Arquitectura educativa, maneirista e barroca e arquitectura residencial, novecentista. Antigo colégio religioso, compreendendo vários pisos devido ao declive do terreno, de planta rectangular simples, desenvolvida em torno de um claustro quadrangular, com o piso inferior marcado por arcadas de volta perfeita, em torno do qual se dispunham as dependências típicas de um convento capucho (portaria, sacrisita, Via Sacra, capelas, refeitório, cozinha, "De Profundis", dormitório, enfermaria, adega) a que acresciam as salas de aula. O edifício foi transformado, no séc. 20, numa vivenda unifamiliar do tipo "Casa Portuguesa", desenvolvida por Raul Lino, composto por vários corpos e evoluindo em dois e quatro pisos, alguns rectangulares e outro formando um L, com capela particular, construída neste período.
Núcleo construído com quatro corpos dispostos em cotas diferentes: na cota superior, o gabinete do Governador Civil (corpo principal) que na extremidade O. está sobre parte do torreão da antiga muralha, junto ao qual a N., separada por um pátio, surge a capela; na cota intermédia, situa-se a cisterna, escadas de acesso aos terraços superiores e, umas ruínas, provavelmente correspondentes à antiga fábrica das massas; em cota inferior, o corpo da secretaria. CORPO PRINCIPAL de planta irregular em L invertido, com alpendre em L num dos extremos e torre quadrangular no topo O., de disposição horizontal, com coberturas diferenciadas em telhados de quatro águas no edifício, a duas no alpendre e coruchéu octogonal na torre. Fachadas rebocadas e pintadas de amarelo, ladeadas por cunhais perpianhos em cantaria rusticada, coroados por pináculos piramidais, e rematadas por friso e cornija. Fachada principal virada a S., com dois pisos definidos por friso de cantaria, antecedida por alpendre composto por duas alas em L, fechando por pequeno pano de muro, vazado por arcos de volta perfeita com fecho em cunha, assentes exteriormente em pilares toscanos e interiormente em colunas também toscanas, com cobertura de madeira almofadada e pavimento em lajes de cantaria, possuindo, na zona central, um espaço ajardinado*1, onde se situa o poço-cisterna, assente em plataforma de cantaria de calcário, onde assenta o poço facetado e galbado, com tampa de madeira e envolvido por armação de ferro forjado pintado de preto, ornado por volutas, onde se dependurava a corda. O primeiro piso é rasgado por cinco vãos, sendo três do lado esquerdo, salientes, em arco de volta perfeita assente em colunas toscanas, correspondendo os outros dois da direita ao portal de verga recta, com moldura rusticada e remate em cornija e a uma janela rectilínea de moldura simples; no segundo piso, surgem quatro janelas idênticas à anterior, sobrepujadas por cornija. Fachada lateral esquerda virada a SO., composta pelas duas hastes do L, formando ângulo recto, de dois pisos divididos por friso de cantaria com as paredes percorridas por azulejo de padrão 2x2, de bicromia azul e amarelo sobre fundo branco formando silhar; o corpo do lado direito é rasgado por duas janelas em arco de volta perfeita com o fecho saliente. O segundo piso apresenta três janelas rectilíneas com molduras simples e cornija. A face virada a S., possui, no primeiro piso, uma galeria de cinco arcadas de volta perfeita suportadas por pilares rusticados, a do extremo esquerdo parcialmente entaipada e protegida por vidraças, protegendo duas portas de verga recta e um janelão, tendo ainda uma porta em lagarto do elevador, localizado à esquerda, o qual acede ao corpo da secretaria. No segundo piso, com varanda protegida por guarda em alvenaria rebocada e em tijolo, para a qual abrem duas portas de verga recta encimadas por cornija e o corpo da torre no registo superior é aberto nas três faces por três janelas em arco de volta perfeita, com moldura rusticada e pedra de fecho saliente rodeada por volutas. A O., uma pérgula triangular sobre parte da antiga muralha antecede a torre que, a N., é rasgada no primeiro registo por uma janela em arco abatido. Fachada lateral direita, virada a E., de dois pisos divididos por friso de cantaria e percorrida por embasamento do mesmo material, rasgada por sete vãos rectilíneos e molduras simples em cada piso, os do inferior gradeados, sendo a do extremo esquerdo de menores dimensões, e no superior, o terceiro vão a contar da esquerda é também menor; a fachada prolonga-se para o lado direito por pano de muro cego. A fachada posterior divide-se em