Paisagem Predominantemente Humanizada Descontínua
CARACTERIZAÇÃO DOS FACTORES ABIÓTICOS. RELEVO: O relevo acidentado mas de pouca amplitude altimétrica é uma das características mais distintivas do Barrocal, que contrasta com as paisagens envolventes, fazendo a transição entre a serra algarvia, a N, e a faixa litoral, a S. GEOLOGIA: A unidade de paisagem insere-se na Orla Sedimentar Meridional, constituindo a segunda maior área cársica do país. Assumem especial visibilidade os sítios classificados da Rocha da Pena, uma escarpa de grande envergadura e o Cerro da Cabeça, onde se destacam os afloramentos rochosos. LITOLOGIA: SOLOS: Predomina o solo calcário, seco e pedregoso, intercalado com rochas detríticas, que condicionou os modos de vida rural, assim como os produtos tradicionalmente cultivados na região. CLIMATOLOGIA: Caracteriza-se por um clima mediterrânico, com Verões quentes e secos e Invernos amenos, de curta duração. A temperatura média anual varia entre 16 e 17,5º C e as amplitudes térmicas são reduzidas. A distribuição da precipitação é irregular, mas concentra-se sobretudo nos meses de Novembro, Fevereiro e Março. A precipitação média anual no Barrocal é reduzida (600mm), embora apresente valores mais elevados do que do litoral algarvio (em algumas áreas com valores médios inferiores a 400mm). A geada atinge com pouca frequência esta área. HIDROGRAFIA: As linhas de água do Barrocal têm, no geral, uma orientação N/S, nascendo nas serras do Algarve e desaguando no litoral algarvio. Na rede hidrográfica destaca-se o rio Arade, que constitui a bacia hidrográfica mais extensa do Algarve. Este elemento geográfico, que durante séculos constituiu uma importante via de comunicação, é o principal modelador da paisagem do Barlavento algarvio com importantes funções ecológicas associadas. A ribeira de Alcantarilha, nasce próximo do limite N da unidade de paisagem, atravessa transversalmente o Barrocal e desagua em Armação de Pêra. A ribeira do Algibre nasce junto ao vértice geodésico "Atalaia" e tem uma orientação E/O, paralela à ribeira do Barranco da Vala Grande e ambas desaguam na ribeira da Quarteira, que inflecte para S, desaguando na localidade com o mesmo nome. A ribeira da Carcava nasce no Barrocal e desagua no litoral algarvio, a E de Quarteira. A ribeira do Gilão nasce na freguesia de São Brás de Alportel (que corresponde à parte do Barrocal com maior quantidade de água disponível na rede - 200 e 300mm) com uma orientação O/E, inflectindo para SO desde a confluência com a ribeira de Alportel até a sua foz em Tavira. Próximo desta localidade, em Cabanas de Tavira, desagua também a ribeira de Almargem. A drenagem subterrânea tem maior expressão, em áreas cársicas, em detrimento da escorrência superficial. A infiltração e a dissolução das rochas permitem o desenvolvimento de um sistema de drenagem subterrâneo complexo, em que os recursos aquíferos assumem uma importância preponderante (200 m3 dia/km2). CARACTERIZAÇÃO DOS FACTORES BIÓTICOS. FLORA: Existe uma elevada diversidade florística, em consequência da posição geográfica e do clima. A flora é tipicamente mediterrânica (mais de metade das espécies). A título de exemplo: Alfarrobeira (Ceratonia siliqua), Zambujeiro (Olea europaea var. sylvestris), Espinheiro preto (Rhamnus lycioides subsp. oleoides), Espargo branco (Asparagus albus), Azinheira (Quercus ilex spp rotundifolia), Carrasco (Quercus coccifera), Esteva (Cistus monspeliensis), Roselha-grande (Cistus albidus), Terebinto (Pistacia terebinthus), Palmeira anã (Chamaerops humilis), Esparto (Stipa tenacissima), Medronheiro (Arbutus