Arquitectura religiosa, manuelina, barroca. Igreja paroquial de carácter rural de cuja traça primitiva subsiste apenas a capela-mor, com cobertura de abóbada de nervuras; linguagem barroca nas arcarias cegas que compõem os alçados laterais da nave. Pintura integral da igreja, de cariz neoclássico, regional. Sacristia com cúpula assente em trompas de ângulo, facto arquitectónico muito difundido no Alentejo sobretudo no séc.16. Pia baptismal quinhentista e relógio de sol seiscentista. A capela-mor segue de perto o modelo predominante da ermida de São Brás de Évora (v. PT040705120021), com planta quadrada, delimitada, exteriormente, nas zonas de cunhal, por contrafortes cilíndricos de dois andares, outrora também coroados por remates cónicos.
Planta longitudinal, escalonada, composta por nave rectangular, capela-mor quadrada e sacristia; volumes articulados, massas dispostas na horizontal. Cobertura diferenciada em telhado de duas águas no corpo da nave e de quatro águas na cabeceira e sacristia *1. Fachada principal a NO., com embasamento directo, portal axial em arco abatido, emoldurado, e encimado por um óculo; remate em empena, coroado por campanário de ventana em arco de volta perfeita, sobreposto por moldura abatida e cruz pétreas. Alçado SO. ritmado por três contrafortes, sendo o primeiro a partir da frontaria de maior espessura. Alçado NE., no alinhamento da cabeceira, corpo da sacristia com porta de verga recta, acompanhada, à direita, por nicho embebido na parede, com moldura saliente, impostas simples e arco de volta perfeita, encimado por cruz; corpo da nave apenas com um espesso contraforte, reforçado por um outro menor à esquerda, situado a meio do alçado. Alçado SE. dominado pela cabeceira, delimitada nas zonas de cunhal por contrafortes cilíndricos, de dois andares, ligando-se o que está mais a NE. à parede da sacristia, e sublinhada a meia altura por ressalto na caixa murária. INTERIOR: espaço diferenciado entre a nave e capela-mor; cobertura em abóbada de berço na nave. Alçados ritmados pela sucessão de três altares em arco de asa de cesto e impostas salientes, rasgados na caixa murária, dando o primeiro arco do lado do Evangelho, junto à frontaria, acesso ao baptistério, de planta rectangular, descentrado. Os dois altares junto à cabeceira correspondem respectivamente a Nossa Senhora do Rosário, no alçado NE., e Santíssimo Nome de Jesus, no alçado SO., e são em talha dourada e policromada, compostos por colunas salomónicas; o segundo altar do lado do Evangelho é ocupado pela capela das Almas Santas e no lado oposto, o altar de Santo António. Arco triunfal de volta perfeita, facetado e atarracado, com pés direitos facetados e impostas salientes; púlpito do lado esquerdo do arco triunfal, com acesso através de uma escada que parte da sacristia, construída no interior da caixa murária; o púlpito tem base em pedra, antecedida por uma pequena repisa trapezóidal sob a qual surge a figura de um arcanjo esculpida e pintada, e caixa em grade de madeira, simples. Na capela-mor vão rectangular no alçado SO. e porta de acesso à sacristia, descentrada, no alçado NE.; cobertura em abóbada de nervuras, descansando em repisas embebidas nos ângulos, com bocetes decorados, sendo o central ornamentado com a cruz da Ordem de Cristo; retábulo-mor em talha dourada e fundo lacado a verde e vermelho, disposto em pórtico de quatro colunas salomónicas decoradas com elementos marianos, como folhas de videira, uvas e águias, e coroado por tabela encomiástica, segura por dois anjos; na edícula central, expõe-se a imagem de Nossa Senhora das Neves, de roca; em consolas laterais, as imagens de Nossa Senhora de Fátima *2 e de São Sebastião. Sacristia com vão de acesso ao púlpito, no seu alçado NO., junto à porta que dá para a capela-mor; cobertura em cúpula, a partir de trompas de ângulo; porta para o exterior, a NE.. Toda a igreja é decorada com pintura a tinta de água, de apainelados com composições geométricas e folhagens *3.
Materiais
Alvenaria de pedra solta e irregular, rebocada e caiada; pavimento da nave, zona do altar-mor e sacristia, bancada dos altares laterais da nave e no primeiro tramo a partir da capela-mor, em cerâmica; pavimento da capela-mor, grade de divisão entre a capela-mor e a nave, grade do baptistério e do púlpito, altares e portas em madeira; soleiras do portal axial e das portas de acesso à sacristia e da sacristia para o exterior, plataforma do púlpito em xisto; relógio de sol, pia de água benta e pia baptismal em mármore.
Observações
O pequeno nicho constituía um calvário, hoje desaparecido, em conjunto com o outro que se encontra embebido no paramento exterior da sacristia, virado a O., encimado pelo símbolo do Redentor. *1 - segundo Espanca, a cabeceira tinha telhado em linhas radiantes e agulha axial; *2 - no altar-mor, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, moderna, veio substituir uma escultura de São João Baptista, entretanto mudada para a capela das Almas Santas; *3 - pintura que reveste os alçados da igreja está datada por uma inscrição que se encontra no pano de muro acima do arco triunfal, actualmente oculta pela cal branca: ESTA OBRA FOI REEDIFICADA NO ANO DE 1815 SENDO ADMINISTRADORES JOAQUIM PRª DE MOURA E DOMINGOS MARTINS GIÃO. *4 - no altar de Santo António, em mísulas adossadas, existiam imagens, uma das quais entretanto desaparecida e figurando a Virgem com o Menino, Espanca ainda documenta; *5 - Espanca refere algum mobiliário e diversas alfaias dos Séc. 17 e 18, encontrando-se parte desse espólio guardado em arcas na nave e capela-mor; *6 - os quatro altares da nave eram iluminados por lâmpadas iguais a esta, com decoração barroca, entretanto desaparecidas; *7 - as festas em honra de Nossa Senhora do Rosário e do Santo Nome de Jesus organizadas pelas respectivas confrarias eram, em 1930, muito afamadas, superando em pompa todas as outras que se realizavam no termo de Portel (PATALIM, 1930).