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Paço dos Comendadores da Ega

Paço dos Comendadores da Ega

O ponto de interesse Paço dos Comendadores da Ega encontra-se localizado na freguesia de Ega no municipio de Condeixa-a-Nova e no distrito de Coimbra.

Paço dos comendadores da Ordem de Cristo, construído no séc. 14 / 15, sobre as estruturas de uma fortificação edificada no séc. 12, pela Ordem do Templo, reaproveitando pré-existências islâmicas, e reformado no séc. 16. Ega inseria-se no termo de Soure, importante zona de fronteira entre o território cristão e muçulmano, que contribuiu para a defesa da cidade de Coimbra, doado à Ordem do Templo, em 1128, a qual aqui construiu um castelo, reaproveitando estruturas islâmicas que, segundo Ana Lima Revez, podem recuar ao séc. 9. De facto, as obras de recuperação do paço puseram a descoberto, para além de um conjunto bastante significativo de fragmentos de cerâmica islâmica, maioritariamente do período califal (sécs. 10 - 11), vestígios de fundamentos nas fachadas norte, sul e nascente, que podem ser desse período e parecem ter servido de base a todas as construções e remodelações futuras; na fachada nascente, pôs-se a descoberto um aparelho murário construído com uma técnica tipicamente omíada, em que esse é ordenado na horizontal e na vertical em fiadas de pedra de grande dimensão intercaladas com fiadas de pedra miúda, seguida de um aparelho constituído pelos mesmos blocos e pedras facetadas, mas de menor dimensão também do período islâmico, embora posterior. Ainda que reaproveitando estruturas mais antigas, o paço dos comendadores resulta da reconstrução do castelo templário, possivelmente no séc. 14 e 15, numa época em que, já não possuindo importância estratégica, se procurou dotá-lo de maior conforto e comodidade. Caracteriza-se pela planta em U invertido, com a ala nascente mais estreita, desenvolvido à volta de um pátio, fechado por muro, que alguns autores consideram uma persistência muçulmana, com estrutura simples e funcional, e fachadas de grande sobriedade. No cunhal sudeste existem silhares em espera, revelando o prolongamento da ala para sul, mesmo ao nível das fundações. As fachadas, de dois pisos, o primeiro de apoio a atividades agrícolas e o segundo essencialmente de habitação, apresentam o piso térreo de maior espessura, exterior e interiormente, não só, talvez devido ao aproveitamento de paramentos mais antigos, mas também ao aligeiramento dos muros numa segunda fase construtiva, mais concretamente no séc. 15, época em que se deve ter acrescentado o piso superior. A visitação de 1508 encontra o paço com algumas dependências derribadas, mas descreve-o com uma estrutura semelhante à que chegou até ao séc. 20, fechado sobre si próprio, com um portal de acesso, e composto por nove casas sobradadas sobre outras tantas no primeiro piso, ou seja, com a divisão espacial igual entre os dois pisos, e com três casas térreas, correspondentes ao celeiro e duas estrebarias, desconhecendo-se a localização exata destas últimas. Por ordem dos visitadores, o paço foi reformado pelo comendador D. Fernando de Sousa, resultante no regularização e alteamento de algumas dependências, conservação de pavimentos, coberturas, substituição de algumas divisórias de madeira por tijolo, arranjo de dependências agrícolas e, mais significativo, a abertura de novas janelas e portais, que conferiram maior funcionalidade e luminosidade interior. Todos estes novos vãos são executados em estilo manuelino, com jambas biseladas e arcos em carena, com decoração fitomórfica distinta, à exceção de um da fachada nascente, que é mainelado, com arcos de volta perfeita sobre colunelo helicoidal. Estas obras são atribuídas ao arquiteto Marcos Pires (CONCEIÇÃO, A. 1983, p. 203), que também trabalhou na Igreja Paroquial de Ega, no convento de Santa Cruz de Coimbra (v. IPA.00004234) e nos Paços da Universidade de Coimbra (v. IPA.00002716). As duas mísulas antropomórficas, do séc. 15 / 16, dispostas no pátio, em posição confrontante e à mesma cota do pavimento, uma na ala central e outra no muro do pátio, possivelmente serviam de apoio a antigo alpendre desenvolvido ao longo da ala nascente. No séc. 17, o paço e a respetiva propriedade foram integrados na Casa do Infantado e, a partir do final do séc. 18, entram num período de declínio, abandono e utilizações descaracterizantes. Apesar das obras recentes de adaptação a turismo de habitação terem introduzido algumas alterações espaciais e de fenestração, sobretudo no piso térreo, devido às novas exigências habitacionais e turísticas, as mesmas procuram respeitar a estrutura do edifício e as molduras dos vãos, ainda que propositadamente distintas, harmonizam-se com as manuelinas.