três panos, sendo o da esquerda mais avançado e de dois pisos, rasgado por vãos rectilíneos e com moldura rusticada, o primeiro com porta e uma janela jacente, surgindo, no segundo, duas janelas; o pano central apresenta três pisos, o primeiro com um portão em arco abatido, protegido por porta metálica de duas folhas, surgindo, em cada um dos pisos superiores, duas janelas rectilíneas; os segundo e o terceiro pisos, este reentrante, são divididos por uma cornija sobreposta por beiral. INTERIOR com organização dos espaços coincidente nos dois pisos, tendo, na ala SE., as divisões dispostas ao longo de corredores, com tectos planos de madeira, alguns espaços com azulejo de padronagem policroma formando silhar; os corredores comunicam entre si por escadas de cantaria com guarda de madeira balaustrada; na ala NO., as divisões distribuem-se sequencialmente, intercomunicantes e abrindo também para o exterior através de portas ou janelas; neste, destacam-se duas divisões, ambas com pavimento em tacos de madeira, a Sala de Jantar situada na torre, com azulejos figurativos nas paredes, policromos e envolvidos por moldura fitomórfica, representado cenas de trabalho rural, lareira em cantaria e um tecto octogonal de caixotões em madeira; Sala do Protocolo com as paredes revestidas por um lambril de madeira almofadada e uma lareira em mármore rosa. A CAPELA, situada junto à fachada posterior, é de planta longitudinal simples de nave única e disposição horizontal com cobertura em telhado de três águas, tendo a fachada lateral direita adossada ao edifício da Junta de Freguesia de Almedina. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, percorridas por embasamento de cantaria, pintado de amarelo, ladeadas por cunhais perpianhos também pintados de amarelo e rematadas por cornija com beiral sendo a S. finalizados por duas urnas. Fachada principal em empena assente em cornija sobre os cunhais, com cruz pétrea no vértice; é rasgada por portal em arco em asa de cesto assente e flanqueado por pilastras rematadas por pináculos bolbosos, tendo ao centro espaldar recortado e com enrolamentos, onde surge o emblema da congregação de Nossa Senhora da Conceição, cercada do cordão franciscano sobrepujando o escudo português, encimado por frontão de lanços, com cruz em trevo e com pequeno frontão triangular no centro do tímpano. A fachada lateral esquerda, virada a S., é rasgada por janela rectangular em capialço, tendo, adossada, uma armação metálica que serve de garagem. Fachada posterior em empena, rasgada por uma janela rectangular. INTERIOR rebocado e pintado de branco, com as paredes revestidas por painéis de azulejos monócromos de azul cobalto sobre fundo branco, de composição figurativa com temática religiosa de episódios da vida de São Francisco de Assis, pavimento lajeado e cobertura de madeira em masseira com caixotões; o portal encontra-se protegido por guarda vento de madeira com portas laterais e a parte superior central envidraçada; na parede testeira, retábulo de talha dourada e policroma, tendo ao centro uma janela com vitral. CISTERNA, surge em cota intermédia, com planta em polígono irregular, de disposição horizontal, com cobertura em terraço recoberta por jardim, com fachadas rebocadas e pintadas de amarelo, a principal virada a O., percorrida por embasamento saliente com escadas de acesso revestidas com azulejo de padrão em bicromia amarela e verde sobre fundo branco, formando silhar (todas as escadas de acesso aos vários terraços têm este tipo de azulejo); os muros apresentam, a meio, um segundo ressalto, rasgado por vãos, correspondentes a uma porta e duas janelas; a fachada virada a S. é mais estreita e cega. INTERIOR formado por dois compartimentos com cobertura em abóbada de berço, sendo o da direita o reservatório da água. À esquerda deste corpo surge a parede saliente correspondente ao elevador com dois janelões curvos em eixo. Num plano mais avançado, destaca-se a "Torre de Belcouce" triangular, com paredes cegas, em alvenaria de pedra, tendo, alguns dos silhares, sobretudo os dos cunhais, siglas de canteiro; adossado à face N., as escadas de acesso a alguns vestígios, possivelmente da antiga fábrica de massas, situados sob o pátio existente entre a capela e o corpo principal, rasgados por três vãos em arco de volta perfeita; a N., adossadas à parede da Junta de Freguesia, subsistem ruínas de três pequenos compartimentos em alvenaria de tijolo, já sem cobertura. A SECRETARIA é composta