Oratório construído no séc. 14, apesar do culto de Nossa Senhora da Nazaré no Sítio datar do séc. 12, com planta quadrangular, tipo alpendre, com acesso por arco de volta perfeita em cada uma das faces, albergando imagem da Virgem com o Menino, e que, por volta de 1370, se fecharia e transformaria em capela, devido às intempéries, interiormente sem iluminação e de cobertura tronco-piramidal. Por volta de 1600, Frei Bernardo de Brito manda desentulhar a gruta subterrânea da capela e proceder à sua transformação em local de culto. Este monge cisterciense e o Pe. Manuel de Brito Alão, o primeiro administrador nomeado pelo rei, procuraram, na primeira metade do séc. 17, fomentar o desenvolvimento do culto e do Santuário, bem como justificar o poder régio e da Confraria sobre o mesmo, criando uma memória história que irá determinar o programa decorativo da capela. Assim, em 1623 começou por se colocar no interior uma lápide em latim, redigida por Frei Bernardo de Brito, alusiva à memória histórica da capela e milagre subjacente e, depois, uma outra com a respetiva tradução. Em 1628, o Pe. de Brito Alão refere ainda a existência de outras lápides inscritas pelos romeiros, a marcação dos quatro arcos nas fachadas (atualmente subsistindo apenas a marcação dos dois laterais), encimados pelas imagens da Virgem, na frontaria, a de São Brás e a de São Bartolomeu, cada um com as suas relíquias na mão, o rei D. Rodrigo e o monge Romano com um cofre nas mãos, com as relíquias de São Brás e São Bartolomeu, ainda que nessa data já não se conseguissem identificar, por estarem "quebradas e gastadas do tempo". As mesmas estátuas são ainda referidas por volta de 1875, por Pinho Leal, subsistindo apenas uma réplica da Virgem. Atualmente, as fachadas terminam em friso, a principal rasgada por portal de verga reta que deve datar, tal como a sobreporta de azulejos, o friso do remate, igual ao que separa os pisos do Palácio Real, e o painel com representação do milagre do cavaleiro D. Fuas Roupinho existente na fachada posterior da reforma da primeira metade do séc. 18. Tem cobertura tronco-piramidal revestida a azulejos de padrão policromo e de figura avulsa, da segunda metade do séc. 17, mas com uma pendente ligeiramente diferente à seiscentista, devido às obras efetuadas em 1986 / 1987, altura em que o revestimento de azulejos, devido ao seu mau estado, foi parcialmente substituído e alterado, introduzindo-se nos de figura avulsa painéis com pássaros. No interior apresenta-se revestida a azulejos setecentistas, os da cobertura integrando painéis com representação de Litanias Marinas e, ao centro, uma fénix. Altar paralelepipédico com frontal revestido a azulejos, reproduzindo brocado lavrado, datado de 1702. Cripta retangular igualmente revestida a azulejos seiscentistas, os da cobertura, em abóbada de berço abatido, alusivos à lenda do orago, com grande qualidade de desenho, e possuindo gruta e pequeno nicho. Do nicho e retábulo em talha, respetivamente de 1768 e 1778, já nada subsiste.
