Castelo terrestre da época medieval, construído no séc. 12 / 13, pela Ordem do Templo, para defesa da fronteira leste de Portugal, articulando-se com outros castelos da Beira e do Alto Alentejo, interligados por várias atalaias, recebendo pequenas reformas no séc. 17, durante a Guerra da Restauração. Edificado num sítio privilegiado e dominante, apresenta planta ovalada de recorte côncavo a sudoeste, composta por muralhas e dois cubelos quadrangulares, bastante salientes, dispostos a norte e a sul, com paramentos aprumados, em alvenaria de xisto, com alguns troços em espinha, correspondendo aos vestígios mais antigos, de silhares ciclópicos nos cunhais e sem remate. Ao longo de todos os muros exteriores verifica-se o uso de possante alambor, formando rampa pétrea, só interrompida na face da porta, à semelhança do construído no Castelo de Tomar, casa mãe da Ordem do Templo, ainda que aí numa escala mais extensa. Apesar da importância estratégica na época Medieval, visto Montalvão permitir a ligação entre o norte e o sul através da barca que ali atravessava o Tejo, é possível que o castelo nunca tenha sido concluído. Isto porque o Tombo da Visitação da Ordem de Cristo, de 1506, refere apenas o circuito de muralhas no topo da vila e concentra-se na descrição das casas que a Ordem tinha junto ao castelo, mas extramuros, e o desenho de Duarte de Armas, no final dessa década, representa-o sem o habitual remate de parapeito ameado ou liso, mas com as muralhas inacabadas no remate e com a legenda "este castelo esta asy começado antigamente". As Memórias Paroquiais, de 1758, descrevem as muralhas, "demolidas em muitas partes", com 30 palmos de altura, sobre alambor ou "pé do castelo" com "vinte e tantos palmos de altura" e feito em escarpa, tendo no interior armazém, "campo da guarda" e cisterna, ainda que as duas últimas estivessem muito demolidas. Durante a guerra da Restauração, Montalvão integrava-se na primeira linha de fortificações, constituindo um dos castelos que barrava e controlava os itinerários a norte da penetrante do Caia, ou seja, a cavaleiro da estrada que ligava Elvas a Lisboa. Não recebeu obras à moderna, tendo-se limitado, ao que parece, a reformar a porta do castelo, que passa a ser de verga reta, de estilo maneirista. Apesar de atualmente só existir esta porta a poente, o castelo tinha anteriormente duas, dadas as referências documentais à porta de baixo e à de cima. Aliás, a continuidade do alambor a sul, protegendo o depósito de água, indicia a continuidade da estrutura fortificada para oeste, onde se devia rasgar a outra porta, tendo sido mutiladas pela construção do depósito. Entre os castelos de Montalvão e o de Nisa, também da Ordem do Templo, e Póvoa de São Martinho havia quatro atalaias, com quem mantinha contacto visual: uma no outeiro da Atalaia, a 0,7 km a nordeste da margem direita da Ribeira de Nisa, a atalaia do Fidalgo, no cabeço do mesmo nome, entre o rio Sever e a Ribeira de São João, a de São Miguel, na serra de São Miguel, e a Torre da Atalaia, no cabeço da Atalaia, a 2 km da margem esquerda da Ribeira de São João.
Planta ovalada de recorte irregular a sudoeste, composta por muralhas e dois cubelos quadrangulares, bastante salientes, um disposto a norte e outro a sul. As estruturas apresentam exteriormente, ao longo de todo o seu perímetro e só interrompido na face poente, alambor bastante pronunciado, formado por rampa pétrea, de xisto, mais ou menos elevada, atualmente coberta de vegetação rasteira, com alguns troços derruídos e prolongando-se um pouco para oeste, enquadrando o depósito de água. O castelo apresenta os paramentos aprumados em alvenaria de xisto irregular, todos sensivelmente da mesma altura, incompletos no topo e sem remate, integrando alguns silhares de cantaria de granito e com alguns troços em espinha, correspondendo aos vestígios mais antigos, com cunhais em silhares ciclópicos. Frente virada a poente de três panos, o central retilíneo e parcialmente rebocado e pintado de branco, onde se rasga o portal, de verga reta, almofadada, sobre pilastras, também almofadadas, e encimada por alto friso e cornija. O pano esquerdo é oblíquo e o direito forma recorte côncavo. Todos os outros paramentos são cegos. INTERIOR do recinto despojado.
Materiais
Estrutura em alvenaria de xisto; silhares em alvenaria de granito; moldura do portal em cantaria de granito.