Planta em U invertido, desenvolvido à volta de um pátio, fechado, formando quadrilátero. Volumes articulados com coberturas em telhados de três águas, rematadas em beirada simples e sobrepostas por quatro chaminés. Fachadas em alvenaria de pedra aparente, revelando pela estereometria algumas vicissitudes e alterações, com cunhais em cantaria de calcário, e evoluindo em dois pisos, o primeiro de maior espessura, exterior e interiormente. A fachada principal surge virada a sul, com três panos, o central formado pelo muro que fecha o pátio, ligeiramente recuado e mais baixo, rasgado ao centro por portal de acesso ao interior, moldurado e em arco apontado; no extremo direito, o pano é mais alto e revela grandes alterações no aparelho. Os panos laterais, correspondentes aos topos das alas do U, são rasgados, ao nível do segundo piso, por uma janela de peitoril, de verga abatida (esquerda) ou retilínea (direita). O cunhal da ala direita possui silhares em espera. A fachada lateral esquerda, virada à igreja e à povoação, é rasgada, no piso térreo, por janela jacente e por porta, de verga reta moldurada, de feitura recente, e, no segundo piso, por quatro janelas de peitoril, retilíneas, de moldura recente, a formar pano de peito em cantaria; entre dois vãos surge a marcação de uma outra janela retilínea pré-existente, atualmente fechada. A fachada lateral direita, com a ala sensivelmente mais baixa, é rasgada, no piso térreo, por seis janelas jacentes gradeadas, tendo sensivelmente a meio, vestígios de um portal, atualmente entaipado. No piso superior abrem-se janelas a ritmo irregular e diferente modinatura e decoração, sendo seis de peitoril e uma de sacada. A do extremo esquerdo possui moldura recente, a segunda, disposta junto a um antigo cunhal de cantaria, tem arco canopial decorado com duas flores, a terceira possui arco abatido, com pano de peito em cantaria, seguindo-se janela retilínea de moldura simples e uma outra com arco em carena, rematado em botões e pano de peito em cantaria; as duas abertas no corpo alteado, possuem arco abatido, sendo a última de sacada, com guarda em ferro. Na fachada posterior abrem-se, no piso térreo, duas janelas de peitoril retilíneas, de moldura recente e gradeadas, dispostas nos topos, e janela jacente sensivelmente ao centro. No segundo piso rasgam-se quatro janelas de peitoril, três com falso pano de peito em cantaria, tendo duas arco em carena, de diferentes modinaturas e motivos vegetalistas distintos, e uma outra mainelada, com colunelo de fuste helicoidal e anel central a sustentar duplo arco de volta perfeita; a do extremo direito é retilínea e de moldura recente. O pátio central, com pavimento em paralelos, é delimitado pelas três alas e pelo pano de muro, com ressalvo em quase toda a sua extensão superior; perto da ala nascente tem mísula antropomórfica. A ala esquerda é rasgada nos dois pisos por vãos retilíneos, de molduras recentes, correspondendo a portas no piso térreo e a janelas de peitoril no superior, sendo uma delas quadrangular; no térreo abre-se ainda amplo vão de verga reta sobre impostas. Junto deste, desenvolve-se escada de cantaria, com guarda plena, de acesso ao segundo piso, onde forma patamar protegido por alpendre telhado, assente em pilar sobre a guarda; sob o alpendre abre-se porta de verga reta simples e, na ala frontal, uma outra, mas com moldura ornada de carenas. Sob o patamar da escada, abre-se porta. Na ala central, virada a sul, abrem-se dois portais, o da esquerda mais largo, e duas janelas de peitoril; junto ao portal direito existe mísula antropomórfica confrontante com a do pano de muro. Na ala direita abrem-se, no piso térreo, quatro portais de verga reta, dois deles com a moldura a formar carena, encimados por pequeno vão quadrangular (esquerda) e janelas de varandim, um deles também com carena e com guarda em ferro. Sensivelmente ao centro, desenvolve-se escada para o andar superior, com guarda plena e patim coberto por alpendre telhado, assente em pilares sobre a guarda, protegendo portal de verga reta. INTERIOR: com as paredes em alvenaria de pedra aparente. No segundo piso, tem pavimento em soalho de madeira e tetos em gamela, com apainelados de madeira, sobre friso do mesmo material. As várias salas neste andar comunicam entre si por portas de verga reta e possuem janelas conversadeiras. Na ala poente, destaca-se a ampla sala, com escada de comunicação ao piso inferior, e chaminé disposta a poente, assente em pilares. Um portal de arco em carena e jambas biseladas, estabelece a comunicação entre esta sala e do topo da ala, que possui lareira na parede poente.