Planta centralizada quadrangular, de massa simples e com cobertura prismática, revestida a azulejos de padrão policromo e figura avulsa, azuis e brancos, coroada por cruz latina de cantaria, de braços quadrangulares, sobre acrotério. Fachadas rebocadas e pintadas de branco com cunhais perpianhos e terminadas em empena reta, com friso percorrido por dois sulcos horizontais. Fachada principal virada a N., para o largo de Nossa Senhora da Nazaré, rasgada por porta de verga reta, com moldura simples, encimado por sobreporta com painel de azulejos, azuis e brancos, formando falso espaldar. Sobre a cornija, surge nicho de cantaria, de perfil exterior retilíneo e terminado em empena, coroado por cogulhos vegetalistas, e interiormente trilobado, albergando grupo escultórico em relevo, já muito danificadas pela erosão, com a Virgem e o Menino ladeado por figuras ajoelhadas. Fachadas laterais semelhantes, com marcação de amplo arco de volta perfeita, em cantaria, atualmente fechados. A fachada posterior, virada a S. e à Praia, possui painel de azulejos, azuis e brancos, representando o milagre de Nossa Senhora da Nazaré; num plano inferior e junto à falésia, abre-se janela retangular jacente. INTERIOR com pavimento em cantaria, e as paredes e a cobertura revestidas a azulejos azuis e brancos. As paredes apresentam dois registos de azulejos, o primeiro com painéis de albarradas, e o segundo de padrão fitomórfico (P-408), envolvidos por friso (F-19) e barra de acantos enrolados. A cobertura, tronco-piramidal, de topo truncado, é revestida a azulejos de padrão com estrelas, igualmente com friso (F-19) e barra de acantos; cada um dos panos da cobertura integra painel com representação de Litanias Marinas e, ao centro, possui a representação de uma fénix. Na parede do lado do Evangelho, existe grande lápide retangular inscrita, encimada por armário embutido retangular, com duas portas. Na parede do lado da Epístola existe pia de água benta de cantaria e uma outra lápide retangular, inscrita. À parede testeira e sobre supedâneo, de dois degraus, encosta-se o altar paralelepipédico, com frontal revestido a azulejos, azuis e brancos, marcando sanefa e sebastos, decorados de acantos, e tendo no pano florões de acantos. A ilharga é igualmente revestida a azulejos figurativos e possui encostado guarda em balaustrada de madeira. Sobre o altar, uma zona sem azulejos, onde se abria o nicho da Senhora, é protegida por pano vermelho. Do lado da Epístola desenvolve-se escada de acesso à cripta á gruta, com as paredes revestidas de azulejos com o mesmo tipo de padrão, friso e barra. A cripta possui pavimento de cantaria, e as paredes revestidas com dois registos de azulejos, tendo no primeiro ramadas de flores e no segundo azulejos com padrão de estrelas, separados por friso (F-19) e barra de acantos enrolados com vieira central. A cobertura, em abóbada de berço abatida, é revestida com azulejos figurativos, representado o milagre de D. Fuas Roupinho, com barra igual. No lado do Evangelho possui nicho, em arco de volta perfeita sobre pilastras, interiormente albergando imagem de Nossa Senhora da Nazaré, cerrado por grades de ferro. Sob o nicho existe pequeno túnel com entrada da gruta, igualmente fechado por grade de ferro. No lado oposto abre-se vão jacente, com capialço revestido a azulejos reaproveitados.
Materiais
Estrutura em alvenaria de pedra rebocada e caiada; betão; cornija, moldura do vão e cruz sobre a cobertura em cantaria calcária; porta de madeira; vidro simples; revestimentos e elementos decorativos em azulejos azuis e brancos ou policromos; pia de água benta, lápides, moldura do nicho e pavimento em cantaria calcária; teia de madeira; grades de ferro.
Observações
