Zonas Húmidas Continentais.
CARACTERIZAÇÃO DOS FACTORES ABIÓTICOS. ELEMENTOS GEOMORFOLÓGICOS. Relevo: O limite da Unidade está definido de acordo com o relevo (entre outras características), coincidindo muitas vezes com o sopé de alguns serros. Deste modo o relevo é praticamente plano, com altitudes muito próximas do nível do mar (inferiores a 50m em toda a Unidade). O relevo mais movimentado e com as cotas mais elevadas situa-se a N e NO da Unidade (município de Castro Marim), na envolvente E dos lugares de Monte Francisco e Junqueira, com elevações próximas dos 40m (Vértice geodésico Espigão com 47m, junto ao empreendimento Quinta do Vale Golf Club) e no lugar de Castro Marim, sobretudo o Castelo, a Igreja Paroquial de N. Sra. Mártires e Forte de S. Sebastião (Vértice Geodésico de Castro Marim - 44m). As cotas mais frequentes na unidade variam entre os 15 a 25m de altitude, localizando-se sobretudo no vale da ribeira do Beliche, envolvente de Castro Marim e da Via do Infante, sendo inferiores a 15m, nas áreas de sapal adjacentes à linha-férrea, na proximidade a Vila Real de Santo António e à Ponta da Areia. Salienta-se ainda o Vértice Geodésico do Farol de Vila Real de Santo António que no seu topo regista uma cota de 52m em relação ao nível médio das águas do oceano (ainda que a torre edificada tenha 46m de altura). Declives: Planície praticamente sem declives, exceptuando a envolvente E dos lugares de Monte Francisco e Junqueira e no lugar de Castro Marim (com valores máximos de 11 graus). Exposição de vertentes: Devido aos baixos declives, a exposição de vertentes assume pouca relevância em praticamente toda a unidade. Geologia/Litologia: As formações mais antigas presentes na Unidade de Paisagem coincidem com as áreas de relevo mais movimentado, na envolvente dos lugares da Junqueira, Monte Francisco e no traçado da via do infante, incluindo o território onde se edificou a ponte internacional do Guadiana, correspondendo a formações sedimentares e metamórficas, como xistos argilosos, grauvaques (algumas vezes utilizadas para construção em tempos remotos) e arenitos do período do Devónico (409 MA) e Cabónico (363 MA) da Era do Paleozóico (Maciço Antigo). No lugar de Castro Marim e a NE de São Bartolomeu, encontram-se rochas eruptivas vulcânicas, como doleritos, datadas do Carbónico superior (~300 MA), tendo sido provavelmente ilhotas no meio do estuário do Guadiana, contíguas a manchas de formações sedimentares como os calcários, calcários dolomíticos e calcários margosos do Jurássico (208 MA a S do lugar de Castro Marim e a E de Três Azeitonas). Na envolvente E de São Bartolomeu encontram-se areias, calhaus rolados e arenitos pouco consolidados (formações sedimentares), datadas do Plio-Plistocénico (5 MA a 1,8 MA). Na restante área (correspondendo a cerca de 70% da Unidade) abundam as formações sedimentares do Holocénico (inferiores a 10 000 anos - mais recentes), sobretudo os aluviões nas áreas de sapal e salinas (vale das ribeiras do Beliche e Caroucha a N e nas áreas planas a jusante do esteiro da Carrasqueira e Ribeira Seco), incluindo a cidade de Vila Real de Santo António e as dunas e areias eólicas junto ao oceano (Ponta da Areia), a S de desta cidade (praia de Santo António) e foz do rio Guadiana (detritos que se foram depositando no troço final deste rio), dando origem a uma planície aluvial, sujeita a inundações, sulcada por esteiros sinuosos na embocadura de linhas de água de regime irregular originadas nos relevos circundantes. Solos: Os solos predominantes são os Solonchaks Gleizados (85 % da Unidade - associados a solos salinos e saturados com água) e Regossolos Êutricos (predominantemente arenosos apresentando alta erodibilidade) em Vila Real de Santo António e Ponta da Areia. CLIMATOLOGIA: clima mediterrânico com Verões quentes e secos e Invernos amenos, de curta duração. Insolação elevada (das mais elevadas do país