Observações
*1 - No Tombo da Visitação à Comenda de Montalvão, datada de 1506, faz-se a seguinte descrição do castelo e das casas da Ordem que junto dele ficavam: atrás da Igreja de Nossa Senhora e "contra ho leuante em huu outeiro nom mujto alto tem ha hordem huu çircuito de muro com sua mota que se chama ho castello. ho qual castello se diz que ho ifante dom henrrique que deus aja começou de mandar fazer. junto do dicto casstello tem ha hordem huu assento de casas. que juntamente partem ao ponente com ho adro da egreia sobredita e das outras bandas com chãao e seruintia da hordem que uay pera ho dicto castello. e som no dicto assento has casas seguintes. primeiramente. huua casa térrea que estaa contra ho abrego e leua cinquo uaras e meya de longo e quatro e meya de largo. e tem dentro huua estrebaria três uaras e meya de longo. e duas e meya de largo. e tem huua camera sobradada que leua quatro uaras de longo. e duas e meya de largo. e uay debaixo da dita camara huua casa d adega do seu tamanho. Estam igualmente madeira das e cubertas de telha. E has traz huua leonor pires veuua per titollo de compra. parede em meyos das ditas casas estam outras em que haa huua casa dianteira sobradada no andar da Rua e leua debaixo huu sotam. e he cinquo uaras e meya de longo e quatro de largo. e dentro uay outra casa. seis uaras de longo e duas e meya de largo. e mais dentro vay outra tres varas de longo e duas e meya de largo. estam igualmente madeiradas e cubertas de telha e tem ante ha porta huu alpendre telhado. E has trazem hos herdeiros da dita veuua per partilha. a huu canto das ditas casas e alpendere. estaa huua casinha pequena. duas varas e meya de longo e duas de largo. bem madeirada e cuberta de telha. E ha traz huu aluaro nunez. parede em neyos das sobreditas casas. vam logo outras em que haa huua casa dianteira quatro uaras e meya de longo e outro tanto de largo. e mais dentro uay outra casa que leua cinquo uaras de longo e duas de largo. estam igualmente madeiradas e cobertas de telha. E has traz huu diego annes hi morador per titollo de compra. parede em meyos das sobreditas casas vam logo outras. asi terreas em que haa huua casa dianteira que leua tres varas de longo e duas e meya de largo. E tem huua camera do tamanho da dita casa. estam igualmente madeiradas e cubertas de telha e has trazem nos herdeiros d aluaro uaaz. Todas has sobreditas casas tem has paredes de pedra e barro e taipas. E andauam enalheadas e por nos ditos visitadores acharem per jnquiriçom que disso filharom que as ditas casas estam feitas em terra própria da hordem. e acharem que no dito chãao honde ora has ditas casas estam. jaa esteueram casas d adega da hordem. mandarom tomar posse delas pera ha dita hordem e has mandaram poer neste tombo". *2 - Segundo o vigário frei António Nunes... de Mendonça nas Memórias Paroquiais da freguesia, Montalvão pertence ao bispado e comarca de Portalegre, sendo comendador o conde de Povolide, a quem se pagam alguns dízimos e foros, cuja comenda traz arrendada. O castelo fica num outeiro não muito elevado e dele se avista a vila de Marvão, Castelo de Vide, Nisa, Póvoa e Meadas e, para a zona das Beiras, a vila de Castelo Branco, Vila Velha de Ródão e o lugar de Sernadas. A vila é praça de armas, não capital, mas regular, estando murada em redondo, cujas muralhas estão demolidas em muitas partes; tem um castelo muito bom, espaçoso, "o pe do castelo tem vinte e tantos palmos de altura E está feyto a escarpia, de sorte, que se lhe quiserem arrumar escadas para o conquistar, não assentam nem asseguram"; todo o castelo é murado, em redondo e as suas muralhas têm mais de 30 palmos de altura; é fechado com portas. Tem duas peças de artilharia de ferro, uma de calibre onze outra de calibre sete, três roqueiros de ferro, que servem para as bocas das suas ruas, quando há invasão de inimigos; tem armazém, campo da guarda e cisterna, mas estas duas estão muito demolidas. Tem "seu fosso muito bom" e o castelo está dentro da muralha próximo da Igreja Matriz da vila. A vila tem governador pago, capitão-mor, sargento-mor das ordenanças, duas companhias das ordenanças com seus capitães, alferes e ajudante: a companhia do capitão António Vaz Afonso tem 110 praças, e a do capitão Gregório Dias Artur tem, entre sargentos, cabos e soldados, 96 praças. *3 - Segundo Luís Rancaño no Diário das Operaciones contra Portugal da Divisão de Vanguarda do exército espanhol, "Alamanezer se presentò delante del Castillo de Montalvanhà el Comandante Orell com las Tropas de su mando y dos piezas de Artilleria que havia llevado à Castel de Vide; su intimación no fue inesperada ni feliz como la anterior; el Comandante o Gobernador de aquella fortaleza, animado por su bentajosa situación, y sobre todo por su próprio honor, respondiò com entereza, haziendo después por espácio de 14 horas un vivo fuego de cañon el sitiador que tuvo la audácia de escopetear los parapetos de la Plaza viendose finalmente obrigado a retirarse no obstante los refuerzos que havia recebido".