*1 - Segundo Manuel de Brito Alão a transcrição da lápide é a seguinte: "A sagrada imagem da Virgem Maria foi trazida da cidade de Nazaré para o Mosteiro de Cauliniana, que está junto à cidade de Mérida, no tempo dos reis godos, aonde esclareceu com muitos milagres até a destruição geral de Espanha no ano 714, em o qual, vindo ter àquele mosteiro, como se conta, El-rei D. Rodrigo, tomando por seu companheiro um monge por nome Romano, fugiu e veio ter à última parte do mundo, que é este sítio, no qual morreu o monge, e el-rei se partiu deixando esta santa imagem escondida nesta lapa, na qual esteve por espaço de quatrocentos e sessenta e nove anos. Depois disso, no ano do Senhor mil cento e outenta e dous, sendo capitão de Porto de Mós, D. Fuas Roupinho achou esta Santa Imagem, como ele mesmo testemunha na doação que fez a esta ermida, e indo correndo inconsideradamente após um fingido veado que lhe ia fugindo ao último deste penedo, que não via como se ia despenhar com a névoa serrada, estando já para cair e se fazer pedaços, chamou rijamente pela Virgem Maria, por cujo favor foi livre da ruína e da boca da morte tirado; e logo fez esta ermida a esta Santa Imagem, e depois a mudou el-rei D. Fernando no ano de 1377 para outra casa maior que lhe fez, ainda agora está; e este letreiro fez o doutor Frei Bernardo de Brito per sua devação à Virgem Maria, pera ficar perpétua lembrança desta maravilha" (ALÃO, 2001, p. 87). Segundo Frei Bernardo de Brito, a tradução da inscrição é: "Sagrada & Venerauel Imagem da Virgem Maria, que sendo trazida da cidade de Nazareth respladeceo em tempos dos Godos cõ milagres no mosteiro de Cauliniana junto à cidade de Merida, foi trazida a esta vltima parte do mundo pelo monge Romano, tendolhe companhia elrey Dom Rodrigo, no anno de Christo, setecentos & quatorze, em que aconteceo a perda geral de Espanha, & como o monge morresse, & elrey se partisse, ficou aqui escondida em hua piquena choça posta entre dous escabrosos penedos, por espaço de quatrocentos & setenta & noue annos, & sedo depois achada por Dom Fuas Roupinho capitão de Porto de Mós, no anno de mil ceto e oiteta & dous, como ele proprio testifica em sua doação; succedeo que arremessando inconsideravelmente o cauallo no alcance de hu ceruo que lhe fugia (& porvetura era fingido), & indo ia pera cair na vítima ponta deste despenhadeiro, inuocando o nome da Virgem foi liure da queda & mãos da morte, & lhe dedicou esta primeira ermida. Finalmente foi tresladada por elrey Dom Fernãdo de Portugal a esse outro templo mayor, q ele mãdou leuantar desde os primeyros fundamentos, no anno do Senhor mil & trezentos & setenta & sete. Frei Bernardo de Brito, dedicou esta obra à Virgem, & a eterna lebrança, por voto que tinha feito" (cit in PENTEADO, 1998, p. 42). *2 - A memória história do Santuário da Nazaré foi criada na primeira metade do séc. 17 e deve-se, em grande parte, ao cronista cisterciense Frei Bernardo de Brito e ao Pe. Manuel de Brito Alão, o primeiro administrador do Santuário nomeado pelo rei. Segundo a tradição, o aparecimento do Santuário está relacionado com a vinda da imagem da Senhora da Nazaré, da Palestina, e com o milagre do cavaleiro D. Fuas Roupinho, alcaide de Porto de Mós, em finais do séc. 12. Diz-se que a imagem de Nossa Senhora, segundo Frei Bernardo de Brito esculpida pelo próprio São José na presença de Maria e encarnada por São Lucas, teve de sair da cidade de Jerusalém, devido à perseguição aos cristãos, sendo transportada por um monge grego, de nome Círiaco, para o mosteiro de Cauliniana, em Espanha, próximo de Mérida, onde permanece do séc. 04 até à invasão árabe. Com a derrota dos cristãos em Guadalete, o rei visigodo Rodrigo refugia-se no mosteiro. Perante o perigo do avanço islâmico, o rei e um dos monges, o frei Romano, decidem partir para um local mais seguro, levando consigo a pequena imagem de Maria de Nazaré e algumas relíquias, segundo Manuel de Brito Alão, de São Bartolomeu e São Brás, guardadas num cofre de marfim. A 22 de novembro de 714 chegam ao monte de São Bartolomeu, próximo da Pederneira. Algum tempo depois, já em 715, o rei e o monge separam-se, tendo o primeiro permanecido naquele local e o segundo ido para o monte vizinho do Sítio, levando consigo a imagem da Virgem e as relíquias. Aí constrói um abrigo entre os rochedos e coloca a Virgem num pequeno nicho. Os dois eremitas comunicam entre si diariamente por sinais de fogo, até que o monge morre. Segundo Manuel de Brito Alão, tendo-lhe sido relevado o tempo da sua morte, o monge pede ao rei para o sepultar e deixar naquele lugar a Santa Imagem e as relíquias, o que viria a acontecer. D. Rodrigo resolve então partir para N.. Só no reinado de D. Afonso Henriques, no séc. 12, seria descoberta a Imagem por D. Fuas Roupinho, que a venerava sempre que ia caçar para o Sítio. A 14 de setembro de 1182, D. Fuas é atraído por um veado no alto promontório, não se apercebendo do perigo em que incorria, devido à