com 3000 a 3100 horas anuais em Vila Real de Santo António e entre 2900 e 3000 h. em Castro Marim); Radiação Solar: varia entre 155-160 Kcal/cm2; Temperatura média anual entre 16 a 17,5º C e amplitudes térmicas reduzidas atenuadas pelo efeito moderador do oceano. A precipitação média anual é reduzida (das mais reduzidas do país), com apenas 400 a 500 mm em toda a Unidade, ainda que a distribuição da precipitação por ano seja diferenciada junto ao rio Guadiana (inferior a 50 dias, sendo o valor a par com outras regiões mais baixo de Portugal) e no resto da Unidade (entre 50 a 75 dias); o escoamento é também relativamente baixo (entre 50 a 100 mm). A geada tem pouca expressão com apenas 1 dia ou menos por ano (mais baixo do país a par com o Alentejo litoral). A humidade relativa média anual (medida às 9 horas) é de 71%. HIDROGRAFIA: Destaca-se o rio Guadiana que atribui o seu nome a esta Unidade, caracterizando-se como o principal elemento físico na constituição desta Unidade de Paisagem. O rio Guadiana (escoamento N para S) é ainda o colector principal das principais ribeiras que atravessam a unidade (Ribeiras do Beliche, Caroucha, São Lourenço, Seco e o esteiro da Carrasqueira), de uma forma geral, no sentido O para E. Esta unidade é muito influenciada pelo estuário do Guadiana, onde grande parte do seu território é inundado na preia-mar de uma forma periódica, segundo um ciclo diário e lunar e que se caracteriza não só pela enorme riqueza biofísica e paisagística, desde sempre utilizado como um recurso fundamental ao Homem, como se deve ainda a própria génese desta Unidade, que ao longo dos anos foi desagregando e depositando materiais que a originaram e a modelaram, criando condições particulares para o estabelecimento singular de diversos géneros de plantas, aves, peixes, moluscos e crustáceos (servindo de alimento e predação a muitas outras espécies). CARACTERIZAÇÃO DOS FACTORES BIÓTICOS. Beneficiando da especificidade do estuário e de uma cadeia trófica em equilíbrio, os factores bióticos encontram um meio ideal para o seu desenvolvimento. FLORA: A unidade de paisagem tem como principais valores florísticos, uma vegetação marinha muito diversificada onde a vegetação de Sapal tem uma importante função, enquanto produtor primário. Cada uma das sub-áreas da Unidade apresenta um tipo diferente de vegetação adaptada às condições do meio, fazendo-se a transição do sapal para a zona seca de forma gradual. Nas zonas húmidas ribeirinhas de sapais e salgados, onde as marés e os níveis de salinidade são determinantes, verifica-se a predominância de espécies halófitas (adaptadas ao sal). No Sapal as espécies mais comuns são Spartina maritima (morraça que que suporta longos períodos de submersão). Em fundos mais elevados, a Spartina maritima aparece acompanhada por Arthrocnemum, só ou em associação com Atriplex portulacoides e Spartina versicolor. Consoante o solo se vai tornando menos encharcado e salino, as espécies anteriores vão sendo progressivamente substituídas por Arthrocnemum glaucum, Atriplex portulacoides, valverde-dos-sapais (Suaeda vera), Artemisia caerulescens e Inula crithmoides e, já na orla do sapal alto, Limoniastrum monopelatum formando densas moitas que na estação quente se cobrem de flores rosa-lilás e erva-de-orvalho (Mesembryanthemun nodiflorum), que adquire um tom avermelhado nos princípios da época seca. À medida que se avança para áreas que sofrem cada vez menos a imersão das marés, a composição florística modifica-se gradualmente. Nos Sapais secundários subsistem algumas semelhanças, diferindo principalmente nas espécies dominantes e na densidade de vegetação. Nestes, a espécies mais comuns são Frankenia laevis, Lolium rigidum, Centaurium tenuiflorum tenuiflorum, Spergularia salina e Mendicago nigra, espécies que são, na sua maioria, típicas de meios mais secos. São ainda de destacar pelo seu estatuto de conservação: Picris algarbiensis (endemismo lusitânico considerado vulnerável), Limonium diffusum (espécie ameaçada) e Beta macrocarpa (espécie vulnerável). Nos taludes de algumas salinas é de salientar a presença de Halopeplis amplexicaule, rara em Portugal, onde corre perigo de extinção. Destacam-se ainda a Picris willkommii (Endémica do SW da Península Ibérica, globalmente muito rara, surgindo a sul de Castro Marim); Melilotus segetalis subsp. Fallax (Endémico da metade sul de Portugal, ocorrendo apenas em estuários); Halopeplis amplexicaulis (Planta de distribuição mediterrânica, mas bastante rara em toda a Unidade); Armeria linkiana (Endémica do SW da Península Ibérica e globalmente escassa, ocorrendo nos sapais do Beliche-Caroucha); Frankenia boissieri (Endémica do SW da Península Ibérica, NO de África e Canárias, localizando-se no local da reserva); Cosentinia vellea (Planta de distribuição geográfica alargada ainda que sempre de uma forma fragmentada. Em Portugal é bastante rara, ocorrendo nos sapais do Beliche-Caroucha, com uma abundância muito baixa); Picris algarbiensis (Endémica do SW da Península Ibérica e surge tanto na reserva, como nos sapais do Beliche-Caroucha, numa encosta pedregosoa); Limonium sinuatum (Endémica da região mediterrânica, estando disseminada nos sapais do Beliche-Caroucha); Ulex australis subsp. Australis (endémico do SW da Península Ibérica, ocorrendo com frequência em afloramentos de arenito no interior da reserva); Limonium algarvense (Endémica do SW da Península Ibérica, Ilhas Baleares e N de África, aparecendo principalmente no sapal primário, mas sempre esporadicamente e em pouca quantidade); Spergularia tangerina (Habita solos salinos em sapais altos mais ou menos secundários). Nas áreas mais elevadas e de ocorrência seca, surge uma componente agrícola, associada ao cultivo de cereais (trigo, aveia e cevada), na sua maioria destinados à pastagem de gado bovino e ovino. Encontram-se também áreas de plantações de amendoeiras (Prunus dulcis), figueiras (Ficus moraceae), alfarrobeiras (Ceratonia siliqua), oliveiras (Olea europaea) e vinha (Vitis vinifera), em culturas extremas ou mistas, de distribuição geralmente regular e variando de pouco densa a densa e Montados (sobreiro - Quercus suber, azinheira - Quercus rotundifolia), ou pinhais (pinheiro bravo - Pinus pinaster, pinheiro manso - Pinus pinea). FAUNA: Os sapais da Unidade, sobretudo os que correspondem à reserva de Castro Marim e Vila Real de Santo António são reconhecidos pela sua importância para a reprodução de várias espécies de peixes e como local de migração, invernada e nidificação de numerosas espécies de avifauna, sendo uma das áreas de maior interesse ornitológico do nosso país, muitas das quais são protegidas por directivas comunitárias. PEIXES: salienta-se o robalo (Dicentrarchus labrax), a dourada (Sparus aurata), a tainha (Mugil cephalus), o sargo (Diplodus sargus), a enguia (Anguilla anguilla), o linguado (Solea senegalensis), o enxarroco (Halobatrachus didactylus) e o alcabroz (Gobius sp.). CRUSTÁCEOS: caranguejo furta-camisas (Pachygrapsus marmoratus) e cava-terra (Uca tangeri), o camarão-branco (Palaemon serratus) e o camarão de Monte Gordo (Penaeus Kerathurus), o lagostim-fantasma (Upogebia delfaura). MOLUSCOS: variedade apreciável de bivalves, sendo os mais frequentes: o berbigão (Cardium edule), a amêijoa branca (Spisula solida) e o lingueirão (Ensis siliqua). ANFÍBIOS: destacam-se sapo (Bufo bufo), rã verde (Rana perezi) e o tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai). RÉPTEIS: os mais comuns a osga (Tarentola mauritanica), a lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus) e a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus). AVIFAUNA: A grande maioria das aves que povoam a Unidade é aquática, predominando as espécies limícolas, aves que utilizam o seu bico comprido para procurar alimento na área de