Arquitectura assistencial, do séc. 20. Dispensário concelhio
Planta rectangular irregular, de massa simples e volume horizontal, com cobertura em telhado de duas águas. Fachadas de um piso, rebocadas e pintadas de branco, percorridas por embasamento de cantaria e rasgadas de vãos de verga recta, sem moldura. Fachada principal virada a NE, rasgada por porta de verga recta, ladeada por uma janela do lado esquerdo e quatro do lado direito, todas de dimensão igual. Fachada lateral esquerda virada a SE., de dois panos, o primeiro mais saliente é rasgado por três janelas e o mais recuado por quatro janelas de igual dimensão e dois quadrangulares mais pequenos. Fachada lateral direita virada a NO., de dois panos, o mais saliente, de maior dimensão é rasgado por cinco vãos, unidos por peitoril de cantaria, o pano mais recuado é rasgado por porta e duas janelas de pequena dimensão. Fachada posterior rasgada por cinco janelas, todas de igual dimensão, unidos por peitoril de cantaria.
Materiais
Estrutura em alvenaria de granito, com paramentos rebocados e pintados de branco; embasamentos, escadas, pavimentos exteriores, muros e outros elementos em cantaria de granito; caixilharias de janelas em madeira; caixilharias das janelas em alumínio pintado; guardas e portão da entrada em ferro; vidros simples nas portas e janelas; cobertura exterior de telha.
Observações
As concepções clínicas evoluíram no sentido de se alcançar um enquadramento físico e sociológico das populações contaminadas, só tornado possível pela gradual ampliação do discurso científico no campo da arquitectura. A difusão dos dispensários e sanatórios ocorreu em toda a Europa aproximadamente no último quartel do século XIX e as características da situação exterior eram razoavelmente conhecidas em Portugal, onde o médico António Lencastre (1857-1944), colaborador da Rainha D. Amélia, desempenhou uma acção preponderante para a fixação de princípios de actuação e criação de regras gerais para a construção dos dispensários. A partir da década de 30 do século 20, o Ministério do Interior promoveu uma extensa reforma no âmbito da saúde pública que contemplou a estruturação de uma rede de equipamentos de apoio à erradicação da tuberculose, motivando a concepção de uma série de pesquisas tipológicas que contou com a intervenção directa dos arquitectos: Vasco Regaleira na concepção de projectos-tipo de sanatórios, hospitais e preventórios; e Carlos Chambers Ramos, vencedor do concurso público lançado pela Assistência Nacional aos Tuberculosos em 1934, na definição de projectos-tipo para dispensários distritais e concelhios. O modelo de actuação dos dispensários, de origem francesa e alemã, centrava-se essencialmente num trabalho de diagnóstico, rastreio e terapêutica, na assistência à população local contaminada e numa acção de propaganda activa de medidas de prevenção que contemplou a elaboração de cartazes de divulgação da autoria de Stuart Carvalhais (1887-1961). Em 1931 a rede nacional de dispensários reduzia-se a 7 estabelecimentos. Cinco anos mais tarde essa rede alargava o seu número para 63 edifícios, entre os quais 23 eram distritais e 40 concelhios. Basicamente, o dispensário funcionava como a peça fundamental do sistema de luta contra a tuberculose, permitindo, através do contacto directo com as populações, a realização de exames periódicos, o despiste de eventuais casos de doença, a identificação das fontes de contágio, o tratamento de doentes em regime ambulatório, a organização do cadastro radiológico, sistemático e periódico de antigos doentes com alta, o encaminhamento dos doentes para os recintos de internamento e a informação geral das populações locais. A acção dos dispensários era complementada pelo trabalho das brigadas móveis, no que concerne à profilaxia da doença e à investigação epidemiológica, sendo a distribuição dos estabelecimentos e a respectiva lotação estabelecida a partir da taxa de mortalidade local.