névoa existente. No momento em que o cavalo chega ao extremo do rochedo, prestes a lançar-se no abismo, o cavaleiro, lembrando-se da imagem existente na pequena lapa, evoca a Virgem e, imediatamente, o cavalo fica imóvel. Por milagre, D. Fuas salva-se e as ferraduras das patas do cavalo ficam impressas na rocha. Em sinal de agradecimento, D. Fuas doa aquele território à Senhora de Nazaré e ali manda erguer uma ermida para guardar a sua imagem. Manuel de Brito Alão especifica mesmo que D. Fuas manda vir de Leiria e Porto de Mós oficiais para fazer "outra ermida maior" e desfazendo-se a primeira, "acharam metida entre as pedras do altar uma caixinha de marfim, e dentro, relíquias de São Bartolomeu e São Brás e outros santos, com um pergaminho em que se dava relação de como e em que tempo se trouxe ali a Imagem e relíquias" (ALÃO, 2001, p. 53). Para que a Imagem fosse vista de todas as partes, fazem a capela aberta, com quatro arcos, que depois se fecham devido ao dano causado pelas chuvas e tempestades. Atraídos pela fama do milagre, muitos peregrinos vêm até ao Sítio, nomeadamente D. Afonso Henriques e outros homens da corte. Apesar da tradição, o dia 14 de setembro, no qual terá ocorrido o milagre de D. Fuas e o voto de construção do primitivo templo, nunca foi comemorado como dia principal no calendário festivo do Santuário, mas antes o de 5 de agosto, que coincide com a deslocação ao Sítio dos homens da Confraria da Pederneira. A construção desta memória histórica assenta em vários elementos falsos. De facto, o rei Rodrigo morreu durante a batalha de Guadalete, tendo sido acrescentado à lenda por Frei Bernardo de Brito. Frei Bernardo refere um documento do Mosteiro de Alcobaça, datado de 10 de dezembro de 1182, com doação do território do Santuário por D. Fuas Roupinho à Igreja de Santa Maria da Nazaré, em agradecimento do milagre, mas é um apócrifo, pois nunca ninguém viu o documento ou o cita. D. Fuas não aparece na documentação da época e, à data do milagre da Senhora e da produção do documento da doação, já tinha morrido. O documento cisterciense alarga a tradicional jurisdição de Roupinho, apresentando-o como governador de Porto de Mós e da terra de Albardos até Leiria e Torres Vedras, contudo, em 1180-1182 não existia um senhor com jurisdição sobre este vasto território. Aliás, no séc. 15, não havia relação entre o culto de Nossa Senhora da Nazaré e aquele capitão de D. Afonso Henriques, e o documento da doação à Igreja de Nossa Senhora da Nazaré só foi conhecido no séc. 16. O aparecimento da história do milagre do cavaleiro contribui ainda para a justificação do poder régio e da Confraria sobre o Santuário, já que, segundo a narrativa, D. Fuas dera à Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, com autorização de D. Afonso Henriques, a posse do território que lhe estava próximo. Assim, este não pertencia nem aos coutos do mosteiro de Alcobaça, nem à jurisdição da Igreja da Pederneira. Com o desenvolvimento seiscentista do culto, a Coroa acentua o seu papel protetor sobre o Santuário, intervindo na sua administração, através do desembargador do paço, dos provedores da comarca de Leiria e dos administradores da Casa. *3 - Segundo Pedro Penteado, enquanto o Pe. Manuel de Brito Alão esteve à frente da Casa de Nossa Senhora da Nazaré (1608 - 1618), procurou promover, junto dos devotos, as virtudes da Virgem da Nazaré cultuada no Sítio, desenvolver o Santuário e povoação envolvente, a partir do acréscimo de visitantes e da população ali sediada, e aumentar os valores das esmolas e rendimentos da Casa, fundamental para o seu engrandecimento e prestígio. Vinte anos depois, a publicação do seu livro "Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora da Nazaré" pretendia ainda, entre outros aspetos, fortalecer a memória e fomentar o culto à Senhora da Nazaré para contribuir para o florescimento do Santuário e da jurisdição régia sobre ele. *4 - Segundo uma tradição local, várias pessoas em tempos idos aventuraram-se demasiado no interior da gruta, vindo a desaparecer. Para tentar esclarecer o mistério, um padre prontifica-se a entrar na gruta, preso a uma longa corda e acompanhado pelo seu cão, contudo, também não voltou a sair. Assim, decidiu-se construir uma parede para impedir o acesso à parte mais remota da gruta e colocar grades na sua entrada.