I can’t breathe, de Elmano Sancho
Será um casal de amantes? Um par de amigos? Ou dois artistas em cena? Na nova criação de Elmano Sancho, que se estreou na encenação com Misterman - galardoada peça de Enda Walsh que também a ele valeu prémios (incluindo o de Melhor Actor de 2014, da SPA) - nunca se define quem são as personagens em cena. É essa ambiguidade - além do tema, do processo de trabalho e de Ana Monte Real, ex-actriz de filmes pornográficos que com ele contracena -, que faz de I Cant Breathe uma obra original.
Essa era, como contou, a sua intenção: "Estive um ano em Nova Iorque, a trabalhar com Anne Bogart, referência do teatro físico (fora dos padrões de beleza e juventude) para quem tudo pode ser ponto de partida. Ao voltar, quis arriscar algo único, que nunca tivesse feito."
Assim, o actor, e agora pela segunda vez encenador, que sempre fez teatro com textos já testados, criou uma ficção a partir das confissões reais de Ana Monte Real (que já deixou a pornografia, o que decerto a torna mais isenta e sincera), que entrevistou, improvisando, sob o olhar de Rui Catalão, que o ajudou na dramaturgia. O resultado é I Cant Breathe, que vai buscar o título ao caso do
estrangulamento de um manifestante negro, por um polícia, em Julho de 2014, em Nova Iorque.
"A frase, que ele repetiu 12 vezes, até morrer, foi o ponto de partida, mas não falo no caso", avança Elmano, explicando a metáfora: "Ninguém consegue respirar nesta sociedade sem filtros, em que tudo, da paixão à violência, é exposto sem pudores nas redes sociais e na televisão."
Para questionar essa realidade, recorreu ao mundo da pornografia - "talvez menos pornográfico do que a vida de hoje, em que a nossa intimidade é pública e a ilusão e o mistério estão fora de moda".
Prémio de Crítica 2015 | APCT Associação Portuguesa de Críticos de Teatro
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