vasa. Destacam-se entre estas algumas residentes, como a cegonha branca (Ciconia ciconia), a garça-boieira (Bubulcus ibis), a garça-branca pequena (Egretta garzetta), o alfaiate (Recurvirostra avosetta), o borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) e o perna-longa (Himantopus himantopus). Com a Primavera surgem as aves estivais para nidificação, como exemplo a andorinha-do-mar-anã (Sterna albifrons). Como espécies invernantes (de Outubro a Março), destaca-se a garça-real (Ardea cinerea), o flamingo comum (Phoenicopterus ruber), o galeirão-comum (Fulica atra), o maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa), o perna-vermelho (Tringa totanus), o pilrito-pequeno (Calidris minuta) e o colhereiro (Platalea leucoropdia). Salietam-se ainda o pato real (Anas platyrhynchos), o pato trombeiro (Anas clypeata) e o arrabio (Anas acutae) que se alimentam também de insectos, caracóis, vermes e girinos ou outros pequenos vertebrados, utilizando simultaneamente a zona húmida e a zona seca. Nas áreas secas mais distantes do sapal (altitudes relativamente mais elevadas), diminui a diversidade de espécies, predominando as aves terrestres, destacando-se uma das raras colónias residentes conhecidas em Portugal de calhandrinha das marismas (Calandrella rufescens). Nas aves de rapina, salienta-se o peneireiro das torres (Falco naumanni), o peneireiro de dorso malhado (Falco tinnunculus), e os tartaranhões (Circus pygargus, Circus cyaneus e Circus aeruginosus). MAMÍFEROS: especial destaque, entre outros, para a presença da lontra (Lutra lutra), a raposa (Vulpes vulpes), o sacarrabos (Herpestes ichneumon), a doninha (Mustela nivalis), a geneta (Genetta genetta), a lebre (Lepus capensis), o coelho bravo (Oryctolagus cuniculus), o ouriço-cacheiro (Erinaceus europeus linnaeus) e o morcego (Pipistrellus pipistrellus scheber).
Materiais
Inertes: Dunas, Areias, Arenitos, Xistos, Grauvaques, Calcários, Doleritos.
Observações
Segundo Prichard (in Odum E., 1997), "um estuário é uma massa de água costeira semi-cercada que tem uma ligação livre com o mar; deste modo, é fortemente influenciada pela acção das marés, e no seu interior, a água do mar mistura-se...Os estuários podem ser considerados como zonas de transição ou ecotonos entre habitats de água doce e marinho, embora muitas das suas mais importantes características físicas e biológicas não sejam de transição, mas sim específicas.". Odum refere que "a variabilidade é uma característica fundamental, e os organismos que vivem nesse habitat necessitam de possuir grandes tolerâncias. Enquanto que as condições físicas nos estuários são frequentemente extremas, e a diversidade em espécies correspondentemente baixa, as condições alimentares são tão favoráveis que é uma região cheia de vida."..."O estuário consegue um bom equilíbrio entre as componentes física e biótica e, a partir daí, uma elevada taxa de produtividade biológica". INSTRUMENTOS LEGAIS DE GESTÃO DO TERRITÓRIO: Plano de Ordenamento de Áreas Protegidas (RCM n.º 181/2008, de 24 de Novembro); Plano de Ordenamento da Orla Costeira Vilamoura-Vila Real de Santo António (RCM n.º 103/2005 de 27 de Julho); Plano de Bacia Hidrográfica do Guadiana (Decreto Regulamentar n.º 16/2001 de 22 de Junho); Plano de Ordenamento da RNSCMVRSA (RCM n.º 181/2008 de 24 de Novembro); Plano Sectorial da Rede Natura 2000 - Sítio da Ria Formosa/Castro Marim (RCM n.º 142/97 de 28 de Agosto); Plano Regional De Ordenamento Florestal do Algarve (DR nº 17/2006 de 20 de Outubro); PROT-Algarve (RCM n.º 102/2007 de 3 de Agosto - em revisão; RCM n.º 188/2007 de 28 de Dezembro - Alteração); Plano Director Municipal de Castro Marim (RCM nº 56/94 de 27 de Junho; aviso n.º 3048/2009 de 4 de Fevereiro - Alteração por adaptação); Plano Director Municipal de Vila Real de Santo António (PORT n.º 347/92 de 16 de Abril - 1ª publicação; aviso n.º 11231/2009 de 22 de Junho - 7ª alteração).