formando o ático, adaptado à cobertura, com apainelados de enrolamentos e falso feicho com cartela recortada, com filactera e folhas de oliveira; a da capela-mor tem o monograma JHS e o da capela do Espírito Santo símbolos eucarísticos; no eixo central abre-se amplo nicho, em arco de volta perfeita, e boca ornada de acantos vazados, interiormente albergando trono; o da capela-mor tem três degraus retangulares decorados de acantos encimado por imaginária e o da Capela do Espírito Santo tem seis degraus facetados, lisos; os eixos laterais possuem paineís retangulares côncavos, decorados com motivos vegetalistas sobrepostos por mísulas com imaginária; banco formado pelas portas de acesso a salas dispostas atrás dos retábulos, decoradas por dois apainelados sobrepostos, o inferior com elementos vegetalistas e o superior por retangulo. Altar paralelepipédico protegido por frontal de tecido. Na parede do lado da Epístola, entre o púlpito e a capela lateral, abre-se porta de verga reta, moldurada, de acesso à sacristia, com pavimento cerâmico. Entre os vários elementos, destacam-se dois lavabos; um de espaldar retangular, com bica torneira ao centro de florão relevado, encimado por vão curvo do reservatório de água, recuado do espaldar e apenas parcialmente visivel por vão retangular frontal; possui pé curvo de cantaria, à frente do qual se encostou brasão de família. O outro possui espaldar estreito e de arco apontado, sublinhado por várias molduras, com bica inserida em florão e bacia frontal assente em falsa mísula, tendo no interior, elemento de cantaria esculpido, de modinatura quinhentista. HOSPITAL: Fachada principal do antigo hospital virada a NE., desenvolvida em três pisos, terminada em cornija e dupla beirada; o piso térreo, mais avançado, é rasgado por quatro portas de verga reta e duas janelas de peitoril retilíneas, gradeadas, o segundo por quatro janelas retilíneas de varandim, com guarda em ferro e uma de peitoril e o terceiro por dez janelas de peitoril de verga abatida e superiormente interligadas por friso horizontal. A fachada virada a SE. e ao logradouro murado, tem nos dois pisos superiores um esquema semelhante de vãos. As fachadas viradas ao pátio central desenvolvem-se em dois pisos, excepto na ala sudeste onde tem três, separados por cornija, apresentando no térreo cinco arcos de volta perfeita, biselados, o central maior e assente em pilastras, por onde se acede à quadra, e os laterais sobre colunas balaústres assentes em murete, todos pintados. No segundo piso abrem-se janelas de peitoril, de molduras simples e caixilharia de guilhotina, excepto na ala sudoeste onde o vão central é de sacada, de betão armado com balaustrada. A ala nordeste é mais recente e é fechada em ambos os pisos, abrindo-se no superior quatro janelas de peitoril com verga abatida interligadas por friso horizontal, num esquema semelhante às fachadas do corpo do hospital. O corpo mais moderno do hospital tem a fachada principal virada a SO., de um piso, com faixa e cornija do remate sublinhados a preto e de cinco panos, definidos por pilastras. O pano central, correspondendo ao portal do hospital, é mais alto, de perfil contracurvo, coroado por cruz latina, percorrido por embasamento de cantaria, delimitado por pilastras coroadas por pináculos sobre plintos paralelepipédicos e terminado em frisos e cornija; é rasgado por amplo vão em arco abatido, sobre pilastras, encimado por cornija e com fecho relevado, tendo superiormente brasão real ladeado de aletas e duas cartelas recortadas com a inscrição ANNO DE 1806; do vão partem frisos verticais sobrepostos por pináculos relevados que enquadram o brasão. O portal acede a átrio retangular, com pavimento de cantaia, paredes percorridas no terço superior por cornija e teto de madeira, em masseira, formando caixotões; lateralmente e em frente abrem-se portais de verga abatida moldurados, sendo o frontal mais largo. Os panos laterais são cegos, terminados em friso e cornija e os dos extremos são rasgados por janelas de peitoril, seis no da direita e quatro mais uma porta no da esquerda, sem molduras.
Materiais
Estrutura de alvenaria de pedra rebocada e pintada; embasamento, frisos, cunhais, cornijas e molduras dos vãos exteriores pintados; portas e caixilharia de madeira, excepto nas janelas da ala oitoicentista do hospital que é de alumínio; pavimento das capelas, arcos triunfais, cornijas, bacias dos púlpitos, molduras dos vãos interiores, lápides sepulcrais, pias de água benta, lavabos e outros em cantaria basáltica; arcos e colunas do pátio do hospital em cantaria basáltica pintada; retábulos pintados; coro-alto e guardas dos púlpitos de madeira; grades de ferro; pavimento em soalho; tetos de madeira e de estuque; cobertura de telha de aba e canudo.
Observações