unedo L.). Destacam-se algumas espécies endémicas como Centaurea occasus, Bellevalia hackellii, Allium pruinatum, Plantago algarbiensis (espécie vulnerável muito rara), Thymus lotocephalus (espécie ameaçada) e Tuberaria major (endemismo raro do continente), ou pouco frequentes noutras áreas do país (como a palmeira anã e a alfarrobeira). As culturas de citrinos, uvas, figos e amêndoa, encontram-se muito ligadas à gastronomia e aos modos de vida rural. São também frequentes plantas aromáticas e orquidáceas. Na região de São Brás de Alportel produz-se uma das cortiças de maior qualidade do mundo. Regeneração de algum coberto vegetal espontâneo (áreas de matos, que alternam com as áreas cultivadas de pomar), consequência do abandono da agricultura e dos incêndios que a região. Nos locais mais pedregosos e declivosos predominam os matagais de carrasco, mas também se verificam comunidades rupícolas, algumas ameaçadas de extinção (em especial no Cerro da Cabeça). FAUNA: A fauna tem uma elevada diversidade, destacando-se a águia de Bonelli (Hieraaetus fasciatus) espécie rara e ameaçada, a lontra (Lutra lutra), que ocorre no rio Arade e na Fonte, e comunidades de morcegos, que habitam as cavidades existentes no relevo cársico, estando algumas ameaçadas de extinção, nomeadamente o morcego-de-ferradura-mourisco (Rhinolophus mehelyi), a raposa (Vulpes vulpes), a geneta (Genetta genetta) e o saca-rabos (Herpestre ichneumon). Presença de alguns endemismos ibéricos: Lagarto de água (Lacerta Schreiberi); Tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai) e sapo parteiro ibérico (Alytes cisternasii). CARACTERIZAÇÃO DOS FACTORES ANTRÓPICOS. USO E OCUPAÇÃO DO SOLO: O espaço agrícola assume-se como o uso do solo predominante (sobretudo áreas de pomar, destacando-se os citrinos na envolvente de Silves, e culturas anuais junto a Loulé e a São Brás de Alportel), alternado com áreas de mato (que eram tradicionalmente utilizadas para a pastorícia). São característicos desta paisagem os muros de pedra delimitando os pomares de sequeiro, sendo a oliveira, a figueira, a alfarrobeira e a amendoeira as culturas mais significativas. Os citrinos do Algarve têm atribuída a Denominação de Origem Protegida. Em simultâneo, regista-se o abandono e subaproveitamento das actividades agrícolas tradicionais e dos espaços florestais, com consequências ao nível da paisagem e do equilíbrio dos ecossistemas, mas também a níveis mais indirectos, como a diminuição da produção agrícola. Nos últimos anos, desenvolveu-se alguma pressão para a construção de segunda habitação e aumentou a oferta ao nível do turismo rural. TIPO DE POVOAMENTO: O povoamento no Barrocal é disperso, desenvolvendo-se sobretudo ao longo dos eixos viários. Contudo, esta área encontra-se bastante despovoada, ainda que, em termos demográficos, esteja inserida numa região bastante dinâmica, o Algarve. Silves e São Brás de Alportel são os principais aglomerados urbanos. DADOS DEMOGRÁFICOS: Situa-se numa zona do país relativamente dinâmica em termos de população. Contudo, essa dinâmica reverte sobretudo a favor do litoral, sendo o Barrocal uma zona menos populosa. PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO: Destacam-se as cidades de Silves e Loulé. Em Silves, é importante a presença de vestígios arqueológicos da época muçulmana, tais como o Poço cisterna árabe (v. PT050813070012) e as Muralhas e Portas Muçulmanas (v. PT050813070018). O castelo de "grés vermelho" (v. PT050813070002), que se ergue a 55 m de altitude, a Sé Catedral de Silves (v. PT050813070003), e a Ponte de Silves (v. PT050813070017) constituem