por um corpo de planta rectangular irregular, de disposição horizontal e cobertura em terraço com lajetas de betão e godo, de dois pisos e com três das fachadas adossadas, a lateral esquerda a construções comerciais e as lateral direita e posterior ao morro em que se encostam. Fachada principal, virada a O, rebocada e pintada de amarelo, percorrida por embasamento saliente, escalonado, a acompanhar o desnível do terreno, rematado por cornija e platibanda, evoluindo em dois e três registos e divide-se em nove panos, delimitados por pilastras pouco salientes rematadas, acima da platibanda, por floreiras; os dois panos das extremidades são mais estreitos, o da esquerda compõe-se por três registos, sendo o inferior rasgado por uma porta rectangular em ferro forjado e os superiores por duas janelas em eixo, também rectangulares, o da direita, com dois registos, tendo, no inferior porta rectangular e no superior uma pequena janela quadrangular; os seis panos intermédios do lado direito têm doze janelas em eixo de tamanho diferenciado de três folhas, com molduras salientes, as do piso inferior jacentes (correspondentes a instalações do Banco Montepio Geral), e as do superior quadrangulares; o pano intermédio do lado esquerdo tem, no piso inferior, o acesso às instalações do banco, por uma porta rasgada a toda a largura do pano sobreposta por um gradeamento metálico transversa e no superior abrem-se duas janelas quadrangulares geminadas. INTERIOR com dois acessos, a partir das extremidades, servindo o da direita ao gabinete de atendimento ao público feito por escadas ladeadas por silhar de azulejos de figura avulsa; o acesso da esquerda (reservado), tem, no piso inferior, um vestíbulo que antecede à direita, um corredor de acesso ao elevador e as escadas de ligação ao piso superior, onde as dependências se distribuem à direita de um corredor.
Materiais
Estrutura em alvenaria de calcário, rebocada e pintada; modinaturas, pavimentos, pilastras, poço, escadas em cantaria de calcário; pavimentos e coberturas em madeira; grades e estrutura do poço em ferro; silhares de azulejo; cobertura exterior em telha.
Observações
*1 - possivelmente é parte de um claustro do antigo Colégio de Santo António da Estrela, o qual era quadrangular e se encontrava ornado por onze telas a representar vários santos; o acesso fazia-se através da portaria, assinalafa por uma sineta dependurada de uma cadeira de ferro, que tinha no interior a imagem de São Francisco em pedra a receber os estigmas, com resplendor de metal branco; na sacristia, ao lado da igreja, surgia um arcaz encimado por espaldar com nicho central, com as imagens de vulto de uma Sagrada Família, enquadrados por dois querubins e um Deus Pai; lateralmente, dois painéis representando Santo António e São Francisco, surgindo, nas ilhargas, dois santos, não identificado, mas que poderiam constituir, como é usual, São Boaventura e São Luís Bispo; no local, surgia, ainda, uma cruz marchetada a madre pérola, tendo na base um Cristo morto, esculpido em cera, rodeado por alguns santos, representando, certamente, uma Deposição no túmulo; sobre o arcaz, dois tocheiros de madeira, pintados de branco e dourado. Na sacristia, uma sineta que chamava para a missa e marcava os passos litúrgicos, bem como três espelhos. Na claustro, surgia uma capela com estrutura retabular, onde se encontrava uma tela com Nossa Senhora da Conceição, tendo, sobre a banqueta, quatro castiçais de madeira, um Crucificado pequeno e dois anjos tocheiros; surgiam, ainda, um painel com figuras esculpidas, um tocheiro, um candeeiro das Trevas e duas estantes e um segundo espaço de culto dedicado a Nossa Senhora da Piedade, com a imagem do orago, flanqueada por dois Agnus Dei esculpidos em madeira, tendo, sobre o altar, dois castiçais de estanho. O refeitório tinha cinco tábuas de castanho a servir de mesas e uma pintura a representar a "Última Ceia". Ainda no piso inferior, a adega, com uma pia de pedra, que sustentava doze alqueires de azeite e outra pequena, que servia de salgadeira. O dormitório, num dos pisos superiores, possuía um nicho envidraçado com a imagem de Nossa Senhora do Patrocínio, com manto de seda, sustentando um Menino; na enfermaria, existia um retábulo de talha dourado, contendo uma Senhora dos Remédios pintada sobre vidro, tendo, sobre a banqueta, um Crucificado de madeira; o conjunto era flanqueado por duas gravuras. No Colégio existia uma campainha que marvaca o ritmo das aulas.