Arquitectura religiosa, tardo-gótica, manuelina, mudejar, barroca. Igreja paroquial típica do manuelino regional, cujo protótipo é a Ermida de São Braz, em Évora (v. PT040705120021), de planta composta por 3 naves de sete tramos e capela-mor escalonada com sacristia adossada a N.. Apresenta uma silhueta fortificada conferida pela coroa de merlões pentagonais que rematam as fachadas laterais e posterior e pelos falsos contrafortes em torrelas escalonadas coroadas de pináculos cónicos que ritmam os alçados laterais, incluindo-se na tipologia de igrejas com características militarizadas do gótico alentejano, a que não é alheio o facto de ter estado inserida no complexo do Paço habitacional dos Condes de Redondo, defendido por muralha, e ao contacto que D. Vasco Coutinho tinha com a obra de Boitaca * 5. As naves com cobertura em abóbadas nervuradas (estrelada de quatro pontas com nervura longitudinal em espinha, na nave central e de cruzaria simples nas naves laterais), separadas por pilares octogonais lançados quase à mesma altura, conferem-lhe uma tipologia próxima da igreja-salão e encontra paralelo com as Igrejas dos Mosteiros de Jesus em Setúbal (v. PT031512030001) e de Santa Maria de Belém em Lisboa (v. PT031106320005) e com as Igrejas Matriz de Freixo-de-Espada-à-Cinta (v. PT010404020001) e de Arronches (v. PT041202010001). A decoração de bocetes, chaves e mísulas das abóbadas encontra paralelos com outros motivos usados no tardo-gótico alentejano, frequentemente vegetalistas e de tratamento pouco cuidado, nomeadamente com os que se encontram na Matriz de Arronches (v. PT041202010001). A capela-mor é coberta por abóbada estrelada de quatro pontas e possui retábulo-mor maneirista com pintura de oficina regional da segunda metade do séc. 16; altares colaterais de talha barroca nacional. A fachada principal e a torre sineira são fruto de reconstrução pós-terramoto, com frontão triangular e pseudo-nartex *6 onde se encontra a porta principal, provavelmente da época pombalina. Ao contrário de outros edifícios que consagram a tipologia vigente, apresenta as três naves quase à mesma altura (porventura reproduzindo a planta estrutural da igreja primitiva, do Séc. 14), caso raro na arquitectura religiosa paroquial portuguesa antes da 2ª metade do séc. 16, coexistindo com características marcadamente góticas da igreja. As torrelas que ritmam as fachadas exteriores não têm função estrutural, não coincidindo com os pontos de descarga da abóbada. A fachada principal, fruto da reconstrução pós terramoto, foi projectada para receber duas torres, embora só se tenha construído a do lado direito.
Planta longitudinal composta por corpo de 3 naves e capela-mor escalonada quadrangular, torre sineira de planta quadrada a SO., capela rectangular adossada a S. a toda a largura da cabeceira e antiga sacristia, de planta quadrangular e de menores dimensões aposta ao 1º tramo da cabeceira do lado N.. Volumes articulados com cobertura diferenciada em telhados de 2 águas na nave, de uma água na sacristia e capela lateral, em cupulim encimado por pequeno fogaréu na torre sineira. Fachadas de alvenaria rebocada e caiada. Fachada principal a O. mais larga que o corpo das naves, de três panos delimitados por 2 pilastras pintadas a amarelo e dois registos definidos por cornija pintada na mesma cor; pano central rasgado inferiormente por arco de volta perfeita, sobre pilastras, pintado a amarelo, onde se inscreve em pouca profundidade, vazado em falso alpendre, o portal recto com molduras de granito, munido de bandeira rectangular gradeada também de granito; remate deste corpo em frontão triangular com óculo cego no tímpano com moldura a cor amarela; vértice encimado por acrotério, sobre o qual assenta cruz pétrea; nos lados do frontão, no eixo das pilastras, pináculos terminando em remates esféricos (já desaparecido o do lado S.); panos laterais cegos, com remate recto em cornija, o do lado S. correspondendo ao corpo da torre sineira; esta apresenta dois registos definidos por cornija moldurada envolvente, sendo o inferior cego e o superior, correspondente à sineira, rasgado por olhais de volta perfeita a N., O. E S., sendo o desta banda ladeado à direita por um segundo olhal mais baixo e estreito. Fachada laterais de 5 panos, definidos por torrelas cilíndricas escalonadas em três registos, com remates cónicos em agulha, rematados por merlões piramidais de largura superior à das ameias. Na fachada N. adossa-se ao 1º torreão o muro que fecha o adro a N. e E.; no 2º pano rasga-se, descentrado à esquerda, janelão rectangular; sob ele três cruzes de via sacra; no 4º pano rasga-se janelão de verga curva; adossado à 3ª torrela, murete que fecha espaço rectangular frente ao 4º pano; corpo da capela-mor rasgado por dois janelões rectangulares gradeados, com vergas angulares, tendo adossado o corpo mais baixo da sacristia, com remate recto a N. e em meia empena acompanhando a linha do telhado a E. e O.; Na fachada lateral S., adossado à fachada E. da torre sineira, o corpo das escadas interiores de acesso à mesma com cobertura de duas águas; este corpo apresenta na banda S. cruz de via sacra e superiormente estreita fresta; no seu ângulo SE. remate em pináculo cónico idêntico ao das torrelas; adossada na sua banda E., e ocupando