elementos marcantes na paisagem da cidade. É relevante a presença de elementos de arquitectura industrial relacionada com a transformação da cortiça, que tiveram grande importância na região e a Fábrica do Inglês (PT050813070031), em Silves, que sofreu um projecto de musealização e reconversão. Em Loulé, sobressaem os Restos do Castelo de Loulé / Muralhas de Loulé (v. PT050808080001), cuja origem provável é um castro lusitano. É significativa a presença de algumas estruturas de arquitectura tradicional, de apoio à agricultura, como as noras movidas a força muar, a maior parte delas em desuso, e os muros de pedra, separando parcelas agrícolas. PATRIMÓNIO INTANGÍVEL: A influência árabe é marcante, ao nível do património intangível, estando muito presente na toponímia da região (Silves foi capital do Garb-al-Andaluz, nome dado ao Sudoeste peninsular, actual Algarve, sendo um ponto estratégico importante na defesa do Atlântico), no tipo de culturas existentes (figueira, alfarrobeira), nas técnicas agrícolas e de rega, nas lendas e contos populares (por ex. lenda das amendoeiras em flor) e na promoção de eventos culturais, de que é exemplo a feira medieval de Silves. A gastronomia local está muito ligada à existência dos pomares (figos secos, doces de amêndoa, licores). Na área envolvente de Silves ocorre o medronheiro, cujo fruto é aproveitado para a produção de aguardente. Nas festividades cíclicas, para além das diversas festas religiosas locais, é de referir o Carnaval de Loulé, cuja origem como evento organizado remonta ao início do séc. 20. ORGANIZAÇÃO SOCIAL E MODOS DE VIDA: O modo de vida do Barrocal assenta sobretudo na agricultura, apesar de esta actividade se encontrar em declínio. O turismo tem algum peso, facilitado pela melhoria das acessibilidades ao litoral. PERCEPÇÃO DA PAISAGEM: Paisagem muito influenciada pelo clima mediterrânico. Sobressai o relevo acidentado, de vales encaixados, com linhas de água com caudais que de Inverno podem ser abundantes. É marcante o contraste entre os tons vermelhos do solo (terra rossa), os das diversas ocupações agrícolas e arbustivas e o do branco do edificado. É também significativa a percepção olfactiva, associada à proximidade do mar, às culturas de pomar e à flora mediterrânica (nomeadamente às plantas aromáticas).
Materiais
Não aplicável
Observações
INSTRUMENTOS LEGAIS DE GESTÃO DO TERRITÓRIO: Planos Regionais de Ordenamento do Território: Plano Regional de Ordenamento do Território (aprovado pelo Decreto Regulamentar n.º11/91, de 21 de Março, encontra-se em processo de revisão); Planos Especiais de Ordenamento do Território: Plano de Bacia Hidrográfica das Ribeiras do Algarve (Decreto Regulamentar Nº 12/2002 de 9 de Março); Plano de Bacia Hidrográfica do Guadiana (Decreto Regulamentar n.º 16/2001 de 5 de Dezembro). Planos Municipais de Ordenamento do Território: Plano Director Municipal de: Albufeira (Resolução do Conselho de Ministros N.º 43/95 de 4 de Abril), Castro Marim (Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/94 de 20-07-1994), Faro (Resolução do Conselho de Ministros n.º 174/95 de 19-12-1995), Lagoa (Resolução do Conselho de Ministros n.º 29/94 de 10-05-1994), Loulé (Resolução do Conselho de Ministros n.º 81/95 de 24-08-1995), Olhão (Resolução do Conselho de Ministros n.º 50/95 de 31-05-1995), São Brás de Alportel (Resolução do Conselho de Ministros n.º 71/95 de 08-06-1995), Silves (Resolução do Conselho de Ministros n.º 161/95 de 04-12-1995), Tavira (Resolução do Conselho de Ministros n.º 97/97 de 19-06-1997), Vila Real de Santo António (portaria 347/92 de 16-04-1992.).