Materiais

Estrutura em alvenaria de pedra calcária aparente; molduras dos vãos, colunas, pilares e outros elementos em cantaria calcária; grades e guarda em ferro; caixilharia e portas de madeira; vidros simples; pavimento em lajes de cantaria e soalho de madeira; tetos de madeira; cobertura e beirada de telha.

Observações

*1 - Durante a visitação realizada em fevereiro de 1508, "Virom mais os ditos Visitadores o apousentamento e casas do dito comendador moor (...) e som per todas doze casas. s. noue sobradadas com suas logeas por baixo e trees terreas, e por quanto nom estam tambem repairadas como compre, prouendo sobre isso. mandarom fazer em ellas as obras seguintes. Primeramente mandaraa deribar a parede da salla que estaa contra o ponente tanto quanto for neceessario e tornara a alevantar e mandaraa fazer nella huua chaminee aaquem do canto que estaa contra a camera huua vara de medir. e mandaraa nella fazer duas janelas bem feitas, com suas portas. e aleuantar mais um pouco a dita salla do que ora estaa. e nella huum bom portal bem feito e sobre elle huum alpendre pequeno cuberto de telha e çintado de cal. e mandaraa solhar e madeirar muito bem a dicta sala. e telhar e çintar com cal, e nella outro portal que vaa pera a dicta camera junto do portal per onde a dita camera se serue. e a dicta camara mandaraa forrar de olivel e solhar per onde for neçcessario e derribar ha chaminee que tem mui maa e fazer hi outra de nouo boõa, e poer na janella huuas portas nouas. Tem outra casa pequena que tem huum repartimento de tauoado uelho. mandarlhohaa tirar e fazer de nouo e mandaraa solhar e madeirar de nouo a outra casinha pequena que aalem della estaa. a camera do leito. mandaraa madeirar de novo e forrar de oliuel e telhar e çintar com cal e nella huua chaminee pequena e bemfeita e solhar per onde for neçcessario. a casa que estaa contra o leuante da salla velha. o frontal della que he de tauoado mandaraa fazer de tijollo com as janellas que lhe bem pareçer. e nella huum portal pera a camera que ora estaa derribada a qual casa mandaraa telhar e çintar com cal e faraa levantar a dicta camera de grandura que he, e mandalahaa solhar e madeirar e telhar e çintar com cal a parede de foora que jaz derribada aa maão direita da entrada deste apousentamento mandaraa levantar na altura que dantes era ao menos, e a parede do çeleiro que estaa pera cahir mandaraaa derribar e tornar a correger. E todas as outras casas mandara telhar de guisa que nom chova nelaas e çintar com cal. A casa que serve de cozinha mandaraa muy bem alimpar e correger de maneira que se possa nelle fazer de comer, e as duas casas que servem de estrebarias mandaraa bem correger e fazer nellas booas manjadoiras bem feitas. no portal grande da primeira entrada e asy em todollos outros portaaes e janelas mandaraa fazer portas novas com seus fechos segundo que a cada huum portal e janella pertençem. o lagar que jaz deribado mandaraa fazer de novo e cobrir de telha e aparelhar de todo o que lhe mester fezer. as quaaes obras que asi nas ditas casas ham de seer feitas, se daram todas acabadas em muita perfeiçom dentro de huum ano primeiro seguinte da feitura desta visitaçom". *2 - No livro do Tombo da comenda de Ega, de março de 1508, diz-se que "junto da dicta egreja tem a hordem huu assentamento de casas que sempre foy apousentamento dos comendadores moores. o qual apousentamento he todo çarrado sobre si e se serue per huu soo portal e haa das portas a dentro noue casas sobradadas .s. huua salla grande e outra em que comem os homens e tres cameras e huua guarda rroupa e outra casa grande e duas casas de homems. e huu çeleiro terreo e duas estrebarias. E outras tantas casas terreas debaixo das sobradadas e som todas de huu andar. o qual assentamento estaa em huu teso arredado da villa huu bõom jogo de besta. e por que os ditos visitadores acharom o dito apousentamento per partes danjfjcado. mandarom ao dicto comendador moor que elle o fezesse correger fazendo nelle alguumas obras e asi na sobredita egreja (...). Junto com o dito apousentamento tem a ordem huu çarrado a que chamam o çarrado uelho e começa sse sua demarcaçom no rego do paul e vem entestar nos marmoraaes que estam no camjnho do cadaual e vem teer no dito apousentamento e passa e vay teer ao Rio e uay pello Rio atee as lapas e torna honde se começou (...)".