o 1º pano desta fachada, corpo de escadas exteriores fechado a S. por paredão em meia laranja, de degraus rústicos, sem acesso a partir do pavimento do adro nem entrada para o interior; junto ao último degrau goteira; no 2º pano da fachada S. rasga-se descentrado, à esquerda, janelão rectangular; inferiormente, à direita, cruz de via sacra; no 3º pano a porta travessa de arco quebrado, em aparelho de rudes blocos graníticos, com imposta salientes; no 4º pano, descentrado à direita, janelão rectangular gradeado com verga em empena; adossado à 4ª torrela o muro do cemitério; no 5º pano outra cruz de via sacra; o ângulo SE. da fachada S. é coroado por pináculo cónico idêntico ao das torrelas; adossado ao corpo da capela-mor, capela lateral de remate recto em cornija a S. e em meia empena a E. e O., acompanhando a linha do telhado; pequena janela quadrada gradeada rasgada na sua fachada S.. Fachada posterior E. de pano único cego delimitado por duas torrelas idênticas às descritas encontrado-se adossado à torrela da direita o muro do cemitério; remate recto merlado, idêntico ao das fachadas laterais. INTERIOR: três naves de sete tramos, as laterais mais estreitas com cobertura de cruzaria de nervuras de perfil quebrado e a central de perfil em arco de volta perfeita, estrelada de quatro pontas, nervuras de secção quadrada, nervura longitudinal em espinha, com chaves de granito lavradas rosetas, elementos antropomórficos, encordoados e elementos heráldicos; descarrega em 12 poderosos pilares graníticos prismáticos com capitéis decorados de rosetas, cordas, bolas, etc. e nas paredes em mísulas lavradas de encordoados e meias bolas. Paredes rebocadas e caiadas, pavimento de tijoleira e pedra. Porta principal protegida por guarda-vento de madeira. Do lado da Epístola, adossada ao primeiro pilar, pia de água benta, em forma de taça, de mármore; ocupando os dois primeiros tramos da nave lateral, corpo de escadarias de acesso à torre sineira; do lado do evangelho, no 1º tramo, pia baptismal circular, de granito, sobre peanha discóide e anelada, encerrada por gradeamento. Arco triunfal quebrado, em aparelho de granito com impostas salientes; altares colaterais com retábulos de talha dourada, de eixo único com nicho de volta perfeita enquadrado por 4 colunas pseudo-salomónicas, sobre os quais descansa um arco de volta perfeita: do lado do Evangelho, o retábulo das Almas *1 com as alminhas do Purgatório em relevo policromo; superiormente a imagem de Cristo na Cruz; o do lado da Epístola, de Nossa Senhora do Rosário, apresenta nicho envidraçado e tribuna forrada de talha. Acesso à capela-mor por degrau de granito fechado por teia de balaústres de madeira; a capela-mor apresenta dois tramos, com cobertura em abóbada estrelada de quatro pontas, com bocetes lavrados (de encordoados no 1º tramo e de rosetas no 2º), de maior dimensão, os das chaves e mais cuidados. Em cada parede lateral dois janelões rectangulares em capialço, o 1º do lado do evangelho aberto para a sacristia e os do lado da Epístola cegos, tapados pela parede da capela lateral anexa. Retábulo-mor de madeira engessada, com diversos painéis geométricos em estuque marmoreado, insistindo no contraste preto / branco e detalhes em talha; é de eixo vertical tripartido definido por 4 colunas jónicas; ao centro tábua (2,35m x 2,10m) representando A Conversão de São Paulo no Caminho de Damasco, e predela integrando 4 painéis de pintura de óleo sobre tábua de carvalho, representando da esquerda para a direita: São Pedro, Santiago Combatendo os Mouros, Santo António e Santo Bispo *2, sendo as dimensões do primeiro e do último 55cm x 40cm, e a dos restantes 55cm x 74 cm; sacrário dedicado ao Santíssimo Sacramento, de talha dourada, triangular, cornija de lóbulos e molduras de folhas de acanto em relevo, entre os vértices ornamentados com colunelos pseudo-salomónicos; portinhola esculpida com símbolos eucarísticos; todo o conjunto é profusamente decorado num jogo de volutas em relevo e demais elementos geométricos e vegetalistas decorativos; mesa de altar rectangular, forrada a azulejos de tipo corda seca *3. SACRISTIA: cobertura em abóbada de cruzaria e ogivas.
Materiais
Alvenaria, granito, mármore
Observações
*1 - pertenceu à extinta Irmandade de São Miguel; *2 - Túlio Espanca identifica o santo Bispo como São Brás e Leonor Silva (SILVA; 1998) coloca a hipótese de São Manços, primeiro bispo de Évora e cujo culto conheceu a partir do Séc. 16 acentuando desenvolvimento no aro eborense; a mesma autora identifica a águia bicéfala presente no escudo de um dos companheiros de São Paulo como provável símbolo heráldico dos Habsburgos e relacionando-a com a lendária reconhecimento que Carlos V teria feito, em Tunes, às qualidades do 2º Conde do Redondo, D. João Coutinho, no campo de batalha; *3 - os azulejos são reaproveitados dos antigos painéis azulejares que primitivamente revestiam as paredes da igreja; *4 - estas estruturas foram apeadas pela DGEMN em 1958; *5 - *1 - Leonor Silva adianta a hipótese da igreja poder fazer eventualmente parte integrante da própria muralha da cerca, como sucede em Viana do Alentejo (v. PT040713020001); *6 - Túlio Espanca formulou a hipótese da igreja possuir primitivamente um nártex à semelhança de outras igrejas alentejanas.