*3 - Na visitação de 1595, refere-se que "(...) a dita ordem tem um assentamento de casas, com seu circuito, que estão junto com a Igreja, todo cerrado sobre si, que todas se servem por uma porta. E está arredado da dita vila um meio tiro de besta. Em que há nove casas sobradadas: scilicet, uma sala principal, e outra em que come a gente, e três câmaras, e uma guarda-roupa, e outra casa grande no começo do dito circuito, e duas outras em que se agasalha gente. E mais um celeiro térreo ladrilhado e duas estrebarias. E outros tantos sótãos das ditas casas sobradadas, que são todas de um andar. E por o dito assentamento estar apartado sobre si e não ter dúvida nem partir com outras nenhumas casas, não foi necessário se fazer mais diligência". *4 - Os trabalhos arqueológicos puseram a descoberto uma base de assentamento mais antiga e mais larga, que parece corresponder à construção primordial da estrutura do castelo, mas poderá relacionar-se também com outras obras de remodelação de uma estrutura pré-existente; o muro de fundação, bem nítido a norte, sul e nascente, parece ter servido de base a todas as construções e remodelações futuras, e remete para uma construção do séc. 10-11, mas encontra-se precedido por níveis de ocupação islâmicos anteriores; na fachada nascente, pôs-se a descoberto um aparelho murário construtivo mais antigo, podendo considerar-se a técnica tipicamente omíada "proto-soga y tizón" (aparelho ordenado na horizontal e na vertical em fiadas de pedra de grande dimensão intercaladas com fiadas de pedra miúda); é seguido, ao nível da base de todo o edifício, de um aparelho constituído pelos mesmos blocos e pedras facetadas mas de menor dimensão, designado de "manpostería de hiladas regularizadas", também do período islâmico, embora posterior, cronologicamente balizado entre os sécs. 10 - 11 e 13; as sondagens no ângulo nordeste do paço puseram a descoberto um muro que prolongava para sul a parede existente ainda visível na fachada sul e constituía-se como a base da fundação do edifício, em pedra calcária com cerca de 85 / 90 cm de largura no topo e cerca de 1,10 m de largo na base da fundação, tendo cerca de 1,86 m de altura máxima preservada; na face interna a base de fundação tem rebordo mais alargado com cerca de 20 cm e na leste existe um talude de argamassa de cal, com um declive acentuado; na área nascente detetou-se a base de dois silos da época Alto Medieval, anulados aquando da construção da estrutura mural, bem como dois fosses em negativo, que se prolongam para nascente; nas escavações não foram detetados nenhuns materiais da época romana, mas apenas fragmentos de construção e cerâmica doméstica de filiação islâmica, reportados maioritariamente ao período califal, do séc. 10 e 11; junto à fachada poente pôs-se a descoberto uma necrópole, que se prolonga pelas zonas não escavadas (norte, sul e poente), tendo-se identificado dois ossários e 8 sepulturas, das quais se exumaram 13 esqueletos completos; todas as sepulturas tinham cobertura bem estruturada e constituída por cerâmicas de construção e lajes calcárias de média e pequena dimensão; as sepulturas, de dimensões reduzidas, retangulares ou ovaladas, estavam maioritariamente orientadas, com a cabeceira para poente e os pés para nascente; o espólio arqueológico nas camadas de revolvimento apontam para enterramentos na Baixa Idade Média, séc. 14 e 15.